sexta-feira, novembro 29, 2013
O meu avô
Se fosse vivo, fazia hoje 105 anos . Em Estremoz toda a gente o conhecia, e muitos ainda se lembram do sr. Prudêncio. A loja de pronto-a-vestir onde trabalhava e da qual era dono de um terço tinha (e tem) o seu nome.Ele trabalhava ao balcão, gostava de atender as pessoas, de falar com elas, e estou certa de que toda a gente preferia ser atendida por ele. Trabalhava tanto ou mais do que qualquer empregado, sábados incluídos, e também não tinha mais tempo de férias do que o estipulado. Não me lembro de o ver faltar ao trabalho, assim como não me lembro de o ver doente. E trabalhava por gosto, para ele era um prazer estar atrás do balcão.
Em pequenina, adorava ir à loja do meu avô. Entrar por ali adentro e meter o nariz em todos os cantos (aquela casa era cheia de recantos misteriosos). Gostava de me esconder atrás das roupas penduradas nos varões, ao longo de um corredor interminável. Mas o que me fascinava era o cubículo das provas. Havia dois espelhos altos, colocados em paredes opostas, de modo que a nossa imagem se multiplicava numa sucessão interminável, até ao infinito. Eu ficava assombrada com aquela multidão de mim mesma que me espreitava do outro lado do espelho.
O meu avô tinha um espírito muito jovem. Era muito bem disposto e estava sempre na brincadeira. Fazia-nos rir muitas vezes. Em pequena simulava muitas vezes arrancar-me o nariz: e depois mostrava-mo, escondido entre os dedos das suas mãos. Eu gritava sempre, porque não gostava nada daquela brincadeira!
O meu avô cantava no Orfeão de Estremoz. Tinha uma voz bonita, suave. Lembro-me de o ver cantar numa Igreja, em Estremoz, na única actuação do Orfeão a que assisti, já ele estava doente mas ainda bem. A igreja estava cheia, havia flores a enfeitar as paredes, e as vozes ecoavam, solenes.
As falhas de memória frequentes e alguns comportamentos suspeitos conduziram a um diagnóstico pouco conhecido na altura: Alzheimer. Sabíamos que era irreversível e incurável. Não sabíamos quanto tempo tinhamos. Mas sabíamos que ia ser longo. E doloroso.
Mesmo assim, trabalhou até à última, com uma obstinação forçada, já não conseguia fazer as contas e por último eram as pessoas, com pena dele, que o ajudavam. Ficava confuso, envergonhado, frustrado, mas nunca desistiu. Lutou com todas as forças da parte sã do seu cérebro contra aquele monstro invisível.
Dos seus últimos anos recordo uma infinidade de cuidados médicos a um corpo cada vez mais velho, cansado, irreconhecível de dia para dia. Por último apenas deitado na cama, o rosto inexpressivo. Só o olhar ainda mexia e perscutava o espaço à sua volta com uma intensidade e uma curiosidade quase infantis. E aquele dia em que o visitei, depois de algum tempo sem o ver, em que já não me reconheceu, os seus olhos ausentes, perdidos algures entre este mundo e o outro.
Há muitos anos atrás, ainda era criança, fiz um cachecol com lã castanha para lhe oferecer neste dia. Escrevi uma carta com a ajuda da minha mãe, em que dizia qualquer coisa como: "este cachecol é a tua prenda, quando me perguntavas o que eu estava a fazer, eu dizia que era um cachecol para o gato, afinal era para ti!" E acrescentava: "avô, eu quero que vivas até aos 100 anos, até aos 200, até aos 1000 anos!"
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quinta-feira, novembro 14, 2013
Baixas pressões
Por aqui, o cinzento desprende-se, vagaroso, das nuvens baixas, e cola-se-nos à alma. Andamos pardacentos, cabisbaixos. Deprimidos. Sabem o que é uma depressão? É um centro de baixas pressões, também conhecido por ciclone. A instabilidade do ar produz a sua elevação, dando origem a nuvens e precipitação. Os ventos ascendentes favorecem a formação de nuvens na vertical, que podem originar fortes chuvadas e aguaceiros. As baixas pressões produzem a instabilidade, a ascensão, a leveza do ar, ao passo que, nas altas pressões, o ar afunda-se, vindo de cima, aquecendo e ficando mais estável, formando uma espécie de tampão que tranquiliza a atmosfera envolvente, como um abraço quente e apertado.
A leveza e a ascensão produzem a instabilidade e o mau tempo. Talvez seja por isso que os sonhadores, aqueles que andam sempre nas nuvens, sejam mais vulneráveis às depressões, ao passo que quem tem os dois pés bem assentes na terra não sofra tanto com os desvarios da alma. Será que a nossa cabeça funciona como o ar que a envolve? Não sei, mas não deixa de ser curioso. A nós, quando a pressão é grande, salta-nos a tampa e gera-se a instabilidade, ao passo que, tantas vezes, ansiamos por soltar-nos, aliviar a pressão e quiçá deixar-nos levitar, em movimento ascendente, para assim encontrar a idílica paz de espírito, ou seja, a estabilidade. Exactamente o oposto das condições atmosféricas, já repararam?
Por outro lado, se calhar até se podem encontrar paralelismos: na depressão (clínica) temos então uma espécie de ausência do espírito, em que os pensamentos se espalham no ar; se perdem, sem rumo; nos voam da cabeça como aves distraídas. Andar nas nuvens mais não é do que essa impossibilidade de contenção e consciencialização das ideias. Como se sofrêssemos de alguma incapacidade de nos centrar, de manter sólida a estrutura mental, afinal o alicerce principal da personalidade e estabilidade psíquicas; e que essa estrutura, em lugar de sólida, fosse líquida ou gasosa e se volatilizasse no ar, transformada em sonhos, devaneios, ilusões, nostalgias. A tristeza, sintoma central da depressão, talvez não seja mais do que a impossibilidade de nos sentirmos inteiros, de nos reunirmos num corpo coerente e lógico. Como se andássemos perdidos pelo cosmos, sem eira nem beira, varridos e espalhados pelo vento. A tristeza nasceria em cada partícula nossa, cada pequena partícula vagueando errante, sem saber quem é e a quem pertence; sem saber para onde vai nem com que objectivo .
E muitas vezes as pessoas deprimidas queixam-se disso mesmo: alheamento e despersonalização: não sabem quem são nem o que querem e sentem-se incapazes de conduzir a sua vida, como se não estivessem cá, e sim perdidos, algures, noutro mundo; um mundo etéreo onde a realidade perde os contornos e sobrevivem sentimentos de culpa, desvalorização e derrota.
Até pode ser. Mas, eu cá, não troco por nada, aquela sensação de andar nas nuvens.
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domingo, novembro 03, 2013
Leituras
Que Importa a Fúria do Mar
Ana Margarida de Carvalho
Este livro não se devora; e não se devora porque precisa de ser digerido com vagar, com tempo para saborear e ruminar; com tempo para parar e voltar atrás e ler de novo, seja porque a beleza da descrição nos faz querer beber lentamente e ao minuto cada palavra, ou porque a acidez de algumas passagens nos arde na boca do estômago, ou talvez ainda porque as lágrimas nos inundam os olhos de pura comoção e a vista se nos turva. É um livro que não se lê; sente-se. Ouve-se. Cheira-se. Entranha-se. E quando damos por nós estamos lá dentro. No meio do campo, a ouvir os sons da bicharada; aos solavancos no comboio, ao lado de Joaquim, naquela viagem infernal a caminho da incerteza; no olhar entediado de Eugénia, contando as moscas, procurando evadir-se, sem nunca repousar, sempre ausente e perdido entre os seus abismos e o mundo, o passado e as memórias; e depois, finalmente, apaixonado, deslumbrado, amedrontado, extasiado, tudo ao mesmo tempo, que quando dá por ela e já não consegue domar nem dominar os sentimentos que lhe brotam ao desbarato dos poros. Na frigideira no Tarrafal, em morte lenta, abafada, asfixiada; no mar lodoso de algas moribundas até à cintura, e no alívio das feridas ardendo na água salgada; na fúria do mar que amaldiçoa quem o ousa abandonar com o cheiro putrefacto das coisas mortas. Este livro tem vida e apodera-se de nós e quando damos por isso já não há nada a fazer, recusamos acordar do sonho e ficamos parados naquele segundo eterno em que os olhos se perdem no azul do mar, lá ao fundo, ao virar da última página; e é na nossa cara que o vento bate de chofre, no embalo da corrida até à última palavra, mar, numa promessa de eternidade.
sexta-feira, novembro 01, 2013
O relato de uma perspectiva inusitada
15
de Outubro de 2013
10.57
Estamos
prontos para mais uma viagem. Quase que conseguimos sentir a comichão
nos dedinhos, se ponderarmos que meros acessórios de calçado podem
sentir o que quer que seja. Não se iludam, é verdade: ainda que
inanimados, sentimos tudo. E aquela sensação nos dedos de quem se
prepara para dar no pedal durante a próxima meia hora é inequívoca.
10.59
Espera,
algo aconteceu. Ela está de telefone na mão a olhar para o ecrã
com ar interrogativo. Os pés sabem-no, e nós, já se sabe, somos
uma caixa de ressonância destes apêndices corporais. Os órgãos
principais do corpo humano. Qual coração qual carapuça! Não passa
de um músculo, uma bomba em permanente rotina, limitando-se a
engolir sangue e a cuspi-lo de volta à grande e pequena circulação;
como pode saber de alguma coisa se nada retém, mero orgão de
passagem, toma lá dá cá e toma lá outra vez, um operário numa
linha de montagem que, em vez de montar, apenas passa as peças de um
lado para o outro? O cérebro? Sim, pois claro, esse julga-se o rei
da parada, o comandante, sempre a dar ordens. É só isso que sabe
fazer, aliás. Tretas. Quem, afinal, executa as ordens, quem sente na
pele, quem incorpora as vias sensoriais, sensibilidade em
acção-reacção? A força dos braços, das pernas, dos pés? Quem?
11.00
Pronto,
isto vai demorar, ela está a falar com alguém ao telefone. É
estranho que uma actividade tão simples traga tanto alvoroço.
Podemos sentir o modo como os pés parecem ansiosos por se livrarem
de nós. Esta relação dos pés com os artefactos que lhes servem de
casa não é nada fácil, sabem? Se por um lado somos um escudo
protector, um aconchego, uma casa na verdadeira acepção da palavra,
por outro podemos ser vistos como uma prisão, um sufoco, uma
mordaça. O humor dos nossos inquilinos é muito volátil e
oscilante; de um minuto para o outro passam do amor ao ódio, do ai
que bem que se está aqui no quentinho e tal, para o ai que não
posso, tirem-me daqui, preciso de ar, deixa-me em paz, larga-me da
mão (neste caso do pé), desaparece! É uma dor de cabeça,
acreditem. Ou deveríamos dizer dor de calcanhar?
11.02
Ui,
agora está para ali a gaguejar ao telefone. Diz que não acredita,
que não pode ser verdade. Será que morreu alguém? Não nos parece,
porque, lá está, mais uma vez, podemos sentir as vibrações destes
membros irmãos, e elas dizem claramente que o estado geral é de
excitação e alegria. A tristeza provoca uma frequência muito mais
baixa nas transmissões nervosas.
11.10
Ora
pronto, já vamos a caminho. Estávamos a ver que a porcaria do
telefonema não acabava. Mas não estamos nada tranquilos, que a
mulher continua com o sistema desaparafuzado dos carretos. Ela que é
sempre tão calma a conduzir, vai para aqui de coração a sair pela
boca (aqui está outra coisa que demonstra a superioridade dos pés:
estes jamais sairão, ou ficarão prestes a sair, pela boca), e fala
sozinha, ainda por cima. Será que enlouqueceu, a tipa? Ri-se, e
repete, não posso acreditar, não posso acreditar. O que vale é que
não temos tempo para pensar muito, porque quando os pés entram em
acção desta maneira, embraiagem para baixo, travão, acelerador,
(ai como ela acelera, caramba!) a nossa capacidade de raciocínio
diminui consideravelmente. Não sei se nos entendem. Deve ser assim
como tentar equilibrar uma maçã na cabeça, num cavalo a galope.
11.53
Ufa!
Sobrevivemos. Não houve acidentes de percurso, apesar do nervosismo
agora por demais evidente da nossa pessoa. É assim que chamamos à
pessoa a quem pertencemos. Engraçado, não é? Considerados meros
acessórios, bens adquiridos pela vontade própria e o produto
material do vosso trabalho, uma vez que os pés se embrenham nas
nossas entranhas, acontece esse milagre invisível aos olhos comuns
dos mortais: apropriamo-nos das suas sensações, pensamentos,
humores, sentimentos. Numa palavra: da alma. Não sabiam que a alma
mora nos pés? Santa ignorância! Estudem mas é os tipos orientais,
eles já sabiam de tudo há não sei quantos milhares de anos.
12.05
Que
frenesim! O telefone ainda não parou e ela parece uma matraca, e
ainda por cima repete-se, a conversa é sempre a mesma. Nada
percebemos da realidade mundana, por isso não compreendemos o
significado das palavras, são uma espécie de dialecto chinês.
Aquilo que nós captamos são as ondas químicas que descem pela
corrente sanguínea, e aí está toda a informação de que
precisamos para saber do estado de espírito da nossa pessoa. Que se
poderia descrever de eufórico, não fosse pelo atordoamento dos
gestos. As palavras, talvez vocês as consigam decifrar.
12.25
Lá
está ela a repetir pela milionésima vez a história deste homem que
pelos vistos era tio avô da avó e que agora, sabe-se lá por que
carga de água, ficou subitamente tão importante para as pessoas que
insistem em telefonar-lhe. E está a dizer que ainda não tinha
pensado nisso, pois, nós sabemos bem como os seus neurónios andam
atrofiados desde o primeiro telefonema. Ainda não tinha pensado no
facto de ser a primeira mulher a receber o prémio. Isto somos nós a
traduzir, que é para ver se vocês conseguem fazer algum sentido do
que se passa, que como já dissémos as palavras para nós não têm
qualquer significado, são hieroglifos egípcios. Mas somos mestres
em metáforas, lá isso somos. Isto de albergar os pés de alguém
dá-nos subtilezas inusitadas.
12.26
Diz
ela que embirra com essa coisa do masculino e do feminino. Os nossos
inquilinos estão num alvoroço. Eles ouvem tudo, acreditem. Sentem.
Pois esta coisa de ser a primeira mulher a receber o prémio acendeu
uma luz qualquer, a voz dela ficou assim mais acesa, o coração
palpitou. Mas depois a pergunta levou-a para outro território, que é
o da escrita no masculino e no feminino, e isso, desculpem lá, já
não lhe faz sentido nenhum, a escrita não tem género, nem a
literatura, é essa a questão da sua embirração. Já estamos a
aprender alguma coisa, porque a sabedoria, meus caros mortais, está
na planta do pé. Quem melhor conhece as pedras do caminho, a dureza
do chão, a profundidade do rio? É verdade, também temos queda para
a poesia. Todos os dias atracados aos pés dela dá nisto.
13.35
E a
odisseia continua. Com a diferença de que agora, em conjunto com o
som da voz, conseguimos ouvir também os roncos do estômago. A pobre
ainda não comeu nada desde que chegou. Não consegue; está de tal
maneira agarrada ao telefone que parece que a própria vida depende
desse gesto. Pronto, agora desligou e vai para a cozinha. Os nossos
inquilinos estão a ferver tanto que tememos que ela se lembre de se
livrar de nós a qualquer momento; aliás, estranhamos o facto de não
o ter feito mal entrou em casa, como é seu hábito diário, mas isto
hoje tem de se lhe dar um desconto, que nada do que faz ou diz é
habitual. Se tal acontecer, meus amigos, acabou-se o relato, porque
só conseguimos ler-lhe os pensamentos se encaixados nos nossos
devidos lugares.
14.53
E o
telefone toca de novo. E ela desta vez diz para o marido, deixa
tocar! É que, coitada, já interrompeu o almoço umas quatro ou
cinco vezes. Nada a fará levantar-se da mesa neste momento.
Desconfiamos que só mesmo um segundo prémio literário.
23.54
Sobrevivemos
a mais um dia. E que dia! A sério que chegámos a temer pelo pior.
Estamos exaustos de tanta electricidade. Agora, finalmente,
descansamos, no nosso poiso habitual, à porta de casa. Somos mais do
que uma caixa de ressonância, sabem? Somos assim uma espécie de
contentor. Por isso ainda sentimos as vibrações todas dentro da
camurça que nos reveste. A casa está em silêncio, provavelmente
todos dormem, já. Menos nós, que com este tornado entranhado na
pele torna-se impossível. Ainda estamos de nervos em franja com tudo
o que acabou de acontecer. Não foram só os telefonemas. Imagens no
computador. Mensagens da família, dos amigos, e de muitos outros que
nem sequer conhece. Foi isso que a comoveu mais, essa enxurrada de
gente a dar-lhe os parabéns. E as poucas notícias de jornal que
conseguiu ver deixaram-na zonza, com aquela sensação de
irrealidade, de estar a sonhar, de achar não ser possível isto
estar a acontecer. Mas está. Os pés sabem-no, melhor do que
ninguém. Os pés são quem sustenta, quem permite o equilíbrio,
ainda que o chão se incline, ou se abata, ou desapareça. E nós
somos a sua casa, o seu porto de abrigo, o seu aconchego. A cabeça,
coitada, faz aquela pergunta parva, será que o coração aguenta?
Qual quê! Quem aguenta somos nós! Sim, que de tanto os albergar,
chegamos a confundir-nos com eles, os nossos inquilinos. Confusão de
identidades. Isto agora dava para aqui uma palestra de Psicologia,
mas essa parte, desculpem lá, é areia de mais para a nossa
trotinete. Essa coisa das psicologias fica mesmo só lá na cabeça.
Pobre cabeça.
(publicado no Diário do Jornal de Letras de 30 de Outubro de 2013)
quinta-feira, outubro 31, 2013
Retrato em branco e preto
Essa fotografia morava numa prateleira alta de um armário em casa dos meus avós. Nessa altura todas as prateleiras eram altas. Eu pedia para vê-la, e a minha avó fazia-me sempre a vontade. Tirava-a da estante e, sentando-me no colo, ajudava-me a encontrar a embrulhadinha. A embrulhadinha era uma menina, assim da minha idade, acho até que com a mesma cara (pelo menos o cabelo era igual ao meu), que espreitava do meio da pequena multidão que me olhava da fotografia. Tinha uma manta ou um cobertor a envolvê-la, e por isso estava embrulhada, aconchegada, tapadinha, como se dormisse, mas em pé. Daí o nome, embrulhadinha. Era uma excitação procurá-la no meio de todas aquelas caras de gente crescida, olhos negros e bocas murchas, tezes cinzentas e cabelos, barbas e bigodes escurecidos pelo preto e branco. Cada figurinha tinha o tamanho da ponta do meu dedo mindinho, e havia tantas, lado a lado, em carreirinhas, que encontrar fosse quem fosse já era uma proeza.
Ainda hoje não sei quem eram aquelas pessoas. Talvez uma grande família, talvez até da família, um rebanho de primos e primas desconhecidos. Só me lembro que eram muitos. E que tinham todos um ar desolado. Pensando bem, talvez não fossem da família, de gente sempre bem-disposta, com o riso e o sarcasmo ao canto da boca. Ou talvez fossem daquela outra parte da família, mais sombria, que espreita escondida dos sorrisos e das gargalhadas, e que todas as famílias têm e não sabem.
Desconheço também se a embrulhadinha existia mesmo ou se era produto da minha imaginação. Se era, a minha avó disfarçava muito bem. Sentava-me ao colo e com dedos pacientes acompanhava-me naquela maravilhosa aventura em busca de uma fisionomia no meio de tantas, uma agulha num palheiro, com aquela paciência de que só as avós são capazes. Eu nunca a conseguia encontrar e eram os dedos dela que me indicavam a carinha que eu tão bem conhecia, uma cabecinha minúscula espreitando do embrulho que os cobertores amparavam em redor do seu pequeno corpo. Olhava-a, extasiada, e conseguia sentir o abraço quentinho do cobertor de lã em volta dos meus ombros; eu, que detestava os casacos de lã que me picavam os braços. O retrato era então colocado de novo no seu lugar, no alto da prateleira, até ao momento em que, de olhos suplicantes, pedia de novo para ver a embrulhadinha. Às vezes a minha avó não estava por perto e eram outros os dedos que me acompanhavam. Quero crer, porém, que esses outros dedos não possuíam a mesma perícia para encontrar a tão amada figurinha e que, as mais das vezes, o meu desejo ficava encolhido no peito, qual um passarito assustado pela imensidão dos céus. Mas talvez apenas não soubessem fingir tão bem como os da minha avó.
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Ainda hoje não sei quem eram aquelas pessoas. Talvez uma grande família, talvez até da família, um rebanho de primos e primas desconhecidos. Só me lembro que eram muitos. E que tinham todos um ar desolado. Pensando bem, talvez não fossem da família, de gente sempre bem-disposta, com o riso e o sarcasmo ao canto da boca. Ou talvez fossem daquela outra parte da família, mais sombria, que espreita escondida dos sorrisos e das gargalhadas, e que todas as famílias têm e não sabem.
Desconheço também se a embrulhadinha existia mesmo ou se era produto da minha imaginação. Se era, a minha avó disfarçava muito bem. Sentava-me ao colo e com dedos pacientes acompanhava-me naquela maravilhosa aventura em busca de uma fisionomia no meio de tantas, uma agulha num palheiro, com aquela paciência de que só as avós são capazes. Eu nunca a conseguia encontrar e eram os dedos dela que me indicavam a carinha que eu tão bem conhecia, uma cabecinha minúscula espreitando do embrulho que os cobertores amparavam em redor do seu pequeno corpo. Olhava-a, extasiada, e conseguia sentir o abraço quentinho do cobertor de lã em volta dos meus ombros; eu, que detestava os casacos de lã que me picavam os braços. O retrato era então colocado de novo no seu lugar, no alto da prateleira, até ao momento em que, de olhos suplicantes, pedia de novo para ver a embrulhadinha. Às vezes a minha avó não estava por perto e eram outros os dedos que me acompanhavam. Quero crer, porém, que esses outros dedos não possuíam a mesma perícia para encontrar a tão amada figurinha e que, as mais das vezes, o meu desejo ficava encolhido no peito, qual um passarito assustado pela imensidão dos céus. Mas talvez apenas não soubessem fingir tão bem como os da minha avó.
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quinta-feira, outubro 17, 2013
Coisas de família
Preguiça? Talvez não seja preguiça. Talvez seja pudor. Tenho pudor de entrar para dentro da cabeça deste homem. E quem diz cabeça, diz qualquer outra parte do corpo. E porquê? Ora porquê, porque é ele o personagem principal da história (da estória e da história, até se devia inventar uma palavra para englobar as duas - hestória?), afinal é em torno dele que a terra gira, ou melhor, que a história gira, e sim, apesar de também ser uma invenção, na hora de inventar é à realidade que vamos colher, ou beber, ou o raio que o parta; a verdade é que estou mesmo à rasca, caramba, cresci a ouvir histórias sobre ele à minha avó e outras pessoas, com o retrato dele ao lado do telefone preto e pesadíssimo, na estante, quando ainda nem sabia quem era aquele rosto e que um dia iria escrever sobre ele, e depois há aquela espécie de aura à sua volta (será que isto já sou eu?), assim quase como se se tratasse de um santo, solteiro e sem filhos, ainda por cima. Um patriarca da família e da terra que o viu nascer, um benfeitor, uma espécie de mecenas; um empreendedor, republicano; um grande homem, em suma; e como é que se escreve sobre um grande homem? Não, esperem lá, não é esta a pergunta, porque escrever até se escreve; não há nada mais fácil do que escrever apenas - mas como é que se salta para dentro da cabeça de um homem assim? E quem diz cabeça diz qualquer parte do corpo.
Ora eu, que de santa não tenho nada, e muito menos de benfeitora, ou coisa que o valha, está-me cá a parecer que, se era mesmo da família, havia de ser uma criatura simples, como toda a gente que nos conhece sabe que somos. Uma criatura simplesmente humana. E que o melhor é deixar-me de merdas.
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As voltas que a estória deu

Não, ainda não comecei. É difícil. Tem sido difícil. Tenho vindo a aproximar-me dele através dos olhos de outras pessoas, personagens que inventei. Sempre a vê-lo de longe, de ângulos fugidios, às vezes mais perto, às vezes quase que. Mas as mãos sempre outras. As estórias, a girar em volta dele, numa espiral elíptica, em velocidade ciclónica. Agora é tempo enfim de lhe ouvir a voz, de lhe experimentar os sapatos, de lhe tecer os passos. Tem sido difícil, as vozes ficaram de súbito em silêncio. As vozes do rio, lembram-se? É essa a primeira página do diário, o tal diário que se perdeu e que eu renasci das cinzas. Um diário de viagem; nesta caso, a viagem de um homem ferido e apaixonado, que se reencontra noutro continente, lá longe, abaixo da linha do equador, onde o sol brilha mais. Imaginei-o um homem apaixonado, ou um homem de grandes paixões, se quiserem. Acho que um grande homem tem sempre um coração grande, e um coração sem paixão não sobrevive. Estou a revelar coisas que se calhar não devia, porque a surpresa é mestra do entusiasmo, por isso vou-me calar e relembrar as vozes do rio. Talvez ainda mude o título e passe a chamar-lhe assim, simplesmente, as vozes do rio.
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domingo, julho 14, 2013
Palavras duras
Palavras duras magoam mais
a boca e o peito de onde saem do que os ouvidos que atingem.
Porque antes de saírem
pela boca fermentaram na corrente sanguínea anos e anos, e por isso
se tornaram duras, pedras, cristais opacos de raivas e rancores
antigos. Quem as guarda prefere calar-se e engoli-las, porque a dor
que provocam ao sair é muito maior. Estilhaçam o peito e rasgam a
boca com as suas arestas cortantes e precisas. E, se por acaso saem
dos dedos, deixam-nos dormentes, ausentes das mãos, inertes e
inúteis como bocados de carne seca.
Pela primeira vez na vida,
abrimos o coração, escancaramos a porta, e a dor é imensa. E do
lado de lá, apenas a fecham de novo. Sem uma palavra nem outro gesto
que não a recusa. E é apenas isso.
domingo, junho 09, 2013
Uma forma de silêncio
As pessoas acham que o crochet é uma arte, e elogiam-lhe a habilidade. Estão enganadas, porém. O crochet não é uma arte, é antes uma forma de silêncio. Uma forma de transformar a perda de tempo em algo útil e agradável ao toque e à vista. O crochet pode ser também uma forma de masoquismo - porque os dedos chegam a doer tanto que às vezes se torna insuportável. Só ao princípio. Com a prática passa. E se for uma prática diária a dor acaba por ser esquecida, incorporada ao trabalho dos músculos. Exactamente como as mágoas que se calam, para que não manchem a brancura do fio de algodão. Eu aprendi a "arte" do crochet aos 6 anos, acho. A minha avó que me ensinou. Naquela altura usava-se a linha coração. Aprendi a juntar malhas ao mesmo tempo que aprendi a silenciar o coração. Na garganta as palavras morriam, engolidas à pressa, e ao passarem para a corrente sanguínea, no processo digestivo, acabavam enchendo o coração de não ditos, de gritos, que lentamente desciam aos dedos em movimentos sincopados e precisos, um aberto, dois fechados, três abertos, três fechados. E assim se tecem as mágoas, uma a uma, com persistência, muita paciência, e algum carinho. No fim, as palavras, as mágoas, as lágrimas, estão lá todas. Silenciosas, umas a seguir às outras, saídas do delírio dos dedos. Cordão de silêncio. Malhas de silêncio. Seca. Paus. Uns, apanhados debaixo das árvores; outros, quase do tamanho de troncos. Árvores de silêncio. Folhas, mãos em ramos ao vento. Silêncio que tudo ouve. Silêncio que tudo cala. E tece, apenas isso. Mais nada.
terça-feira, maio 21, 2013
Espelhos mágicos
Lembro-me de ser pequenina e ficar assombrada com a imensa multidão que me fitava do lado de lá dos espelhos mágicos, no quartinho de provas da loja do meu avô. Tudo me fascinava ali, desde as estantes até ao tecto carregadas de tecidos de cores lindas, às gavetas e gavetinhas recheadas de pequenos tesouros – agulhas, dedais, carrinhos de linha, de tantas cores (nem eu sabia que existiam assim tantas cores). O corredor escuro, interminável – que afinal é tão pouco profundo – atafulhado de peças de roupa penduradas em cabides, distribuídos ao longo de compridos varões, onde adorava esconder-me – e depois havia um recanto atrás de umas cortinas, uma espécie de vão onde se empilhavam caixas e mais caixas cheias de maravilhas. Hoje vejo que são apenas caixas de sapatos.
Os espelhos mágicos encontram-se em paredes opostas, virados um para o outro, exactamente na mesma posição, e é esse pormenor que cria a ilusão de óptica – uma fila interminável de imagens iguais, prolongando-se até ao infinito. Cem, mil, um milhão, uma infinidade de eus que me ofuscavam a razão.
segunda-feira, abril 22, 2013
Amigo
Há muitos anos atrás, morria-lhe um amigo, e a vida nunca mais foi a mesma. Um amigo daqueles que, se hoje estivesse vivo e ainda que não se vissem há anos, a conheceria por inteiro. Amigos desses são raros, mas existem: sabem quem somos, conhecem-nos por dentro e por fora, não precisam de justificações nem de pedidos de desculpa, e estão sempre connosco, ainda que a última vez que nos tenhamos visto tenha sido há mais de 20 anos. Amigos desses não morrem. Nunca os deixaremos morrer.
sexta-feira, março 15, 2013
sábado, fevereiro 23, 2013
10 anos
10 anos passam num ápice. 1 ano passa a correr. 1 dia é o tempo do sol. E cada segundo, uma eternidade.
(19 de Fevereiro de 2013)
(19 de Fevereiro de 2013)
O folhetim das novas tecnologias (e não só)
E o que lhe interessa, afinal, o que as pessoas pensam? Se lêem ou se não lêem? Se acham que tem uma imaginação doentia? Se pensam que está maluquinha? O que é que isso muda na sua vida? Está tão farta de ver os amigos aos status. O que gostam, o que pensam, o que dizem, o que ouvem, o que comem, o que vomitam, o que cagam. Os amigos querem-se ao vivo e a cores. Olhos nos olhos. Que é para percebermos logo o que estão a pensar. Ou o que não estão a pensar. Os silêncios. As músicas. Os vídeos. As anedotas. As fotografias. Isto dava uma telenovela, um filme. Um melodrama. A vida está-se nas tintas para essas merdas. Ela, se pudesse, também. Porque, para ela, os amigos não têm nada de virtual. O que é virtual e aberrante é as pessoas não se falarem, não se tocarem, não se verem, não se enxergarem, não se conhecerem. O que é aberrante é ela não poder dizer o que pensa, o que sente. A rendição coletiva às aparências. A vida aos quadradinhos. As máscaras. O carnaval. E depois os silêncios. Ou as palavras. Tentar decifrar as entrelinhas. Será que pensam que está maluquinha? Ou que tem uma imaginação doentia? Um exercício penoso, absurdo, maquiavélico. Mas a vida está-se nas tintas para essas merdas. A vida é só uma, e é para quem ousa pegá-la pelos cornos. Os que não ousam podem sempre contentar-se com a merda do folhetim.
Palavras de fogo
Tanto que ela queria dizer-lhe aquilo, e as palavras ardiam, mordiam, comiam-lhe as entranhas, esburacavam-lhe o peito de soluços. Tanto que ela queria dizer, e nada, e tudo, e a vida, e todas as vezes que se calou e aguentou, sempre muda, sempre aflita. A vida uma pirómana inconsequente, e ela uma aprendiza nata, uma freirinha de colégio, uma santinha de altar. Ela a tossir e a espirrar e a pedir perdão por existir, e a vida a rir-se e a correr-lhe sempre à frente. Ela de rastos, e a outra alta, em cima do salto, pontas, bailarina. Tanto que ela quis parar, deixar-se morrer; mas parar não podia, e morrer, morrer não sabia. O amor um castigo, porque inalcançável, e cego, e sombrio. Assim o canto das almas e dos espíritos; o canto de uma casa abandonada, o canto de uma sala fechada. Poder abraçar-te, meu amor, e dizer-te baixinho ao ouvido, muito baixinho, nunca fui virgem. Já nasci usada, gasta, estilhaçada. Nasci sulcada de rugas e de vales abertos na pele; rios sem curso nem foz; desertos sem areia. Nasci ave, nasci cobra, nasci rosa de espinhos; nasci árvore, nasci mar, nasci lua. Tanto que queria dizer-te, meu amor, que não esperes, que não desejes, que não acendas. Eu sou a escuridão e dela sou filha e escrava e reclusa. Como posso amar se as pernas e os braços não me pertencem? Se o coração não me cabe no peito? Se as palavras ardem, e mordem, e comem o que resta da voz?
domingo, janeiro 13, 2013
Palavras proibidas
As palavras dela chamavam
o vento, enfureciam os mares e escureciam os céus. Incendiavam as
matas, atiçavam as feras, convocavam os demónios e enfraqueciam os
espíritos. Faziam ferver o sangue nas veias dos incrédulos,
alteravam o ritmo cardíaco dos mais fracos, congestionavam as vias
respiratórias dos asmáticos. Convulsionavam o centro da terra,
provocando tornados e maremotos, derrocadas e terramotos. Acordavam
vulcões adormecidos, e até, quem sabe, podiam detonar cataclismos nucleares. Por isso, fez a única coisa que havia a fazer. Calou-se
para sempre.
terça-feira, janeiro 08, 2013
Duras como pedras
Falar para uma parede é das coisas mais frustrantes, tristes e sem esperança, que há. Principalmente quando a parede, para além de ouvidos, tem boca, olhos, rosto, braços, pernas, tronco e coração.
segunda-feira, dezembro 24, 2012
Desejo de Natal
Há muito tempo que não peço nada ao Pai Natal. Hoje, no entanto, vou pedir algo muito especial. Pai Natal, olha bem para mim. Vê-me com olhos de ver. Não tenho vocação para mártir, muito menos para vítima; já chega de provas de fogo. Só quero ficar em paz, não entendes? Sou uma pessoa igualzinha às outras, fico feliz com pequenos gestos, que afinal são os grandes gestos, e dói-me quando me magoam. Tenho a minha quota parte de defeitos, como é evidente; não sou perfeita. Erro, e caio, e levanto-me. Mas sei quem sou, e o que não sou é falsa, dissimulada, hipócrita ou vingativa. Aquilo que digo é a verdade do que sinto; aquilo que pratico tento que esteja em concordância com essa verdade. Tudo aquilo que quero neste momento é paz; paz para mim e paz para todos aqueles que, como eu, tentam levar a vida o menos dolorosamente possível. Viver é muito bom, mas também dói. Não nos podemos divorciar da dor. Sofremos, e temos todo o direito de o expressar. Temos o direito de nos indignar, zangar, revoltar. E dizer basta. É isso que eu queria, Pai Natal. Ter o direito de me zangar. Ter o direito de dizer o que sinto. E que as pessoas me olhassem como alguém que tem esse mesmo direito. Sem me julgarem. Sem me rotularem. Quem me conhece sabe quem eu sou. Quem não me conhece julga-me e rotula-me. A minha dor conheço-a eu, mais ninguém. E, neste momento, arrogo-me o direito de cuidar de mim, e da minha dor.
Aquilo que eu no fundo queria, Pai Natal, era que deixasses um bocadinho de lado esse teu disfarce de barrete vermelho e barbas brancas, e te tornasses apenas um pouco mais pai. Que deixasses de dar prendas aos meninos com base no seu bom comportamento e obediência ao longo do ano, e olhasses mais para as crianças que aí estão, espalhadas pelo mundo. Que olhasses para a tua criança, aquela que ainda tens dentro de ti, e pudesses estender-lhe a mão. Esquece os presentes. As coisas mais importantes desta vida não são coisas. Cada um de nós tem uma voz que tem de se fazer ouvir. Essa é a prenda que a humanidade precisa. Coragem para dizer o que sente, força para lutar no que acredita, e intolerância máxima com as injustiças. Liberdade para se ser aquilo que se é.
Mas isso é uma coisa que tu nunca aprendeste, não é, Pai Natal?
Aquilo que eu no fundo queria, Pai Natal, era que deixasses um bocadinho de lado esse teu disfarce de barrete vermelho e barbas brancas, e te tornasses apenas um pouco mais pai. Que deixasses de dar prendas aos meninos com base no seu bom comportamento e obediência ao longo do ano, e olhasses mais para as crianças que aí estão, espalhadas pelo mundo. Que olhasses para a tua criança, aquela que ainda tens dentro de ti, e pudesses estender-lhe a mão. Esquece os presentes. As coisas mais importantes desta vida não são coisas. Cada um de nós tem uma voz que tem de se fazer ouvir. Essa é a prenda que a humanidade precisa. Coragem para dizer o que sente, força para lutar no que acredita, e intolerância máxima com as injustiças. Liberdade para se ser aquilo que se é.
Mas isso é uma coisa que tu nunca aprendeste, não é, Pai Natal?
domingo, dezembro 23, 2012
Saudades
Tenho umas saudades quase viscerais dos natais da minha infância, na casa dos meus avós. Desde a preparação, em que a minha avó, a Mariana e eu passávamos tardes inteiras na cozinha, a Mariana a tratar das refeições, eu e a minha avó a fazer bolos. Eu batia a massa e ela segurava na tijela, e só pegava na colher de pau quando, depois de juntar a farinha, a massa se tornava demasiado dura para os meus braços de criança. Tenho saudades da comida, que consigo ver e cheirar se fechar os olhos: o arroz de pato, o lombo de porco, a cachola, o bacalhau no forno. E dos doces: o leite creme, primeiro uma coisa amarela muito clara numa tijela branca, que o ferro em brasa transformava em laivos castanhos e negros, de aspeto e cheiro apetitosos; dos bolos (de caramelo, das nozes, mármore), do arroz doce, das farófias, do nógado da Lucília, das filhoses e das fatias. Do salame que a Tatá trazia embrulhado numa prata, da mousse de ananás que a Titi fazia. Tenho saudades de nós todos à volta da mesa; das vozes do meu avô e do Aníbal em cantorias, da minha avó e das minhas primas com a preocupação dos últimos preparativos, do Rui e do Jorge a contar anedotas, ou melhor, do Rui a contar anedotas e do Jorge a tentar ter mais piada do que ele (perdoem-me a sinceridade), o que era um disparate, visto tanto um como outro terem a sua piada; das badaladas do relógio da sala de hora a hora, de estarmos ali todos à volta da mesa, que ainda hoje me pergunto como é que conseguia caber tanta gente naquela sala apertada, e de nem sentirmos o frio, aquele mesmo frio que nos trespassava a coluna vertebral mal abríamos a porta.
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