Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

No limbo


Há um ponto preciso, nos músculos do pescoço, que dói com o movimento da cabeça. Não qualquer movimento, nem todos; apenas certos movimentos. Como se a dor se aconchegasse e desfizesse em determinados gestos, e se agudizasse e gritasse noutros. Os gestos, no entanto, diferem apenas na trajetoria espacial. A intensidade e a intenção não parecem interferir com a presença ou ausência de dor. A dor está assim, ao que parece, instalada em determinada localidade, uma geografia gestual precisa que a acorda e alimenta. Uma geografia corporal que determina, a cada passo, qual o terreno dorido, qual o terreno doloroso, e qual o terreno neutro. A diferença entre os dois primeiros não é assim tão óbvia: o terreno dorido é aquele que foi pisado e massacrado e, portanto, desenvolveu uma espécie de imunidade à dor, onde apenas germina uma moinha insignificante; o terreno doloroso é aquele que não pode ser pisado de qualquer maneira, pois mesmo o mais leve toque desperta dores muito antigas, feridas há muito enterradas e que ainda sangram em segredo debaixo da terra, ou seja, debaixo da pele. E como se distinguem os dois? A verdade é que não há distinção. O que acontece é que a moinha de um se torna, de súbito, na faca aguda de outro. Ou seja: vamos aguentando a moinha, com paciência e persistência, vamos dizendo que não é nada, vamos andando, seguindo em frente, às vezes mais devagar, outras mais depressa, e um belo dia, um simples gesto, como baixarmo-nos para subir as calças quando estamos sentados na sanita, é demasiado, a sensibilidade atingiu o ponto de saturação e os músculos protestam, sentimos o gume da faca num ponto inpreciso das costas e a dor aguda, localizada; no segundo a seguir desce-nos pela coluna e aloja-se nos rins. A partir daí, instala-se a sensibilidade permanente. Determinados movimentos são acompanhados da mesma dor lacinante. Tentamos reproduzi-los ao mínimo. Reduzi-los a zero é de todo impossível. Passa um dia, dois, e a dor subiu para os músculos do pescoço. Parece espalhar-se pelo corpo, como uma infeção viral. Cruzar a perna, por exemplo, torna-se um exercício de masoquismo. Inspira-se fundo e faz-se uma careta enquanto os rins protestam energicamente. Sentar e levantar também exige uma disciplina severa. E os gestos quotidianos tornam-se, assim, de um dia para o outro, janelas para uma outra dimensão, aquela que o corpo há muito abandonou, um sofrimento que ficou inscrito em cada célula como um carimbo, uma memória que não sabemos de onde vem. O corpo contorce-se e a cabeça procura a resistência da contenção, porque o espetáculo da dor é sempre demasiado, e teima em parecer despropositado, por mais que já lhe tenhamos percorrido os trilhos escondidos e os outros, os mais evidentes. As pessoas lutam para não serem prisioneiras da própria dor, a maioria das vezes só se deixam levar por ela com a desculpa da dor alheia, porque será que as telenovelas têm tanto êxito? Choramos à frente de um ecrã a dor que deveríamos chorar dentro do peito. A nossa própria vida, com os fracassos e os sucessos, espelhada à nossa frente, e o espelho é mágico, ainda por cima. Os telejornais acabam por ter o mesmo efeito, nós é que ainda não percebemos. Porque é que insistimos em noticiar desgraças? Sem elas o que seria de nós? No dia em que terminarem com o espetáculo da desgraça alheia a humanidade entrará verdadeiramente em crise. Se é que me faço entender.

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