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domingo, fevereiro 21, 2010

Falar com Deus

Deus nunca falou comigo. Isso deixa-me triste. Todos as noites rezo uma oração e faço o gesto de acender uma vela, mas nem assim. Às vezes pergunto-me o que haverá de errado comigo. A minha professora diz que para escutar Deus é preciso fechar os olhos e ter o coração limpo. Talvez o meu coração esteja sujo. Quis perguntar como se faz para limpá-lo mas tive vergonha. Já ouvi a Sara das trancinhas dizer à Cláudia dos pés para dentro que ouve a voz de Deus todas as manhãs. Disse-lhe que Deus tem a cara do avô dela, mas deve ser mentira. Acho que Deus não deve ter cara. Nem corpo. Como diz a mamã, Deus está em todo o lado.
Se está em todo o lado, também deve estar dentro da minha cabeça e talvez me ouça os pensamentos. Se calhar é por isso que não fala comigo, para me castigar. Deve deitar-se comigo e com a mamã na mesma cama, e deve saber da vontade que tenho de me abraçar a ela, como quando era mais pequenino e o papá ainda não tinha morrido. O papá morreu num desastre. Depois disso, a mamã voltou a deixar-me dormir na cama deles. Nunca mais tinha deixado. Dizia que eu já era crescido, e que os meninos crescidos não dormem com os pais. Agora já não diz nada.
Talvez seja por isso que Deus nunca fala comigo. Talvez eu devesse dormir na minha cama. Mas tenho medo. Tenho medo de acordar de noite sozinho no meu quarto. Tenho medo do bafo gelado da escuridão.
Já não me lembro bem da cara do papá. Às vezes olho para as fotografias mas não é a mesma coisa. Eu queria falar com Deus para lhe pedir que lhe desse um recado. Um recado assim grande, uma espécie de carta. Até escrevi tudo numa folha para não me esquecer: Papá, sei que não podes voltar, mas podias pedir ao senhor Deus para te deixar voltar só mais uma vez. Isto porque o canário morreu porque nos esquecemos de lhe dar de comer. Tu é que compravas a comida para ele, e deves ter-te esquecido de dizer à mamã onde é a loja. Volta só mais uma vez para comprar outro canário. Depois já podes morrer.

domingo, outubro 18, 2009

As pedras catedrais corações

Queria poder livrar-me das garras deste amor doentio. Aquele laço que amarra o mais fundo de mim à eterna ideia da derrota. Aquele temor daninho que me envenena as nascentes do ser. As possibilidades nascentes. Queria poder inventar um amor novo, sedutor de mim, que me levasse nas asas da paixão até lá, àquele lugar longínquo da ilusão. Lugar de espelhos, pedras, catedrais, rostos, sonhos, corações.

terça-feira, setembro 29, 2009

Furacão Elis

Não se iluda comigo: sou esse furacão que cê tá pensando, não. A maioria das vezes sou, até, demasiado tranquila pro meu gosto - menos que uma brisa sopradinha de verão, daquelas que nem conseguem agitar as nuvens mais inquietas da alma. Não, não sou esse avião - dou tão pouco nas vistas, que aposto que no meio de um monte de gente, numa festa, cê nem me topava. Que nada! Ou talvez sim, mas pelo canto do olho, lá sentada de parte, segurando um copo com dedos trêmulos, nervosa, fumando cigarro atrás de cigarro apenas pra manter as mãos ocupadas e os olhos embaçados pelo fumo da falsa confiança que uma aparência alheada sempre dá. Os homens nem ousam me pegar pra dançar. Veja só: não ousam - isto já é meu otimismo cagão falando mais alto. Na verdade, aposto que nem me olham duas vezes - a primeira chega pra se desinteressarem, mesmo sem darem conta - como nos desinteressamos de uma pequena marca de nascença, quase invisível, uma coloração ligeiramente mais escura, na beleza certa de um rosto que conhecemos. Eu sou esse pequeno defeito de nascença. Nasci com propensão pra quedas - de todo tipo, desde as acidentais, quando criança, primeiro da cama, depois da bicicleta nova e dos patins, até àquelas que vamos levando em passos sonâmbulos pela vida fora, talvez por inércia ou preguiça, talvez por medo, e que jogamos, sacudindo a culpa de cima dos ombros com o mesmo desdém com que sacudimos o pó, nos braços do destino. Sou uma dessas pessoas meio apagadas, silenciosas - como aquelas flores que se fecham na luz do sol, e que apenas ousam mostrar suas cores na palidez do luar. No meio de um bate-papo acalorado, prefiro me calar, não por ter falta do que falar, mas por falta de jeito pra falar, por me aperrearem todos os olhos do mundo fixos em mim, pelo surto de adrenalina que me sobe nas veias e me joga na beira do precipício cada vez que me sinto o centro das atenções. E lá, na beira do abismo, não resisto ao fascínio das vertigens, e perco o equilíbrio - me atiro. De cabeça. Sem pensar. Não, cara, não brilho porra nenhuma, sou desses satélites secundários, sem luz própria, girando sem parar em torno do planeta principal, uma tonteira, sem saber o sentido de minha órbita, uma das faces sempre oculta no mistério da escuridão do cosmos, a outra reflectindo apenas um brilho alheio a minha própria vontade. Meu brilho é ilusão de ótica de quem me ouve cantando. Só quando canto me transformo. A voz é meu reino, aquele pra onde subo, levada no vento, cada vez que a música me sai dos poros. Mas não confunda a força que a voz me empresta com a de um vulcão, não - na verdade, ela nem é minha. Quando canto, saio de mim, saio do meu corpo, até minha alma me perde o rastro - vou pra um lugar desconhecido, que não sei onde fica, bem longe daqui, desconfio que nem nesta galáxia, mas onde, eu sei, é minha morada.

(primeiro publicado em O Outro Lado da Lua)

sábado, junho 20, 2009

"Essa menina essa mulher essa senhora em quem esbarro a toda a hora num espelho casual..."


domingo, junho 14, 2009

O som do silêncio

Afinal, falava para te ouvir, e não sabia. Apenas quando te calaste pude ver e sentir o vazio dentro das minhas palavras, como se nelas morasse um inverno gelado e sem remédio. A maioria das pessoas gasta palavras em vão, sem se preocupar em pesá-las e medi-las. Muitas delas usam-nas como vestidos espalhafatosos e coloridos, num carnaval cheio de luzes e gargalhadas sonoras. Outras, choram-nas, numa novena eterna, onde só as lágrimas e a súplica têm razão de ser e existir. Eu tenho este defeito congénito de me sentir pequena, insignificante, dispensável, invisível, e uso-as para me achar grandiosa, espirituosa, notável. Podia ser pior. E melhor também, eu sei.
Uso-as, apenas, e não sabia. Porque o que me pertence é o silêncio que fica depois delas, o mesmo que me devolves intacto, agora que te calas e me deixas vazia.
E, no entanto, não podia ser mais generosa, a tua dádiva. A voz do silêncio.

domingo, abril 26, 2009

Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser / Diz-lhe numa prece que ela regresse porque eu não posso mais sofrer...


Sim, ouvi a tua prece. Mas fingi que não ouvi. Aqui onde estou só vejo o branco infinito do silêncio. Gosto de me perder neste silêncio. Depois são as paisagens da minha vida longínqua que me visitam, paisagens de uma densidade deslumbrante. Queria-te aqui, ao meu lado, e que junto comigo as observasses, e te deixasses maravilhar como se fosses de novo menino. Desertos imensos de areia escaldante. Rios que correm, aflitos, despenhando penhascos agrestes, para depois se espraiarem, preguiçosos, quando a planura das lezírias lhes abre o horizonte de possíveis indolências. Florestas húmidas e impenetráveis onde o silêncio se preenche de ruídos incansáveis e do cheiro rasteiro de corpos solitários. A floresta é como o fundo dos oceanos, escura e intocável. Também no fundo da nossa consciência existe essa fronteira implícita entre aquilo que conhecemos e todo um mundo por desbravar. É junto dessa linha invisível que me quedo, quieta, para escutar as vozes cheias de sonoridades novas que me chegam do lado de lá. Talvez seja mentira e eu, afinal, não te queira aqui; é um território demasiado íntimo, este. Talvez me acredite ligada a ti por um estranho laço que mais não existe entre outras duas almas, apenas a tua e a minha. Talvez eu saiba que lá, nesse rochedo onde me quedo à beira da vertigem dos sonhos, mora o segredo desse mistério que nos une. Por isso não quero que venhas; por isso mando embora a tua tristeza e peço-lhe que te conte da luminosidade destas paragens, da fragância destes desertos, da imensidão destes oceanos. É sedutora, a tua tristeza. Mando-a de volta no meu sopro, mais luminosa e menos triste. Ficarei aqui até ao fim dos tempos. Enquanto sonhares comigo, estarei aqui. Enquanto me pedires que volte, ficarei aqui. Enquanto sentires saudade. Quando me esqueceres, porém, ainda aqui estarei. Apenas os teus olhos já não poderão ver-me. E nessa altura não estarei só. Estarei só, e para sempre, viúva.

sexta-feira, abril 17, 2009

"existirmos: a que será que se destina / pois quando tu me deste a rosa pequenina / vi que és um homem lindo e que se acaso a sina / de menino infeliz não se nos ilumina / tão pouco turva-se a lágrima nordestina / apenas a matéria vida era tão fina / e éramos olharmo-nos intacta retina / a cajuína cristalina em teresina"

segunda-feira, abril 13, 2009

Não sou eu quem me navega quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega. Não, nunca fui. Sou desses barcos perdidos na correnteza dos rios, dessas garrafas carregando pedidos de socorro mudos, condenadas a boiar nas águas até a eternidade acabar. Nunca. Cheguei a esta ilha que não sei onde fica, perdi o norte e as coordenadas. Ao redor de mim não há nada. Chegar-se a casa e não encontrar ninguém, por fim o silêncio tão ansiado. O prenúncio da morte. Despir com gravidade essa ansiedade que afinal durante todo esse tempo apenas mascarou o desejo. O desejo de um outro tempo, do meu tempo. Aquele que nunca vivi, de facto. Porquê? Nunca sabemos a resposta das perguntas mais importantes, mais acertadas. As perguntas erradas? Talvez. Agora vejo dentro de mim aquela emoção toda que nunca ousei transbordar para fora. Por medo. Medo de me afogar nas minhas lágrimas? Que mar é esse que me navega? Esse oceano inteiro que eu teimo em estancar na garganta, essas lágrimas que acabo sempre engolindo, essa beleza toda que eu escondo até de mim, até de mim, como uma menina envergonhada. Vergonha nada. Medo. E é o medo que me veste, ainda. As ondas do mar que me navega. E eu vou, levada nas ondas, até àquela ilha deserta. Um pedregulho bem no fundo da minha consciência. A minha solidão, rara, única, que me come os dias um a um, perante a minha desistência. Desisti há muito de navegar, e hoje, quem me navega é ele, o mar.