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domingo, junho 03, 2012
Cegueira
O que é que estou a pensar? Olha, estava aqui a pensar em como é fácil sermos cegos. Deixar de ver. Ou ver apenas aquilo que nos interessa. Aquilo que queremos ver. Não estás a perceber onde quero chegar? Eu explico. Imagina uma nódoa numa parede. Uma infiltração de águas, humidade, caruncho, sei lá! Imagina uma dessas manchas a alastrar pelo branco da parede, começando assim pequenina, insignificante, lá ao canto, junto ao teto. No início quase invisível. Com o tempo, porém, vem a certeza. Mas acontece uma coisa estranha. Só tu é que vês a mancha. Mais ninguém. A tua mulher jura a pés juntos que a parede não podia estar mais branca e os teus filhos encolhem os ombros. Convences-te de que são coisas de miúdos e de mulheres, uns e outros geneticamente incapacitados para detetar pormenores deste calibre em materiais de construção. Em matérias de engenharia, como gostas de badalar, é necessária uma substancial dose de testosterona no olhar, e nem o miúdo já tem idade para isso. Contudo, nem os teus amigos se mostram capazes de vê-la. À nódoa. Perplexo, constatas que só tu, e apenas tu, a vês. Começas a duvidar: será que existe mesmo? Não estarás a ver coisas? Enlouqueceste? Cada vez mais incrédulo assistes ao progresso da infiltração. A parede outrora imaculada reveste-se de uma rede de pequenas veiazinhas, umas mais negras, outras esverdeadas, como uma perna jovem atacada de varizes. Nesta altura já percebeste que alguma coisa de muito estranho se passa, e interrogas-te sobre a atitude a tomar. E então tens uma ideia genial. E se fizeres de conta que não vês a mancha? Porque afinal se mais ninguém a vê, provavelmente é uma ilusão dos teus olhos. Provavelmente não existe. Sabes aquela história do barulho que uma árvore faz ao cair numa floresta quando não está lá ninguém? É quase a mesma coisa: da mesma forma que o ruído que não chega aos ouvidos de ninguém não existe, também não existe (não pode existir) uma coisa que ninguém vê. Sim, tu vês, pois, não se pode dizer que ninguém veja, mas é quase a mesma coisa, porque afinal, o que é que representa uma pessoa numa população inteira? Imagina lá, és o único desgraçado à face da terra que vê a mancha na parede; é óbvio que não há mancha nenhuma, uma vez que ninguém, a não ser um doido varrido qualquer que jura a pés juntos que a parede inteira já está completamente carcomida pelo caruncho, a consegue ver. E então, porque não te queres sentir maluco (é claro que não és maluco, isso toda a gente sabe), olhas de novo para a parede e decides que não há nada para ver. E pronto! Fácil, não é? A princípio terás de fazer um esforço considerável para ignorar os estragos cada vez mais evidentes na pintura, e a ameaça latente à estrutura e alicerces da construção. Mas com alguma prática e persistência descobres, com espanto, que não é tão difícil como parece. E que basta querer com muita força e teimosia não ver uma coisa para de facto deixarmos de vê-la. Com o tempo vais convencer-te em absoluto de que nada se passa, tudo está bem, como devia estar, como é teu desejo que esteja. Até ao dia em que os estragos não possam de todo ser ignorados porque ameaçam ruir com o edifício. O que fazer, então? Como dizer à tua mulher e aos teus filhos que a casa, aquela casa que tanto amam, onde se sentem protegidos, o espaço que é para eles um santuário, um templo sagrado que reflete a harmonia familiar, está prestes a ruir? Como destruir-lhes a imagem de solidez e confiança que a casa acarreta? Depois de todo o teu esforço, ao longo dos anos; para quê afinal? Terá sido em vão? O esforço? A forma quase carinhosa com que acreditaste, quiseste acreditar, que tudo estava bem? Que não era nada? Terás acreditado também que se te esforçasses o suficiente para não vê-la, a tragédia deixaria de existir? Foste ingénuo a esse ponto? E agora? Porque teimas em continuar em silêncio, quando sabes perfeitamente que neste preciso segundo a humidade está corroendo letalmente as fundações da tua casa? Ainda acreditas que se não disseres nada, nada acontecerá? Não consegues? Não consegues manchar, estragar o sonho da tua família, a ilusão de que o teto por cima das vossas cabeças é suficientemente sólido e eficiente? De que nunca vos vai faltar o chão? Sentes-te responsável? Mas como, se não és tu, mas o trabalho de uma simples infiltração, o responsável? Se tu até tentaste chamar a atenção para o facto, mas ninguém te deu ouvidos? A única coisa de que podes ser acusado é de não teres resistido ao chamamento, ao encanto da cegueira. Uma cegueira coletiva. Ver apenas o que se quer ver, ou o que nos querem fazer ver. Ou querer ver apenas o que querem que a gente veja. E a gente aceita, porque é tão mais fácil. Entendes o que te digo?
segunda-feira, janeiro 10, 2011
My fake baby
Por preços que variam entre as 80 e as 300 libras, mas que podem ascender aos milhares, pode adquirir-se uma imitação perfeita de um bebé, cuja semelhança seria admirável se não fosse macabra, pois os bonecos parecem mesmo bebés verdadeiros, a textura e a cor da pele é demasiado realista, os sinais, as pregas debaixo do queixo, o próprio queixo, a boquinha, o nariz, o cabelo, as mãos e os pés, tudo, tudo tão realista que só falta mesmo mexerem, chorarem e babarem... Só que este toque de realismo, perfeições à parte, é sinistro, porque as criaturas parecem bebés mortos. E então as mães, ou seja, as pessoas que compram tais coisas, esmeram-se e vestem os bonecos como se de verdadeiras crias se tratassem, põem-lhes fraldas, sapatinhos, roupinhas rendadas e com folhinhos, gorros e mantinhas para o frio, passeiam-nas em carrinhos de bebé pela rua, chegam ao cúmulo de os transportarem em cadeirinhas auto, não vão ficar mutilados no evento de um acidente rodoviário... As pessoas que compram estas preciosidades são mulheres que, por um motivo ou outro, não podem ter um bebé verdadeiro, e então optam por um substituto. Para algumas delas esta é, aliás, o ideal de maternidade: imaginem, as crianças portam-se sempre bem, não gritam nem dão trabalho nenhum, nunca se sujam, as roupinhas nunca deixam de servir, são tão perfeitinhos que parecem mesmo bebés, não fosse pelo pormenor de não se mexerem de todo, como comenta uma das mães, com um sorriso nos lábios, como se fizesse notar um pequeno defeito de nascença no seu recém nascido, uma coisinha pouca, um pormenor banal que, apesar de ser um bocadinho fora do esperado, não é de todo importante. A fulana que fabrica estes bonecos, na Grã-Bretanha, acrescenta que é estupendo poder ser mãe por tempo indeterminado, pois como as suas crianças (as verdadeiras note-se) entretanto cresceram, as pessoas já não lhe dão aquela atenção que uma mulher passeando um bebé na rua suscita. Mas não se pense que são apenas mães frustradas e perturbadas: havia o caso de uma avó, que cuidara do neto enquanto a sua filha estivera doente, e que se vira separada dele quando, ao recuperar, a filha resolveu emigrar para a Nova Zelândia. Resolveu então adquirir um destes bonecos para, digamos assim, matar saudades do que é ter uma criança por perto... Uma coisa um bocado difícil, digo eu, na medida em que um boneco não é de todo uma criança. O marido desta mulher, uma pessoa normal, responde que não, quando ela lhe mostra o "bebé" acabado de chegar da loja e lhe pergunta se gostou. Com esta resposta, a mulher vai às lágrimas. Depois há outro caso, o de uma destas bonecas que foi entregue com defeito, e então assistimos ao desapontamento da "mãe" que, depois de dois dias passados a formar um laço afectivo com a "criança", tem de a devolver, pois um bebé com defeito, ainda que completamente inanimado, não faz parte dos seus planos. A única situação normal que me foi dado ver foi a de uma família com crianças que resolveu acrescentar mais um membro ao clã, e então viam-se os miúdos a brincar com partes do corpo da "criança", uma perna, um braço, que entretanto fora toda desmembrada.
(cliquem no link do título)
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segunda-feira, dezembro 20, 2010
Se calhar era melhor estar mas é calada
Santa Maria, mãe de Deus, bendita para sempre entre as mulheres; meu Pai que estás no céu e tudo vês e perdoas; perdoa-me a mim, que no fundo não passo de uma pobre pecadora. Devia até penitenciar-me, martirizar-me, flagelar-me, imolar-me no meio da praça, para que todos fossem testemunha da nobreza da minha alma aspirando ao fogo eterno que tudo lava e purifica. Pois não ousei eu usar o verbo pecaminoso, aquele que deveria ser banido dos textos sagrados, que nos amordaça e escraviza; aquele que, é em si mesmo, morte e estagnação? Até tenho medo de escrevê-lo de novo, os meus dedos tremem só de soletrá-lo, ao verbo calar; ainda para mais no presente do imperativo, cala-te, o que vale é que não acrescentei um ponto de exclamação, que aí é que o meu pecado não teria perdão, e estraria decerto condenada às chamas do inferno. Como foi possível tal palavra me sair das mãos, misturada com doses de veneno e ódio, impróprias para a condição de uma mulher da minha idade, uma mulher que afinal viu nascer a revolução e o corte com todas as formas de censura e repressão? Um verbo como este tem de ser banido do vocabulário, e já! Não apenas este, porém; todos aqueles que derivam dele, como silenciar, amordaçar, reprimir, censurar, e por arrastamento, cerrar, oprimir, castrar, aniquilar, matar, acabar, fechar, encerrar, prender, enfim, a lista é interminável, se pensarmos bem; não é tarefa fácil, mas não podemos cruzar os braços e adiá-la, porque é imperativo acabar com esta ideia, esta mentalidade repressora que nos envenena o espírito e a iniciativa e a liberdade de expressão. Não podemos permitir que mentes devassas e reacionárias, mascaradas com discursos pós modernistas, usem e abusem de verbos deste calibre e, como se isso não bastasse, os exponham em letras grandes. A fogueira, minha Santa Mãe, a fogueira, para imolar da miséria linguística todos esses incautos que nem sequer têm consciência do que dizem ou do que escrevem, e nos quais tenho, por força dos meus pecados, de me incluir. Bem haja aos iluminados que por aqui andam e que conseguem, meticulosamente, trazer à luz toda esta corja de pecadores. Bem haja, que será deles o reino dos céus.
sábado, setembro 25, 2010
Ele há gente muito esquisita
Sim, talvez seja muito mais fácil acreditar que somos todos almas etéreas, a pairar acima das nuvens, indiferentes à dor e às vicissitudes mundanas. Que nada nos pode afectar, que nada nos pode tocar ou causar qualquer dano. Para nós não há bem nem mal, certo ou errado; pairamos acima de toda e qualquer moralidade, indiferentes, insensíveis à dor, ao pranto, ao sofrimento. Não precisamos preocupar-nos com nada, porque o nosso destino está escrito pela divina providência. Esta existência é, aliás, uma ilusão. O sofrimento uma lição que precisamos aprender, para alcançar o desenvolvimento espiritual a que a nossa alma se propôs, quando nos escolheu o caminho. Em tudo o que acontece no mundo existe uma perfeição divina; perfeição que está acima, como é evidente, das verdades terrenas. Não há bem nem mal; mesmo os crimes mais horrendos acontecem para bem do nosso crescimento espiritual. As vítimas não devem pois perdoar aos seus carrascos; antes agradecer-lhes, por lhes terem proporcionado tal experiência. A humanidade, aliás, precisa de se livrar deste arquétipo da vitimização, que nos prende ao passado e nos impede de crescer em direcção à luz.
(Pois eu prefiro as trevas, prefiro o inferno, as dores mais inimagináveis, a este rebanho de pobres diabos que foge da vida como o diabo da cruz. Ou não percebem que esse mundo cor de rosa onde tudo é perfeito é o retrato da morte? Prefiro ser humana, sentir na pele a dor de uma bofetada e a revolta de uma injustiça, a pairar nesse céu vazio onde só mora quem aspira à ausência de sofrimento pelo preço mais degradante que se possa imaginar. Eu sei que há muita crueldade no mundo, e injustiça, e dor, e no dia em que não tiver a lucidez de ver tudo isso perderei para sempre a minha humanidade, que é o que me liga à vida. A vida é só uma, meus idiotas, e eu não quero desperdiçá-la com promessas de vida eterna fundida com nenhum Deus soberano. O que vocês não toleram é a dor, é a fraqueza humana, a mesma fraqueza com que vimos ao mundo e nos torna dependentes. Desconhecem por completo que a nossa maior fraqueza é também a nossa maior riqueza, aquela que nos dá força e nos faz mover montanhas. Porque somos nós, humanos com alma, que movemos montanhas, e não Deuses distantes. Somos nós, pessoas com alma viva, que fazemos o mundo girar. Para almas mortas já nos basta aquelas que vemos morrer todos os dias, sem poder fazer nada para impedi-lo. E sim, há muita maldade no mundo, mas também há muita beleza. Ser capaz de a ver no meio da fealdade é o que nos salva, e não negar o horror. Se não víssemos o horror deixaríamos de ver a beleza de tudo isto.)
(Pois eu prefiro as trevas, prefiro o inferno, as dores mais inimagináveis, a este rebanho de pobres diabos que foge da vida como o diabo da cruz. Ou não percebem que esse mundo cor de rosa onde tudo é perfeito é o retrato da morte? Prefiro ser humana, sentir na pele a dor de uma bofetada e a revolta de uma injustiça, a pairar nesse céu vazio onde só mora quem aspira à ausência de sofrimento pelo preço mais degradante que se possa imaginar. Eu sei que há muita crueldade no mundo, e injustiça, e dor, e no dia em que não tiver a lucidez de ver tudo isso perderei para sempre a minha humanidade, que é o que me liga à vida. A vida é só uma, meus idiotas, e eu não quero desperdiçá-la com promessas de vida eterna fundida com nenhum Deus soberano. O que vocês não toleram é a dor, é a fraqueza humana, a mesma fraqueza com que vimos ao mundo e nos torna dependentes. Desconhecem por completo que a nossa maior fraqueza é também a nossa maior riqueza, aquela que nos dá força e nos faz mover montanhas. Porque somos nós, humanos com alma, que movemos montanhas, e não Deuses distantes. Somos nós, pessoas com alma viva, que fazemos o mundo girar. Para almas mortas já nos basta aquelas que vemos morrer todos os dias, sem poder fazer nada para impedi-lo. E sim, há muita maldade no mundo, mas também há muita beleza. Ser capaz de a ver no meio da fealdade é o que nos salva, e não negar o horror. Se não víssemos o horror deixaríamos de ver a beleza de tudo isto.)
quinta-feira, junho 03, 2010
Os 101 dálmatas e o silêncio dos inocentes
Lembram-se dos 101 dálmatas? Lembram-se dos cães de todos os jardins a ganir à lua, passando a mensagem do paradeiro dos cachorrinhos? Pois bem, essa estória não se pode ter passado em Londres. Pelo menos, esta onde vivo.
Ora, estava eu ontem à noite na cozinha, quando sou surpreendida por um ladrar canino a rasgar o silêncio da noite. Parei imediatamente o que estava a fazer, e pus-me à escuta. Teria ouvido bem?
Da sala chegava-me o som da televisão, e de repente novo latido, mais forte que o anterior. Desta vez não tive dúvidas. Era mesmo um cão a ladrar!
E então?, estão vocês a pensar. O que é que um cão a ladrar tem assim de tão especial? Eu explico: sabem aqueles sons de fundo que não nos deixam usufruir do silêncio, que a gente às tantas confunde com o silêncio, e que só damos por eles quando de repente cessam, sem motivo? E os nossos ouvidos, já habituados àquele ruído branco e monótono, de súbito estranham, e ouvem... o silêncio?
Pois bem, o ladrar do cão teve mais ou menos o mesmo efeito nos meus ouvidos e no meu cérebro. É que, quando o ouvi, estranhei... um som tão familiar, era, súbita e inexplicavelmente, completamente estranho... e porquê? Porque, simplesmente, deixara de os ouvir. E ainda não me apercebera. Como o ouvido acostumado ao ruído, que confunde com o silêncio. Eu, foi mais ao contrário: confundi o silêncio com o ruído. O silêncio dos cães... ainda não tinha dado por ele, até àquele ladrar forte e inesperado.
É isso mesmo: os cães de Londres são inocentes silenciosos. Pura e simplesmente, não ladram. Mas como?, estão vocês agora a perguntarem-se. Good question. A mesma que fiz, incrédula, ao meu marido, quando vim até à sala confirmar que aquele ladrar só podia vir de um sítio... da televisão, e não da rua, como a princípio pensara! E fiz-lhe a mesma pergunta: já reparaste que os cães aqui não ladram? Mas como é que isso é possível? É proibido? E como é que se poíbe um cão de ladrar?
Ainda por cima, cães é o que não faltam: nunca vi tanto animal de estimação junto, nunca vi tanta gente a passear os seus amiguinhos pela trela. Há-os de todos os tamanhos e feitios, de todas as raças e marcas que possam imaginar. Só que não ladram. É verdade. Como é que isso é possível, não me perguntem.
Claro que um especialista em treino de animais com certeza que não achará espanto nenhum nesta minha questão. Para mim, contudo, permanece um mistério. Um cão a ladrar parece-me a mesma coisa que um coração a bater. E se há quem diga que "cão que ladra não morde", eu diria que cão que não ladra... não é cão não é nada.
Talvez não seja de todo agradável sermos acordados pelo ladrar destes amigos altas horas da noite, mas faz-me confusão aos nervos, o que é que querem? Desde ontem que não paro de pensar nisso. Nos cães sem voz. No silêncio destes inocentes.
Por isso é que vos digo que aquela cena dos 101 dálmatas não se pode ter passado aqui, nesta Londres, onde os canídeos são mudos. Ou foi pura imaginação, ou foi antes dos latidos serem proibidos nas ruas.
Ainda o silêncio dos inocentes
É raro, raríssimo, mas de vez em quando lá se fazem ouvir.
Deve ser do calor, não sei.
As criaturas também têm direito a passar-se com o calor, ou não?
E, de quando em quando, um ladrar súbito atordoa os ares.
E sempre que tal acontece, volta a dar-se o mesmo milagre nos meus ouvidos. Ou na minha cabeça, não sei bem. Talvez numa imprecisa região do cérebro, onde confluem afectos, sons e memórias.
Sempre que os oiço, volto a ouvir mais nitidamente o seu silêncio.
Ou melhor, só sinto verdadeiramente o seu silêncio quando os oiço.
Quando não os oiço, já sei que não ladram, mas saber que não ladram é completamente diferente de sentir falta do seu ladrar.
Essa só a sinto mesmo quando os oiço.
E é incrível o que o ladrar de um cão traz consigo.
O ladrar dos cães é tão antigo como a própria humanidade.
O ladrar dos cães faz parar o tempo. Transporta-nos para outras dimensões.
Tem o poder de nos levar para outros sítios, de nos restituir memórias intactas, que julgávamos perdidas.
O ladrar de um cão no silêncio da noite, por exemplo, é uma companhia. E quando a esse ladrar respondem outros ladrares, diferentes de intensidade e timbre, mais e menos distantes, então o nosso coração também ladra no peito.
Ladra de vontade de se reunir à matilha.
O ladrar dos cães anuncia proximidade de casas, pessoas, abrigos. Para um viajante solitário é como chegar a casa, para um marinheiro distante é como atracar no porto.
O ladrar de um cão transporta-me para a infância, para aquele pontinho minúsculo onde estou deitada na cama, sem conseguir adormecer devido ao bafo de fantasmas ancestrais, e de repente aquele som familiar corta a escuridão e entra na minha solidão. Devolve-me a realidade, a claridade da luz do dia, o sol a pino lá do alto a afagar as colinas da serra com o seu calor ancestral. E a minha alma pequenina aquece com ele. Fecho os olhos e quando os reabro a escuridão tem novas cores, já não me ameaça, e os velhos fantasmas sorriem para mim.
Juro-vos que é verdade.
O ladrar de um cão tem o poder de nos tirar de dentro do poço da angústia.
O ladrar de um cão é uma linguagem mágica. E essa linguagem é comum aos seres humanos.
O ladrar de um cão é um aviso, um chão, um tecto, um alerta, um sinal, um postigo, um abrigo.
O silêncio dos cães não tem cor nem coerência.
O silêncio dos cães é uma aberração da natureza.
O silêncio dos cães faz-nos sentir estrangeiros no mundo. Mais ainda do que já somos.
O silêncio dos cães encerra-nos as portas para a clarividência de outras almas.
O silêncio dos cães é pesado, é estranho, é complexado.
O silêncio dos cães instala-se nos ouvidos como um parasita, e afasta-nos de nós mesmos, da nossa natureza, da nossa certeza de segurança, da nossa primeira linguagem.
Não percebo, nunca vou perceber isto.
Nem quero.
Lembro-me do Rumble Fish, que vi há séculos, daquela cena em que os animais da loja são libertos, e correm em debandada para a rua.
Eu apetecia-me volatilizar-me em sopro de vento, e ir por aí, por esses quintais fora, a sussurrar aos ouvidos dos cachorros: "Ladrem! Ladrem! Ladrem!"
(republish)
sábado, maio 29, 2010
Isto só neste país!
Estou que não posso.
Os homens trouxeram a máquina à hora marcada, largaram-na na cozinha e bazaram.
Então mas não é para levarem a outra?
Não, para isso teria de ter pago o serviço.
E quem é que vai instalar esta?
Nós é que não somos de certeza que não temos formação para isso...
A ver se a gente se entende:
O pessoal da agência, que sabe o que se passa e tratou de tudo, afinal não tratou de nada...
Agora tenho uma máquina empacotada na cozinha, e quilos de roupa para lavar, talvez até segunda feira, que hoje é sábado e não acredito que alguém faça alguma coisa no fim de semana...
O que é que eu disse? Segunda feira? Segunda é feriado, porra! Já nem me lembrava!
Nunca há feriados neste país e logo tinha de calhar agora...
Isto é alguma maquinação para me enlouquecer, só pode!
E não pensem que aquela frase só se diz em Portugal!
Os homens trouxeram a máquina à hora marcada, largaram-na na cozinha e bazaram.
Então mas não é para levarem a outra?
Não, para isso teria de ter pago o serviço.
E quem é que vai instalar esta?
Nós é que não somos de certeza que não temos formação para isso...
A ver se a gente se entende:
O pessoal da agência, que sabe o que se passa e tratou de tudo, afinal não tratou de nada...
Agora tenho uma máquina empacotada na cozinha, e quilos de roupa para lavar, talvez até segunda feira, que hoje é sábado e não acredito que alguém faça alguma coisa no fim de semana...
O que é que eu disse? Segunda feira? Segunda é feriado, porra! Já nem me lembrava!
Nunca há feriados neste país e logo tinha de calhar agora...
Isto é alguma maquinação para me enlouquecer, só pode!
E não pensem que aquela frase só se diz em Portugal!
quinta-feira, abril 15, 2010
Outro filme
Vou à casa de banho lavar as mãos. Primeiro, não encontro o lavatório. O espaço é exíguo e não cabem duas pessoas no corredor, pelo que tenho de esperar que outra mulher saia. Lá entro e vejo o lavatório dentro do cubículo com a sanita. Para entrar quase que tenho de saltar para dentro da sanita, uma vez que a porta, ao abrir, não permite que um corpo se acomode no pouco espaço que sobra. Vou para abrir a torneira e não a encontro. É uma daquelas que abre e fecha sozinha. Ponho as mãos por baixo e a água corre, abundante e quente. Estes gajos aqui têm sempre água quente nas casas de banho. Deve ser porque a fria é gelada, mas também não precisavam de exagerar. Além disso é um desperdício de energia. Adiante. A água para de correr e ensaboo as mãos. Coloco-as novamente debaixo da torneira, à espera de sentir o jacto quente, e nada. Mau. Ponho as mãos mais para a frente. Mais para trás. Para a esquerda. Direita. A torneira continua muda. Olho a minha perplexidade no espelho e depois as mãos, cheias de espuma. Como é que vou sair da casa de banho assim? Agito-as em desespero, bato na torneira, sai um fiozinho de água que não chega para enxaguá-las. Volto a abaná-las. Ai a minha vida. Nada a fazer. Ainda bem que há papel higiénico. Saio a praguejar contra estas tecnologias da tanga. Como as luzes que se apagam passado um tempo de uma pessoa estar quieta, e quando estamos a fazer assim algo mais demorado às vezes nos deixam às escuras, tendo de fazer a figura patética de abanar os braços até aquela porcaria acender outra vez. Uma vez aconteceu-me e aquilo também não havia meio de acender, quase que tive de me levantar e dançar a valsa, o que é deveras incómodo naquela situação.
sábado, novembro 14, 2009
O mistério da lente desaparecida
Esfregar os olhos com zelo e preguiça, demoradamente, até começar a ver pontinhos luminosos e coloridos é das melhores coisas que há. É claro que todas as pessoas que usam lentes de contacto sabem, ou melhor, aprendem, que não podem entregar-se a esse prazer assim com tanto deleite como gostariam. Aprendem, por isso, a moderar a pressão nos olhos, a emprestar delicadeza ao gesto. O que para mim é um martírio. Isto porque esfregar os olhos tornou-se quase um reflexo automático. Tipo coçar o nariz, passar a mão no cabelo. Se fosse homem, cofiar a barba (se tivesse barba). Bom. Às vezes esqueço-me e quando dou por mim já é tarde. Como ontem. Abri o olho a medo e já não estava lá. A lente. Já não estava no lugar, porque geralmente não cai, fica grudada na parte interior da pálpebra, e com jeito acaba por sair. Pois eu perdi o jeito. Bem que massagei o olho a ver se ela dava as caras. Nada. Por fim, já em pânico, a imaginá-la no meio dos meus neurónios, interferindo com o caminho das sinapses, a embrulhar-se nas dendrites e nos axónios (a desavergonhada), tanto esfreguei o olho e tanto mexi (já a via em todo o lado) que acabei com uma inflamação daquelas. Fui ao hospital, mandaram-me para o centro óptico (não há especialistas de oftalmologia nas urgências. Também não há psiquiatras. Bem, isto dava outro post, por isso, adiante). Lá chegada, atenderam-me logo. Bem que me repuxaram as pálpebras: da lente, nem sinal. Em vez disso, uma pequena lesão que pode infectar e por isso umas gotas com antibiótico. A irritação já passou. Mas onde terá ido parar o raio da lente?
domingo, fevereiro 22, 2009
O drama de Jade
Compreendo o drama de Jade. Nenhuma pessoa merece o que ela está a passar, por mais estúpida e racista que seja. Compreendo, mas não consigo entender como é que uma pessoa na situação dela se expõe desta maneira ao mundo. Na verdade, acho patético. Não deixa de me entristecer, contudo, principalmente quando vejo os miúdos. Compreendo o desespero dela, mas a ideia de que está a fazer tudo isto pelo futuro dos filhos - pelo dinheiro que assim lhes deixará de herança - acho completamente abominável. As crianças mereciam herança melhor. Caramba, o dinheiro não é tudo, e, numa situação destas, é de somenos importância, creio. Aquilo que importa, neste momento, parece-me, são os afectos. Nos últimos dias de vida da mãe, estas crianças mereciam a privacidade das suas vidas de volta - o direito a não estarem constantemente com a porta de casa aberta para quem quiser espreitar. Aposto que não têm um minuto de sossego, a sós, consigo mesmos nem com a mãe. Até a vemos quando está na casa-de-banho, a maquilhar-se! Está bem que ela escolheu isto, mas as crianças não escolheram esta invasão constante das suas vidas. E não, não acho que ela esteja a pensar no futuro dos filhos - acho que ela está pura e simplesmente desesperada e sem saber como lidar com a morte. Não é que algum de nós saiba. Porém, à frente das câmaras é que ninguém consegue encontrar a serenidade para tentar. Talvez seja isso que mais a assusta e de que foge a sete pés: o confrontar-se com ela mesma e com a dura realidade que a aguarda, sozinha, sem este aparato mediático todo à volta. Só que este aparato, em vez de a ajudar, está apenas a anestesiá-la, a adormecê-la, a alheá-la da realidade. O mais triste e patético é que ela não se apercebe e leva esta empreitada a cabo para servir de exemplo às outras mulheres, tipo campanha sanitária: mulheres, olhem bem para mim, é isto que vo acontecerá se não tomarem as precauções devidas em relação ao cancro do colo do útero. Este sentido humanitário pode ser até muito bonito e altruísta; porém, não precisávamos de assistir à morte em directo para captarmos a mensagem, que, acho, já toda a gente captou. Para mim tudo isto são tretas. Se Jade estivesse realmente preocupada com os filhos, como diz, tentaria dedicar-lhes o máximo de tempo possível, um tempo precioso que ficasse para sempre gravado na memória deles, e que dinheiro nenhum no mundo compra.
terça-feira, outubro 14, 2008
Dava uma trágico-comédia...
Tenho uma vizinha eslovaca, que mora no cimo da rua, e que também tem os miúdos lá na escola.
Uma das casas, no cimo da rua, foi posta à venda. Vivia nessa casa uma velhota, já bastante velha. Ela diz que costumava vê-la às vezes, cá fora a regar as plantas, ou então, através da janela, sentada à mesa a tomar chá. Para aí uma semana antes de ela morrer, tinha-a visto cair para o lado, enquanto tomava o chá. Isto tudo através do vidro da janela. Estava então a senhora a beber o seu chá, sentada na sua poltrona, quando, de súbito, a cabeça teria caído para trás, tendo ficado assim, como que adormecida (ou morta?), de boca aberta. A minha amiga correu a chamar o marido: ela está morta! Temos de avisar alguém! O marido não estava convencido: pode estar só a dormir! Vamos embora, olha se ela acorda e nos vê aqui especados a espiá-la? Se amanhã ela ainda estiver na mesma posição, pensamos nisso.
Bom, no outro dia a velha estava de novo a pé. O marido da minha amiga ria-se: estás a ver? Olha se tivéssemos chamado a polícia!
Uma semana depois, a senhora faleceu, de facto. Uma coincidência estranha, que deixou a minha amiga a pensar em coisas macabras. Entretanto, e havendo uma sua amiga que precisava urgentemente de mudar de casa, começaram a conjecturar qual seria a altura ideal para perguntarem à família se não estariam a pensar em alugar a casa. Acabaram por desistir da ideia, claro, por acharem o momento nada adequado.
E o imprevisto aconteceu: no dia do funeral, uma hora depois (uma hora, jura ela, a minha amiga, a pés juntos), estavam os trastes e tarecos da velha todos à porta, metidos dentro de sacos de plástico pretos, e foi posta uma placa no muro da frente: for sale.
Pois é. E eles a pensarem que não era o momento adequado... Fogo!
Uma das casas, no cimo da rua, foi posta à venda. Vivia nessa casa uma velhota, já bastante velha. Ela diz que costumava vê-la às vezes, cá fora a regar as plantas, ou então, através da janela, sentada à mesa a tomar chá. Para aí uma semana antes de ela morrer, tinha-a visto cair para o lado, enquanto tomava o chá. Isto tudo através do vidro da janela. Estava então a senhora a beber o seu chá, sentada na sua poltrona, quando, de súbito, a cabeça teria caído para trás, tendo ficado assim, como que adormecida (ou morta?), de boca aberta. A minha amiga correu a chamar o marido: ela está morta! Temos de avisar alguém! O marido não estava convencido: pode estar só a dormir! Vamos embora, olha se ela acorda e nos vê aqui especados a espiá-la? Se amanhã ela ainda estiver na mesma posição, pensamos nisso.
Bom, no outro dia a velha estava de novo a pé. O marido da minha amiga ria-se: estás a ver? Olha se tivéssemos chamado a polícia!
Uma semana depois, a senhora faleceu, de facto. Uma coincidência estranha, que deixou a minha amiga a pensar em coisas macabras. Entretanto, e havendo uma sua amiga que precisava urgentemente de mudar de casa, começaram a conjecturar qual seria a altura ideal para perguntarem à família se não estariam a pensar em alugar a casa. Acabaram por desistir da ideia, claro, por acharem o momento nada adequado.
E o imprevisto aconteceu: no dia do funeral, uma hora depois (uma hora, jura ela, a minha amiga, a pés juntos), estavam os trastes e tarecos da velha todos à porta, metidos dentro de sacos de plástico pretos, e foi posta uma placa no muro da frente: for sale.
Pois é. E eles a pensarem que não era o momento adequado... Fogo!
sexta-feira, dezembro 21, 2007
Carta aberta à Editorial Presença
Exmo. Sr ou Sra:
Este mail tem por objectivo comunicar o meu espanto relativamente ao facto de existirem alguns erros de tradução na edição do Harry Potter (Harry Potter e a Pedra Filosofal), o que me parece realmente uma coisa inacreditável, dada a importância que este livro adquiriu, até a nível mundial, e que se traduz pelo seu extraordinário sucesso de vendas. Como é que é possível que, num livro que é traduzido, revisto, editado e, posteriormente, lido por milhares de pessoas, ninguém ainda se tenha apercebido destes erros, essa é a minha questão.
(Ou será que se aperceberam? Mas então, porque é que eles continuam lá, para quem os quiser ver - neste caso ler - quase dez anos depois da primeira edição?)
Eu ainda não acabei a leitura do livro em Português (já o li em inglês) mas até agora já encontrei os seguintes exemplos de lacunas:
pág 43: " Encarrapitada num cume de um rochedo, estava a cabana mais miserável que imaginar se pode."
(esta expressão, "que imaginar se pode", aparece numa outra página, que não consigo agora precisar).
Ora, esta frase, que imaginar se pode, está obviamente mal construída, e deveria ser substituída por que se pode imaginar. A frase ficaria, então, "(...) a cabana mais miserável que se pode imaginar."
pág 50: " - E tiveste mesmo pouca sorte em teres crescido no seio d'uma família dos maiores Muggles qu' alguma vez conheci."
Nesta frase não existe propriamente um erro, antes uma incongruência, quanto a mim. É uma fala do Hagrid, o gigante, que fala atabalhoadamente, com sotaque, e come as palavras. Ora, na boca deste personagem, a expressão "no seio de uma família" parece completamente despropositada. Uma pessoa que fala como ele não usa expressões como "no seio" de alguma coisa. Vá lá que dissesse "no meio d'uma família" ou apenas "numa família...", agora, "no seio" não combina de forma nenhuma com a sua maneira de falar. É como se pusessem o Voldemort a dizer algo simpático ou o Snape a piscar o olho ao Harry.
pág 65: "O duende tinha cerca de quarenta centímetros a menos de altura que Harry."
Como é evidente, esta frase deveria ser: " O duende tinha cerca de quarenta centímetros de altura a menos que Harry."
Não, não sou tradutora nem trabalho no ramo. Sou apenas uma leitora interessada e atenta. E acho um verdadeiro escândalo que este livro esteja mal traduzido para a língua portuguesa. Se fosse eu o autor, mudava de editora. Desculpem a franqueza, mas acho inadmissível que uma coisa destas aconteça.
Muito obrigada pela atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos
Sim, escrevi e enviei por mail. E, depois de ter enviado, já encontrei mais (pág. 185):
"Harry sabia que quando, na tarde seguinte, Ron e Hermione lhe desejassem boa sorte, antes de ele entrar para os vestiários, nenhum deles tinha a certeza absoluta de voltar a vê-lo vivo."
Nesta frase, para se manter esta estrutura, terá de se modificar o tempo do verbo ter, tinha, por teria, e colocar correctamente o "quando":
"Harry sabia que, na tarde seguinte, quando Ron e Hermione lhe desejassem boa sorte, antes de ele entrar para os vestiários, nenhum deles teria a certeza absoluta de voltar a vê-lo vivo."
Ou então poder-se-ia escrever a frase de outra forma:
"Quando, na tarde seguinte, Ron e Hermione lhe desejassem boa sorte, antes de ele entrar para os vestiários, Harry sabia que nenhum deles teria a certeza absoluta de voltar a vê-lo vivo."
Este mail tem por objectivo comunicar o meu espanto relativamente ao facto de existirem alguns erros de tradução na edição do Harry Potter (Harry Potter e a Pedra Filosofal), o que me parece realmente uma coisa inacreditável, dada a importância que este livro adquiriu, até a nível mundial, e que se traduz pelo seu extraordinário sucesso de vendas. Como é que é possível que, num livro que é traduzido, revisto, editado e, posteriormente, lido por milhares de pessoas, ninguém ainda se tenha apercebido destes erros, essa é a minha questão.
(Ou será que se aperceberam? Mas então, porque é que eles continuam lá, para quem os quiser ver - neste caso ler - quase dez anos depois da primeira edição?)
Eu ainda não acabei a leitura do livro em Português (já o li em inglês) mas até agora já encontrei os seguintes exemplos de lacunas:
pág 43: " Encarrapitada num cume de um rochedo, estava a cabana mais miserável que imaginar se pode."
(esta expressão, "que imaginar se pode", aparece numa outra página, que não consigo agora precisar).
Ora, esta frase, que imaginar se pode, está obviamente mal construída, e deveria ser substituída por que se pode imaginar. A frase ficaria, então, "(...) a cabana mais miserável que se pode imaginar."
pág 50: " - E tiveste mesmo pouca sorte em teres crescido no seio d'uma família dos maiores Muggles qu' alguma vez conheci."
Nesta frase não existe propriamente um erro, antes uma incongruência, quanto a mim. É uma fala do Hagrid, o gigante, que fala atabalhoadamente, com sotaque, e come as palavras. Ora, na boca deste personagem, a expressão "no seio de uma família" parece completamente despropositada. Uma pessoa que fala como ele não usa expressões como "no seio" de alguma coisa. Vá lá que dissesse "no meio d'uma família" ou apenas "numa família...", agora, "no seio" não combina de forma nenhuma com a sua maneira de falar. É como se pusessem o Voldemort a dizer algo simpático ou o Snape a piscar o olho ao Harry.
pág 65: "O duende tinha cerca de quarenta centímetros a menos de altura que Harry."
Como é evidente, esta frase deveria ser: " O duende tinha cerca de quarenta centímetros de altura a menos que Harry."
Não, não sou tradutora nem trabalho no ramo. Sou apenas uma leitora interessada e atenta. E acho um verdadeiro escândalo que este livro esteja mal traduzido para a língua portuguesa. Se fosse eu o autor, mudava de editora. Desculpem a franqueza, mas acho inadmissível que uma coisa destas aconteça.
Muito obrigada pela atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos
Sim, escrevi e enviei por mail. E, depois de ter enviado, já encontrei mais (pág. 185):
"Harry sabia que quando, na tarde seguinte, Ron e Hermione lhe desejassem boa sorte, antes de ele entrar para os vestiários, nenhum deles tinha a certeza absoluta de voltar a vê-lo vivo."
Nesta frase, para se manter esta estrutura, terá de se modificar o tempo do verbo ter, tinha, por teria, e colocar correctamente o "quando":
"Harry sabia que, na tarde seguinte, quando Ron e Hermione lhe desejassem boa sorte, antes de ele entrar para os vestiários, nenhum deles teria a certeza absoluta de voltar a vê-lo vivo."
Ou então poder-se-ia escrever a frase de outra forma:
"Quando, na tarde seguinte, Ron e Hermione lhe desejassem boa sorte, antes de ele entrar para os vestiários, Harry sabia que nenhum deles teria a certeza absoluta de voltar a vê-lo vivo."
sábado, outubro 06, 2007
Isto não é normal
Uma festa de anos de um coleguinha do Diogo no McDonalds. Chego com os dois e parece que o David não existe. Às tantas dizem-me que estão demasiados adultos na sala e que temos de sair. Eu trago o David cá para baixo para ele comer qualquer coisa, e como ele me peça para voltar, subo com ele e pergunto à mãe se ele pode ficar, ao que ela me diz que sim. Saio para a rua, dou umas voltas durante uns vinte minutos para fazer horas de os ir buscar. Quando chego lá, estranho a cara do David, sentado a um canto. No caminho para o carro, fico a saber que o mandaram sentar naquela cadeira, longe dos outros, o tempo todo, e mesmo com ele a chorar, nenhuma alma foi capaz de ter nenhuma atitude normal, digo eu. Ninguém fez absolutamente nada.
Tão cedo não me apanham noutra.
Tão cedo não me apanham noutra.
segunda-feira, setembro 10, 2007
São estes

os "cadernos de mercearia".
Mais simples do que isto não pode haver.
É claro que os livros escolares são muito bonitos! Cheiram a novos, têm imagens apelativas, tudo muito bonitinho e com muitas cores...
Mas paremos para pensar: será que isso é importante?
Faz-me pensar naqueles pais que, não tendo tempo para os filhos, os enchem de presentes caros e bonitos... como se isso pudesse compensar de alguma maneira o que não lhes dão.
Claro que não! O que é importante é a qualidade do ensino, e essa, não se mede pela beleza dos livros, pelo aparato editorial!
Pensem bem: isto é ridículo! Então não há dinheiro, anda o país todo a apertar o cinto porque todos sabemos que os cortes orçamentais são uma constante que já nem nos surpreende, já faz parte, e depois damo-nos a estes luxos, milhões de euros em livros escolares (se são treze para a primeira classe, imagino o resto), para quê? Para encher os bolsos de quem? Das editoras? Já pensaram no lucro anual?
E depois andam os pais a pagar impostos, a receber um salário que não dá para a realidade do custo de vida do país, a terem de suportar um custo destes... para quê? Quem lucra com isto?
Os estudantes não são de certeza. Nem as famílias. Muito menos a escola e o ensino.
Perguntem-se. Questionem-se. Informem-se. Sei lá, façam um boicote colectivo!
AH!, que isto mexeu-me mesmo com os nervos!
sábado, abril 21, 2007
Plástico nas alturas
«Ó mãe, porque é que aqui há sacos de plástico nas árvores?»
Quando ouvi esta pergunta pela primeira vez, sorri para dentro, a pensar nalgum devaneio assim meio esquisito da criança. Mas depois encarei-me, confundida, pela estranheza de enfim concretizar em palavras algo que já a mim me fizera espantar para dentro, embora na altura não tivesse dado muita importância ao caso, ocupada que estava a minha mente com outros sobressaltos próprios de quem chega a um lugar estranho em aterragem súbita e um pouco desconfortável.
Homessa, era verdade.
Os sacos de plástico lá estavam (e estão) pendurados em algumas árvores, sempre em ramos onde a mão terrena de alguém com os pés colados ao chão não alcança. A abanar com o vento, derrotados pela chuva, bocados de plástico tristes e patéticos na tentativa vã de ascenderem às alturas dos mistérios da matéria viva (ou, quem sabe se a tentativa é a de ascender às alturas brancas das nuvens, desfazerem-se do peso da matéria, e afinal são as árvores e os seus ramos de sabedoria milenar que os prendem na sua quietude de alma com raízes fundas na terra, e lhes impedem o voo com a gravidade e a profundidade das verdades terrenas).
Podemos conjecturar algumas hipóteses explicativas para o facto. Ou o vento os levou para ali por artes mágicas da fúria da ventania, dotando-os de vontade própria, sucumbindo quiçá ao seu desejo mudo de conquistar o reino vegetal e ganhar um lugar entre as almas verdes da clorofila (e como os há em abundância espalhados pelo chão e nos raros caixotes do lixo, esta hipótese é bastante provável), ou então temos algum louco por aqui que se entretém a pendurar sacos em série nas árvores. Mas era preciso serem muitos e muito loucos.
A razão permanece um mistério, mas que os há, há.
Quando ouvi esta pergunta pela primeira vez, sorri para dentro, a pensar nalgum devaneio assim meio esquisito da criança. Mas depois encarei-me, confundida, pela estranheza de enfim concretizar em palavras algo que já a mim me fizera espantar para dentro, embora na altura não tivesse dado muita importância ao caso, ocupada que estava a minha mente com outros sobressaltos próprios de quem chega a um lugar estranho em aterragem súbita e um pouco desconfortável.
Homessa, era verdade.
Os sacos de plástico lá estavam (e estão) pendurados em algumas árvores, sempre em ramos onde a mão terrena de alguém com os pés colados ao chão não alcança. A abanar com o vento, derrotados pela chuva, bocados de plástico tristes e patéticos na tentativa vã de ascenderem às alturas dos mistérios da matéria viva (ou, quem sabe se a tentativa é a de ascender às alturas brancas das nuvens, desfazerem-se do peso da matéria, e afinal são as árvores e os seus ramos de sabedoria milenar que os prendem na sua quietude de alma com raízes fundas na terra, e lhes impedem o voo com a gravidade e a profundidade das verdades terrenas).
Podemos conjecturar algumas hipóteses explicativas para o facto. Ou o vento os levou para ali por artes mágicas da fúria da ventania, dotando-os de vontade própria, sucumbindo quiçá ao seu desejo mudo de conquistar o reino vegetal e ganhar um lugar entre as almas verdes da clorofila (e como os há em abundância espalhados pelo chão e nos raros caixotes do lixo, esta hipótese é bastante provável), ou então temos algum louco por aqui que se entretém a pendurar sacos em série nas árvores. Mas era preciso serem muitos e muito loucos.
A razão permanece um mistério, mas que os há, há.
terça-feira, abril 10, 2007
Coisas do arco da velha
Na casa de banho?! Eu tinha dito na casa de banho?!
Pois bem, desta vez foi no quarto! Ouviram bem? No quarto, dentro de um armário! Vou eu a abrir o armário e deparo com uma lá dentro, e com todas aquelas canalizações de cobre instaladas às três pancadas, como eles aqui fazem.
Agora digam-me lá, como é que num país destes, isto é possível acontecer. Uma casa para alugar com uma caldeira instalada num quarto. A casa está para alugar numa das melhores agências do mercado. E não há inspecções de entidades oficiais para ver se está tudo dentro das normas de segurança? O quê, normas de segurança? O que é isso?
Pois bem, desta vez foi no quarto! Ouviram bem? No quarto, dentro de um armário! Vou eu a abrir o armário e deparo com uma lá dentro, e com todas aquelas canalizações de cobre instaladas às três pancadas, como eles aqui fazem.
Agora digam-me lá, como é que num país destes, isto é possível acontecer. Uma casa para alugar com uma caldeira instalada num quarto. A casa está para alugar numa das melhores agências do mercado. E não há inspecções de entidades oficiais para ver se está tudo dentro das normas de segurança? O quê, normas de segurança? O que é isso?
terça-feira, setembro 19, 2006
WELCOME TO THE REAL WORLD

Apresento-vos Jamie Oliver, o mentor da campanha Feed Me Better, desenvolvida ao longo do ano de 2005 em grande parte das Primary Schools em algumas áreas da Grande Londres e outras zonas do País. Este Chefe de Cozinha tornou-se popular quando fez alguns shows televisivos e publicou alguns livros de culinária. O propósito da campanha é banir o junk food das escolas, e tem tido sucesso.
Com 31 anos de idade, tem ar de puto reguila e rapidamente conquista a adesão das crianças. Organizou encontros com os pais e os miúdos nas escolas, onde procurou chamar a atenção de ambos para as graves consequências para a saúde do tipo de alimentação correntemente praticado por aquelas faxas etárias. Em alguns desses encontros, despejou para cima de um pano enorme, do tamanho de um lençol, dois caixotes de batatas fritas, regou tudo com molho à base de gordura e juntou coca-cola por cima. Enquanto fazia esta mistura, perante o assombro da assistência, ia falando das consequências para a saúde de um tal excesso de gorduras saturadas na alimentação diária. O objectivo era enojar as pessoas, o que foi conseguido!
De outras vezes foi para as escolas e pediu aos miúdos que despejassem os snacks de junk food que tinham nas mochilas para um saco, a troco de alguns pence suficientes para uma refeição equilibrada. Alguns miúdos não queriam alinhar, mas ele insistia e persuadia. Começavam então a chover pacotes de batatas fritas, chocolat bars, fizzy drinks e todo o género de snacks hiper-calóricos para dentro do saco. E, acreditem ou não, aquilo era o almoço daqueles miúdos.
Com uma roulote dessas de vender comida, montou um bar de snacks saudáveis num recreio de uma escola. Os snacks eram feitos à base de ingredientes frescos, na sua maioria vegetais e fruta. Os preços eram acessíveis. Os miúdos aderiram em massa.

Desde 2005 que a maioria das escolas do Borough de Greenwich confecciona as refeições com as receitas implementadas por esta campanha. Antes disso, as refeições escolares eram compostas por junk food. Isto nas escolas onde se faziam refeições.
Quando se pergunta aos miúdos se eles gostam mais da comida agora, a resposta é unânime: sim! As crianças reagiram muito bem à alteração das ementas. Estas crianças também foram educadas no sentido de reconhecerem a importância de uma alimentação nutricionalmente equilibrada, por isso muitas delas respondem que agora comem mais vegetais, e falam da importância que isso tem para a sua saúde.
Mas não foi só em Londres que esta campanha se desenrolou, também outras zonas do país fizeram parte da acção. Em algumas zonas rurais as dificuldades foram bem maiores, como por exemplo Lincolnshire. É considerada uma zona precária em termos de recursos, e a realidade da maioria das escolas era esta: não havia cozinha! O que quer dizer que as crianças não tinham uma refeição quente. O almoço delas consistia em pack lunches trazidos de casa, e não é preciso dizer no que consistiam, vocês adivinham... junk food.
Eram as próprias crianças a dizer que sentiam a falta de uma refeição quente: devido ao frio que no inverno se faz sentir naquela zona, sentiam falta de comer algo mais substancial. Como as escolas não tinham cozinha, a solução passou por procurar um local nas redondezas onde as refeições pudessem ser confeccionadas. Foi escolhido um Pub local. Esta iniciativa tinha de ter o apoio monetário dos pais, para começar. Foram feitas muitas reuniões com os pais, muitas acções de sensibilização, pois sem este apoio nada iria para a frente.
A primeira escola da zona começou então a dar uma refeição quente aos alunos, que era confeccionada no Pub local. Vimos então crianças que não sabiam comer com faca e garfo! Não estavam habituados a tal! De onde se depreende que, em casa, também não tinham esse hábito. Vimos muitos pais e mães torcer o nariz a estas inovações. E uma mãe a dizer, enquanto olhava para o novo menu, que as crianças não precisam de arroz ou massa todos os dias!
Entretanto, surgem problemas com esta primeira escola de Lincolnshire a aderir à campanha. O dinheiro escasseia, e, pior, a confecção da comida não está a seguir as normas regulamentares de higiene. É feita uma inspecção ao Pub. Vimos panelas a serem manejadas no chão, superfícies sujas, frigoríficos em estado lastimável, comida armazenada há muito tempo, já em estado pouco recomendável, até uma embalagem com comida estragada! As receitas estavam a ser alteradas, no sentido de darem menos trabalho e de ficarem mais baratas. O fulano que estava encarregue de cozinhar não tinha a mínima formação para esta actividade. Na verdade, nunca tinha feito este trabalho. Não era cozinheiro, era apenas o dono de um Pub a procurar desesperadamente não ter prejuízo.
Tenta-se o apoio dos pais, o que se mostra difícil. E então, surge a solução: entrar em contacto com produtores agrícolas da região, para que disponibilizem os ingredientes frescos necessários, estabelecer uma aliança com os restaurantes e hotéis da zona que estejam dispostos a colaborar na confecção das refeições, e fazer uma parceria entre escolas, produtores e restauração. Tudo isto com o apoio monetário dos pais, ainda fundamental. Nesta altura já se tinham conseguido ajudas financeiras governamentais, por isso havia a certeza de que se as pessoas se empenhassem em levar esta acção para a frente, o governo disponibilizaria mais ajudas. E foi o que aconteceu.
E está a acontecer, ainda. Neste momento, o governo disponibilizou novas verbas para obras de reformulação nas cozinhas, formação para pessoal, implementação da campanha em novas escolas, e foram criadas novas regulamentações a nível da alimentação escolar. Tudo isto aconteceu agora, não é fantasia, é realidade. Neste país, foi preciso um indivíduo comum, que por acaso era cozinheiro e tinha alguma popularidade, para que o panorama alimentar escolar, que era uma vergonha nacional, mudasse. Não houveram pais, nem mães, nem médicos, nem entidades de saúde, nem entidades responsáveis pela infância a mexer uma palha até ao início do século XXI em relação a esta matéria. E garanto-vos que se não fosse a vontade férrea deste rapazola hoje estava tudo na mesma.
Não estou a dizer mal dele, acho louvável o que ele fez. Só me confrange que mais ninguém tenha feito nada durante tanto tempo. E que, mesmo assim, ainda haja muitas crianças a comer diariamente snacks de junk food. É uma realidade alarmante: há muitos miúdos que, apesar de as escolas darem a refeição quente, continuam a comer pack lunch de comida fria: barras de chocolate e outras porcarias, batatas fritas, sumos, bolos, sandes... é este o almoço de muitas crianças!
Isto só tem um nome: ATRASO. O que se passa em algumas zonas rurais deste país, e não só, revela um atraso incomensurável e gritante. O nosso país, que viveu debaixo de uma ditadura de cinquenta e tal anos, e que, consequentemente, sofreu um atraso de desenvolvimento brutal, como todos sabemos, atraso esse que atingiu mais profundamente as zonas rurais e do interior, está muito menos atrasado, em relação a esta questão da alimentação, do que estas regiões do Reino Unido! Durante a ditadura em Portugal passou-se fome, muita fome, porque as pessoas não tinham o que comer. Mas hoje não há nenhuma escola primária no país, desde a Santa Terrinha no Sul até aos confins de Trás-os-Montes, que não sirva uma refeição de sopa, segundo prato e fruta, feita à base de ingredientes frescos! Não acredito que assim não seja! E sei que ainda há situações de miséria e de gente a passar fome (ai há, há!), mas aqui passa-se fome de uma maneira muito pior: não por falta de alimento, mas por se comer merda! Isto é incrível, mas é verdade: há aqui crianças a passar fome por terem uma alimentação completamente desequilibrada. Aqui não faz sentido falar em pobreza nem em miséria: as ajudas são uma realidade e ninguém morre à fome! Se a família tem um rendimento baixo, há ajudas, se está no desemprego, também, há subsídios para as crianças, não há desculpa para as pessoas não fazerem uma alimentação digna, mesmo nas zonas mais pobres!Neste momento, o governo comprometeu-se a dar apoio a esta campanha até 2011. Penso que todas as escolas de Greenwich estão neste momento com as novas refeições. Na zona de Lincolnshire o balanço também acabou por ser positivo. Não sei como são as coisas noutras zonas em Londres. Mas sei que há muitas crianças que continuam a comer mal e porcamente. Sei que esta iniciativa corre alguns riscos se não houver o apoio dos pais e das escolas, no sentido de continuarem a reivindicar apoios e ajudas governamentais. Muitas das escolas aderiram e estão mentalizadas da importância desta iniciativa, outras há que ainda dão diariamente aos miúdos refeições à base de junk food... ainda... em pleno século XXI.

Se quiserem saber mais sobre este assunto, podem ir aqui.
segunda-feira, julho 03, 2006
AINDA O SILÊNCIO DOS INOCENTES
É raro, raríssimo, mas de vez em quando eles lá fazem ouvir-se.
Deve ser do calor, não sei.
Afinal, as criaturas também têm direito a passar-se com o calor, ou não?
E, de vez em quando, um ladrar súbito atordoa os ares.
E sempre que tal acontece, volta a dar-se o mesmo milagre nos meus ouvidos. Ou na minha cabeça, não sei bem. Talvez numa imprecisa região do cérebro, onde confluem afectos, memórias e sons.
Sempre que os oiço, volto a ouvir mais nitidamente o seu silêncio.
Ou melhor, só sinto verdadeiramente o seu silêncio quando os oiço.
Quando não os oiço, já sei que eles não ladram, mas saber que não ladram é completamente diferente de sentir a falta do seu ladrar.
Essa só a sinto mesmo quando os oiço.
E é incrível o que o ladrar de um cão traz consigo.
O ladrar dos cães é tão antigo como a própria humanidade.
O ladrar dos cães faz parar o tempo. Transporta-nos para outras dimensões.
Tem o poder de nos levar para outros sítios, de nos restituir memórias intactas, que julgávamos perdidas.
O ladrar de um cão no silêncio da noite, por exemplo, é uma companhia. E quando a esse ladrar respondem outros ladrares, diferentes de intensidade e timbre, mais e menos distantes, então o nosso coração também ladra no peito.
Ladra de vontade de se reunir à matilha.
O ladrar dos cães anuncia proximidade de casas, pessoas, abrigos. Para um viajante solitário é como chegar a casa, para um marinheiro distante é como atracar no porto.
O ladrar de um cão transporta-me para a infãncia, para aquele pontinho minúsculo onde estou deitada na cama, sem conseguir adormecer devido ao bafo de fantasmas e medos, e de repente aquele som familiar corta a escuridão e entra na minha solidão. Devolve-me a realidade, a claridade da luz do dia, o sol a pino lá do alto a afagar as colinas da serra com o seu calor ancestral. E a minha alma pequenina aquece com ele. Fecho os olhos e quando os reabro a escuridão tem novas cores, já não me ameaça, e os velhos fantasmas sorriem para mim.
Juro-vos que é verdade.
O ladrar de um cão tem o poder de nos tirar de dentro do poço da angústia.
O ladrar de um cão é uma linguagem mágica. E essa linguagem é comum aos seres humanos.
O ladrar de um cão é um aviso, um chão, um tecto, um alerta, um sinal, um postigo, um abrigo.
O silêncio dos cães não tem cor nem coerência.
O silêncio dos cães é uma aberração da natureza.
O silêncio dos cães faz-nos sentir estrangeiros no mundo. Mais ainda do que já somos.
O silêncio dos cães encerra-nos as portas para a clarividência de outras almas.
O silêncio dos cães é pesado, é estranho, é complexado.
O silêncio dos cães instala-se nos ouvidos como um parasita, e afasta-nos de nós mesmos, da nossa natureza, da nossa certeza de segurança, da nossa primeira linguagem.
Não percebo, nunca vou perceber isto.
Nem quero.
Lembro-me do Rumble Fish, que vi há séculos, daquela cena em que os animais da loja são libertos, e correm em debandada para a rua.
Eu apetecia-me volatilizar-me em sopro de vento, e ir por aí, por esses quintais fora, a sussurrar aos ouvidos dos cachorros: "Ladrem! Ladrem! Ladrem!"
Deve ser do calor, não sei.
Afinal, as criaturas também têm direito a passar-se com o calor, ou não?
E, de vez em quando, um ladrar súbito atordoa os ares.
E sempre que tal acontece, volta a dar-se o mesmo milagre nos meus ouvidos. Ou na minha cabeça, não sei bem. Talvez numa imprecisa região do cérebro, onde confluem afectos, memórias e sons.
Sempre que os oiço, volto a ouvir mais nitidamente o seu silêncio.
Ou melhor, só sinto verdadeiramente o seu silêncio quando os oiço.
Quando não os oiço, já sei que eles não ladram, mas saber que não ladram é completamente diferente de sentir a falta do seu ladrar.
Essa só a sinto mesmo quando os oiço.
E é incrível o que o ladrar de um cão traz consigo.
O ladrar dos cães é tão antigo como a própria humanidade.
O ladrar dos cães faz parar o tempo. Transporta-nos para outras dimensões.
Tem o poder de nos levar para outros sítios, de nos restituir memórias intactas, que julgávamos perdidas.
O ladrar de um cão no silêncio da noite, por exemplo, é uma companhia. E quando a esse ladrar respondem outros ladrares, diferentes de intensidade e timbre, mais e menos distantes, então o nosso coração também ladra no peito.
Ladra de vontade de se reunir à matilha.
O ladrar dos cães anuncia proximidade de casas, pessoas, abrigos. Para um viajante solitário é como chegar a casa, para um marinheiro distante é como atracar no porto.
O ladrar de um cão transporta-me para a infãncia, para aquele pontinho minúsculo onde estou deitada na cama, sem conseguir adormecer devido ao bafo de fantasmas e medos, e de repente aquele som familiar corta a escuridão e entra na minha solidão. Devolve-me a realidade, a claridade da luz do dia, o sol a pino lá do alto a afagar as colinas da serra com o seu calor ancestral. E a minha alma pequenina aquece com ele. Fecho os olhos e quando os reabro a escuridão tem novas cores, já não me ameaça, e os velhos fantasmas sorriem para mim.
Juro-vos que é verdade.
O ladrar de um cão tem o poder de nos tirar de dentro do poço da angústia.
O ladrar de um cão é uma linguagem mágica. E essa linguagem é comum aos seres humanos.
O ladrar de um cão é um aviso, um chão, um tecto, um alerta, um sinal, um postigo, um abrigo.
O silêncio dos cães não tem cor nem coerência.
O silêncio dos cães é uma aberração da natureza.
O silêncio dos cães faz-nos sentir estrangeiros no mundo. Mais ainda do que já somos.
O silêncio dos cães encerra-nos as portas para a clarividência de outras almas.
O silêncio dos cães é pesado, é estranho, é complexado.
O silêncio dos cães instala-se nos ouvidos como um parasita, e afasta-nos de nós mesmos, da nossa natureza, da nossa certeza de segurança, da nossa primeira linguagem.
Não percebo, nunca vou perceber isto.
Nem quero.
Lembro-me do Rumble Fish, que vi há séculos, daquela cena em que os animais da loja são libertos, e correm em debandada para a rua.
Eu apetecia-me volatilizar-me em sopro de vento, e ir por aí, por esses quintais fora, a sussurrar aos ouvidos dos cachorros: "Ladrem! Ladrem! Ladrem!"
terça-feira, março 21, 2006
ALERTA MÁXIMO
EL TAMIFLU, DONALD RUMSFELD Y EL NEGOCIO DEL MIEDO
Extracto de la Editorial del número 81(abril-2006) la revista DSALUD(http://www.dsalud.com/)
por José Antonio Campoy
¿Sabes que el virus de la gripe aviar fue descubierto hace 9 años en Vietnam?
¿Sabes que desde entonces han muerto apenas 100 personas EN TODO EL MUNDO TODOS ESTOS AÑOS?
¿Sabes que los norte americanos fueron los que alertaron de la eficacia del TAMIFLU (antiviral humano) como preventivo?
¿Sabes que el TAMIFLU apenas alivia algunos síntomas de la gripe común?
¿Sabes que su eficacia ante la gripe común está cuestionada por gran parte de la comunidad científica?
¿Sabes que ante un SUPUESTO virus mutante como el H5N1 el TAMIFLU apenas aliviara la enfermedad?
¿Sabes que la gripe aviar hasta la fecha solo afecta a las aves?
¿Sabes quien comercializa el TAMIFLU? LABORATORIOS ROCHE
¿Sabes a quien compró ROCHE la patente del TAMIFLU en 1996? a GILEAD SCIENCES INC.
¿Sabes quien era el Presidente de GILEAD SCIENCES INC y aun hoy principal accionista? DONALD RUMSFELD, actual Secretario de Defensa de USA
¿Sabes que la base del TAMIFLU es el anís estrellado?
¿Sabes quien se ha quedado con el 90% de la producción mundial de este árbol? ROCHE
¿Sabes que las ventas del TAMIFLU pasaron de 254 millones en el 2004 a mas de 1000 millones en el 2005?
¿Sabes cuantos millones más puede ganar ROCHE en los próximos meses si sigue este negocio del miedo?
O sea que el resumen del cuento es el siguiente:
Los amigos de Bush deciden que un fármaco como el TAMIFLU es la solución para una pandemia que aún no se ha producido y que ha causado en todo el mundo 100 muertos en 9 años. Este fármaco no cura ni la gripe común. El virus no afecta al hombre en condiciones normales. Rumsfeld vende la patente del TAMIFLU a ROCHE y este le paga una fortuna. Roche adquiere el 90% de la producción del anís estrellado, base del antivírico. Los Gobiernos de todo el Mundo amenazan con una pandemia y compran a ROCHE cantidades industriales del producto. Nosotros acabamos pagando el medicamento y Rumsfeld, Cheney y Bush hacen el negocio....
¿ESTAMOS LOCOS, O SOMOS IDIOTAS? AL MENOS PASALO PARA QUE SE SEPA.
(enviado por e-mail)
É evidente que a possibilidade de previsão de fenómenos desta escala traz benefícios para a saúde humana a longo prazo, entre os quais a possibilidade de evitar altos níveis de mortalidade, como no passado aconteceu com fenómenos pandémicos semelhantes. É importante as pessoas estarem informadas, é importante cumprirem as normas de prevenção, principalmente as pessoas ligadas à criação de aves de capoeira. A prevenção pode (e ainda bem) salvar muitas vidas humanas. Toda esta realidade não deve ser desprezada, quanto a mim, e muito menos os esforços que todos os países estão a fazer no sentido de levar a bom porto esta campanha preventiva.
Mas também não podemos ficar indiferentes a este outro lado da questão. Não podemos esquecer que o pânico não é bom conselheiro, mas é um óptimo instrumento para levar as pessoas a atingir determinados comportamentos. Ainda me recordo do medo em relação a um hipotético surto de meningite que levou, aqui há poucos anos, as pessoas a comprarem em massa a vacina contra a meningite C, esgotando rapidamente os stocks nacionais existentes. E nesse ano não houve mais casos de meningite do que nos anos anteriores, simplesmente foram todos cuidadosamente noticiados nos telejornais, o que deu a ideia de que realmente haveria naquele ano mais casos que o normal. Não nos podemos esquecer do poder que a indústria farmacêutica tem no mundo inteiro. Não nos podemos esquecer nos biliões de dólares que todo este "estado de sítio" implica e movimenta. Sim, é triste, e é uma hipótese aterradora, mas não é de descartar de todo.
Na minha opinião, devemos estar em alerta máximo para ambas as possibilidades: tanto para a ameaça de uma provável pandemia, como para a ameaça de estarmos a ser vítimas de manipulação terrorista. É claro que, na dúvida, devemos prevenirmos, e não quero por em causa os esforços que a comunidade mundial está a fazer nesse sentido. Mas é bom mantermos os olhos abertos para possibilidades como esta.
Extracto de la Editorial del número 81(abril-2006) la revista DSALUD(http://www.dsalud.com/)
por José Antonio Campoy
¿Sabes que el virus de la gripe aviar fue descubierto hace 9 años en Vietnam?
¿Sabes que desde entonces han muerto apenas 100 personas EN TODO EL MUNDO TODOS ESTOS AÑOS?
¿Sabes que los norte americanos fueron los que alertaron de la eficacia del TAMIFLU (antiviral humano) como preventivo?
¿Sabes que el TAMIFLU apenas alivia algunos síntomas de la gripe común?
¿Sabes que su eficacia ante la gripe común está cuestionada por gran parte de la comunidad científica?
¿Sabes que ante un SUPUESTO virus mutante como el H5N1 el TAMIFLU apenas aliviara la enfermedad?
¿Sabes que la gripe aviar hasta la fecha solo afecta a las aves?
¿Sabes quien comercializa el TAMIFLU? LABORATORIOS ROCHE
¿Sabes a quien compró ROCHE la patente del TAMIFLU en 1996? a GILEAD SCIENCES INC.
¿Sabes quien era el Presidente de GILEAD SCIENCES INC y aun hoy principal accionista? DONALD RUMSFELD, actual Secretario de Defensa de USA
¿Sabes que la base del TAMIFLU es el anís estrellado?
¿Sabes quien se ha quedado con el 90% de la producción mundial de este árbol? ROCHE
¿Sabes que las ventas del TAMIFLU pasaron de 254 millones en el 2004 a mas de 1000 millones en el 2005?
¿Sabes cuantos millones más puede ganar ROCHE en los próximos meses si sigue este negocio del miedo?
O sea que el resumen del cuento es el siguiente:
Los amigos de Bush deciden que un fármaco como el TAMIFLU es la solución para una pandemia que aún no se ha producido y que ha causado en todo el mundo 100 muertos en 9 años. Este fármaco no cura ni la gripe común. El virus no afecta al hombre en condiciones normales. Rumsfeld vende la patente del TAMIFLU a ROCHE y este le paga una fortuna. Roche adquiere el 90% de la producción del anís estrellado, base del antivírico. Los Gobiernos de todo el Mundo amenazan con una pandemia y compran a ROCHE cantidades industriales del producto. Nosotros acabamos pagando el medicamento y Rumsfeld, Cheney y Bush hacen el negocio....
¿ESTAMOS LOCOS, O SOMOS IDIOTAS? AL MENOS PASALO PARA QUE SE SEPA.
(enviado por e-mail)
É evidente que a possibilidade de previsão de fenómenos desta escala traz benefícios para a saúde humana a longo prazo, entre os quais a possibilidade de evitar altos níveis de mortalidade, como no passado aconteceu com fenómenos pandémicos semelhantes. É importante as pessoas estarem informadas, é importante cumprirem as normas de prevenção, principalmente as pessoas ligadas à criação de aves de capoeira. A prevenção pode (e ainda bem) salvar muitas vidas humanas. Toda esta realidade não deve ser desprezada, quanto a mim, e muito menos os esforços que todos os países estão a fazer no sentido de levar a bom porto esta campanha preventiva.
Mas também não podemos ficar indiferentes a este outro lado da questão. Não podemos esquecer que o pânico não é bom conselheiro, mas é um óptimo instrumento para levar as pessoas a atingir determinados comportamentos. Ainda me recordo do medo em relação a um hipotético surto de meningite que levou, aqui há poucos anos, as pessoas a comprarem em massa a vacina contra a meningite C, esgotando rapidamente os stocks nacionais existentes. E nesse ano não houve mais casos de meningite do que nos anos anteriores, simplesmente foram todos cuidadosamente noticiados nos telejornais, o que deu a ideia de que realmente haveria naquele ano mais casos que o normal. Não nos podemos esquecer do poder que a indústria farmacêutica tem no mundo inteiro. Não nos podemos esquecer nos biliões de dólares que todo este "estado de sítio" implica e movimenta. Sim, é triste, e é uma hipótese aterradora, mas não é de descartar de todo.
Na minha opinião, devemos estar em alerta máximo para ambas as possibilidades: tanto para a ameaça de uma provável pandemia, como para a ameaça de estarmos a ser vítimas de manipulação terrorista. É claro que, na dúvida, devemos prevenirmos, e não quero por em causa os esforços que a comunidade mundial está a fazer nesse sentido. Mas é bom mantermos os olhos abertos para possibilidades como esta.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
OS 101 DÁLMATAS E O SILÊNCIO DOS INOCENTES
Lembram-se dos 101 dálmatas? Lembram-se dos cães de todos os jardins a ganir à lua, passando a mensagem de uns para os outros, do paradeiro dos cachorrinhos? Pois bem, essa estória não se pode ter passado em Londres. Pelo menos, esta onde vivo.
Ora, estava eu ontem à noite na cozinha, quando sou surpreendida por um ladrar canino a rasgar o silêncio da noite. Parei imediatamente o que estava a fazer, e pus-me à escuta. Um cão a ladrar? Teria ouvido bem?
Da sala chegava-me o som da televisão, e de repente novo ladrar, mais forte que o anterior. Desta vez não tive dúvidas. Era mesmo um cão a ladrar!
E então?, estão vocês a pensar. O que é que um cão a ladrar tem assim de tão especial? Eu explico: sabem aqueles sons de fundo que não nos deixam usufruir do silêncio, que a gente às tantas confunde com o silêncio quase sem nos apercebermos, e que só damos por eles quando de repente cessam, sem motivo? E os nossos ouvidos, já habituados àquele ruído branco e monótono, de súbito estranham, e ouvem... o silêncio?
Pois bem, o ladrar do cão teve mais ou menos o mesmo efeito nos meus ouvidos e no meu cérebro. É que, quando o ouvi, estranhei... um som tão familiar na noite, era, subita e inexplicavelmente, completamente estranho... e porquê? Porque, simplesmente, deixara de os ouvir. E não me apercebera ainda. Como o ouvido acostumado ao ruído, que confunde com silêncio. Eu, foi mais ao contrário: confundi o silêncio com o ruído. O silêncio dos cães... ainda não tinha reparado nele, até àquele ladrar forte e inesperado.
É isso mesmo: os cães de Londres são inocentes silenciosos. Pura e simplesmente, não ladram. Mas como?, estão vocês agora a perguntarem-se. Good question. A mesma que fiz, incrédula, ao meu marido, quando vim até à sala confirmar que aquele ladrar só podia vir de um sítio... da televisão, e não da rua, como a princípio pensei! E fiz-lhe a mesma pergunta que agora levanto aqui: já reparaste que os cães daqui não ladram? Mas como é que isso é possível? É proibido? Mas e então, eles sabem disso?
E não pensem que não há cães: nunca vi tanto animal de estimação junto, nunca vi tantas senhoras gorduchas e homens pensativos e pessoas de todos os tipos a passearem os seus amiguinhos. Há cães de todos os tamanhos e feitios, de todas as raças e marcas de que se lembrarem. Mas não ladram. É verdade. Como é que isso é possível, não me perguntem.
Claro que um especialista em treino de animais com certeza que não achará espanto nenhum nesta minha questão. Mas para mim, permanece um mistério. Para mim, um cão a ladrar é a mesma coisa que um coração a bater. E se há quem diga que "cão que ladra não morde", para mim, cão que não ladra... não sei, parece-me menos cão, menos animal, como se lhe faltasse qualquer coisa.
OK, OK, não é nada agradável sermos acordados pelo ladrar destes amigos altas horas da noite, e prezo muito o sossego destas ruas... mas faz-me confusão aos nervos, o que é que querem? Desde ontem que não paro de pensar nisso. Nos cães sem voz. No silêncio destes inocentes.
Por isso é que vos digo que aquela cena dos 101 dálmatas não se pode ter passado aqui, nesta Londres, onde os canídeos são mudos. Aqui não foi de certeza. Ou foi pura imaginação,ou então foi antes do "latir" ser proibido nas ruas.
Ora, estava eu ontem à noite na cozinha, quando sou surpreendida por um ladrar canino a rasgar o silêncio da noite. Parei imediatamente o que estava a fazer, e pus-me à escuta. Um cão a ladrar? Teria ouvido bem?
Da sala chegava-me o som da televisão, e de repente novo ladrar, mais forte que o anterior. Desta vez não tive dúvidas. Era mesmo um cão a ladrar!
E então?, estão vocês a pensar. O que é que um cão a ladrar tem assim de tão especial? Eu explico: sabem aqueles sons de fundo que não nos deixam usufruir do silêncio, que a gente às tantas confunde com o silêncio quase sem nos apercebermos, e que só damos por eles quando de repente cessam, sem motivo? E os nossos ouvidos, já habituados àquele ruído branco e monótono, de súbito estranham, e ouvem... o silêncio?
Pois bem, o ladrar do cão teve mais ou menos o mesmo efeito nos meus ouvidos e no meu cérebro. É que, quando o ouvi, estranhei... um som tão familiar na noite, era, subita e inexplicavelmente, completamente estranho... e porquê? Porque, simplesmente, deixara de os ouvir. E não me apercebera ainda. Como o ouvido acostumado ao ruído, que confunde com silêncio. Eu, foi mais ao contrário: confundi o silêncio com o ruído. O silêncio dos cães... ainda não tinha reparado nele, até àquele ladrar forte e inesperado.
É isso mesmo: os cães de Londres são inocentes silenciosos. Pura e simplesmente, não ladram. Mas como?, estão vocês agora a perguntarem-se. Good question. A mesma que fiz, incrédula, ao meu marido, quando vim até à sala confirmar que aquele ladrar só podia vir de um sítio... da televisão, e não da rua, como a princípio pensei! E fiz-lhe a mesma pergunta que agora levanto aqui: já reparaste que os cães daqui não ladram? Mas como é que isso é possível? É proibido? Mas e então, eles sabem disso?
E não pensem que não há cães: nunca vi tanto animal de estimação junto, nunca vi tantas senhoras gorduchas e homens pensativos e pessoas de todos os tipos a passearem os seus amiguinhos. Há cães de todos os tamanhos e feitios, de todas as raças e marcas de que se lembrarem. Mas não ladram. É verdade. Como é que isso é possível, não me perguntem.
Claro que um especialista em treino de animais com certeza que não achará espanto nenhum nesta minha questão. Mas para mim, permanece um mistério. Para mim, um cão a ladrar é a mesma coisa que um coração a bater. E se há quem diga que "cão que ladra não morde", para mim, cão que não ladra... não sei, parece-me menos cão, menos animal, como se lhe faltasse qualquer coisa.
OK, OK, não é nada agradável sermos acordados pelo ladrar destes amigos altas horas da noite, e prezo muito o sossego destas ruas... mas faz-me confusão aos nervos, o que é que querem? Desde ontem que não paro de pensar nisso. Nos cães sem voz. No silêncio destes inocentes.
Por isso é que vos digo que aquela cena dos 101 dálmatas não se pode ter passado aqui, nesta Londres, onde os canídeos são mudos. Aqui não foi de certeza. Ou foi pura imaginação,ou então foi antes do "latir" ser proibido nas ruas.
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