sexta-feira, novembro 28, 2014

O Escritos & Escritores, em Avis

Sexta feira, 17 de Outubro. Viagem Lisboa – Avis. Chegámos pela hora do almoço. O Clube Náutico tem uma vista deslumbrante sobre as águas da albufeira.  A comida é caseira, muito bem confeccionada. Durante o almoço, travámos conhecimento com alguns dos membros da ACA – Amigos do Concelho de Avis que tão bem nos acolheram durante o fim-de-semana que durou o encontro. Eu e Fernando Dacosta éramos os primeiros convidados a chegar. Fernando Dacosta está sempre a contar histórias. Para além de conhecer praticamente todos os nomes da grande literatura contemporânea, conviveu com figuras como Agustina Bessa Luís, Natália Correia, Agostinho da Silva, Ramalho Eanes, Raul Solnado, só para citar uns poucos. Chegou mesmo a entrevistar Salazar, o que lhe traz um manancial de histórias de que jamais me cansarei de ouvir.

A tarde de sexta feira estava reservada às escolas. Fui para a Escola Básica nº 3 Mestre de Avis, onde fui calorosamente recebida na Biblioteca Escolar. A conversa com os miúdos não podia ter corrido melhor.

 Falar para miúdos destas idades não é fácil, ouve-se constantemente. Concordo, porque os miúdos são exigentes e desinteressam-se facilmente. O que não é o mesmo que dizer que não se interessam por nada. Acho que os jovens de hoje em dia não são nem mais nem menos interessados do que os de há trinta anos; o que há, que dantes não havia, é um excesso de informação disponível. A informação, no entanto, quanto a mim nunca é de mais; porém há que saber seleccioná-la, enquadrá-la, adaptá-la e, mais importante, transcendê-la, isto é, ir à procura de nova informação ou mesmo recriá-la, com o conhecimento de que já se é possuidor. O processo de triagem é de extrema importância e revelador da habilidade de distinguir o essencial do acessório. Exige um bom domínio das capacidades de pensamento. A escola, por conseguinte, não se pode limitar a transmitir conhecimentos; os miúdos precisam, acima de tudo, de aprender a pensar, desenvolver ideias próprias e questionar o próprio conhecimento.

Enquanto eu falava para os miúdos, chegava a notícia de que o prémio Leya deste ano foi atribuído a um trineto do Eça de Queiroz. Engraçado, porque eu estava a contar-lhes de como tentei, com 10 anos, ler a Tragédia da Rua das Flores, e desisti. Os miúdos fizeram montes de perguntas. Era essa a função deles ali: a de repórteres. Depois terão de fazer um trabalho, uma reportagem, sobre o que ouviram. Comportaram-se à altura. Houve alguns risinhos, como é próprio. Aliás, quando me pediram para ler um excerto do livro, escolhi de propósito o começo da primeira voz, em que o Zé Eduardo, mais ou menos da mesma idade do que eles, se queixa do facto de não conseguir conter o riso. Expliquei-lhes que a acção se passa em 1954, onde falar à mesa já era uma transgressão severamente punida; imagine-se então o que seria rir num velório. Acho que eles entenderam perfeitamente, porque há certas coisas na vida que atravessam séculos e gerações, e uma delas é a apetência dos adolescentes para rir nos momentos menos próprios. Esta minha personagem foi criada precisamente a partir desse sentimento de querer conter o riso e não conseguir, e de tentar imaginar o que seria viver isso naquela época.

Sábado, 18 de Outubro. Depois de um avantajado pequeno almoço no Clube Náutico, o segundo dia da 6ª edição do Escritos & Escritores começou com Chave de Ouro: um grupo de miúdos com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos leram textos e poemas inéditos, dos quais eram autores. Posso dizer, sem sombra de dúvida (e não estarei a exagerar) que foi o melhor momento do Encontro, tanto pela qualidade da escrita, como pelo que ela representa: o interesse, a criatividade, a dedicação, a capacidade e o potencial das nossas jovens crianças e adolescentes, características de que tantas vezes duvidamos.

O Encontro congregou um pequeno grupo de escritores, no qual eu estava incluída: Maria João Forte, Renato Valadeiro, Maria José Fraqueza (que de fraqueza só tem o nome, como ela própria diz), Lurdes Aguiar Trilho, Sandra Neves, António Manuel Venda, Afonso Cruz, Sandro William Junqueira, Nuno Costa Santos e Fernando Dacosta. Alguns dos nomes dispensam apresentações, outros, menos conhecidos, não deixam por isso de ser menos valiosos: pessoas que se dedicam à escrita de contos e poesia, vencedores de várias edições de Jogos Florais organizados na localidade. E não posso deixar de referir José Máximo, que aos 89 anos de idade nos brinda com os versos saídos do seu lápis, que têm a mestria de um poeta popular, e que a mim me fizeram lembrar os do saudoso António Aleixo e tantos outros mestres da palavra, nascidos na dureza do trabalho nos campos, em tempos que já lá vão.

O público, tenho de o dizer, era escasso. Mas, em contrapartida, gerou-se um pequeno grupo muito interessado e participativo. O melhor foram sem dúvida as conversas, à volta dos livros e da leitura, das palavras, da poesia, e as outras, à volta da mesa e regadas a bom tinto da região. O melhor de tudo foram as amizades que nasceram, as histórias que se contaram e ouviram, umas com espanto, atenta curiosidade, alma e respeito, outras com um sorriso ou mesmo gargalhadas. Houve momentos hilariantes e descontraídos, outros houve de assombro e afinado escutar. Trocaram-se ideias, experiências, opiniões e pontos de vista, como convém. E também olhares, e sorrisos, e gestos, e humor, em suma, todos aqueles ingredientes necessários à comunhão humana.

E agora, uma palavra aos escritores, aos leitores, aos jornalistas, aos editores, em suma, a toda a gente ligada ao mundo da Literatura em Portugal: o Escritos & Escritores possui tremendas potencialidades. Tem à cabeça, um grupo empenhado, cheio de ideias e vontade de fazer algo pela cultura, como é a ACA – Amigos do Concelho de Avis, que com pouquíssimos e inconsistentes fundos de apoio organiza e leva para a frente um evento desta natureza, recebe os convidados com uma hospitalidade e dedicação exemplares, assegurando-lhes todas as despesas envolvidas na estadia, deslocação e alimentação, demonstrando um esforço, não só financeiro, mas empreendedor, notável, promotor da cultura nas escolas e junto das populações locais. Avis é uma Vila lindíssima, palco e protagonista de um passado histórico de relevo, de gente acolhedora, rica gastronomia e belas paisagens. Possui infraestruturas de excelência, como um vasto auditório, onde, sábado à noite, nos foi dado assistir a uma produção do Grupo de Teatro A Fantasia, Versejando, que se revelou “uma viagem através das palavras dos poetas do Concelho de Avis”, como está escrito na sinopse. Este auditório seria o palco ideal para um evento literário à escala do que acontece na Póvoa do Varzim com o Correntes ou em Penafiel com a Escritaria, porque os ingredientes estão lá todos: uma equipa de excelência e um grupo de escritores e poetas empenhados e dispostos a fazê-lo crescer. O que falta é a atenção do País e do público interessado. Por isso, aqui deixo o meu apelo, a todos aqueles que fazem dos livros e da Literatura a sua paixão ou profissão. Portugal, os Livros e a Cultura agradecem.

quinta-feira, novembro 20, 2014

O prémio Leya

Eu sou nova nestas lides, e por essa razão às vezes sinto-me um pouco inibida em expressar a minha opinião. A sensação que tenho é a de quem entra numa sala cheia de gente, dividida em pequenos grupos que conversam entre si, uns a falar mal dos outros, outros em amena cavaqueira; uns em animado diálogo, outros monologando, convencidos que dialogam; uns a olhar para o lado, outros a olhar para o umbigo, e alguns (poucos) a olhar os olhos do seu interlocutor. Bom, e no meio desta confusão não sei o que fazer, sento-me num canto e fico a observar, prefiro ficar calada quando não tenho nada para dizer.

A verdade é que ando aqui na minha vida de todos os dias, quase não leio jornais portugueses, a maioria das coisas que me chegam ainda é através do facebook, e, confesso, não tenho tempo nem pachorra para certos maldizeres sem fundamento. Mas de vez em quando lá se esbarra com a coisa e ultimamente estes encontros imediatos têm-me deixado a pensar e a falar comigo própria, numa tentativa de gerir alguma perplexidade.

Quando li a opinião do Nuno, o meu brainstorm interno ganhou novo alento. Afinal, não era só eu a indignar-me. O Nuno foi capaz de pôr em palavras as minhas próprias ruminações sobre o assunto. E mais. Eu não conheço o Nuno, mas pelo que me é dado ver, é uma pessoa sem pretensões e com alguma dose de humildade: ganhou o prémio Leya com um livro excelente; repito: excelente, e aquilo que lhe apraz dizer é que reconhece que não escreveu um livro perfeito. Quem escreve está normalmente familiarizado com o exercício de constante tentativa de melhoramento, e como tal sabe que a perfeição não existe; a questão não é essa: todos, uns mais do que outros, somos capazes de auto-crítica, mas dizê-lo assim, em voz alta, não é para todos.

O mais importante do prémio Leya, para quem o ganha, não é o dinheiro: é a escolha do júri. É o facto de aquele grupo de pessoas distinguir o nosso livro no meio de 5, 7, ou 10, e as razões para tal não passarem pela nossa idade, género, cor dos olhos, a família onde nascemos, a posição social que ocupamos, ou o facto de já sermos ou não um escritor de renome, e sim, e tão só, a qualidade da obra a concurso. E isso, já ninguém nos tira, digam o que disserem. Os membros do júri são pessoas de elevado mérito dentro do mundo da literatura, merecedoras de toda a credibilidade e excelência em matéria de apreciação e crítica literária. Não faz sentido nenhum que se dediquem a premiar livros de baixa qualidade, ou mesmo mediana. Não faz sentido, e, quanto a mim, é de extrema presunção e mau gosto sugeri-lo. Mas quem sou eu, não é verdade?

sábado, novembro 15, 2014

O meu texto sobre o Escritos & Escritores

Faz hoje um mês que parti para Lisboa, rumo a Avis, para participar no Escritos & Escritores, que envolve, para além das conversas entre os escritores e o público, idas às escolas para falar com os alunos. Foi o primeiro encontro no qual participei na qualidade de escritora premiada com o Leya 2013, como tal a minha experiência anterior em eventos deste tipo era nula. Isso, no entanto, não me impediu de reconhecer o empenho, o esforço e a excelência com que a ACA - Amigos do Concelho de Avis, leva a cabo a organização deste acontecimento, contando com apoios escassos e irregulares das entidades que, poderiam, de facto, fazer a diferença em termos de investimento financeiro - já que do investimento humano, da vontade e da ajuda desinteressada, este evento não carece de modo nenhum, antes pelo contrário. Ora, o que poderia eu fazer para, pela minha parte, agradecer tamanha generosidade e vontade de promover a cultura e a literatura? Escrever, como é óbvio, um texto onde dissesse isso mesmo, onde chamasse a atenção das pessoas para a realização destes pequenos grandes eventos, que sobrevivem graças à grandeza de equipas como esta. E depois de o escrever, publicá-lo num jornal onde pudesse ser lido pelo maior número possível de pessoas. Coloquei logo de lado a questão de ser paga, que experiências anteriores já me ensinaram que tal é considerado, na maioria dos meios de comunicação nacional, um mero capricho. Então nós oferecemos a divulgação do vosso trabalho, e vocês ainda querem dinheiro? (deve ser este o raciocínio). Mas adiante. Os jornalistas que contactei, tenho de o referir para não correr o risco de ser injusta, foram amabilíssimos e dispuseram-se a inquirir, junto das respectivas direcções, da possibilidade de publicação do texto. Aqui é que começaram as dificuldades. Aparentemente, algo que aconteceu ainda nem há um mês já é considerado passado remoto. Como tal, não interessa a ninguém. E a somar à perplexidade fiquei a saber que um dos jornais de maior reputação da nossa praça vai deixar de ter suplemento cultural. Assim, sem mais nem menos. E como tal não encontrou nenhum compartimento onde arrumar os meus sete mil e tal caracteres, ou pura e simplesmente também não achou interesse algum em divulgar um assunto desta natureza. Afinal, não é por acaso que eventos desta dimensão estão condenados à extinção. E é pena. Assim como é pena que Portugal se vá afundando desta maneira. É a imagem que, a esta distância, me surge: a de um titanic a afundar.
Estou à espera de uma última resposta, portanto, pode acontecer que o meu humilde testemunho ainda chegue à imprensa nacional. De qualquer forma, se não for por esta via, será por outra.

domingo, outubro 26, 2014

Regressos

Mudei o título do post de baixo, porque agora é que escrevo sobre o regresso. Ou os regressos. São quase cinco da tarde e a noite já se deita sobre os telhados. A última luz do dia a demorar-se no cinzento do céu. A hora mudou e daqui a poucos meses as noites vão entrar pelos dias sem pedir licença, levando-nos a tarde para um território longínquo. É o regresso ao inverno, que é longo e escuro a norte do hemisfério norte.

Ainda há pouco regressei do verão. Da Lisboa prenha de sol. Do calor alentejano. Do calor humano com que fomos recebidos em Avis. Mas acerca disso escreverei com mais detalhe. Por agora queria só mesmo dizer que vim de lá de coração cheio. E também de Leiria e da Arquivo.

Entretanto, a luz desmaia no céu, quase engolida pela noite. Passam sete minutos das cinco da tarde.

sábado, outubro 25, 2014

Invisível a olho nu

Lisboa estava bonita. O sol reflectido no vidro dos edifícios e nos olhos de quem passava. Jantei e almocei com amigos, fui ao cinema. O tempo é sempre pouco.
No táxi para o aeroporto, despedi-me da cidade e do calor. Das sandálias, dos pés magoados, das camisolas de verão e nenhum casaco. Na hora do regresso é quando sentimos como o tempo voa. E depois, em cima das nuvens, o mundo queda-se, quieto, distante, miniatural, e quem voa somos nós.
A senhora do check in olhou para o meu passaporte e soltou uma exclamação de surpresa. Ainda ontem estive com o seu livro na mão! Mais meia dúzia de palavras onde se misturaram sorrisos e parabéns. Eu não estou habituada a coisas destas. Depois no autocarro, outra senhora, as duas agarradas ao mesmo varão, e ela a segredar-me ao ouvido. É a Gabriela, não é? De novo os parabéns, e de como gostou do livro, e tanta coisa e tão pouca que se pode dizer em poucas e muitas palavras, e como isso pode fazer com que, de súbito, o nosso dia fique com outras cores.
Lá de cima, por entre as nuvens, percebemos como o nosso mundo é pequenino, e como a simples matéria que é a água, se pode transfigurar em névoa, campos de algodão, brancas paisagens do paraíso, e deixar o nosso mundinho oculto na vastidão do nevoeiro. Invisível a olho nu.

quinta-feira, setembro 25, 2014

Os 101 dálmatas e o silêncio dos inocentes

Lembram-se dos 101 dálmatas? Lembram-se dos cães de todos os jardins a ganir à lua, passando a mensagem do paradeiro dos cachorrinhos? Pois bem, essa estória não se pode ter passado em Londres. Pelo menos, esta onde vivo.

Ora, estava eu uma noite na cozinha, quando sou surpreendida por um ladrar a rasgar o silêncio. Parei imediatamente o que estava a fazer, e pus-me à escuta. Teria ouvido bem? Da sala chegava-me o som da televisão, e de repente novo ladrar, mais forte do que o anterior. Desta vez não tive dúvidas.

 O que é que isso tem de mais? Eu explico: sabem aqueles sons de fundo que não nos deixam usufruir do silêncio, que a gente às tantas confunde com o silêncio, e que só damos por eles quando de repente cessam, sem motivo? E os nossos ouvidos, já habituados àquele ruído branco e monótono, de súbito estranham, e ouvem... o silêncio?

Pois bem, o ladrar do cão teve mais ou menos o mesmo efeito nos meus ouvidos e cérebro. É que, quando o ouvi, estranhei. Um som tão familiar, era, súbita e inexplicavelmente, completamente estranho. E porquê? Porque, simplesmente, deixara de os ouvir. E não me apercebera ainda. Como o ouvido acostumado ao ruído, que confunde com o silêncio. Eu, foi mais ao contrário: confundi o silêncio com o ruído. O silêncio dos cães. Ainda não tinha reparado nele, até àquele ladrar.

É isso mesmo: os cães de Londres são inocentes silenciosos. Pura e simplesmente, não ladram. Mas como?, estão vocês agora a perguntar-se. Good question. A mesma que fiz, incrédula, ao meu marido, quando vim até à sala confirmar que aquele ladrar só podia vir da televisão!

 Claro que um especialista em treino de animais terá uma explicação lógica e coerente para esta questão. Para mim, contudo, permanece um mistério. Um cão a ladrar é a mesma coisa do que um coração a bater. E se há quem diga que "cão que ladra não morde", o que se poderá dizer de “cão que não ladra”?

 Reconheço que se todos os cães dos quintais em redor ladrassem até altas horas talvez fosse impossível dormir de todo, e prezo muito o sossego destas ruas. Mas faz-me confusão. Não paro de pensar nisto. Nos cães sem voz. No silêncio destes inocentes.

Por isso é que vos digo que aquela cena dos 101 dálmatas não se pode ter passado aqui, nesta Londres, onde os canídeos são mudos. Ou foi pura imaginação, ou foi antes de o latir ser proibido nas ruas.

domingo, setembro 21, 2014

Estrangeira

Acho que desconhecia o verdadeiro significado desta palavra até ao momento em que percebi que não só as pessoas à minha volta falam uma língua diferente: os gatos, os cães, as vacas, as ovelhas, os cavalos, também. É verdade, toda a criação fala uma outra língua.

A primeira vez que tomei conhecimento do facto foi com um simples espirro. Estava numa aula de inglês, onde aprendíamos algumas canções, e uma delas era a famosa:

"Ring-a-ring of roses 
A pocketful of posies 
A-tishoo! A-tishoo! 
We all fall down..." 

Estava a preparar-me para perguntar o que queria dizer aquela palavra esquisita, "A-tishoo!", quando de súbito os meus ouvidos entenderam, ao ouvir a música numa gravação. Afinal era um espirro!

De então para cá a surpresa tem sido constante e completa: os cães, nas raras vezes em que ladram, não fazem ão, ão! nem tão pouco béu, béu!, mas sim ruff, ruff! ou woof, woof! O miar dos gatos nem destoa assim tanto: em vez do miau, fru fru, temos um meow. Os passarinhos não piam, fazem tweet tweet! Os pintainhos, ‘tadinhos, produzem algo como cheep cheep cheep cheep… Os galos, quando acordam a vizinhança, produzem um som singular, qualquer coisa como cock-a-doodle-doo, que eu sempre que leio, à primeira vista, confundo com crocodilo. O cacarejar das galinhas não podia ser melhor: cluck cluck cluck cluck! Já os pirúns, em vez do famoso glu-glu-glu-glu soltam um gobble gobble gobble! Os patos fazem quack quack. Menos mal. As ovelhas, Baaaaa! Baaaaa!, com ar desdenhoso. Quem é que se lembraria de lhes chamar memés, neste caso, babás? As vacas, no meio da ruminação, brindam-nos com um Moooooooo! Os burros, não sei se zurram ou não, com os seus hee haw. Os porcos, em vez de grunhir, emitem uns oink oink! As rãs soltam uns ribbit ribbit ribbit!, no meio dos charcos. E os leões berram roar!

Estão a perceber? É que eu até posso falar em inglês, escrever em inglês, pensar em inglês, quem sabe até, sonhar em inglês, e, apesar do sotaque revelar sempre a minha condição de forasteira, sentir-me mais ou menos em casa, com o passar dos anos. Mas o que nunca vou fazer, é espirrar como eles. Não, isso recuso-me. Não troco o meu atchim por nada deste mundo, muito menos por um a-tishoo. Nesse aspecto, serei sempre uma estrangeira, e obstinada.

quinta-feira, setembro 18, 2014

My darling

Em Inglaterra toda a gente se chama de querido sem se conhecer de lado nenhum. É perfeitamente natural utilizar o dear em contexto formal, nomeadamente nas cartas em que nós apenas nos atrevemos a utilizar o V. Exa para cá e o Exmo. Sr. para lá. Mas as coisas não ficam por aqui. Quando o carteiro vos traz uma encomenda registada, e se despede com um see you, sweetheart, não precisam de corar. E se a senhora do centro de saúde nos brinda com um my darling no meio da troca de palavras que medeia encontrar a nossa ficha no computador e fazer o registo, não, não está a atirar-se a nós. É que aqui toda a gente se trata assim, é normalíssimo! Ao princípio estranhei, até pensei que não tinha ouvido bem. My dear? Ele disse my dear?, pensei, enquanto falava ao telefone com um funcionário da British Gas. Imaginem o que é telefonarem para a Portugal Telecom ou para a EDP e de lá dizerem, Oh, querido, obrigada por ter esperado! Ou na farmácia o empregado dizer: Aqui está o seu pedido, amor, desculpe a demora!

Terei batido com a cabeça? Pensariam com certeza.

Não, queridos, não bateram. Eu já nem reparo quando o homem que vem fazer a leitura do contador ou atestar a caldeira se despede com um Cheers, love, apesar de o meu filho, de sobrolho carregado, poder indagar com ar desconfiado, why did he call you love? É que os genes, nestas coisas, não perdoam.

segunda-feira, setembro 15, 2014

O homem do xadrez

Ficava horas intermináveis sentado à mesa daquele café, tendo por única companhia um tabuleiro de xadrez. Jogava. Em silêncio, lentamente, como quem peneira a luz da tarde até esta se transformar em poeira fina de estrelas, lançada para cima do incêndio do crepúsculo. E assim o tempo passava, como passavam os burros no calor da estrada, lá fora, carregados de sacas a abarrotar de cereais e legumes, acompanhados por homens de idade curvilínea; ao mesmo tempo que a tarde se demorava nos pequenos remoinhos de vento seco que levantavam a poeira do chão. Jogava sozinho. Movia uma peça, e depois, com um suspiro, tomava a posição do adversário. Mas não se limitava a tomar o lugar do outro; aquilo exigia uma transacção plena de estados de alma. Para nos defrontarmos connosco próprios precisamos de vestir a pele do inimigo, dizia para os seus botões, enquanto os desabotoava. O xadrez é muito mais do que um jogo inocente de estratégias; o xadrez, é, acima de tudo, a essência da estratégia. Estratégia de quê?, ecoava-lhe o pensamento, e ele encolhia os ombros, sei lá, para o caso pouco importa; o que importa (e o peito dilatava) é a eficácia da estratégia. Ponto final.

Fazia estes diálogos consigo mesmo e sorria sem curvar os lábios, como se habituara desde sempre a sorrir. Hoje, se quisesse sorrir mesmo, um sorriso cravado nos músculos do rosto, a arrepanhar a boca, não conseguiria. Teria de fazer um sorriso forçado, daqueles que costumamos ensaiar ao espelho, e que nunca se comparam ao espontâneo, pois os músculos responsáveis por este são movidos por um reflexo involuntário. Desabotoado o casaco, despia-o, pousava-o nas costas da cadeira, e vestia o outro, o que repousava na cadeira à sua frente. Seguidamente, sentava-se nela, e estudava minuciosamente as peças dispostas no tabuleiro, enquanto se demorava a enrolar um cigarro (não fumava, quem fumava era o adversário). Então acendia-o com vagar, e puxava uma fumaça que o fazia soltar uma tossidela. E assim, completamente embrenhado no jogo e nas mudanças de campo, espalhava as horas no chão e ficava a vê-las rolar, como moedas lançadas no tampo de uma mesa. Não saberia dizer quantas; sabia apenas que, todas juntas, caberia nelas a vida inteira. Mas para ele a vida não era uma coisa inteira. A única coisa íntegra que ele conhecia (íntegra era uma palavra muito mais apropriada do que inteira) era a tão almejada estratégia.

domingo, setembro 14, 2014

O país dos contrários

À primeira vista parece que é só isso: os carros andam no lado oposto da estrada. Continuamos a pensar assim até ao momento em que nos sentamos ao volante, no lugar que, para nós, continua a ser o do passageiro. Já experimentaram? O que é que tem? É simples: lembram-se daquela sensação, pós tirar a carta, dos primeiros dias no trânsito? O nervosismo, a atrapalhação, a lentidão dos gestos, e estar constantemente a ouvir buzinas e nomes menos próprios? Porquê? Ainda não perceberam? Então vá lá que eu dou mais uma pista: se o volante está à direita, isso significa que a mão que se ocupa da caixa de velocidades é... isso mesmo: a esquerda! Mas as coisas não ficam por aqui, e o melhor é resumir assim: é tudo ao contrário (menos os pés, felizmente que não se lembraram dos pedais, que aí é que a gente dava em doida!), o que aí fazemos com uma mão, aqui fazemos com a outra, a saber: piscas, luzes, limpa pára-brisas, tudo, tudo, meus filhos, até aquele sinal que fazemos às pessoas paradas no passeio para lhes indicar que podem atravessar temos de nos habituar a fazer com a outra mão, é que não sei se estão a ver mas as pessoas também estão do outro lado da estrada. Pois, uma confusão. E há mais! Já pensaram nas mudanças de direcção? E as rotundas? É melhor nem dizer mais nada...


Quando me deparei pela primeira vez com um 20 e um 30 dentro de uns círculos pintados na estrada, pensei com os meus botões, isto deve ser a velocidade mínima, não pode ser a máxima! 20 à hora? Depois é que percebi, claro: não são 20 km, são 20 milhas, ou seja, cerca de 40 km por hora. É que neste país, apesar de oficialmente já terem aderido ao sistema métrico e a todos os outros sistemas universais, continuam a usar as milhas e as onças e os pés... Quem é que se lembra de medir alguma coisa em pés?

quinta-feira, setembro 11, 2014

Livros escolares? O que é isso?




Em Inglaterra, nas escolas primárias, não há livros escolares. As salas de aula estão cheias de livros: contos e rimas infantis, estórias com e sem ilustrações. Há-os em toda a parte, desde a creche ao sexto ano, devidamente adaptados à idade das crianças. Depois cada escola tem a sua biblioteca. Só encontramos livros escolares na escola secundária. Estes, no entanto, são propriedade da escola, e transitam de ano para ano, passando de mão em mão, entre os alunos.

Deste modo, é possível um percurso escolar sem gastos em livros. Com o material passa-se a mesma coisa: as salas estão repletas de gavetas cheias de tudo o que é necessário. Tesoura, cola, tintas, pincéis, papel, canetas, lápis, borrachas, afias, réguas, esquadros, compassos, transferidores, sólidos geométricos, papéis de fantasia para corte e colagem, jogos variados destinados a auxiliar a aprendizagem, tudo o que possam imaginar, está na escola. Os livros auxiliares são disponibilizados em fotocópias, e cada criança tem um caderninho de merceeiro, chamado «homework book», onde o trabalho de casa é anotado e feito.


Também não se fazem ditados para contar os erros. Fazem-se livros: primeiro escreve-se a estória, depois monta-se a estrutura: páginas, desenhos, lombada, capa, tudo cuidadosamente colado e cosido. Os mais novos controem livros em 3d, cujas páginas se transformam nas paredes de uma casa ou de um castelo; paredes cheias de desenhos de todas as cores e palavras ainda incertas, letras em espelho e muitos erros. Mas esses não se assinalam a vermelho, porque fazem parte do caminho da aprendizagem, e o mais importante é que a casa tenha bons alicerces. As crianças aprendem quando a sua capacidade de criar é valorizada. Quando vêem os seus trabalhos expostos e apreciados, ao lado do orgulho que a escola lhes alimenta nesse gesto. Quando os agentes educativos não têm medo de elogiar, não vão os miúdos ficar convencidos de que a vida é um mar de rosas. A vida é um mar que se conquista navegando.

quinta-feira, agosto 28, 2014

História sem memória

Não sei como me chamo, nem onde nasci, nem quantos anos passaram desde esse dia. Do tempo anterior a ter chegado vislumbro apenas uma névoa cinzenta, através da qual tento espreitar sem êxito. Perdi o rasto aos dias: num minuto cabem tardes inteiras. Como eu, há muita gente estendida nas inúmeras macas espalhadas em redor.

Tenho a cabeça apoiada numa almofada de palha húmida que cheira mal. A cabeça é a única parte do corpo que me sustenta. O resto – o tronco inchado, a bacia, as pernas cortadas acima do joelho e o braço direito – mal os sinto, estão sempre dormentes e não me obedecem.

As minhas duas pernas e o braço esquerdo de vez em quando vêm visitar-me de noite; o braço, coitado, atrás daquelas duas apressadas. Era assim que eu andava, sempre a correr de um lado para o outro. Adorava dançar, disso lembro-me bem, e até diziam que eu seria uma grande bailarina. Pouca sorte. Ouvi as mulheres que vêm dar-nos de comer dizer que pisei uma mina. Não sei o que é; só me lembro da avó Mina que contava estórias de bruxas e duendes aos meninos lá da rua.

Mas estava a contar-vos das visitas do meu braço e das minhas pernas, é através deles que tenho notícias da minha família e de outras coisas que entretanto esqueci. Vêm todas as noites, entram pela porta e começam logo a falar como se eu já estivesse acordadíssima à sua espera. E estou mesmo, não sei se é uma espécie de pressentimento. Na primeira visita assustei-me, acordei com uma mão a abanar-me e, quando abri os olhos, vi que o braço que a segurava não era de ninguém, pensei que fosse um fantasma e dei um grito.

«Acalma-te, ninguém te vai fazer mal. Então, já não nos conheces?»

Olhei a medo e reparei num par de pernas que saltitava em ritmos ondulantes de serpente, numa dança que logo reconheci como minha. Não conseguia dizer nada, o susto e o espanto petrificavam-me as palavras no peito.

«Somos nós, já não nos conheces? Não dizes nada? Viemos de tão longe só para te ver, e nem nos cumprimentas?»

Lá estendi como pude o braço que me sobrava, ao que a minha outra mão respondeu prontamente, sacudindo-me os ossos com uma energia incrível. Como é que consegue?, pensei, se para mim – com cabeça, tronco e membro – qualquer gesto é um martírio e pesa toneladas. Engraçado foi cumprimentar as pernas, que me estenderam os pés e logo fugiram, dando risadas de súbitas cócegas.

Explicaram-me que quando alguém morre vai para o céu, ou, melhor, a alma vai para o céu, e o corpo vai para o sítio dos mortos-vivos. O que é isso?, perguntei. É um sítio onde estão todos os corpos daqueles que já morreram. Corpos ou partes do corpo, como no meu caso; e, quando acontece reunirem-se várias que cheguem para formar um novo corpo, lá se dá esse milagre da natureza. Só que ainda não encontrámos par, desculparam-se, e vimos-te aqui tão perdida da cabeça que resolvemos vir ajudar-te.

Foi então que me falaram dos meus pais e irmãos, que tinham sido mortos no último ataque à aldeia. Já nem me lembrava de que havia uma guerra; mas que desmemoriada estás, filha, disse então o braço, não pode ser, temos de te pôr a par de tudo. Com a conversa, lá me fui lembrando de algumas imagens ténues e de palavras soltas no vento, avisos para termos cuidado e não irmos brincar na rua porque era muito perigoso, havia os tiros e as bombas. Nós não sabíamos o que isso era, mas de vez em quando ouviam-se estrondos que metiam tanto medo, que nem era preciso a mãe zangar-se para lhe obedecermos prontamente.

Depois desse ataque em que morreu a minha família, aliás como quase todos os vizinhos daquela e de outras ruas, contou o meu braço, enquanto as pernas iam acrescentando detalhes aqui e ali, os homens armados tinham entrado pelas casas matando tudo o que vissem mexer, e só escapei porque me escondi dentro do cesto da roupa suja, na casa de banho. Fiquei completamente só. Fui para a rua quando o silêncio tomou conta da noite, pisando os meus pais e irmãos mortos e deixando atrás de mim o maior rio de lágrimas da minha vida. Não chorava alto, como é próprio das crianças, apenas derramava lágrimas mudas, que a dor geralmente não mata mas mói, dizia a avó Mina, porém, quando mata é uma enxurrada sufocante que nos engole a alma e a vontade de gritar. Andei durante muito tempo, sem saber para onde ir…

«Quer dizer que o pai, a mãe e os manos também lá estão nesse sítio dos mortos-vivos? E posso ir vê-los?»

Era a primeira vez que dizia mais do que três palavras de seguida e eles ficaram animados; desde que tinham chegado que as suas caras, ou melhor, os seus pés e as suas mãos denotavam certa preocupação, quem sabe se por verem o meu estado de mais perto, que lá de cima deve ser um pouco difícil apreciar o espectáculo.

«Não, só os corpos deles, então na escola não te ensinaram isso do corpo e da alma? No sítio dos mortos-vivos há apenas corpos, que é como se fosse o invólucro da alma, percebes?»

Não me lembrava sequer de ter andado na escola; todavia, se as minhas pernas o afiançavam, só podia ser verdade, os meus pés conheciam os caminhos que eu trilhara melhor do que ninguém. Ainda insisti, não faz mal, quero ir vê-los, nem que seja só aos corpos, em questão de matar saudades o olhar é fundamental e a imaginação faz o resto; só de pensar em ver a minha família o meu peito já se desassossegava, ainda fraco de mais para aguentar o cavalgar de tantas emoções. Por isso, quando o coração disparou caí para o lado, o tronco tombou e a cabeça bateu na parede, o braço ausente impossibilitado de amparar a queda. Aquilo nem doeu, comecei a rir e o braço e as pernas também, enquanto a mão me levantava a cabeça e a encostava de novo à almofada.

Verdade se diga, não me lembro da cara dos meus familiares, talvez por isso deseje tanto vê-los. Às vezes até parece que também fiquei sem cabeça, tal é o manto branco que se avoluma para lá dos olhos. O meu braço e as minhas pernas, empenhados em prosseguir com o relato, nem ligaram ao meu saudosismo. Talvez por serem uns desalmados, como me explicaram, porque estas coisas das saudades são mais da alma do que do corpo… Dizem eles.

Pelo que pude apurar logo nessa primeira visita do meu braço e das minhas pernas, na noite da tragédia vagueei pelos campos até pisar a tal mina, e mais tarde encontraram-me com o corpo reduzido a metade. Trouxeram-me para aqui, exactamente há dez meses. Estive inconsciente muitos dias, entre a vida e a morte. Quando acordei não me lembrava de nada. Só distinguia mulheres que se abeiravam de mim, cuidando-me das chagas abertas do que restava do meu corpo. Não compreendia o que diziam, como se a minha cabeça tivesse perdido o significado das palavras, juntamente com a memória. Durante dias seguidos não fiz outra coisa senão chorar. À noite não deixava ninguém descansar. Contudo, era rara a noite em que se dormia, pois todos gritavam e choravam; alguns porque, tal como eu, lhes doía algum membro inexistente. As mulheres atarefavam-se para nos acudir – eram poucas e nós mais do que muitos. A comida também escasseava, e no meio de tanta dor e desgraça acho que nos esquecíamos de ter fome e ignorávamos os roncos dos nossos estômagos, com o tempo íamos ficando fracos mas a fome desaparecia. Todos os dias morria alguém e chegava mais gente. Era um espectáculo horrível, pessoas a esvaírem-se em sangue e aos berros, outras meio anestesiadas, as feridas abertas deixando ver o interior do corpo.

Aos poucos fui ficando mais calma. Este lugar e estas pessoas já não me assustam, embora não fale, pois não me sobram forças. Nunca mais abri a boca, só quando recebo a visita do meu braço e das minhas pernas digo alguma coisa, até me chamam a mudinha por causa disso e dizem, ao princípio gritavas tanto, agora parece que te comeram a língua. Sorrio, assim um sorriso muito triste numa cara que nunca mais voltará a rir como dantes, e os meus olhos enchem-se de lágrimas sem eu querer. Então as mulheres abraçam o que resta do meu corpo e murmuram, pobrezinha, pronto, não chores. Às vezes, nos dias mais calmos, quando não chega mais ninguém e de repente se faz silêncio no meio de lamúrias e gemidos, uma delas canta para mim. Deixo-me embalar pela música e adormeço, enquanto lá longe, no sítio dos mortos-vivos, as minhas pernas e os meus pés começam a dançar ao ritmo da voz doce daquela mulher…

sexta-feira, abril 25, 2014

25 de Abril

No largo a confusão era indescritível. Havia pessoas penduradas nas árvores, nos candeeiros, na fonte no meio da praça, nos parapeitos das janelas, em todo o lado. Os gritos e as palavras de ordem martelavam-me o cérebro. A multidão parecia unida numa descarga eléctrica permanente. Vozes. Movimento. Gritos. Cravos vermelhos nas mãos. Cravos vermelhos nas lapelas dos militares. Um burburinho constante, e a cortar à faca esse ruído de fundo permanente, uma voz que desafiava a lei da gravidade, uma voz firme e pausada que pedia calma e anunciava aos quatro ventos que o movimento das forças armadas estava empenhado em que não se fizesse uso da violência. “É imperativo evitar o derramamento de sangue!”, gritava a voz profusamente amplificada pela potência de um megafone. A minha cabeça girava. A voz continuava a soar, altiva, uma voz de comando pausada e determinada. “Atenção quartel do Carmo! O mensageiro deve sair imediatamente, ou então o quartel será destruído!” As vozes da multidão abafavam tudo e por momentos não se ouve mais nada. De onde estou não consigo ver quase nada do que se passa lá à frente, junto à portaria do quartel. Vejo as pessoas empoleiradas nas árvores, debruçadas das janelas, penduradas nos candeeiros e nos postes da electricidade. Tudo grita. Fico momentaneamente surdo. Daí a pouco ouve-se de novo a voz ordenando uma rajada para a varanda no topo do edifício. Os gritos aumentam e cessam subitamente. Ouvem-se os tiros. Os pombos pousados no alto dos edifícios e das arcadas levantam voo, o ruído das asas assustadas abafado pela barulheira infernal. Com os tiros voltam os gritos. Algumas pessoas correm. Generaliza-se uma onda de pânico e de movimento descontrolado. Sou empurrado por vários corpos que comigo chocam, por sua vez empurrados por outros. Procuro equilibrar-me. As pessoas esbarram umas nas outras mas não param de sorrir. “Desculpe, amigo. Ai, desculpe, camarada.” Os encontrões acabam em abraços. Uma mulher cai ao chão, outra abeira-se dela. “Agarre-se aqui ao meu braço, comadre, levante-se!” Outras pessoas ajudam-na a levantar-se. A mulher tem as faces coradas. “Já estou em pé! Isto agora não há quem me derrube!” Risos. Rio-me também. Estou ali e faço parte daquela gente; porém, ao mesmo tempo, é como se ali não estivesse e assistisse a tudo com a distância da lente de uma máquina fotográfica. “Solicita-se rendição imediata!” A voz não perde sonoridade nem determinação. Nem calma. Não há ponta de nervosismo naquela voz. Fico a pensar nisto durante um bocado. Mas não tenho muito espaço para pensar no que quer que seja. Ouvem-se mais tiros. De súbito o som dos tiros é algo familiar que se espera com a ansiedade a borbulhar no peito. Os tiros, os gritos, as vozes. A voz, impassível, autoritária: “Atenção, devem sair com a bandeira branca e as mãos no ar, sem armas!” Mais gritos. Mais braços no ar. O ar está carregado da fúria das palavras arremessadas das bocas abertas. Sinto no pescoço o hálito morno de muitas bocas. Um arrepio percorre-me as costas. “Não queremos sangue! Vamos fazer fogo de carro de combate que vai destruir o edifício!” Ainda mais gritos. Asas assustadas no ar. Sinto-me tonto. “Atenção quartel do Carmo, vão entrar dois delegados!” Tenho dificuldade em entender e seguir o que se passa. Oiço as pessoas à minha volta a falarem todas ao mesmo tempo. “Parece que chegou alguém!” Não consigo mexer-me. As pessoas continuam a gritar palavras de ordem. Perco o fio ao tempo. Não sei se estou ali há minutos ou horas. As pernas doem-me. Procuro sentar-me nos degraus de uma porta atrás de mim. Fico de súbito rodeado de pernas. É como se voltasse a ser criança e olhasse o mundo de baixo. Diferença de perspectiva. Fecho os olhos. Apenas oiço o som das vozes à minha volta. As gargalhadas.
Lembro-me de tudo como se estivesse a acontecer neste momento.
Fiquei ali horas e pareceram-me minutos. Às tantas uma mulher ofereceu-me uma caneca de vinho tinto e uma fatia de broa e outra de queijo de cabra. Aceitei, com um sorriso. Ela distribuía bocados de broa e queijo pelas pessoas, e estendia a mesma caneca de vinho a toda a gente.
A certa altura a multidão aglomerou-se frente à entrada do quartel. Havia pessoas penduradas nas colunas dos arcos, nas guaritas das sentinelas, nos candeeiros da rua, em todo o lado. Gritava-se vitória. Liberdade. Os braços agitavam-se no ar. O Capitão apareceu à janela e pediu às pessoas para se afastarem, a fim de deixarem passar o carro que iria sair levando o presidente do concelho. As vozes à minha volta chamavam-lhe cagarolas. “Borrou-se de medo, foi o que foi!” Outras exigiam-lhe a morte. “Deviam era enfiar-lhe um tiro nos cornos!” A multidão agitou-se. Uma surrada de assobios encheu o ar. Pus-me em bicos de pés. Não via nada, apenas a movimentação das pessoas e o uivo dos assobios. Mais tarde soube que naquele momento passava o carro onde seguiam os membros do governo que se haviam refugiado durante toda a tarde dentro das paredes maciças do quartel do Carmo.

(excerto de Uma Outra Voz - versão original)

domingo, abril 20, 2014

Em jeito de esclarecimento

Eu não tenho problemas com o facto de dizerem que estou desempregada. E também não é a associação entre o estatuto de desempregada e a imagem de coitadinha, ou coisa parecida, que me desagrada. O que eu profundamente repudio é o aproveitamento que se faz em torno do facto de uma desempregada ganhar um prémio, para mostrar que o desemprego pode ser uma excelente oportunidade, para fazer sentir aos outros desempregados que só estão nessa situação porque não se mexem, porque não são empreendedores, porque passam demasiado tempo ligados às redes sociais a fingir uma vida que não têm, o diabo a quatro. É este discurso que é profundamente ofensivo e completamente inaceitável, com o qual não quero compactuar. Para que conste, eu saí do meu país há quase 10 anos porque nele não encontrei oportunidade de trabalho. Trabalhei durante 3 anos num hospital público com o estatuto de estagiária, sem remuneração, e como eu dezenas de colegas, que só assim encontraram oportunidade de continuar a sua aprendizagem e prática profissionais. Trabalhei como formadora profissional sem direito a contrato de trabalho, porque isso era prática corrente no mercado (desconheço se ainda é assim, mas aposto que sim). Se vivo em Inglaterra há 10 anos com o estatuto de desempregada, é porque aqui é perfeitamente possível um agregado familiar sobreviver apenas com um dos membros a trabalhar. Aqui o estado desempenha um papel social importante no apoio às famílias com baixo rendimento. E sim, o estado tem obrigação de ser um estado social. Se não para que é que serve? Afinal de contas de onde vem o dinheiro do estado? Os cofres do estado estão cheios das contribuições de milhões de pessoas que todos os dias se levantam para trabalhar; porque raio é que esse dinheiro não há-de ser utilizado em proveito desses mesmos trabalhadores? Acho muita graça a essas teorias de que o estado não pode ser o nosso paizinho, e que andamos todos a mamar no estado; o estado não é  nosso pai nem mãe, o estado somos nós, é o nosso dinheiro, o que saiu do nosso trabalho; qual mama qual carapuça. Quem mama no estado são os Bancos que, em chegando à bancarrota, vêem os seus cofres de novo magicamente cheios com dinheiro vindo dos bolsos dos contribuintes. Quem mama no estado são as grandes empresas, mais os conluios que com este mantêm, e na forma descarada e continuada com que fogem ao fisco.
Estou cansada de tanta demagogia.


quarta-feira, março 12, 2014

Quem não sabe, inventa

Há uns anos atrás, o rapaz queixava-se de falta de imaginação. Eu não consigo fazer desenhos daqueles, terá dito, depois de ver os trabalhos de arte de outros alunos, preciso de ir buscar ideias a qualquer lado; não consigo imaginar coisas assim. Nessa altura, a mãe encolheu os ombros e fez uma nota mental para uma eventual estória. Não perde a mania de ver estórias em todo o lado. Ora, há coisa de um mês, o professor de história gracejava com a aparente falta de objectividade encontrada em alguns trabalhos do mesmo rapaz, onde ideias suas eram apresentadas para colmatar aqui e ali falhas de evidência histórica. Entre sorrisos, o professor lá deu uma pequena lição sobre a necessidade de a História se apoiar em factos objectivos, e não em ideias subjectivas. Ao que a mãe se lembrou da primeira nota, e desta vez acrescentou outra: afinal, nem tudo está perdido.

(E agora, ao escrever isto, faz outra, do papel que a imaginação desempenha, tanto na vida dos indivíduos, e não apenas na criação artística, mas principalmente na construção do conhecimento histórico e científico. A famigerada objectividade que, em rigor, nunca se alcança. E no modo como a ficção é, acima de tudo, um produto do desconhecimento. E de como, quando o desconhecimento se agudiza na ignorância, a ficção colectiva pode cristalizar em formas malignas: dogmas, verdades absolutas, poderes inquestionáveis. Episódios psicóticos dominando toda uma população, época ou nação.)

quinta-feira, março 06, 2014

O futuro

Chove, e as nuvens rasgam-se por instantes, e os raios de sol beijam as vidraças, e chove de novo. Expando o olhar na direcção da luz e encontro o crepúsculo que ensombra o dia. Conto os minutos que faltam para chegares e interrogo as nuvens, o céu, a luz hesitante, o cinzento que se desdobra em cambiantes. Sei que não posso proteger-te eternamente; nem destes, nem de outros temporais. Mas ser mãe é, acima de tudo, ser prática. Neste caso, um guarda-chuva gigante que encobrisse as nuvens e destapasse o sol.
Fico aqui, pensando se vou, se  não vou, e o céu cada vez mais cinzento, uma fúria de bátega.
E depois penso noutra coisa; e o tempo passa; também a chuva.
E com o tempo, vens tu.
E eu percebo que há qualquer coisa que se foi embora.
Um outro tempo, talvez. Ou seria o espaço? O espaço onde cabiam todos os sentimentos minuciosos com que as mães tecem as mantas para as camas dos filhos? Para as noites de inverno. Guarda-chuvas gigantes...
Tanta destreza nos dedos, tanta elasticidade nos músculos; tanta dor de cabeça; tantas vozes sussurradas, tantas antecipações, tanta angústia... De repente ficam as mãos desatadas, livres, e depois? Voar? As mãos?
A inutilidade de nos sentirmos inteiros, depois de tanto tempo desfeitos, aos bocados: as mãos para afagar cabelos, para ajudar a abotoar casacos e dar nós nos atacadores; os olhos para chorar quando eles não estão a ver e para os tranquilizar dos medos; os dedos para as cócegas e para as carícias; a voz para a história antes de dormir e para os gritos quando não nos ouvem; os braços para os abraçar e para os levantar até haver força; a boca para os beijar e para sorrir e suspirar de alívio de os ver dormir e, mais tarde, chegar a casa, sãos e salvos.
Mas o mundo, mães do mundo, é boa mesa: lá encontrarão o alimento; o futuro, minhas queridas; então não era por isso que ansiavam?
Pois, a gente distrai-se, e quando damos por ele, já chegou.
São e salvo.


segunda-feira, janeiro 20, 2014

O que é um desempregado?

Um desempregado é alguém que não trabalha, dirão. Então a pergunta que se deve colocar antes é, o que é trabalhar? No dicionário online da Porto Editora encontrei alguns significados: preparar para um dado fim; melhorar (algo) através de trabalho mental; instruir; formar; treinar; exercitar; lidar com; enfrentar; negociar; empenhar-se; esforçar-se; fazer com arte; contribuir. Há mais, mas em nenhum deles trabalhar pressupõe remuneração.

Sendo assim, um desempregado é alguém que trabalha sem ser remunerado. As circunstâncias que o levaram ao desemprego, ou que o mantêm no desemprego, podem ser muito variadas; não é isso que está em causa. O que é importante é tentar perceber a origem da ideia de que os desempregados não trabalham. Porque essa é, quer queiramos quer não, a mentalidade que impera.

A primeira coisa que me parece pertinente referir é que não se é desempregado, está-se desempregado. O desemprego é um estado, que pode ser mais ou menos temporário; não é um adjectivo que possa definir uma pessoa ou uma das características dessa pessoa.

A segunda parte da questão prende-se com o facto de o trabalho não ser valorizado em si, mas sim através do valor da sua remuneração; e este quanto a mim é o problema. E, na minha opinião, as mulheres desempregadas têm sido (continuam a sê-lo) as principais vítimas deste tipo de mentalidade. O trabalho que uma mulher, mãe de família, tem em casa todos os dias não é minimamente valorizado. Também não o é quando é um homem a fazê-lo, parece-me - o que acontece é que os casos são (ainda) raros. E, paradoxalmente, quer-me parecer que quem desvaloriza mais este quadro da mulher que fica em casa são as outras mulheres, aquelas que trabalham. Há quase um medir de esforços, do tipo: eu, além do trabalho doméstico, ainda tenho o meu emprego, portanto estou mais sobrecarregada; elas passam o dia em casa e têm muito mais tempo para os miúdos e para as tarefas domésticas.

Quer-me parecer que as coisas não são assim tão simples. Toda a gente que tem de cuidar de uma casa e dos filhos sabe que as tarefas são ininterruptas. Não dão descanso, a não ser que a pessoa opte pelo descanso. Por outro lado, e por mais que amemos os nossos filhos, é um trabalho desgastante, não só pelo cansaço físico, mas principalmente pelo que tem de alienante:  facilmente leva ao isolamento e à diminuição das competências sociais. De uma forma mais simples: a pessoa não sai de casa, a não ser para ir às compras, ou levar os miúdos à escola, ao parque, ir com eles ao médico, etc; mas o mais importante é a privação no contacto com outros adultos.

Por outro lado, as pessoas que têm um emprego usufruem dessa benesse: as horas no emprego representam uma pausa no trabalho doméstico (e aí não há outra hipótese: deixam-se as coisas por fazer) e também o contacto com outras pessoas. Se por um lado estas pessoas podem sofrer da pressão de terem pouco tempo para as tarefas domésticas e para estarem com os filhos, por outro isso significa que usufruem da tal pausa na rotina e nos afazeres domésticos que as primeiras não têm. Qual destas opções é a melhor? Eu atrevo-me a dizer que venha o diabo e escolha. Não há melhor aqui. Ambas são desgastantes, ambas envolvem muito trabalho, malabarismo e dedicação; ambas têm prós e contras.

E outra coisa muito importante: é que quem tem um emprego é pago, o que significa que socialmente o seu trabalho é reconhecido e valorizado, e isso é benéfico em termos de auto-estima; ao passo que quem fica em casa não vê o seu trabalho reconhecido. Esse é um dos maiores dramas de quem está desempregado. O seu esforço e trabalho são invisíveis, não existem. Ninguém os vê, e como tal, ninguém os valoriza.

Em relação a este último ponto, existem factores culturais envolvidos. Imaginem uma mulher portuguesa a enviar o currículo para uma empresa, onde terá escrito uma secção dizendo que passou os últimos cinco anos a cuidar da casa e dos filhos. Com certeza que isto seria recebido, senão com gargalhadas, pelo menos com um sorriso de troça. Pois fiquem sabendo que aqui, no Reino Unido, isso é recomendado. Há inúmeros sítios onde as pessoas se podem dirigir para procurar ajuda para elaborar um currículo, e nesses sítios é aconselhado que se coloquem coisas deste tipo, por uma razão muito simples: é que o facto de alguém ter passado um tempo a cuidar da casa é valorizado: isso diz aos empregadores que aquela pessoa tem boas capacidades de gestão, de organização, de trabalho em condições de stress (principalmente se tem filhos); em suma, isso abona em favor do candidato.

Em Portugal, não acredito que nenhum empregador, fosse homem ou mulher, valorizasse tal facto. Naturalmente pensariam, coitada, é maluca com certeza, para pôr uma coisa destas no currículo. E porquê? Porque uma mulher que passa anos em casa a cuidar da casa e dos filhos não faz mais do que a sua obrigação. É assim que são consideradas as capacidades de gestão e organização de uma casa e de educação dos filhos: uma obrigação das mulheres, até mesmo, e principalmente, pelas próprias mulheres. E sendo assim, quem o faz está condenada a nunca ser reconhecida nem valorizada. O que não retira em nada às sua capacidades, esforço, organização, dedicação e resiliência.

Da próxima vez que me chamarem desempregada, por favor, lembrem-se disto.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Café do Cristiano

Boas tardes. Entre, menina, entre. Sim, viu logo pelo nome, não foi? O quê? Passa aqui todos os dias e nunca tinha visto este café? Deve andar distraída, que a gente já aqui está vai para cinco anos. É verdade: está aqui a minha patroa que não me deixa mentir. Então e o que vai ser? Um cafezinho? Uma meia de leite? Um bolinho? É o que está à vista: pastéis de nata, mil folhas, bolinhos de arroz, queijadas, travesseiros de Sintra... Olhe que são dos verdadeiros: trabalhei uns anos na fábrica das queijadas, em Sintra, a menina conhece? Foi lá que aprendi a receita. Também temos aqui umas broas de Natal e umas filhoses, estas foi a minha patroa que fez. Ora então é uma ucal e um pastel de nata? Sente-se, menina, sente-se que eu levo já. Aí na mesa do Cristiano Ronaldo; está a vê-lo aí na parede? Pois, ali também, e aqui nesta parede tenho mais três. É o café do Cristiano, pois, foi por causa do nome que viu que era português, não foi? Ah, mas não associou ao Cristiano Ronaldo? Então, mas que outro Cristiano é que havia de ser? Cristiano só há um, o Ronaldo e mais nenhum! Ah! Ah! Ah! Aquilo é um moço de ouro, menina. Madeirense como eu. Mas no meu tempo era uma desgraça, nunca ia sair dali outro como ele. Então veja lá, eu nasci no meio aqueles montes a perder de vista, aqueles vales por ali abaixo; a menina já foi à Madeira? Não? Tem que lá ir, para perceber o que lhe digo. Olhe que em miúdo nunca vi o mar, a menina acredita numa coisa destas? Já era quase homem feito quando fui ao Funchal a primeira vez. Naquele tempo não havia cá transportes nenhuns, a gente vivia numa miséria que só visto, contado já ninguém acredita. Aqui está, o leitinho e o pastel de nata. Deseja mais alguma coisa?

Diga? Um copinho de água? É para já. Está bem aí? Veja lá se quer vir aqui para junto do balcão, aí está muito perto da porta, e faz muita corrente de ar, mesmo com ela fechada. Foi o meu marido que lhe disse que se sentasse aí na mesa do Ronaldo, não foi? A menina não ligue, que ele tem esta cegueira com o Ronaldo, até parece que é um filho. Sabe que a gente perdeu um filho, e também se chamava Cristiano, nascido no mesmo ano e tudo. Já foi assim depois do tempo, sabe, que nessa altura já tinha dois filhos criados; desconfio até que foi por isso que não vingou. Foi, foi muito duro, a menina nem imagina. E depois olhe, quando o Ronaldo começou a ficar famoso, o meu marido foi o que se viu, parecia que era o nosso Cristiano. Já reparou nas fotografias, não é? Mas há mais: olhe ali atrás do balcão, está a ver aquelas canecas com a cara dele? E os cinzeiros, já viu os cinzeiros? E a árvore de Natal? No lugar da estrela está o Ronaldo. Até no presépio, o menino Jesus é um recorte de uma fotografia dele, que vinha numa revista. Coisas do meu marido.

O que é que a menina tanto escreve? Desculpe lá a pergunta, mas fiquei curioso. Sabe que fiquei aqui a pensar, a sua cara não me é estranha. Já a vi em qualquer lado. A menina é jornalista? É que agora passou-me pela cabeça, querem ver que está a escrever assim para um jornal? Se calhar até sobre o Ronaldo, pois, então a menina não sabe que ele vai ser Cavaleiro da Ordem do Infante, ou lá o que é? Diz lá, Maria? Ah pois, não é Cavaleiro, é Oficial, Grande-Oficial, pois, é isso, é. Aquele moço é o meu orgulho. Ai não é sobre isso que está a escrever? Mas o que é que tem assim tanto para escrever, a menina?

Não ligue ao meu marido que ele é mesmo assim, mete-se com toda a gente, faz perguntas, perguntas, aquilo é uma máquina de fazer perguntas. E sabe que o sonho dele é um dia aparecer na televisão ao lado do Cristiano Ronaldo. Meteu isto na cabeça. Ali atrás do balcão, em chegando à cozinha, há assim um recanto onde ele fez uma coisa que parece um altar. Com umas imagens do Cristiano, e umas velas, e tem sempre lá flores. Até pôs assim uma almofada no chão para se ajoelhar. Diz que conversa com ele. Eh! Eh! Eh! Pois, eu até me rio, mas tem de ser assim sem que ele perceba, que isto para ele é um assunto muito sério. Então o sonho dele é que as pessoas vejam a devoção que ele tem ao Ronaldo. Desconfio é que ele gostava que isto chegasse aos ouvidos dele, do moço, pois, e que ele viesse cá. Isso é que ia ser! Acho que o meu marido morria de comoção! Foi por isso que meteu na cabeça que é jornalista, pois. Isto ele não diz nada mas eu conheço-lhe os pensamentos. É muito ano juntos, menina. É o que é.

Eu já a vi, sim, e foi há pouco tempo. Não apareceu na televisão?

Ó Zé, deixa lá a menina, mais as tuas perguntas!

Pronto, peço desculpa. Isto são coisas de velho, a menina não ligue. Mas pode escrever o que lhe digo: não há outro café igual aqui ao do Cristiano. Este moço é o orgulho da nação. Os portugueses ficam deslumbrados mal cruzam a porta e vêem as fotografias dele. Eu bem vejo a maneira como sorriem e apontam. E quando há jogo então, a menina nem sonha! É uma festa, a menina tem que cá vir um dia ver os jogos da selecção. É como se estivéssemos todos em casa. Já reparou que os portugueses reunem-se todos neste e noutros cafés? Parece que nos farejam à distância. Quando aqui entram é como se viajassem até Portugal. É ou não é? Não é por isso que a menina cá vem? Para beber a sua ucalzita, comer o seu pastelinho de nata, matar saudades de falar português? Há bocado quando entrou vi logo que era portuguesa, foi por isso que dei as boas tardes sem peguntar nada. Ora, então, pelo seu sorriso! Eu reparo em tudo. Foram os seus modos, assim à vontade, como se estivesse a abrir a porta de casa. Aquele brilho nos olhos de quem vai dizer, olá, bom dia! Não há nada que se compare a isso, pois não?  Já vi muito, sabe, já andei por esse mundo fora. Aos vinte e dois anos embarquei num navio que aportou no Funchal e desde aí nunca mais parei. Olhe, já vivi em Portugal, na Bélgica, na Itália, na Alemanha, até no Brasil, vivi lá quatro anos, mas isso foi antes de casar. Isto sem contar com os sítios onde só fui de passagem. Tenho visto muita coisa, menina. Por isso lhe digo que tem cara de jornalista, dessas que aparecem na televisão. E digo mais: pode escrever tudo o que lhe contei. Tome nota, não se esqueça de nada. E depois publique numa revista, num jornal, onde quiser. Pode ser que assim chegue aos olhos do nosso Cristiano e ele resolva fazer-nos uma visita. Já imaginou, o Cristiano Ronaldo a entrar por aquela porta? Olhe que ia ser o dia mais feliz da minha vida. Por isso escreva, menina. Escreva.

(este texto foi publicado, numa versão reduzida, na revista Sábado de 16 de Janeiro de 2014)