A escrita dela aviva memórias, como se ateasse uma fogueira, e cada labareda, cada clarão vermelho cada vez mais quente, nos fosse entrando na pele. Voltamos àquela morada pálida, onde cada olhar tem o poder de dissecar o tempo e o espaço e abri-lo num leque de cheiros e sensações e luzes e cores e serpentinas, e cada partícula do nosso ser invade o espaço dessa escrita e imiscui-se nela, mistura-se na pele e no suor das personagens, encosta-se no seu ombro, ouve o bater do seu coração no seu. Voltamos a ser a criança que fomos, quando os olhos percorriam e se apoderavam do que viam; quando os olhos, mais do que ver, nos mostravam e nos iluminavam, nos projectavam e nos escancaravam a alma. Os olhos das crianças vêem o mundo não a três dimensões, nem a quatro, nem a cinco, mas a mil, a um milhão, a infinitas. É um olhar insaciável, que ainda não conhece as regras da percepção. É essa multiplicidade de prismas e de ângulos e de cores que ela nos devolve, intactas, como eram antes de as enterrarmos sob o manto da racionalidade. Quando a lemos, esquecemos os contornos da realidade e somos invadidos pelo poder de uma inteligência primitiva, uma coisa viva, como um coração a pulsar, o centro e a nascente dos rios e do sangue, a corrente sanguínea que sabe de cor os caminhos e os trilhos e os fundos e os abismos porque lhe conhece a cor vermelha, a força do fogo, o início da vida. Saber de cor é saber com o coração, é conhecer a escuridão e dentro desse túmulo escavar a terra húmida para que dê frutos e árvores de sábias raízes. E, finalmente, o milagre da luz, nas folhas verdes. Ou das palavras.
terça-feira, julho 10, 2007
Clarice Lispector
A escrita dela aviva memórias, como se ateasse uma fogueira, e cada labareda, cada clarão vermelho cada vez mais quente, nos fosse entrando na pele. Voltamos àquela morada pálida, onde cada olhar tem o poder de dissecar o tempo e o espaço e abri-lo num leque de cheiros e sensações e luzes e cores e serpentinas, e cada partícula do nosso ser invade o espaço dessa escrita e imiscui-se nela, mistura-se na pele e no suor das personagens, encosta-se no seu ombro, ouve o bater do seu coração no seu. Voltamos a ser a criança que fomos, quando os olhos percorriam e se apoderavam do que viam; quando os olhos, mais do que ver, nos mostravam e nos iluminavam, nos projectavam e nos escancaravam a alma. Os olhos das crianças vêem o mundo não a três dimensões, nem a quatro, nem a cinco, mas a mil, a um milhão, a infinitas. É um olhar insaciável, que ainda não conhece as regras da percepção. É essa multiplicidade de prismas e de ângulos e de cores que ela nos devolve, intactas, como eram antes de as enterrarmos sob o manto da racionalidade. Quando a lemos, esquecemos os contornos da realidade e somos invadidos pelo poder de uma inteligência primitiva, uma coisa viva, como um coração a pulsar, o centro e a nascente dos rios e do sangue, a corrente sanguínea que sabe de cor os caminhos e os trilhos e os fundos e os abismos porque lhe conhece a cor vermelha, a força do fogo, o início da vida. Saber de cor é saber com o coração, é conhecer a escuridão e dentro desse túmulo escavar a terra húmida para que dê frutos e árvores de sábias raízes. E, finalmente, o milagre da luz, nas folhas verdes. Ou das palavras.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
1 comentário:
Papu, sei que o assunto não é "para aqui chamado..." mas.... não aguento e só "pa meter nojo", VOU PARA ALCOCHETE :p
Enviar um comentário