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sábado, outubro 22, 2016

Poucas palavras

Acabou-se-me o sal. Gastei o resto no arroz de pato que fiz para o jantar. Cozinhei também o coração do animal. É essa a minha função diária: alimentar. Estômagos, corações, uma família, várias vidas, uma cidade, divindades. Talvez um dia descubra que também alimento estrelas noutras galáxias. No peito ficam as palavras que não ousam esse brilho. Encontram uma forma de liberdade na inexistência. Uma certa beleza revestida de silêncio. Belo é o gesto que enfeita a palavra: a enxada que fecunda a terra. A espera no arredondar do ventre. O primeiro vagido, linguagem primordial. Beleza, traz o vento, em sinais distantes do outro lado do mundo, vozes que nos pertencem porque já nos habitam o coração. As palavras podem ir no vento, a beleza fica no olhar de reconhecimento. No espanto. No sorriso. Até no desapontamento, porque diz da paixão, da urgência. O coração, porém, desconhece a urgência, o tempo, as palavras. O coração sabe do medo, da fragilidade, da ternura, da vergonha, da dor e do amor, do riso e das lágrimas, do ritmo, do compasso da espera, da febre, da saudade, dos sonhos, dos rios e dos mares e dos lugares onde poderemos ser felizes. O coração pulsa debaixo da terra e encerra a beleza que o desapontamento não encontra. Não sei o caminho, ando às escuras e não me pertencem os teus passos. Deixo uma flor em cada encruzilhada.
(Eu sou de muitas e poucas palavras. Para além das que guardo debaixo da terra.)

terça-feira, junho 23, 2009



Os girassóis, as rosas, os botões e as flores da minha avó. Finalmente chegou, a primeira.

domingo, junho 14, 2009

E depois do silêncio, a festa das palavras

(porque um blog também serve para isto, e eu já não me lembrava)

Amiga Lelena, adorei tuas palavras e resolvi pegá-las e trazê-las comigo.
Aqui estão elas, junto com as minhas, mais em baixo:

PEQUENO TRATADO SOBRE PESSOA E PALAVRA

Tem pessoa
que encanta palavra
Tem pessoa que usa palavra em vão
Tem palavra que usa pessoa
Tem pessoa que usa palavra
Tem pessoa que não tem palavra
Tem pessoa que entorta palavra
Tem pessoa que planta palavra no chão
Tem pessoa que planta palavra na cara
de outra pessoa
que fica sem palavra
Tem palavra que eleva pessoa
que cura pessoa
que anula pessoa
Tem pessoa que leva palavra pra casa
Tem pessoa que domina palavra
Tem palavra que domina pessoa
Tem palavra que diz palavra
Tem palavra que diz pessoa
Tem pessoa que diz pessoa
Tem pessoa que diz palavra
Tem palavra que é gesto de pessoa
Tem pessoa que não vê palavra
Tem pessoa que não ouve palavra
Tem pessoa que enfeitiça palavra
Tem palavra que é qualquer coisa
que queira a pessoa
Tem pessoa que é qualquer coisa
que queira a palavra
Tem palavra que escapole de pessoa
(parece ter vida própria essa palavra)
Tem pessoa que escapole de palavra
(parece ter vida própria essa pessoa)
Tem pessoa que fica doendo depois de palavra
Pessoa vem antes de palavra
Tem palavra que fica
depois de pessoa
Tem pessoa que fica
além de palavra

Tem pessoa
e tem palavra

(por Lelena Lucas em www.lelenalucas.blogspot.com)

E agora as minhas Palavras Nuas:

As palavras que dizes são mentirosas
Tão generosas, as palavras que calas
Aflitas, as palavras que gritas
Mudas, as palavras que ocultas

As palavras que encantas são falsas esperanças
As palavras que murmuras são cristal
As palavras que não ousas, tímidas, envergonhadas
As palavras que resgatas, cúmplices, culpadas

As palavras que disparas são balas certeiras
Palavras verdadeiras
As palavras que incendeias são desespero
As palavras que choras são paixão

Palavras com que atas e desatas os nós furiosos da razão
Palavras com que auscultas o coração
Palavras com que corres fugindo de ti mesmo
Palavras com que mordes o medo

Nuas, as palavras com que morres


(primeiro publicado em O Outro Lado da Lua)

Acho que casam bem, as tuas e as minhas
Obrigada, amiga.

quarta-feira, junho 25, 2008

Magia em estado puro

Hoje o Diogo trouxe para casa uma bola de cristal com uma fada a regar uma rosa lá dentro. Aquilo parece feito com bocados de açúcar, ou restos de nuvens. Depois põe-se em cima de umas luzes de várias cores, que fazem com que as partículas se encham de brilho, primeiro azul, verde, depois vermelha, púrpura, e novamente azul.
Ficámos a olhar para aquilo, debaixo do edredão, porque a noite tarda e ainda agora, lá fora, são ainda sete da tarde. E, à falta de escuro que se preze, temos de improvisar.
Ficámos a olhar e, de repente, aquela pequena bola transformou-se em algo que nos encheu os olhos e os pulmões de uma magia ingénua, transparente, cristalina.
Amanhã vamos levar a Fairy Crystal de volta para a escola.
Todas as noites ela fica ao cuidado de um dos meninos.
Em troca, dá-nos a visão fantástica daquela matéria rara de que são feitos as estrelas e os sonhos. Magia em estado puro.

sexta-feira, novembro 09, 2007

"A mamã é a mamã melore no mundo".

Escrito pelo David, num papelinho dobrado, e atirado à mãe num avião de papel.