Acho que foi com o Jorge Amado que comecei a perceber que a língua portuguesa não tem fronteiras. O primeiro autor africano de língua portuguesa que li foi o Pepetela, no seu "O cão e os caluandas". Esse livro para mim foi um marco. Eu fiquei encantada com a musicalidade da escrita, que estava, claro, associada à oralidade da língua. Eu já tinha lido excertos de Luandino Vieira nas aulas de português, mas não tinha prestado atenção. Não me lembro.
Mas lembro-me bem daquelas frases que eu repetia para dentro como se acolhessem dentro de si uma fórmula mágica. Eu tinha descoberto que a escrita era uma bola de plasticina, que podia ser moldada de acordo com a nossa voz, com o ritmo da voz. A dança. O corpo. A voz tem tudo a ver com a dança do corpo, aliás, a voz é a dança da língua.
Eu lia aquilo como uma revelação, com aquela ingenuidade dos catorze, talvez quinze anos (não me lembro). Frases em que o predicado não coincidia com o sujeito ("E então ela levantou da cadeira (...) ... sentou no chão") ou coisa que o valha. Lembro-me destas, mas havia muitas mais. E então comecei a escrever assim também. Não se tratava de querer imitar, era uma apropriação de algo que sentia como meu. Aquilo era lindo, era música, e eu queria participar. Queria entrar na orquestra. Aqui já não me limitava a perceber, sentia, que não existem fronteiras na língua portuguesa (e que esta era minha, também).
Os professores, claro, é que não perdoaram. E lá vinham os riscos a vermelho, os erros devidamente assinalados. Levantou-se, não levantou. Eu queria lá saber. Se um escritor tão importante escrevia assim, eu também podia escrever. Aqueles marcas a vermelho não me envergonhavam, pelo contrário. Olhava para elas e ria para dentro. Ria-me e ria-se o meu orgulho.
*o título também é uma apropriação, com a devida vénia :)
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sexta-feira, agosto 22, 2008
quarta-feira, maio 21, 2008
A paixão são os livros
Li, num blogue qualquer que já não sei precisar (andei à procura do link, mas não encontro), qualquer coisa como isto: que ir à Feira do Livro (de Lisboa) é uma espécie de paixão: as pessoas sobem e descem, e sobem, e voltam a descer, no meio da multidão, e é difícil ir à casa de banho, (eu diria que é difícil andar, mover-se, mexer um pé), e enumeravam-se mais algumas dificuldades, ou coisas menos boas, enfim, mas as pessoas gostam. Quem corre por gosto não se cansa, não é assim?
Pois eu diria antes: a paixão são os livros. O que se passa é que os portugueses gostam tanto de ler, amam de tal forma os livros, que em nome desse amor não se importam de andar a subir e a descer, e a tentar andar, mexer um pé, ou os dois, e a ver (e a comprar, proeza ainda melhor!) alguns livros, no meio daquela multidão de gente que vai subindo, e descendo, e subindo, e descendo. E indo à casa de banho, pois. (Ou tentando ir).
É verdade: o povo português, que adora dizer mal de si mesmo, é um amante fiel e persistente, em termos de leitura. E vai ao ponto de chegar a afirmar que gosta de ir à Feira, e a gostar mesmo de ir, o que é ainda mais incrível. E tudo isto por amor aos livros! Pasme-se!
E digo mais: no dia em que tivermos eventos literários à escala do nosso país irmão (só para dar um exemplo), Portugal será um país de literatos. E as estatísticas mostrarão que seremos o número um da Europa em hábitos de leitura e em desenvolvimento da literatura. Nem mais.
Pois eu diria antes: a paixão são os livros. O que se passa é que os portugueses gostam tanto de ler, amam de tal forma os livros, que em nome desse amor não se importam de andar a subir e a descer, e a tentar andar, mexer um pé, ou os dois, e a ver (e a comprar, proeza ainda melhor!) alguns livros, no meio daquela multidão de gente que vai subindo, e descendo, e subindo, e descendo. E indo à casa de banho, pois. (Ou tentando ir).
É verdade: o povo português, que adora dizer mal de si mesmo, é um amante fiel e persistente, em termos de leitura. E vai ao ponto de chegar a afirmar que gosta de ir à Feira, e a gostar mesmo de ir, o que é ainda mais incrível. E tudo isto por amor aos livros! Pasme-se!
E digo mais: no dia em que tivermos eventos literários à escala do nosso país irmão (só para dar um exemplo), Portugal será um país de literatos. E as estatísticas mostrarão que seremos o número um da Europa em hábitos de leitura e em desenvolvimento da literatura. Nem mais.
quinta-feira, maio 15, 2008
Outro livro

Do fundo do coração
Mary Lawson
Este livro mexeu com as minhas emoções. É sobre um luto, ou antes, vários lutos, e denota um conhecimento profundo da alma humana. Não um conhecimento teórico e desligado da realidade, mas aquele que se constrói dia-a-dia, vagarosamente, sem rumo definido, sem rosto, como um rio que lentamente corre para o mar, e na sua corrente vai arrastando a lama das margens e as pedras do fundo, incorporanda-os e dinamizanda-os na sua essência líquida e em constante movimento.
Todos nós temos os nossos lutos, mais ou menos presentes. Todos já percorremos esse caminho, às vezes um atalho de sombras, ou uma estrada plana, ou simplesmente um carreiro oculto entre a densa vegetação que nos fustiga e arranha os braços. É por isso que este livro fala a nossa linguagem, aquela que é comum a todos, independentemente da língua. São atalhos esquecidos, perdidos há muito dos nossos pés, que nos conduzem a charcos estagnados de águas profundas, onde o mistério da vida se renova a todos os segundos, e nos oferece o fascínio da nossa própria sobrevivência, aquela bolha de ar que alguns insectos transportam para dentro de água, agarrada à camada de pêlos quase invisíveis a olho nu, e que lhes permite mergulhar no mistério aquático e por lá ficar até a reserva ambulante de oxigénio se esgotar. Esse gesto, tão simples, ensina-nos a sobreviver. Porque o que nos rouba o oxigénio não são os cadáveres que enterrámos pelo caminho e que lembramos com um sorriso triste nos lábios, mas aqueles que transportamos às costas, teimosos, solitários, pelos passos dos dias subitamente eternos de dor e de vazio incompreensíveis.
sexta-feira, maio 02, 2008
Livros

A Sombra do Vento
Carlos Ruiz Zafón
Depois deste livro, parece-nos que não existe outro livro nem outra estória. Não pode haver. Não é que não estejam lá, todos os outros grandes escritores e as grandes estórias que já lemos, as que ainda não lemos e as que nunca leremos, porque estão, entram pela janela e invadem a teia das palavras que nos rodeia, como aquela luz rara que de vez em quando nos acaricia o olhar cansado de tanta frivolidade. Aliás, não fosse esta estória uma estória de livros, com muitos livros, milhares deles, dentro dela, repousando para sempre nas estantes do Cemitério dos Livros Esquecidos, que de esquecidos só têm mesmo o nome ou a simples impossibilidade numérica de os ler a todos.
Mas, inexplicavelmente, todos esses grandes livros que nos povoam o imaginário parecem de súbito, criação deste. Entendemos, portanto. Tudos o que lemos anteriormente, seria, então, um caminho que nos levaria aqui. A este livro. E daqui o caminho que se abre ganha uma outra luz, depois deste. Porém, nos minutos seguintes, não queremos acordar do sonho. Parece-nos que nunca mais leremos nada assim. Não temos vontade de ler mais nada. Como se os outros livros não passassem disso mesmo, de outros livros, ao passo que este é o livro, o único, como pode ser única uma folha de um grande castanheiro, uma só folha, que, por acaso, tem aquela cor que nos enfeitiça como nenhuma outra. Esta estória marca-nos,como se fôssemos eternamente jovens. É na juventude que os livros deixam mais marca, porque em nehuma outra época da vida o deslumbramento é um gesto tão espontâneo. A nossa vida de leitores fica dividida ao meio: a.S. e d.S. - ou seja, antes da Sombra e depois da Sombra. Que sombra? A do Vento. Sem dúvida.
terça-feira, janeiro 22, 2008
Purga em Angola

Purga em Angola, Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus
Ler este livro foi, para mim, uma viagem infernal, dolorosa, porém de grande lucidez. Aquela lucidez absolutamente crédula do poder regenerativo e re-estruturante da verdade. Não a verdade absoluta, única, universal, que não existe, antes a simples verdade dos factos, e mais importante, as verdades sentidas, sofridas na pele por quem viveu esses factos; aquelas verdades há muito caladas e engolidas, presas na garganta, amordaçadas, e que finalmente vêm à tona.
Ler este livro representou, também, e definitivamente, o fim de um mito - um mito que já vinha morrendo aos poucos, mas que, talvez, ainda mantivesse alguns restos teimosamente agarrados à vida. Eu cresci a ouvir o Zeca cantar o "homem novo do MPLA". Cresci com a ideia que de facto o MPLA era o movimento popular de libertação de Angola, levando realmente à letra o significado destas palavras tantas vezes ditas e ouvidas. A autonomia e a independência de um povo, de um país, contra o Colonialismo, esse monstro escravocrata e opressor. Cresci a defender com veemência, para quem me quisesse ouvir, que a arrastada guerra-civil pós-independência, em Angola, se devia principalmente ao estado de colapso social e económico que anos e anos de despotismo colonialista tinham provocado.
Já tinha idade para saber que só nas estórias infantis é que há um único bicho-papão.
Os acontecimentos à volta do 27 de Maio são uma ferida gigantesca no coração não apenas do país, mas do mundo inteiro. E para sarar uma ferida, há que deixar sair o pus. E o pus, neste caso, são as memórias, os gritos de sofrimento que se calaram durante tanto tempo. Isto é como um trauma social, um caso colectivo de stress pós-traumático. Por mais que doa, tem de ser falado, sentido, expressado, revivido. Só depois do sofrimento se libertar é possível o alívio. O sofrimento está lá, escondido, calado, se não sair, infecta. Como um verdadeiro abcesso.
Tantas vezes a história individual é paralela à história social. E os processos, tão semelhantes.
E depois há aquelas críticas idiotas de que o livro é muito violento, para quê estar agora a mexer na lama, o que passou, passou, foram excessos, a culpa descartada sempre para cima de outros. É incrível a conspiração de silêncio que persistiu (e ainda teima em persistir) à volta de tudo isto. Não podemos ter medo das palavras, de chamar os bois pelos nomes. A violência é das acções e de quem as pratica, não de quem as reporta e as testemunha.
Este livro é um verdadeiro grito na cara desse silêncio teimoso, envergonhado, desse silêncio que pensa que consegue apagar uma memória apenas por a calar. Mas o incrível é que consegue. Haja sempre aqueles que não se calam, e que têm a coragem de subverter o esquecimento. De gritar por todos aqueles que já não podem ou que perderam a voz.
domingo, setembro 16, 2007
domingo, julho 22, 2007
terça-feira, julho 10, 2007
Clarice Lispector
A escrita dela é orgânica. É a primeira palavra que me vem à cabeça quando penso num adjectivo que seja adequado para descrevê-la. Se é que é possível arranjar uma palavra que lhe faça justiça. Quando a lemos, mergulhamos num lago profundo onde as emoções mais antigas se nos colam à pele. Sentimos cada partícula, cada átomo, cada molécula do que ela descreve. Sentimos mesmo, uma coisa palpável, orgânica; daí a palavra. De repente mergulhamos nas palavras e elas levam-nos na sua corrente, velozes como um comboio expresso sem destino, a cabeça meio fora da janela a sentir o vento apoderar-se dos pulmões e o coração a querer saltar do peito. Nessa viagem alucinante vamos ao centro de nós. E, claro, no centro moram as emoções. Aquela teia colorida e densa que nos cercava quando a infância ainda dormia, morna, nos nossos ombros, e nos era leve nas asas e pesada nas mãos. Nesse tempo sentíamos o cheiro ácido das laranjas penetrar-nos até ao lume, e na boca do estômago desenhavam-se novelos de inquietações que não nos ensombravam ainda a existência com o peso dos espectros, apenas nos assaltavam em sobressaltos escondidos debaixo das camas e em fantasmas ocultos atrás das portas e dos cortinados, que, incrédulos, verificávamos com o susto pronto a saltar da boca. Nesse tempo o sol derramava-se poderoso e escorria-nos pelo cabelo nos dias intermináveis de verão, e os chapéus eram um martírio de suor que nos humedecia os sonhos e nos dificultava a respiração ansiada da liberdade. A liberdade, essa, era o vento nos cabelos e nos olhos, a comichão no nariz e o peito gelado pela humidade marítima que o beijo da ventania nos prometia nas tardes no cais. Ficávamos a ver o barco carregado de fogos fátuos desaparecer na escuridão, e acendíamos velas nas ondas negras longínquas, solitários barcos de pescadores ocultos no nevoeiro cego de orações e mau presságios, apenas adivinhados nas imagens sofridas dos santos nas igrejas, estátuas de carne com vestígios de sangue nos músculos de pedra. E aproximávamo-nos, a mão medrosa tocava a pedra fria e um arrepio de séculos rasgava-nos a ingenuidade e a inocência de alto a baixo, deixando pegadas de incertezas debaixo das pedras subitamente mudas. O silêncio das igrejas era sepulcral, e ao mesmo tempo cheio de ecos onde adivinhávamos os murmúrios de tantas almas caladas. O cubículo de madeira, com pesadas cortinas bordeaux parecia-nos uma casinha de bonecas, e tudo aquilo, toda aquela confissão permanente e acumulada deixava-nos um sabor a espanto na boca, e a curiosidade de mil segredos escondidos no cheiro a madeira milenar. Cá fora o sol derretia as pedras e lá dentro reinava um silêncio gelado e sinistro de tumba. Mas as nossas gargalhadas de criança sempre se espalhavam como palmas pelos ecos das paredes brancas, onde a luz do sol era proibida, onde as sombras desenhavam pensamentos ocultos na brancura do vazio.A escrita dela aviva memórias, como se ateasse uma fogueira, e cada labareda, cada clarão vermelho cada vez mais quente, nos fosse entrando na pele. Voltamos àquela morada pálida, onde cada olhar tem o poder de dissecar o tempo e o espaço e abri-lo num leque de cheiros e sensações e luzes e cores e serpentinas, e cada partícula do nosso ser invade o espaço dessa escrita e imiscui-se nela, mistura-se na pele e no suor das personagens, encosta-se no seu ombro, ouve o bater do seu coração no seu. Voltamos a ser a criança que fomos, quando os olhos percorriam e se apoderavam do que viam; quando os olhos, mais do que ver, nos mostravam e nos iluminavam, nos projectavam e nos escancaravam a alma. Os olhos das crianças vêem o mundo não a três dimensões, nem a quatro, nem a cinco, mas a mil, a um milhão, a infinitas. É um olhar insaciável, que ainda não conhece as regras da percepção. É essa multiplicidade de prismas e de ângulos e de cores que ela nos devolve, intactas, como eram antes de as enterrarmos sob o manto da racionalidade. Quando a lemos, esquecemos os contornos da realidade e somos invadidos pelo poder de uma inteligência primitiva, uma coisa viva, como um coração a pulsar, o centro e a nascente dos rios e do sangue, a corrente sanguínea que sabe de cor os caminhos e os trilhos e os fundos e os abismos porque lhe conhece a cor vermelha, a força do fogo, o início da vida. Saber de cor é saber com o coração, é conhecer a escuridão e dentro desse túmulo escavar a terra húmida para que dê frutos e árvores de sábias raízes. E, finalmente, o milagre da luz, nas folhas verdes. Ou das palavras.
segunda-feira, maio 28, 2007
Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo

Ruy Castro, Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo
Estar de cama tem, pelo menos, uma vantagem: consegue-se algum tempo para dedicar à leitura. Ontem, quando já me sentia um bocado melhor, devorei literalmente este livro. Depois de lê-lo, apetece, no mínimo, ter nascido carioca. Ou, então, apanhar o avião, de mala e cuia, e instalarmo-nos na Cidade Maravilhosa, fazer dela a nossa cidade, misturarmo-nos com as gentes, andar no calçadão e beber uma água de côco no fim da tarde, com os olhos postos no mar.
domingo, maio 06, 2007
The Independent Fiction Foreign Prize

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa, conquistou, entre outros nomes da literatura mundial, o prémio de ficção estrangeira do jornal The Independent, no passado dia 1 de Maio. É a primeira vez que este prémio distingue um autor e uma estória africanos. Mais que merecido, quanto a mim. Parabéns, José Eduardo!
terça-feira, abril 10, 2007
Livros

Gosto de abri-los. Gosto de cheirá-los. Gosto de folheá-los. Gosto de olhar as letras. Gosto de lê-los de rajada, de enfiada, sem tempo para respirar. Gosto de lê-los devagar, como quem sente, como quem mente. Gosto de me espreguiçar e deitar na leitura. Gosto de morrer nos desfiladeiros e despertar nas entrelinhas. Gosto de reler e parar e voltar para trás e andar à roda e perder-me nas palavras e nas letras e nos parágrafos e nas linhas infinitas da imaginação.
sexta-feira, março 16, 2007
QUEREM CONHECER A ESTÓRIA?
A Squash and a Squeeze
by Julia Donaldson and Axel Scheffler
by Julia Donaldson and Axel Scheffler

"A little old lady lived all by herself
With a table and chairs and a jug on the shelf.
With a table and chairs and a jug on the shelf.

A wise old man heard her grumble and grouse,
"There's not enough room in my house.
Wise old man, won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze."
"Take in your hen", said the wise old man.
"Take in my hen? What a curious plan!"
Well, the hen laid an egg on the fireside rug,
And flaped round the room knocking over the jug.
"There's not enough room in my house.
Wise old man, won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze."
"Take in your hen", said the wise old man.
"Take in my hen? What a curious plan!"
Well, the hen laid an egg on the fireside rug,
And flaped round the room knocking over the jug.

The little old lady cried, "What shall I do?
It was poky for one and it's tiny for two.
My nose has a tickle and there's no room to sneeze.
My house is a squash and a squeeze."
And she said, "Wise old man,
Won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"
It was poky for one and it's tiny for two.
My nose has a tickle and there's no room to sneeze.
My house is a squash and a squeeze."
And she said, "Wise old man,
Won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"

"Take in your goat," said the wise old man.
"Take in my goat? What a curious plan!"
"Take in my goat? What a curious plan!"

Well, the goat chewed the curtains and trod on the egg,
Then sat down to nibble the table leg.
Then sat down to nibble the table leg.

The little old lady cried, "Glory be!
It was tiny for two and it's titchy for three.
The hen pecks the goat and the goat's got fleas.
My house is a squash and a squeeze."
It was tiny for two and it's titchy for three.
The hen pecks the goat and the goat's got fleas.
My house is a squash and a squeeze."
And she said, "Wise old man,
won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"
won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"

"Take in your pig," said the wise old man.
"Take in my pig? What a curious plan!"
"Take in my pig? What a curious plan!"

So she took in her pig who kept chasing the hen,

And raiding the larder again and again.

The little old lady cried, "Stop, I implore!
It was titchy for three and it's teeny for four.
Even the pig in the larder agrees,
My house is a squash and a squeeze.
And she said, "Wise old man,
Won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"
"Take in your cow," said the wise old man.
"Take in my cow? What a curious plan!"
It was titchy for three and it's teeny for four.
Even the pig in the larder agrees,
My house is a squash and a squeeze.
And she said, "Wise old man,
Won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"
"Take in your cow," said the wise old man.
"Take in my cow? What a curious plan!"

Well, the cow took one look and charged straight at the pig,
Then jumped on the table and tapped out a jig.
The little old lady cried, "Heavens alive!
It was teeny for four and it's weeny for five.
I'm tearing my hair out, I'm down on my knees.
My house is a squash and a squeeze."
And she said, "Wise old man,
Won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"
Then jumped on the table and tapped out a jig.
The little old lady cried, "Heavens alive!
It was teeny for four and it's weeny for five.
I'm tearing my hair out, I'm down on my knees.
My house is a squash and a squeeze."
And she said, "Wise old man,
Won't you help me, please?
My house is a squash and a squeeze!"

"Take them all out," said the wise old man.
"But then I'll be back where I first began."
So she opened the window and out flew the hen.
"That's better - at last I can sneeze again."
She shooed out the goat and she shoved out the pig.
"My house is beginning to feel pretty big."
"But then I'll be back where I first began."
So she opened the window and out flew the hen.
"That's better - at last I can sneeze again."
She shooed out the goat and she shoved out the pig.
"My house is beginning to feel pretty big."

She huffed and she puffed and she pushed out the cow.
"Just look at my house, it's enormous now."
"Just look at my house, it's enormous now."

"Thank you, old man, for the work you have done.
It was weeny for five, it's gigantic for one.
There's no need to grumble and there's no need to grouse.
There's plenty of room in my house."
It was weeny for five, it's gigantic for one.
There's no need to grumble and there's no need to grouse.
There's plenty of room in my house."

And now she's full of frolics and fiddle-de-dees.
It isn't a squash and it isn't a squeeze.
It isn't a squash and it isn't a squeeze.

Yes, she's full of frolics and fiddle-de-dees.
It isn't a squash or a squeeze."
It isn't a squash or a squeeze."
terça-feira, fevereiro 27, 2007
"A LÍNGUA É MINHA PÁTRIA, E EU NÃO TENHO PÁTRIA, TENHO MÁTRIA, E QUERO FRÁTRIA"
Esta história é sobre a língua. A língua e o seu poder. Ao nomear as coisas à sua volta, ao dar significados ao mundo que há em cada coisa, os homens ganham o poder dos Deuses. Cada signo, cada símbolo, torna-nos senhores do universo que é a palavra, por ela nos apropriamos do que nos rodeia e transformamos tudo à nossa volta. A língua tem o poder de criar uma nova paisagem sintáctica, de reinventar, reordenar, renomear. A língua é o que nos liga ao mundo dos outros, das pessoas à nossa volta, e nos põe no centro da sua comunicação universal. Pela palavra podemos criar, podemos nascer, podemos remexer, podemos ferir, podemos matar. Tal e qual como um lavrador semeia a terra, tal e qual como a chuva traz a vida, tal e qual como a enxurrada traz a fúria das águas.
Esta história é sobre o poder divino da palavra. Sobre a forma como os Deuses falam através dos homens e das mulheres. Os Deuses são o poder mais alto da própria natureza. A natureza do homem e dos Deuses pertence à vida e está em perfeita harmonia com o cosmos. Os Deuses estão na água, que é o símbolo máximo da vida. Estão no sol, que permite que essa vida renasça e se recrie constantemente. Estão no milho, fruto do sol e da água, alimento da alma e do pão que alimenta o corpo. Estão na terra que nos viu nascer e que nos servirá de morada um dia. Estão dentro de nós, que os alimentamos e criamos nos rituais diários da vida.
Mas esta história é também a história do Homem e das suas conquistas. A história do sangue e da luta. A história da crueldade assassina. A história do massacre. Da morte e das feridas mais atrozes da Humanidade. É a história do poder do Homem usurpando o poder dos Deuses. É a história dos povos em busca do ouro, do ouro que os tornará Deuses na terra. É a história da humilhação, da raiva, da vergonha. É a eterna história dos mais fracos e dos mais fortes.
É também a história de uma mulher desesperada. Uma mulher que tem uma arma poderosíssima mas não sabe como a usar. Uma mulher que sonha, que busca, que espera, que deseja, que acredita, que não desiste. Uma mulher que está rodeada de morte, mas que sempre consegue enxergar a vida. Que sente que pode mudar a vida, mas não sabe como. Que sofre horrores, que tem dores e feridas no corpo e na alma, e que não esquece nenhuma delas.
Mas é também a história de um amor. Um amor forte, esmagador, feito de angústia e de fogo. Um amor que consome a carne e a alma. Um amor que une um homem e uma mulher completamente diferentes na essência, e os leva lado a lado por caminhos que nem um nem outro sabem como pisar. Um amor que sufoca, que envenena, que submete. Um amor que prende, que ata, que asfixia. Um amor violento, dominador, egoísta. E no entanto, um amor puro e inocente, como todo o amor. Nascido de um sonho muito antigo de protecção e carinho.
A história da morte, a história da vida, a história do sofrimento, da guerra, do terror. Dos que sofrem e dos que fazem sofrer. Dos que abandonam e dos que são abandonados. Dos que matam e dos que morrem. Dos que humilham e dos que são humilhados. Dos que violam e dos que são violados. E muitas vezes ela confunde-se, sobrepõe-se, une-se dramaticamente num laço apertado de sofrimento e raiva. Quem abandona já foi abandonado. A história sucede-se, as vidas nascem e morrem, as estradas estão cheias de mortes que vamos deixando pelo caminho, de vozes que nos acompanham desde crianças, de mágoas que não sabemos nem podemos lavar. E é ela, a água, que nos lava, que escorre dos rios e das chuvas e nos germina o peito de esperança, que arrasta o sangue dos corpos feridos a seguir ao massacre e inunda com a sua seiva os campos em redor.
Esta história é sobre o poder divino da palavra. Sobre a forma como os Deuses falam através dos homens e das mulheres. Os Deuses são o poder mais alto da própria natureza. A natureza do homem e dos Deuses pertence à vida e está em perfeita harmonia com o cosmos. Os Deuses estão na água, que é o símbolo máximo da vida. Estão no sol, que permite que essa vida renasça e se recrie constantemente. Estão no milho, fruto do sol e da água, alimento da alma e do pão que alimenta o corpo. Estão na terra que nos viu nascer e que nos servirá de morada um dia. Estão dentro de nós, que os alimentamos e criamos nos rituais diários da vida.
Mas esta história é também a história do Homem e das suas conquistas. A história do sangue e da luta. A história da crueldade assassina. A história do massacre. Da morte e das feridas mais atrozes da Humanidade. É a história do poder do Homem usurpando o poder dos Deuses. É a história dos povos em busca do ouro, do ouro que os tornará Deuses na terra. É a história da humilhação, da raiva, da vergonha. É a eterna história dos mais fracos e dos mais fortes.
É também a história de uma mulher desesperada. Uma mulher que tem uma arma poderosíssima mas não sabe como a usar. Uma mulher que sonha, que busca, que espera, que deseja, que acredita, que não desiste. Uma mulher que está rodeada de morte, mas que sempre consegue enxergar a vida. Que sente que pode mudar a vida, mas não sabe como. Que sofre horrores, que tem dores e feridas no corpo e na alma, e que não esquece nenhuma delas.
Mas é também a história de um amor. Um amor forte, esmagador, feito de angústia e de fogo. Um amor que consome a carne e a alma. Um amor que une um homem e uma mulher completamente diferentes na essência, e os leva lado a lado por caminhos que nem um nem outro sabem como pisar. Um amor que sufoca, que envenena, que submete. Um amor que prende, que ata, que asfixia. Um amor violento, dominador, egoísta. E no entanto, um amor puro e inocente, como todo o amor. Nascido de um sonho muito antigo de protecção e carinho.
A história da morte, a história da vida, a história do sofrimento, da guerra, do terror. Dos que sofrem e dos que fazem sofrer. Dos que abandonam e dos que são abandonados. Dos que matam e dos que morrem. Dos que humilham e dos que são humilhados. Dos que violam e dos que são violados. E muitas vezes ela confunde-se, sobrepõe-se, une-se dramaticamente num laço apertado de sofrimento e raiva. Quem abandona já foi abandonado. A história sucede-se, as vidas nascem e morrem, as estradas estão cheias de mortes que vamos deixando pelo caminho, de vozes que nos acompanham desde crianças, de mágoas que não sabemos nem podemos lavar. E é ela, a água, que nos lava, que escorre dos rios e das chuvas e nos germina o peito de esperança, que arrasta o sangue dos corpos feridos a seguir ao massacre e inunda com a sua seiva os campos em redor.
quinta-feira, outubro 05, 2006
ENTÃO E OS PORTUGUESES, PÁ?
Ao olhar aqui para a barra lateral das minhas leituras, constatei, surpreendida, que o número de autores portugueses é mínimo. Eu não costumo ligar a essas coisas, se é português, se é brasileiro, se é americano, quando gosto, gosto e acabou-se (e nestas coisas não sou nada patriota, diga-se de passagem). No entanto, o facto de a amostra nacional ser tão escassa não se deve tanto ao facto de eu não gostar de autores portugueses, mas talvez mais ao facto de os ter lido demasiado cedo.
Lembro-me de a minha professora Graciete nos ler As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, na terceira ou na quarta classe, já não me recordo bem. Todas as manhãs lia um capítulo a uma sala cheia de miúdos de ouvidos atentos e silenciosos. Eu adorei a história, convenci os meus pais a comprarem o livro e mais tarde também li a poesia dele.
Eu comecei a ler muito cedo. Quando as outras crianças só conheciam o tio Patinhas e a turma da Mônica, eu já devorava livros. Ainda me lembro do primeiro livro "livro" que li, foram as Férias, da Condessa de Ségur, devia ter uns 8 ou 9 anos. Depois desse não parei. Li todos os livros dos Cinco, como é da praxe (só não me entusiasmei com os Sete nem com a Gémeas e o Colégio das não sei quantas Torres). Devorei igualmente boa parte da colecção azul. Acho que as pessoas da minha geração lembrar-se-ão da Camila e da Madalena. Também eu idealizei ser como elas, mas desgraçadamente só me identificava com a desastrada da Sofia, a única criança normal no meio daquele universo fictício de patologia infantil.
Felizmente para mim, depressa alarguei os horizontes, e comecei a ler livros mais interessantes. Alice Vieira é o primeiro nome que me vem à cabeça quando penso nos autores que me acompanharam por volta dos 10, 11, 12... Também devorei a colecção Uma Aventura de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Mas não me fiquei pelos livros mais virados para o público infantil e Juvenil. É verdade, por volta desta idade, também comecei a ler Eça de Queiroz, José Saramago e Manuel da Fonseca.
Lembro-me de tentar ler a Tragédia da Rua das Flores para aí com uns 10 anos... não me recordo ao certo da idade. Digo tentar ler porque depressa abandonei a leitura, era demasiado densa para mim. Mas até aos 13 anos já tinha lido O Primo Basílio, A Cidade e as Serras e o Mistério da Estrada de Sintra. Li Os Maias antes da sua leitura obrigatória, no 10º ou 11º ano, também já não me recordo. E ainda bem que o fiz, pois essas leituras escolares são do pior que há para arruinar com a carreira de um autor, na vida de um leitor. Nunca consegui ler Camões, Almeida Garrett, Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner com verdadeira paixão.
Li o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis entre os 12 e os 13 anos. Lembro-me que a sua leitura foi bastante densa e difícil. O primeiro voltei a ler alguns anos mais tarde, o segundo não. Mas o meu livro preferido dele é, sem dúvida, Levantado do Chão, que li um pouco mais tarde, aos vinte e poucos. Também gostei bastante do Evangelho, pela humanização e desmistificação da história de Jesus Cristo.
Manuel da Fonseca também me acompanhou desde os 12, 13 anos. A sua escrita simples encantou-me desde o início, e a forma profunda e sentida com que retrata o Alentejo nas suas cores simples, quentes e sólidas. Acho que li todos os seus livros.
Por volta dos 15, 16, comecei a ler poesia, Fernando Pessoa e os seus heterónimos, Sebastião da Gama (de que já falei), mais tarde li Florbela Espanca e reencontrei José Gomes Ferreira. Descobri Eugénio de Andrade por volta dos 17. Em casa dos meus avós conheci, por volta dessa idade, as quadras de António Aleixo. Mas a poesia não se lê como um romance, de enfiada; vai-se lendo, vagarosamente, volta-se atrás, relê-se, contempla-se, sente-se.
Clara Pinto Correia é outro nome português muito importante no meu percurso de leitora. Descobri-a já adolescente, por volta dos 17, 18 anos. Não consegui ler os livros todos dela (ainda!), mas li grande parte; Adeus Princesa, Um Esquema, Ponto Pé de Flor e Domingo de Ramos são os nomes que me ficaram mais na memória, entre outros.
Há autores que nunca li, e que não consigo perceber porquê; nunca li Júlio Verne, Lobo Antunes ou Ferreira de Castro, só para dar alguns exemplos. Como as minhas leituras sofreram um descalabro considerável depois de os meus filhos nascerem, já lá vão sete anos desde o primeiro, mantenho a ideia de que ainda tenho muitos livros e autores para descobrir, o que é francamente animador.
É claro que guardo recordações um pouco nubladas de todas as histórias destes livros. De algumas não me lembro mesmo. Alguns voltei a lê-los, outros não. Mas a minha memória da escrita é, já por si, fraca; esqueço rapidamente as histórias que leio, e por isso releio bastantes vezes um livro de que tenha mesmo gostado. Às vezes tenho pena de ter lido estes livros todos tão cedo, por ser difusa a memória que tenho deles. Talvez por isso a lista de autores portugueses seja tão pequena, aqui ao lado... Mas a verdade, também, é que os meus escritores preferidos não são portugueses. Nenhum deles me enche as medidas como Jorge Amado, Mia Couto ou Isabel Allende.
(Faltou dizer que, para mim, portugueses, brasileiros ou africanos, são todos escritores de língua portuguesa, não faço essa distinção. A língua portuguesa tem várias nacionalidades e cores, o que a enriquece grandemente).
Lembro-me de a minha professora Graciete nos ler As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, na terceira ou na quarta classe, já não me recordo bem. Todas as manhãs lia um capítulo a uma sala cheia de miúdos de ouvidos atentos e silenciosos. Eu adorei a história, convenci os meus pais a comprarem o livro e mais tarde também li a poesia dele.
Eu comecei a ler muito cedo. Quando as outras crianças só conheciam o tio Patinhas e a turma da Mônica, eu já devorava livros. Ainda me lembro do primeiro livro "livro" que li, foram as Férias, da Condessa de Ségur, devia ter uns 8 ou 9 anos. Depois desse não parei. Li todos os livros dos Cinco, como é da praxe (só não me entusiasmei com os Sete nem com a Gémeas e o Colégio das não sei quantas Torres). Devorei igualmente boa parte da colecção azul. Acho que as pessoas da minha geração lembrar-se-ão da Camila e da Madalena. Também eu idealizei ser como elas, mas desgraçadamente só me identificava com a desastrada da Sofia, a única criança normal no meio daquele universo fictício de patologia infantil.
Felizmente para mim, depressa alarguei os horizontes, e comecei a ler livros mais interessantes. Alice Vieira é o primeiro nome que me vem à cabeça quando penso nos autores que me acompanharam por volta dos 10, 11, 12... Também devorei a colecção Uma Aventura de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Mas não me fiquei pelos livros mais virados para o público infantil e Juvenil. É verdade, por volta desta idade, também comecei a ler Eça de Queiroz, José Saramago e Manuel da Fonseca.
Lembro-me de tentar ler a Tragédia da Rua das Flores para aí com uns 10 anos... não me recordo ao certo da idade. Digo tentar ler porque depressa abandonei a leitura, era demasiado densa para mim. Mas até aos 13 anos já tinha lido O Primo Basílio, A Cidade e as Serras e o Mistério da Estrada de Sintra. Li Os Maias antes da sua leitura obrigatória, no 10º ou 11º ano, também já não me recordo. E ainda bem que o fiz, pois essas leituras escolares são do pior que há para arruinar com a carreira de um autor, na vida de um leitor. Nunca consegui ler Camões, Almeida Garrett, Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner com verdadeira paixão.
Li o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis entre os 12 e os 13 anos. Lembro-me que a sua leitura foi bastante densa e difícil. O primeiro voltei a ler alguns anos mais tarde, o segundo não. Mas o meu livro preferido dele é, sem dúvida, Levantado do Chão, que li um pouco mais tarde, aos vinte e poucos. Também gostei bastante do Evangelho, pela humanização e desmistificação da história de Jesus Cristo.
Manuel da Fonseca também me acompanhou desde os 12, 13 anos. A sua escrita simples encantou-me desde o início, e a forma profunda e sentida com que retrata o Alentejo nas suas cores simples, quentes e sólidas. Acho que li todos os seus livros.
Por volta dos 15, 16, comecei a ler poesia, Fernando Pessoa e os seus heterónimos, Sebastião da Gama (de que já falei), mais tarde li Florbela Espanca e reencontrei José Gomes Ferreira. Descobri Eugénio de Andrade por volta dos 17. Em casa dos meus avós conheci, por volta dessa idade, as quadras de António Aleixo. Mas a poesia não se lê como um romance, de enfiada; vai-se lendo, vagarosamente, volta-se atrás, relê-se, contempla-se, sente-se.
Clara Pinto Correia é outro nome português muito importante no meu percurso de leitora. Descobri-a já adolescente, por volta dos 17, 18 anos. Não consegui ler os livros todos dela (ainda!), mas li grande parte; Adeus Princesa, Um Esquema, Ponto Pé de Flor e Domingo de Ramos são os nomes que me ficaram mais na memória, entre outros.
Há autores que nunca li, e que não consigo perceber porquê; nunca li Júlio Verne, Lobo Antunes ou Ferreira de Castro, só para dar alguns exemplos. Como as minhas leituras sofreram um descalabro considerável depois de os meus filhos nascerem, já lá vão sete anos desde o primeiro, mantenho a ideia de que ainda tenho muitos livros e autores para descobrir, o que é francamente animador.
É claro que guardo recordações um pouco nubladas de todas as histórias destes livros. De algumas não me lembro mesmo. Alguns voltei a lê-los, outros não. Mas a minha memória da escrita é, já por si, fraca; esqueço rapidamente as histórias que leio, e por isso releio bastantes vezes um livro de que tenha mesmo gostado. Às vezes tenho pena de ter lido estes livros todos tão cedo, por ser difusa a memória que tenho deles. Talvez por isso a lista de autores portugueses seja tão pequena, aqui ao lado... Mas a verdade, também, é que os meus escritores preferidos não são portugueses. Nenhum deles me enche as medidas como Jorge Amado, Mia Couto ou Isabel Allende.
(Faltou dizer que, para mim, portugueses, brasileiros ou africanos, são todos escritores de língua portuguesa, não faço essa distinção. A língua portuguesa tem várias nacionalidades e cores, o que a enriquece grandemente).
domingo, julho 09, 2006
HISTÓRIA DE ENCANTAR
"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa"
Mia Couto cria estórias de encantar. E, através das suas estórias, dá-nos uma importante lição de história. A história de um povo não é mais do que o encontro das suas memórias. E, quando essas memórias se perdem, quando as pessoas abandonam a própria memória para sobreviver, a história queda-se, perdida, entre abismos e fantasmas.
Este é um livro de viagens dentro da história de cada personagem. Para recuperar as memórias perdidas, é preciso viajar até ao interior de nós próprios, ao passado, à nossa própria história. Assim, uma mulher que se isolara para esquecer volta à sua terra natal, e ao seu passado. Ela terá de enterrar os seus mortos, que permaneciam vivos, na parede eterna onde os seus rostos a olhavam das molduras do antigamente. Mas esta viagem vai mais fundo, ela faz o tempo sair da calha da razão, e agitar-se no céu como uma ave subitamente liberta. E os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Terão os habitantes de Vila Longe ressuscistado da sua memória, ou permaneceram vivos durante todo esse tempo de ausência, no meio dos escombros e ruínas da antiga vila? Terá o velho barbeiro enlouquecido, ou terá razão, quando diz que os dois estrangeiros acabados de chegar são dois espiões enviados pelo governo americano? Terá sido uma estrela que despencou do céu, como afiança o seu marido, ou terá sido uma aeronave utilizada pelos serviços secretos? Será esta mulher realmente visitada pelos espíritos dos antepassados, ou está apenas a fingir e a debitar tudo o que lê nos antigos escritos de D. Gonçalo da Silveira, encontrados dentro de um baú, juntamente com a estátua da Virgem Maria, nas margens do rio? Será realmente a Santa que conduz esta viagem, ou melhor, Kianda, a deusa das águas, eternamente em busca do seu elemento primitivo, que os homens, ignorantes da sua verdadeira identidade, lhe negam? São os deuses que criam e conduzem os homens, ou são os homens que criam e veneram os deuses?
Ao mesmo tempo, acompanhamos a viagem da nau Nossa Senhora da Ajuda, uma viagem missionária com destino a Moçambique, no ano de 1560. Nas naus que integram a comitiva vão D. Gonçalo da Silveira, jesuíta na Índia Portuguesa, o padre Manuel Antunes, o escravo Nimi Nsundi, a escrava indiana Dia Kumari, funcionários do reino, deportados e outros escravos, e a estátua de Nossa Senhora, benzida pelo papa, considerado o "símbolo maior daquela peregrinação". É nesta viagem que a Santa perde um dos pés, dando início assim à viagem inexorável de cada um destes personagens na descoberta do caminho marítimo para o continente da sua própria natureza, alma e história.
No fim desta viagem, a mulher reune os restos do seu passado e enterra definitivamente os seus mortos. E, finalmente, encontra um lugar onde Kianda, a deusa das águas, pode enfim descansar e reencontrar a sua natureza. E, desta maneira, a história retomará o seu rumo, que mora afinal no coração e na memória dos homens...
Mia Couto cria estórias de encantar. E, através das suas estórias, dá-nos uma importante lição de história. A história de um povo não é mais do que o encontro das suas memórias. E, quando essas memórias se perdem, quando as pessoas abandonam a própria memória para sobreviver, a história queda-se, perdida, entre abismos e fantasmas.
Este é um livro de viagens dentro da história de cada personagem. Para recuperar as memórias perdidas, é preciso viajar até ao interior de nós próprios, ao passado, à nossa própria história. Assim, uma mulher que se isolara para esquecer volta à sua terra natal, e ao seu passado. Ela terá de enterrar os seus mortos, que permaneciam vivos, na parede eterna onde os seus rostos a olhavam das molduras do antigamente. Mas esta viagem vai mais fundo, ela faz o tempo sair da calha da razão, e agitar-se no céu como uma ave subitamente liberta. E os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Terão os habitantes de Vila Longe ressuscistado da sua memória, ou permaneceram vivos durante todo esse tempo de ausência, no meio dos escombros e ruínas da antiga vila? Terá o velho barbeiro enlouquecido, ou terá razão, quando diz que os dois estrangeiros acabados de chegar são dois espiões enviados pelo governo americano? Terá sido uma estrela que despencou do céu, como afiança o seu marido, ou terá sido uma aeronave utilizada pelos serviços secretos? Será esta mulher realmente visitada pelos espíritos dos antepassados, ou está apenas a fingir e a debitar tudo o que lê nos antigos escritos de D. Gonçalo da Silveira, encontrados dentro de um baú, juntamente com a estátua da Virgem Maria, nas margens do rio? Será realmente a Santa que conduz esta viagem, ou melhor, Kianda, a deusa das águas, eternamente em busca do seu elemento primitivo, que os homens, ignorantes da sua verdadeira identidade, lhe negam? São os deuses que criam e conduzem os homens, ou são os homens que criam e veneram os deuses?
Ao mesmo tempo, acompanhamos a viagem da nau Nossa Senhora da Ajuda, uma viagem missionária com destino a Moçambique, no ano de 1560. Nas naus que integram a comitiva vão D. Gonçalo da Silveira, jesuíta na Índia Portuguesa, o padre Manuel Antunes, o escravo Nimi Nsundi, a escrava indiana Dia Kumari, funcionários do reino, deportados e outros escravos, e a estátua de Nossa Senhora, benzida pelo papa, considerado o "símbolo maior daquela peregrinação". É nesta viagem que a Santa perde um dos pés, dando início assim à viagem inexorável de cada um destes personagens na descoberta do caminho marítimo para o continente da sua própria natureza, alma e história.
No fim desta viagem, a mulher reune os restos do seu passado e enterra definitivamente os seus mortos. E, finalmente, encontra um lugar onde Kianda, a deusa das águas, pode enfim descansar e reencontrar a sua natureza. E, desta maneira, a história retomará o seu rumo, que mora afinal no coração e na memória dos homens...
quarta-feira, junho 07, 2006
LIBERDADE SEM MEDO
Este livro foi muito importante para mim, a uma dada altura. Pode dizer-se que era a minha Bíblia. Desde o primeiro momento que as ideias de A. S. Neil me cativaram, por aquilo que tinham de inovador, mas também de irreverente, e de verdadeiro. Por verdadeiro não pretendo ilustrar nenhuma verdade absoluta: verdadeiro no sentido de humanamente verdadeiro, subjectivamente, ligado aos sentimentos e às emoções.
Para entendermos de uma forma mais profunda os livros e a experiência deste autor, temos de nos reportar à época em que ele viveu, em que surgiram as suas ideias inovadoras de educação. Elas foram de facto revolucionárias, se atendermos ao facto de que as práticas educativas correntes da altura incluiam o uso da palmatória e os castigos corporais. O próprio Neil era um simples professor integrado no sistema, que, tal como todos, dava continuidade a essas práticas. Simplesmente, ele não se sentia satisfeito com isso. Começou a questionar-se. E decidiu quebrar a regra. O que, para a época, era completamente utópico.
Mas ele foi em frente e fundou a sua escola. Uma escola onde as crianças tinham total liberdade de fazerem o que quisessem. Para além disso, participavam e colaboravam activamente em todas as Assembleias Escolares, onde eram definidas as regras básicas da escola. Todos, desde os mais novos aos mais velhos, tinham uma palavra a dizer, que pesava tanto como a de qualquer adulto.
Era portanto uma inovação total, tanto de princípios educativos como democráticos. E o mais extraordinário, é que teve resultados muito positivos a médio, longo prazo. A maioria das pessoas talvez torça o nariz e pense que, com toda esta liberdade, a escola dificilmente cumprirá o principal objectivo a que se propõe, que é dar uma educação de qualidade aos alunos. Mas a experiência veio provar o contrário. Se nos primeiros anos as crianças pouco estudavam, e ocupavam a maior parte do tempo com brincadeiras e outras actividades menos próprias (Neil conta que nestes primeiros anos perdeu a conta aos vidros partidos), a pouco e pouco elas começavam a interessar-se pelo estudo e pelas aulas. Mais: faziam progressos extraordinários. Conseguiam progredir em muito menos tempo do que as crianças das escolas normais. Neil interpretava isto como o resultado do facto de as crianças estarem genuinamente motivadas para aprender. Quando existe motivação, a apredizagem processa-se muito mais depressa. Mas não foi só no sucesso escolar que a experiência de Neil vingou. Ela provou que as crianças possuem espírito crítico e valores fundamentais como a partilha, a entre-ajuda, a cooperação, o respeito pelo próximo e pela autoridade, e que tudo isso não precisa de lhes ser metido na cabeça pelos adultos. Se nos primeiros anos as regras da escola, definidas por todos, eram bastante permissivas, revelando a imaturidade inerente ao estádio de desenvolvimento da maiorias das crianças, nos anos subsequentes essas regras foram mudando no sentido de uma maior responsabilização, maturidade e autonomia. E as crianças eram as mesmas.
Como é óbvio, este livro deixou há muito de ser a minha bíblia, aliás, acho que já não tenho nenhuma há muito tempo. Hoje contesto muitas das ideias que ele expressa nos seus livros. Mas com a sua essência continuo a concordar. Muito se aprenderia se quem está à frente das escolas e do ensino lesse estes livros com olhos de ler. Porque está lá tudo. O sucesso da aprendizagem não se mede por resultados escolares. O sucesso da aprendizagem mede-se pela auto-estima dos alunos, pela sua capacidade em optimizar o seu potencial, pelo gosto e pelo prazer de aprender. A escola da actualidade precisa de uma mudança radical. E essa mudança passa obrigatoriamente pela inclusão da voz dos alunos nas tomadas de decisão. Os alunos têm de ser responsabilizados e envolvidos no próprio processo de aprendizagem, sob pena de este se tornar completamente alheio e divorciado dos seus interesses, como acontece na realidade escolar actualmente.
Há muitas escolas, espalhadas por todo o mundo, e em Portugal também, que se pautam pela generalidade destes princípios, onde os alunos têm voz e participação activa no seu processo de aprendizagem, e todas essas escolas são exemplos do verdadeiro sucesso escolar. O que é que será preciso acontecer para que a maioria dos professores e das pessoas que estão à frente do Ministério da Educação se apercebam disto?
Como é óbvio, este livro deixou há muito de ser a minha bíblia, aliás, acho que já não tenho nenhuma há muito tempo. Hoje contesto muitas das ideias que ele expressa nos seus livros. Mas com a sua essência continuo a concordar. Muito se aprenderia se quem está à frente das escolas e do ensino lesse estes livros com olhos de ler. Porque está lá tudo. O sucesso da aprendizagem não se mede por resultados escolares. O sucesso da aprendizagem mede-se pela auto-estima dos alunos, pela sua capacidade em optimizar o seu potencial, pelo gosto e pelo prazer de aprender. A escola da actualidade precisa de uma mudança radical. E essa mudança passa obrigatoriamente pela inclusão da voz dos alunos nas tomadas de decisão. Os alunos têm de ser responsabilizados e envolvidos no próprio processo de aprendizagem, sob pena de este se tornar completamente alheio e divorciado dos seus interesses, como acontece na realidade escolar actualmente.
Há muitas escolas, espalhadas por todo o mundo, e em Portugal também, que se pautam pela generalidade destes princípios, onde os alunos têm voz e participação activa no seu processo de aprendizagem, e todas essas escolas são exemplos do verdadeiro sucesso escolar. O que é que será preciso acontecer para que a maioria dos professores e das pessoas que estão à frente do Ministério da Educação se apercebam disto?
sábado, maio 27, 2006
LEITURA AO SÁBADO

Lembro-me do nome de Sebastião da Gama dos livros da escola, os primeiros livros, aqueles que ainda se liam com gosto. Lembro-me das palavras simples e bonitas, lidas a espaços e com intervalos para sonhar. Mais tarde, lembro-me de alguns poemas soltos, frases mágicas, que finalmente me despertaram a curiosidade para saber mais, ler mais, procurar mais.
Os livros existiam todos na colecção dos meus pais. Eu fui lendo, folheando, intuindo. Pressentindo a alma deste poeta-professor. Ele era um professor. De poucos professores se pode dizer que são realmente professores. Aqueles que realmente gostam do que fazem, têm prazer com a sua profissão, e, acima de tudo, respeitam os alunos. Era esta atitude de respeito que mais me enternecia e me fazia sorrir. A dedicação imensa aos alunos. A motivação em ensiná-los de facto, ou antes, em ajudá-los a aprender. A preocupação constante em tornar as aulas interessantes. Lembro-me particularmente bem de uma passagem do seu Diário, em que ele conta que teve de pôr um aluno na rua. No meu tempo de estudante, ir para a rua era o pão nosso de cada dia para alguns colegas mais irrequietos. E era uma coisa tão natural, que já nem fazia mossa.
Mas não para o nosso professor. Ele não era um professor qualquer. Ficou a remoer, a remoer, e acabou por desabafar. Não me lembro das palavras exactas, mas a ideia era mais ou menos esta: se calhar, ele fez barulho, porque a aula não lhe interessava. E, se calhar, a aula não lhe interessava, porque de facto não tinha interesse nenhum. E, nesse caso, quem devia ir para a rua era eu.
Era assim, este professor, sempre a questionar-se, sempre a pôr-se em causa, sempre a tentar melhorar. Por detrás do professor havia um homem simples, modesto, sensível, que encantava os alunos e com quem ele convivia. Depois de o ler, recordo as histórias que ouvi, às pessoas que tiveram o privilégio de o conhecer: o meu pai foi seu aluno, na sua passagem por Estremoz; os meus avós lembravam-se dele, a minha avó contou-me que ele andou com a minha mãe ao colo, e dizia que ela era a menina com os olhos mais bonitos que já tinha visto. O meu primo Aníbal também o conheceu, e num dos seus livros ele fala nele, entre outros nomes incluídos na família alargada de parentes e amigos, e nos passeios e encantos da Serra D'Ossa. Toda a gente o lembra como uma pessoa de carácter fora do comum, um coração imenso, uma alma grandiosa, mas acima de tudo um homem simples, sem vaidade nem pretensões.
Os livros existiam todos na colecção dos meus pais. Eu fui lendo, folheando, intuindo. Pressentindo a alma deste poeta-professor. Ele era um professor. De poucos professores se pode dizer que são realmente professores. Aqueles que realmente gostam do que fazem, têm prazer com a sua profissão, e, acima de tudo, respeitam os alunos. Era esta atitude de respeito que mais me enternecia e me fazia sorrir. A dedicação imensa aos alunos. A motivação em ensiná-los de facto, ou antes, em ajudá-los a aprender. A preocupação constante em tornar as aulas interessantes. Lembro-me particularmente bem de uma passagem do seu Diário, em que ele conta que teve de pôr um aluno na rua. No meu tempo de estudante, ir para a rua era o pão nosso de cada dia para alguns colegas mais irrequietos. E era uma coisa tão natural, que já nem fazia mossa.
Mas não para o nosso professor. Ele não era um professor qualquer. Ficou a remoer, a remoer, e acabou por desabafar. Não me lembro das palavras exactas, mas a ideia era mais ou menos esta: se calhar, ele fez barulho, porque a aula não lhe interessava. E, se calhar, a aula não lhe interessava, porque de facto não tinha interesse nenhum. E, nesse caso, quem devia ir para a rua era eu.
Era assim, este professor, sempre a questionar-se, sempre a pôr-se em causa, sempre a tentar melhorar. Por detrás do professor havia um homem simples, modesto, sensível, que encantava os alunos e com quem ele convivia. Depois de o ler, recordo as histórias que ouvi, às pessoas que tiveram o privilégio de o conhecer: o meu pai foi seu aluno, na sua passagem por Estremoz; os meus avós lembravam-se dele, a minha avó contou-me que ele andou com a minha mãe ao colo, e dizia que ela era a menina com os olhos mais bonitos que já tinha visto. O meu primo Aníbal também o conheceu, e num dos seus livros ele fala nele, entre outros nomes incluídos na família alargada de parentes e amigos, e nos passeios e encantos da Serra D'Ossa. Toda a gente o lembra como uma pessoa de carácter fora do comum, um coração imenso, uma alma grandiosa, mas acima de tudo um homem simples, sem vaidade nem pretensões.
Os seus poemas são simples, de palavras inteiras, de imensa ternura. Os escritos que deixou revelam a intensidade e a profundidade da sua alma. O livro que mais me encantou foi sem dúvida o seu "Diário", o relato do seu dia-a-dia de professor, o modo como se entregava ao que fazia, como abraçava a vida, como era capaz de sorrir com as coisas mais pequenas. Era um homem avançado no seu tempo, creio. E morreu muito jovem, mas, de certeza, pleno de tudo aquilo que viveu.
quarta-feira, maio 17, 2006
AINDA IMPRESSIONADA
com os acontecimentos de S. Paulo, no Brasil, lembrei-me deste livro. A história dos meninos de rua. Meninos das favelas. Meninos ladrões, meninos bandidos, meninos que nunca o foram, que nasceram e tiveram de abandonar a infância demasiado depressa. Meninos que são o retrato futuro de muitos desses bandidos que hoje matam pessoas inocentes e espalham o terror por onde passam. Mas o retrato pintado por Jorge Amado é terno, é comovente, na sua crueldade, na sua realidade, na sua verdade. Jorge Amado consegue retratar esses meninos com incrível precisão, com ternura, com amor, com ódio, com raiva, com tristeza. E cada palavra, cada rosto de criança que ele desenha, cada pegada de menino que ele planta no chão, cada alma humana que ele cria é uma seta apontada ao nosso coração. Ele consegue tocar o nosso íntimo, ele consegue fazer-nos sentir crianças, nós, essas crianças abandonadas, sem nada, sem voz, sem vida, apenas com as lágrimas e as marcas de uma vida inimaginável. Mas ele traz para cada rosto e cada coração de criança uma humanidade incomparável, impressionante. Nós vemo-nos, revemo-nos, escutamo-nos nas suas palavras. E choramos. E rimos. E voltamos a chorar. Eu chorei, muito, quando o li. Tinha 15 anos e nunca mais esqueci os Capitães da Areia.
AVISO AOS ESTIMADOS LEITORES
O "Livro à Quarta" vai deixar de ser à quarta. Ou antes, pode calhar tanto à quarta, como à quinta, como em qualquer dia da semana. Vou tentar manter um livro semanal, mas de vez em quando, se me apetecer, até posso falar de dois numa semana, e estar duas semanas sem referir nenhum. É que não sou muito dada a estas coisas das rotinas, na escrita. A partir de um certo momento, deixam de ter piada, porque passam a ser uma obrigação.
Gosto bastante de escrever sobre os livros que li, e por isso vou fazer esta pequena alteração, sob pena de, caso contrário, esta iniciativa semanal se tornar numa autêntica estopada, para mim (e para vocês também, porque se escrever só por escrever não vai sair nada de jeito).
E pronto, tenho dito. O livro desta semana seguirá dentro de alguns momentos (talvez dias...)
Gosto bastante de escrever sobre os livros que li, e por isso vou fazer esta pequena alteração, sob pena de, caso contrário, esta iniciativa semanal se tornar numa autêntica estopada, para mim (e para vocês também, porque se escrever só por escrever não vai sair nada de jeito).
E pronto, tenho dito. O livro desta semana seguirá dentro de alguns momentos (talvez dias...)
quarta-feira, maio 10, 2006
E PORQUE HOJE É QUARTA
retomamos os velhos hábitos de leitura:
Um pequeno (grande) homem que morre e ressuscita, e que vive no desejo de se libertar do peso do corpo. Ele vai ser testemunha de um acontecimento histórico importantíssimo. Com as suas palavras vai levar ao resto do mundo o seu olhar sempre vivo e perspicaz (esta parte imaginei, na verdade ele apenas escreve para um jornal português) sobre a maior revolta negra na história do Brasil, desde a escravatura. Mas esta não é uma revolta só dos negros. É a revolta de todos os que vivem marginalizados no seu próprio país, de todos os que habitam o submundo das favelas brasileiras e não têm hipótese de se libertar da austera estigmatização social, numa sociedade onde não existe lugar para eles, numa sociedade que, paradoxalmente, não se considera racista nem preconceituosa. Uma mulher triste e solitária, que se diverte a atormentar os homens com as suas obras de arte pouco convencionais sobre a natureza feminina, e que abre a porta para um desconhecido no meio da noite, a porta da rua e a do coração, começando assim uma "estranha estória de amor". Um homem que em tempos trabalhou para o Ministério da Segurança de Estado de Angola, e vive na tentativa desesperada de fugir da própria memória e dos velhos fantasmas que a habitam, que vende armas aos traficantes das favelas. Um velho delegado de polícia, honesto, inimigo da corrupção, que a tudo assiste, impotente, sem poder fazer nada contra a escalada sucessiva de violência, e que no fim decide pegar nas armas, disposto a dar o seu sangue numa guerra perdida mas que já é sua. Um outro homem, traficante, um bandido com preocupações sociais e alguma consciência política, que começa uma revolução. Ele decide parar de pagar a cumplicidade aos policiais corruptos que assim fecham os olhos ao negócio do tráfico. E é a partir desta decisão que os acontecimentos se vão suceder, numa espiral incontrolável. É a história desta revolução, que desce das favelas ao asfalto, que é contada neste livro. Uma batalha que, mesmo derrotada, será uma vitória. E que deixará marcas na memória e estrutura sociais do país.
Cenário dramático e impossível? Eu diria realista, dramático sem dúvida. É uma metáfora, um aviso, quase uma premonição. A revolta, as armas, o tráfico, o estado de tensão, de colapso sociais, são a realidade do mundo das favelas brasileiras. A vida ali já é uma guerra. E se os governantes não tomarem medidas concretas, a bomba pode explodir.
Cenário dramático e impossível? Eu diria realista, dramático sem dúvida. É uma metáfora, um aviso, quase uma premonição. A revolta, as armas, o tráfico, o estado de tensão, de colapso sociais, são a realidade do mundo das favelas brasileiras. A vida ali já é uma guerra. E se os governantes não tomarem medidas concretas, a bomba pode explodir.
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