sábado, dezembro 22, 2012
Sobreviver
Tudo o que disse no post de baixo é válido, apenas com uma única exceção: quando uma das partes envolvidas é uma criança. Uma criança não tem qualquer capacidade de resolução de conflitos, pelo que essa responsabilidade cabe totalmente aos pais. Cabe ainda aos pais criarem as condições necessárias para que a criança se sinta livre de expressar o que sente. Sem essas condições, que são uma espécie de confiança básica, uma criança pode facilmente reprimir-se e ocultar o que sente, por medo. Uma criança depende totalmente dos pais para sobreviver, e esta dependência é essencialmente afetiva: é do amor dos pais que ela depende. Por este amor uma criança faz qualquer coisa, até mesmo anular completamente o que sente, se se aperceber de que a sua expressão honesta e genuína pode conduzir ao desinvestimento afetivo de um dos pais, ou ambos. Esta anulação dos próprios sentimentos deve ser encarada como um mecanismo de sobrevivência básico, e pode ter consequências avassaladoras, dependendo do grau com que é praticada. Uma criança pode, assim, divorciar-se completamente dos seus sentimentos, reprimindo-os, esquecendo-os, e continuar a viver como se nada fosse, aparentemente feliz, aparentemente normal. Aliás, se ela intuir que qualquer sinal de que algo não está bem com ela, por mais fugaz que seja, poderá conduzir à perda do amor de um dos pais ou ambos, fará tudo o que estiver ao seu alcance para dar uma imagem de criança normal, adaptada e feliz. A dissociação pode ser de tal ordem que ela tomará essa imagem de si mesma pelos seus sentimentos genuínos, e sentir-se-à verdadeiramente feliz. A verdadeira identidade dos seus sentimentos, aqueles que foram reprimidos, estará porém sempre presente, ainda que inconsciente, e um dia virá ao de cima. Podem passar muitos anos; décadas; a verdade do que somos acaba sempre por nos encontrar.
Completamente mortas e enterradas
É fácil amar alguém quando tudo está bem. Assim como é fácil sentirmo-nos todos irmãos quando cantamos em coro. Os dissabores começam quando um de nós desafina, ou quando cada um quer cantar a sua canção preferida. Há pessoas que preferem passar ao lado dos conflitos, porque ignoram a sua força geradora de mudança e crescimento. Sentem-nos como uma ameaça à sua própria integridade. É sinal de que a casa não tem alicerces suficientemente sólidos, e por isso vive com medo da derrocada.
Só nos conhecemos verdadeiramente quando entramos em conflito, por isso é lastimável que tanta gente perca tempo e energia a desviar caminho só para não se deparar com eles. E isto é verdade não apenas em relação a pessoas, mas também a grupos e instituições, como por exemplo, a escola do nosso filho, o vizinho do lado, a pessoa com quem escolhemos viver ou o nosso patrão.
Quando entramos em conflito, há que estar particularmente atento ao modo como a outra parte reage, já que é do modo como ambas as partes lidam com ele que resultará a mudança ou a estagnação.
Não há resolução de conflitos sem confronto de diferentes pontos de vista, que as mais das vezes estão associados a vivências subjetivas. Posto isto, a primeira questão que se deve colocar é: a outra parte está interessado(a) em ouvir-me? Ouvir o outro é fundamental, as suas razões, as suas queixas, os seus argumentos, a forma como se sente, ainda que tais razões, queixas, argumentos e sentimentos entrem em choque com o nosso lado da questão. Este é o primeiro passo para a comunicação; sem ele não há qualquer comunicação. Há que estar particularmente atento àquelas pessoas que, aparentando estar dispostas a ouvir, só o fazem quando aquilo que dizemos é exatamente aquilo que querem ouvir, e quando isso não acontece, tendem a diminuir-nos, rejeitar-nos, ou mesmo ignorar-nos. Frases como, És demasiado sensível, ou, Tens um conceito de honestidade muito inflexível, Não deves estar bem, Precisas de tratar-te, revelam bem a manipulação subjacente. De facto é muito mais fácil sacudir a água do capote do que admitir e assumir a quota parte de responsabilidade na origem de um conflito, o que é sempre verdade: em qualquer relação, pessoal ou profissional, tudo o que acontece depende da inter-relação de todas as partes envolvidas, pelo que as responsabilidades são partilhadas. E, das duas uma: ou os conflitos são assumidos como tal, ou então o que acontece é que uma das partes, ou ambas, tendem substancialmente a ignorá-los. Se apenas uma das partes os ignora, à outra só lhe resta o confronto, por um lado, ou o deixar andar. Esta última, embora aparentemente portadora de alguma paz, não é pacificadora de todo, uma vez que para se ignorar um conflito há sempre um gasto de energia (ainda que não aparente) e uma anulação das próprias necessidades na relação, que não se faz sem custos. O que acontece é que há sempre aquelas pessoas que se preferem sacrificar pelo "bem estar" aparente, sem as mais das vezes terem consciência das consequências para elas próprias. São essas mesmas pessoas que, uma vez que o copo encheu (porque geralmente esse dia chega, mesmo que demore anos) e viram a mesa, têm de ouvir coisas como, Mas tu não eras assim, o que é que se passa contigo? Não te reconheço! Frases deste tipo revelam bem o quanto a outra parte nunca nos conheceu de facto, o quanto tivemos de nos anular para que a relação fosse possível, e aí também temos a nossa quota de responsabilidade, porque, em vez de mostrar abertamente o que sentimos, preferimos escondê-lo, ao longo dos anos, e ainda que a nossa intenção tenha sido a melhor, boas intenções não resolvem conflitos. O que os resolve é a capacidade de aprender com eles; a capacidade de olhar para dentro e reconhecer os próprios erros. A capacidade de assumir a culpa e a responsabilidade por tudo aquilo que acontece entre nós e os outros. Relações sem conflitos não existem; e quando existem, estão completamente mortas e enterradas.
Só nos conhecemos verdadeiramente quando entramos em conflito, por isso é lastimável que tanta gente perca tempo e energia a desviar caminho só para não se deparar com eles. E isto é verdade não apenas em relação a pessoas, mas também a grupos e instituições, como por exemplo, a escola do nosso filho, o vizinho do lado, a pessoa com quem escolhemos viver ou o nosso patrão.
Quando entramos em conflito, há que estar particularmente atento ao modo como a outra parte reage, já que é do modo como ambas as partes lidam com ele que resultará a mudança ou a estagnação.
Não há resolução de conflitos sem confronto de diferentes pontos de vista, que as mais das vezes estão associados a vivências subjetivas. Posto isto, a primeira questão que se deve colocar é: a outra parte está interessado(a) em ouvir-me? Ouvir o outro é fundamental, as suas razões, as suas queixas, os seus argumentos, a forma como se sente, ainda que tais razões, queixas, argumentos e sentimentos entrem em choque com o nosso lado da questão. Este é o primeiro passo para a comunicação; sem ele não há qualquer comunicação. Há que estar particularmente atento àquelas pessoas que, aparentando estar dispostas a ouvir, só o fazem quando aquilo que dizemos é exatamente aquilo que querem ouvir, e quando isso não acontece, tendem a diminuir-nos, rejeitar-nos, ou mesmo ignorar-nos. Frases como, És demasiado sensível, ou, Tens um conceito de honestidade muito inflexível, Não deves estar bem, Precisas de tratar-te, revelam bem a manipulação subjacente. De facto é muito mais fácil sacudir a água do capote do que admitir e assumir a quota parte de responsabilidade na origem de um conflito, o que é sempre verdade: em qualquer relação, pessoal ou profissional, tudo o que acontece depende da inter-relação de todas as partes envolvidas, pelo que as responsabilidades são partilhadas. E, das duas uma: ou os conflitos são assumidos como tal, ou então o que acontece é que uma das partes, ou ambas, tendem substancialmente a ignorá-los. Se apenas uma das partes os ignora, à outra só lhe resta o confronto, por um lado, ou o deixar andar. Esta última, embora aparentemente portadora de alguma paz, não é pacificadora de todo, uma vez que para se ignorar um conflito há sempre um gasto de energia (ainda que não aparente) e uma anulação das próprias necessidades na relação, que não se faz sem custos. O que acontece é que há sempre aquelas pessoas que se preferem sacrificar pelo "bem estar" aparente, sem as mais das vezes terem consciência das consequências para elas próprias. São essas mesmas pessoas que, uma vez que o copo encheu (porque geralmente esse dia chega, mesmo que demore anos) e viram a mesa, têm de ouvir coisas como, Mas tu não eras assim, o que é que se passa contigo? Não te reconheço! Frases deste tipo revelam bem o quanto a outra parte nunca nos conheceu de facto, o quanto tivemos de nos anular para que a relação fosse possível, e aí também temos a nossa quota de responsabilidade, porque, em vez de mostrar abertamente o que sentimos, preferimos escondê-lo, ao longo dos anos, e ainda que a nossa intenção tenha sido a melhor, boas intenções não resolvem conflitos. O que os resolve é a capacidade de aprender com eles; a capacidade de olhar para dentro e reconhecer os próprios erros. A capacidade de assumir a culpa e a responsabilidade por tudo aquilo que acontece entre nós e os outros. Relações sem conflitos não existem; e quando existem, estão completamente mortas e enterradas.
segunda-feira, dezembro 17, 2012
Para as nuvens
Se fosse supersticiosa, a mulher teria visto no arco íris um sinal. Assim, o que viu foi apenas um sinal da beleza do mundo; um espetáculo da natureza que se aprecia com humildade e gratidão. Solta o farrapo de sonho e deixa-o ir na direção da luz. E, por momentos, tem de controlar a vontade imensa de se deixar ir com ele.
domingo, dezembro 16, 2012
factory dreams
Sempre que a noite assaltava a janela, sentava-se à secretária de madeira escura, onde estava a velha máquina de escrever. Gostava de sentir as teclas rígidas debaixo dos dedos, que apenas cediam quando a pressão aumentava demasiado. Gostava de escutar o som das palavras a serem fabricadas em série. Gostava desta ideia. Fábrica de palavras. Factory. Dreams. Sempre associara as palavras aos sonhos. Talvez por os sonhos terem uma linguagem essencialmente simbólica. Contudo, não sonhava com palavras, antes com imagens, pressentimentos, cores, miragens. Sonhava com ânsia e com coragem. Sonhava acordada, os passos errantes pela casa abandonada, de braços estendidos para a luz. E descerrava as janelas de par em par, deixando a chuva molhar o soalho carcomido pelos bichos e o vento enredar-se na mobília antiga a cheirar a caruncho. Tudo naquela casa era velho, a começar pelo tecto que deixava a humidade alastrar para o interior com o bafo quente das noites de verão, até às canalizações entupidas de calcário, pingando mágoas que se infiltravam nas estruturas cada vez menos sólidas do edifício ancião. Estava velha: mãos enrugadas e dedos comidos pela artrite, cada tecla uma dor lancinante nas articulações rígidas, cada letra um tormento, cada palavra uma súplica. As frases saíam-lhe dos dedos numa oração, que ela transformava em canção nos lábios ansiosos e febris dos moribundos. E assim se passavam as noites na sua vida de reclusa domiciliária. As paredes carregadas de pequeninas veias verdes; os braços que a amarravam, dilaceravam, ausentavam da vida, divorciavam do mundo. E ela, muda, pairava nos sonhos que fabricava todas as noites à luz das velas, alimentava-se das palavras que saltavam das teclas enferrujadas da sua fiel amiga, a velha Factory Dreams, como ternamente lhe chamava.
(repost)
(repost)
Sonhar um pouco
A mulher não era supersticiosa nem acreditava em Deus, por isso não rezou, não acendeu velas nem fez promessas desnecessárias, não lançou os búzios nem convocou os orixás. Limitou-se a imaginar. Sonhar um pouco. O bom que era se. Poder sentir-se finalmente reconhecida, apreciada, valorizada. E depois pensou que esse é o problema. Não (re)conhece o seu valor. Ainda. Está a aprender. Devagarinho.
Há coisas que, ou se aprendem na altura certa, ou depois torna-se muito difícil. Como os burros velhos e as línguas.
Há coisas que, ou se aprendem na altura certa, ou depois torna-se muito difícil. Como os burros velhos e as línguas.
quarta-feira, dezembro 12, 2012
We will rock you
O teatro estava cheio de pais, mães, avós, avôs, irmãos, irmãs, tias, tios, primas, primos e alguns amigos, suponho. Muitas caras e olhos brilhantes. No palco, as crianças cantavam, dançavam, diziam as deixas e eram os olhos, só os olhos. Cantavam e por momentos deixavam de ser meninos e meninas e passavam a ser apenas pessoas, e nos olhos ela conseguia vislumbrar essas almas do futuro mas que já ali estavam. Nos olhos do filho reconheceu a criança e também viu aquela outra pessoa que ainda não conhece mas está lá, presente num futuro embrulhado em retalhos do passado. As vozes das crianças eram uma só e eram mais, eram tantas, e a ela a garganta não arde, só queima, e os olhos molham-se e a emoção quase que aflora as lágrimas. No palco os miúdos prestam culto à música e dizem piadas que fazem rir e por momentos está tudo ali em cima do palco, a vida inteira, a terra inteira, o planeta, o futuro, a escravidão do pensamento, a libertação, o sonho, e a música, claro. E depois pensa que isto é que devia ser o produto final de uma aprendizagem. E depois fica a pensar que um dia estes momentos serão história. Um dia. Uma história. A sua e a deles.
Faz hoje 8 anos
Quando aterrámos neste país cinzento, o tempo passou a andar de outra maneira. As coisas tornaram-se mais lentas, sentidas ao pormenor, como se os sentimentos se tivessem desdobrado e enchido a dimensão do espaço à nossa volta. A primeira coisa que me faltou foi o sol. Lembro-me que só o vi espreitar, timidamente, atrás de uma nuvem escura e pesada para aí uma semana depois de ter chegado. E, apesar de não ter sentido sequer o seu calor, a visão daquela luz aqueceu-me a alma por dentro.
Através das janelas da escola espreitava-se o interior das salas, paredes cheias de desenhos e pinturas, e crianças sentadas nas suas carteiras, ou de pé entregues a qualquer actividade. Havia crianças de todos os cantos do mundo... e pais de todos os cantos do mundo também. No grupo que se formava cá fora, à espera que os filhos saíssem da sala, ouviam-se tantos idiomas quantas caras diferentes se viam.
Daí a menos de um mês aquela tornou-se a escola do David. Passei a fazer parte, eu também, do grupo à espera, tantas vezes debaixo de chuva. Nos primeiros dias andava um pouco triste, falava muito nos amigos de Portugal e dizia muitas vezes que não queria ir à escola. Aos poucos foi ganhando confiança, até que por fim já corria pelo jardim como as outras crianças, todos os dias de manhã, antes de o sino tocar e formarem uma fila, cada uma para sua sala. O Diogo também o acompanhava nas corridas, e para mim era um bálsamo, começar assim o dia, a ver os meus filhos felizes e a correr.
Quando chegámos, o Natal estava em todas as portas, espreitava de todas as janelas, iluminava as paredes das casas em assombros de luzes de todas as cores. Nós não tinhamos casa, vivíamos num quarto minúsculo onde mal tinhamos espaço para nos mexermos, e à noite quando punhamos os dois colchões no chão para dormirmos os quatro, mal sobrava espaço para pôr os pés no chão.
Dentro do carro estava quentinho. Lá fora a chuva caía, lentamente e sem ruído, e o frio cortava. As pessoas passavam no passeio debaixo de guarda-chuvas. Dentro das casas, adivinhava-se calor, famílias reunidas, e o Natal acendia-se nas luzes de mil cores. Dentro do carro os meus filhos tinham adormecido, embalados pelo movimento e pelo calor. Eu continuava acordada e a chuva no vidro confundia-se com a lágrima que espreitava por entre as minhas pestanas. O David abriu os olhos a meio de algum sonho, olhou em volta como que a perguntar-se onde estava, e disse, “Mãe, porque é que não vamos para casa?” Eu respirei fundo, agora a lágrima finalmente tinha rolado pela minha cara abaixo, fechei os olhos e respondi, “Já vamos, filho, já vamos para casa”.
Através das janelas da escola espreitava-se o interior das salas, paredes cheias de desenhos e pinturas, e crianças sentadas nas suas carteiras, ou de pé entregues a qualquer actividade. Havia crianças de todos os cantos do mundo... e pais de todos os cantos do mundo também. No grupo que se formava cá fora, à espera que os filhos saíssem da sala, ouviam-se tantos idiomas quantas caras diferentes se viam.
Daí a menos de um mês aquela tornou-se a escola do David. Passei a fazer parte, eu também, do grupo à espera, tantas vezes debaixo de chuva. Nos primeiros dias andava um pouco triste, falava muito nos amigos de Portugal e dizia muitas vezes que não queria ir à escola. Aos poucos foi ganhando confiança, até que por fim já corria pelo jardim como as outras crianças, todos os dias de manhã, antes de o sino tocar e formarem uma fila, cada uma para sua sala. O Diogo também o acompanhava nas corridas, e para mim era um bálsamo, começar assim o dia, a ver os meus filhos felizes e a correr.
Quando chegámos, o Natal estava em todas as portas, espreitava de todas as janelas, iluminava as paredes das casas em assombros de luzes de todas as cores. Nós não tinhamos casa, vivíamos num quarto minúsculo onde mal tinhamos espaço para nos mexermos, e à noite quando punhamos os dois colchões no chão para dormirmos os quatro, mal sobrava espaço para pôr os pés no chão.
Dentro do carro estava quentinho. Lá fora a chuva caía, lentamente e sem ruído, e o frio cortava. As pessoas passavam no passeio debaixo de guarda-chuvas. Dentro das casas, adivinhava-se calor, famílias reunidas, e o Natal acendia-se nas luzes de mil cores. Dentro do carro os meus filhos tinham adormecido, embalados pelo movimento e pelo calor. Eu continuava acordada e a chuva no vidro confundia-se com a lágrima que espreitava por entre as minhas pestanas. O David abriu os olhos a meio de algum sonho, olhou em volta como que a perguntar-se onde estava, e disse, “Mãe, porque é que não vamos para casa?” Eu respirei fundo, agora a lágrima finalmente tinha rolado pela minha cara abaixo, fechei os olhos e respondi, “Já vamos, filho, já vamos para casa”.
quarta-feira, dezembro 05, 2012
Inesperado advento
Outro dia ao chegar a casa saiu-se com esta:
- Mum, why don't we have that thing that everybody does?
Well, it turns out that:
Aquela coisa que toda a gente tem é o calendário do advento. Toda a gente pelos vistos são os amigos dele, putos de 13 e 14 anos.
Eu a primeira vez que soube que existia uma coisa chamada calendário do advento foi através de um livro de quando eles eram pequeninos, dicionário por imagens do Natal. E a primeira vez que vi à venda foi aqui. E nunca me passou pela cabeça comprar, se calhar por não fazer parte do meu imaginário natalício. Sim, a gente comemorava o Natal. Fazíamos árvore de Natal e presépio. Com o burro e a vaca, pois, apesar de ao burro lhe faltarem as orelhas. E a lavadeira, e as ovelhinhas, um moinho, uma ponte que estava partida em três, mas ainda se aguentava em pé. E musgo acabado de apanhar. Havia as prendas no dia 24. Mas não havia calendário. Pronto.
E agora, pelos vistos, vou pela primeira vez comprar um, porque o meu filho de 13 anos é o único que não tem. E depois, mãe, eles dizem-me que ontem abriram a janelinha e estava lá um chocolate, e perguntam-me o que é que o meu tinha, e eu, well, I just don't have one...
(e eu que pensava que nestas idades a última coisa de que falariam seria de chocolates e janelinhas de calendários e coisinhas de Natal...)
(e ainda perguntei, então e um chega, porque já estou mesmo a ver os dois a quererem abrir a janelinha ao mesmo tempo. Fica dia sim dia não, ou vou ter de comprar dois?)
- Mum, why don't we have that thing that everybody does?
Well, it turns out that:
Aquela coisa que toda a gente tem é o calendário do advento. Toda a gente pelos vistos são os amigos dele, putos de 13 e 14 anos.
Eu a primeira vez que soube que existia uma coisa chamada calendário do advento foi através de um livro de quando eles eram pequeninos, dicionário por imagens do Natal. E a primeira vez que vi à venda foi aqui. E nunca me passou pela cabeça comprar, se calhar por não fazer parte do meu imaginário natalício. Sim, a gente comemorava o Natal. Fazíamos árvore de Natal e presépio. Com o burro e a vaca, pois, apesar de ao burro lhe faltarem as orelhas. E a lavadeira, e as ovelhinhas, um moinho, uma ponte que estava partida em três, mas ainda se aguentava em pé. E musgo acabado de apanhar. Havia as prendas no dia 24. Mas não havia calendário. Pronto.
E agora, pelos vistos, vou pela primeira vez comprar um, porque o meu filho de 13 anos é o único que não tem. E depois, mãe, eles dizem-me que ontem abriram a janelinha e estava lá um chocolate, e perguntam-me o que é que o meu tinha, e eu, well, I just don't have one...
(e eu que pensava que nestas idades a última coisa de que falariam seria de chocolates e janelinhas de calendários e coisinhas de Natal...)
(e ainda perguntei, então e um chega, porque já estou mesmo a ver os dois a quererem abrir a janelinha ao mesmo tempo. Fica dia sim dia não, ou vou ter de comprar dois?)
sexta-feira, novembro 02, 2012
A confissão da Leoa
" Hoje, sei: a história da minha infância não é senão uma meia verdade. Para desmentir uma meia verdade é preciso bem mais que a verdade inteira. Essa verdade enorme, tão vasta que me escapava, era apenas uma: não foram os castigos físicos que me fizeram estéril. Essa era a versão oficial inventada por minha mãe. O crime foi outro: durante anos, meu pai, Genito Mpepe, abusou das filhas. Primeiro aconteceu com Silência. Minha irmã sofreu calada, sem partilhar esse terrível segredo. Assim que me despontaram os seios, fui eu a vítima. Ao fim das tardes, Genito migrava de si mesmo por via da lipa, a aguardente de palmeira. Já bem bebido, entrava no nosso quarto e o pesadelo começava. O inacreditável era que, no momento da violação, eu me exilava de mim, incapaz de ser aquela que ali estava, por baixo do corpo suado do meu pai. Um estranho processo me fazia esquecer, no instante seguinte, o que acabara de sofrer. Essa súbita amnésia tinha uma intenção: eu evitava ficar orfã. Tudo aquilo, afinal, sucedia sem chegar nunca a acontecer: Genito Mpepe desertava para uma outra existência e eu me convertia numa outra criatura, inacessível, inexistente.
Hanifa Assulua, minha mãe, sempre fez de conta que nada sabia. Que era invenção dos vizinhos, delírio de quem queria esconder as suas próprias mazelas. Quando as evidências a esmagaram, mandou-me chamar para, voz tremente, me perguntar:
- É verdade?
Não respondi, olhos presos no chão. O meu silêncio foi para ela a confirmação.
- Maldita!
Sem qualquer reação, fitei-a saltando sobre mim, agredindo-me com socos e pontapés, insultando-me na sua língua materna. O que ela dizia, entre babas e cuspos, era que a culpa era minha. Toda a culpa apenas minha. Bem que Silência já a tinha alertado: era eu que provocava o seu homem. Não se referia a Genito como "o meu pai". Ele era, agora, "o seu homem".
- Vai para fora desta casa. Nunca mais a quero aqui.
Hanifa Assulua, minha mãe, sempre fez de conta que nada sabia. Que era invenção dos vizinhos, delírio de quem queria esconder as suas próprias mazelas. Quando as evidências a esmagaram, mandou-me chamar para, voz tremente, me perguntar:
- É verdade?
Não respondi, olhos presos no chão. O meu silêncio foi para ela a confirmação.
- Maldita!
Sem qualquer reação, fitei-a saltando sobre mim, agredindo-me com socos e pontapés, insultando-me na sua língua materna. O que ela dizia, entre babas e cuspos, era que a culpa era minha. Toda a culpa apenas minha. Bem que Silência já a tinha alertado: era eu que provocava o seu homem. Não se referia a Genito como "o meu pai". Ele era, agora, "o seu homem".
- Vai para fora desta casa. Nunca mais a quero aqui.
***
Não cheguei a sair. Ao contrário, enclausurei-me entre paredes e nunca ninguém se internou tanto numa casa. Hanifa Assulua fez comparecer um feiticeiro e esse uwavi fez-me beber uma amarga poção. Durante um dia inteiro me servi de um pequeno pote de barro. No dia seguinte, o veneno tinha produzido efeito. Eu tinha sido convertida num corpo sem alma. Peçonhenta seiva, em vez de sangue: era o que nas veias me restava.
Minha mãe vingava-se: antes ela transferira a minha doença para a árvore do nosso pátio. Agora ela fazia takatuka ao inverso: deslocava a vida de mim para a árvore morta. O tamarindo, num instante, renasceu verde e altivo. Em contrapartida, converti-me em inanimada criatura. Um único sentido me restava: a audição. No resto, um antigo e congénito escuro me rodeava.
O que Hanifa Assulua pretendia era mais do que me eliminar fisicamente. Morrer era pouco. Havia que apagar o meu nascimento. Os mortos não estão ausentes: permanecem vivos, falam-nos nos sonhos, pesam-nos na consciência. O castigo que me estava reservado era o exílio absoluto. Não de Kulumani, mas o exílio da razão e da linguagem. Fui declarada louca. A loucura é a única ausência perfeita. Na insanidade mental eu estava visível, mas fechada; doente, mas sem ferida; magoada, mas sem dor. "
Mia Couto, A Confissão da Leoa
segunda-feira, outubro 15, 2012
Um tipo de amor
Se vierem as aves, as águas, os ventos e as tempestades, eu estarei aqui. Venham a mim as gotas de todas as chuvas, de todos os mares e lagos e estuários; venham a mim as brisas escorrendo das montanhas e dunas e praias exóticas; os gritos das gaivotas e os ares gelados dos polos; a mim os espelhos das cachoeiras distantes, água fundindo as pedras, poeiras cósmicas no infinito silêncio dos tempos. Sempre aqui estive, e aqui ficarei. Quieta. Sou uma pedra no fundo dos mares,confundida com um desses peixes rastejantes, criatura translúcida, incompreensível, um feto imerso no oceano amniótico, a boca inexistente sem palavras nem voz. Escondida, invisível. Perfeitamente encaixada, camuflada na paisagem. Um oceano de dores, o fundo deste mar. O meu mundo. Aquele onde ninguém entrava e de onde ninguém saía. Ninguém sabia. Só eu, e as barbatanas que me nasciam dos braços, e os silêncios que me cresciam entre os dedos, e os abismos que me deslizavam corpo abaixo, sem nunca saber o fim, nem nunca sentir o fundo. A vertigem. O medo. Sombras que se movem nesta penumbra de séculos; sombras que, em vez de acontecerem no encontro da luz com o mundo, sempre viveram aqui, comigo, na escuridão. A mesma escurisão que eu, de tanto temer, aprendi a amar.
O tipo de amor que se dedica àquelas forças obscuras que, por não conseguirmos combatê-las, nem dominá-las (muito menos compreendê-las), achamos melhor ter do nosso lado. Para não acabarmos esmagados por elas.
Poderá a isso chamar-se amor?
O tipo de amor que se dedica àquelas forças obscuras que, por não conseguirmos combatê-las, nem dominá-las (muito menos compreendê-las), achamos melhor ter do nosso lado. Para não acabarmos esmagados por elas.
Poderá a isso chamar-se amor?
domingo, setembro 23, 2012
Distances
Distance isn't always measured in yards. The distance keeping us appart from others, for instance, is measured in silences. Each time we don't say what we wanted to say, we step away from that person. Of course there's also the normal and common distance, because even in the most intimate relationships we don't say everything. There's always things we must, and want to keep to ourselves. Apart from this distance which is in fact our own boundaries, then we come to meet the other ones. The maintained silence, the unspoken words, the covered feelings; the unsaid things which keep us away from others, because every time we choose to shut up a word, keeping to ourselves what we wished to say, we choose to close the door and being isolated from the world around us. We choose to keep in our little cocoon, and thus we don't let ourselves to be noticed, to be known. That's what is called emotional distance. Thus, we can be close to someone even when we are miles away from them. We can be alone without feeling lonely. Meanwhile, we may have been living together with the same people for decades and feel completely isolated. Each of us centuries appart from the others. On the outside we are quite a common family like so many others. On the inside, however, we are lonely islands lost in a blind, deaf and mute ocean.
sábado, agosto 18, 2012
Distâncias
Nem todas as distâncias se medem em quilómetros. A distância que nos separa dos outros, por exemplo, mede-se em silêncios. Cada vez que não dizemos algo que queríamos dizer, afastamo-nos daquela pessoa. Há sempre uma distância que é normal, e até desejável, porque mesmo nas relações mais íntimas, nunca dizemos tudo, nunca nos damos completamente. Há coisas só nossas que não dizemos, nem queremos dizer, a ninguém. Para lá dessa distância que, no fundo, são os nossos próprios limites, existem depois as outras. Os silêncios que mantemos, as palavras que calamos, os sentimentos que abafamos. São as coisas não ditas que nos afastam dos outros - e afastam porque, de cada vez que calamos uma palavra, de cada vez que escolhemos não dizer o que queríamos dizer, escolhemos fechar a porta, isolarmo-nos do mundo, recolher ao nosso casulo. E, consequentemente, também não nos damos a conhecer. É isso que se chama afastamento emocional. Por isso, podemos estar longe de alguém, a quilómetros de distância, e continuar perto, muito perto. Podemos estar sozinhos e sentir-nos acompanhados. Ao passo que podemos viver anos e anos com as mesmas pessoas, na mesma casa, em total isolamento. Cada um a séculos de distância dos outros. Por fora somos uma família igual a todas as outras - por dentro somos ilhas desertas com todo um oceano cego, surdo e mudo a separar-nos.
sábado, agosto 11, 2012
Regresso
Nunca voltar tivera o sabor reconfortante de um abraço.
Só se regressa a casa. Aos outros sítios, a gente volta.
Desta vez, voltar foi sinónimo de regressar.
Porque a nossa casa é onde nos sentimos acolhidos, seguros, reconhecidos, amados, protegidos.
Só se regressa a casa. Aos outros sítios, a gente volta.
Desta vez, voltar foi sinónimo de regressar.
Porque a nossa casa é onde nos sentimos acolhidos, seguros, reconhecidos, amados, protegidos.
quarta-feira, julho 04, 2012
A vaca leitora
(Isto foi hoje):
- Leitor? Leitor parece alguém milking a cow!
(Isto foi há quatro anos):
Eu nunca tinha pensado que livros e leite pudessem ter algo em comum.
Até ao dia em que o Diogo perguntou, muito espantado, depois de ouvir a palavra "leitura":
- Leitura, mamã? O que é leitura?
Depois de esclarecido, ainda não estava convencido:
- É que leitura parece que vem de leite!
Tive de concordar com ele. De facto, o raciocínio até que revela perspicácia.
E hoje, quando líamos um livro, e nos deparámos com uma vaca leiteira nas ilustrações, ele suspirou,com ar sonhador e um pouco desapontado:
- Eu nunca vi uma vaca leitora... Eu queria ver uma vaca leitora, mamã!
Eu cá, também nunca vi nenhuma.
Mas gostava. Palavra.
E depois lembrei-me da Vaca Leitora que escrevi para ele.
- Leitor? Leitor parece alguém milking a cow!
(Isto foi há quatro anos):
Eu nunca tinha pensado que livros e leite pudessem ter algo em comum.
Até ao dia em que o Diogo perguntou, muito espantado, depois de ouvir a palavra "leitura":
- Leitura, mamã? O que é leitura?
Depois de esclarecido, ainda não estava convencido:
- É que leitura parece que vem de leite!
Tive de concordar com ele. De facto, o raciocínio até que revela perspicácia.
E hoje, quando líamos um livro, e nos deparámos com uma vaca leiteira nas ilustrações, ele suspirou,com ar sonhador e um pouco desapontado:
- Eu nunca vi uma vaca leitora... Eu queria ver uma vaca leitora, mamã!
Eu cá, também nunca vi nenhuma.
Mas gostava. Palavra.
E depois lembrei-me da Vaca Leitora que escrevi para ele.
domingo, julho 01, 2012
The woman with great arms
The woman had huge arms, so long she could hardly notice her hands in the distant horizon. Long ago, it was how she made it possible to detach from them: what they did, what they touched, what they felt. Her hands had been a completely foreign unknown land, a lost planet in a thousand millions light years away galaxy.
As time went by, the size of her arms became a problem. Everybody tripped over them constantly. Even she would find herself entangled in the little vain attempts to shrink them by moving them around in countless and endless different ways. It was impossible to move on in such limbs.
Then she decided to tie them up around her waist, as she did to the coats and jumpers as a child wanting to run around hand free. So she wrapped herself in all those meters of useless flesh, up to the ends that lead to the hands, leaving an exact arm length to go on with her days.
And there she is, tied up in her own embrace which kills and comforts her all the same. A gigantic hug which turned into her own skin.
Nobody ever notices.
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