Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Abaixo de zero

O ar está frio. Tenho eletricidade estática nos braços. Sinto-a arrepiar-me a pele, ao mesmo tempo que a envolve numa espécie de halo. O meu filho levou duas camisolas interiores, uma delas térmica, ou as duas, já não sei, e dois casacos. O mais velho não quis camisola interior e só um casaco. Eu se pudesse hibernava até Março, quando as flores começarem a despontar. Mas depois há os minutos que escorrem lentos, as horas que se quedam e os dias a correr. Os dias que nos fazem mais velhos, ou não. Quanto dias faltam para me sentir outra vez eu? Talvez não seja esta a pergunta, porque afinal, nunca fui eu mesma como agora, que conheço, ou começo a conhecer, a minha história. Sim, é fundamental conhecermos a história, não a do mundo, mas a nossa. A do mundo não passa de uma fábula; a nossa, ainda que enfeitada ou deformada, e ainda que confabulada, é o que nos define. Quantos dias, portanto, para que consiga, finalmente, ser eu mesma, conciliar as duas metades e tornar-me numa só? Não há nada mais cansativo do que uma vida dupla. Mata-nos, definha-nos, enfraquece-nos, e, acima de tudo, convence-nos da impossibilidade de sermos felizes, torna-nos reféns do medo. O medo pode ser um poderoso aliado, apenas quando não nos submetemos a ele.

Sábado, Janeiro 21, 2012

Papu

Ver o meu nome, Papu, escrito no último livro do José Luís Peixoto, Abraço, é muito estranho. Não é só estranho, é também imcompreensível. Apesar de saber que não é a mim que se refere, sou incapaz de ver estas quatro letras juntas, papu, sem me ver a mim própria. O meu nome. Não me lembro de ter outro. Não me lembro sequer da história que a minha mãe conta, eu a repetir estas duas sílabas incompreensíveis de cada vez que ela me pedia que dissesse o meu nome. Sempre fui a Papu. Em casa e na escola. Muito pouca gente me chamava pelo meu nome verdadeiro. Eu era a Papu e não havia outra criança no mundo que se chamasse Papu. Podia haver duas Martas, três Marias, quatro Margaridas, mas nunca duas Papus, muito menos três ou quatro. Quando chegaram os livros do Papu já eu deixara a primária. Os meus livros da primária foram o tu e eu, o escadote, o Romeu, e não me consigo lembrar dos outros. Lembro-me dos livros do Papu na monta da Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, e de dar graças por já não estar na primária e ter sido poupada à humilhação que seria estudar por um livro com o meu nome, mas onde esse nome era o de um rapaz. Como é que alguém podia pensar que Papu era um rapaz? Só podia ser um engano, porque Papu só havia uma no mundo e era eu. Esta palavra de quatro letras, que eu aprendi a desenhar muito depois de as saber dizer, é o meu nome. Não sei porquê. Mas é assim.

Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

No limbo


Há um ponto preciso, nos músculos do pescoço, que dói com o movimento da cabeça. Não qualquer movimento, nem todos; apenas certos movimentos. Como se a dor se aconchegasse e desfizesse em determinados gestos, e se agudizasse e gritasse noutros. Os gestos, no entanto, diferem apenas na trajetoria espacial. A intensidade e a intenção não parecem interferir com a presença ou ausência de dor. A dor está assim, ao que parece, instalada em determinada localidade, uma geografia gestual precisa que a acorda e alimenta. Uma geografia corporal que determina, a cada passo, qual o terreno dorido, qual o terreno doloroso, e qual o terreno neutro. A diferença entre os dois primeiros não é assim tão óbvia: o terreno dorido é aquele que foi pisado e massacrado e, portanto, desenvolveu uma espécie de imunidade à dor, onde apenas germina uma moinha insignificante; o terreno doloroso é aquele que não pode ser pisado de qualquer maneira, pois mesmo o mais leve toque desperta dores muito antigas, feridas há muito enterradas e que ainda sangram em segredo debaixo da terra, ou seja, debaixo da pele. E como se distinguem os dois? A verdade é que não há distinção. O que acontece é que a moinha de um se torna, de súbito, na faca aguda de outro. Ou seja: vamos aguentando a moinha, com paciência e persistência, vamos dizendo que não é nada, vamos andando, seguindo em frente, às vezes mais devagar, outras mais depressa, e um belo dia, um simples gesto, como baixarmo-nos para subir as calças quando estamos sentados na sanita, é demasiado, a sensibilidade atingiu o ponto de saturação e os músculos protestam, sentimos o gume da faca num ponto inpreciso das costas e a dor aguda, localizada; no segundo a seguir desce-nos pela coluna e aloja-se nos rins. A partir daí, instala-se a sensibilidade permanente. Determinados movimentos são acompanhados da mesma dor lacinante. Tentamos reproduzi-los ao mínimo. Reduzi-los a zero é de todo impossível. Passa um dia, dois, e a dor subiu para os músculos do pescoço. Parece espalhar-se pelo corpo, como uma infeção viral. Cruzar a perna, por exemplo, torna-se um exercício de masoquismo. Inspira-se fundo e faz-se uma careta enquanto os rins protestam energicamente. Sentar e levantar também exige uma disciplina severa. E os gestos quotidianos tornam-se, assim, de um dia para o outro, janelas para uma outra dimensão, aquela que o corpo há muito abandonou, um sofrimento que ficou inscrito em cada célula como um carimbo, uma memória que não sabemos de onde vem. O corpo contorce-se e a cabeça procura a resistência da contenção, porque o espetáculo da dor é sempre demasiado, e teima em parecer despropositado, por mais que já lhe tenhamos percorrido os trilhos escondidos e os outros, os mais evidentes. As pessoas lutam para não serem prisioneiras da própria dor, a maioria das vezes só se deixam levar por ela com a desculpa da dor alheia, porque será que as telenovelas têm tanto êxito? Choramos à frente de um ecrã a dor que deveríamos chorar dentro do peito. A nossa própria vida, com os fracassos e os sucessos, espelhada à nossa frente, e o espelho é mágico, ainda por cima. Os telejornais acabam por ter o mesmo efeito, nós é que ainda não percebemos. Porque é que insistimos em noticiar desgraças? Sem elas o que seria de nós? No dia em que terminarem com o espetáculo da desgraça alheia a humanidade entrará verdadeiramente em crise. Se é que me faço entender.

Quinta-feira, Dezembro 15, 2011

Situações caricatas

Blogues como A Livreira Anarquista ou Pó dos Livros, para além de muito interessantes, fazem-nos soltar gargalhadas pelas situações caricatas que descrevem, onde habitualmente sobressai a ignorância da freguesia. Pois enquanto lia alguns desses posts hilariantes veio-me à memória uma situação igualmente caricata que se passou comigo, mas ao contrário: tinha eu cerca de 14 anos quando li o Cão e os Caluandas, do Pepetela, e como tivesse adorado, resolvi ler os livros todos dele. Ora um dos primeiros, ou o primeiro, já não me recordo (Mayombe) foi impossível de encontrar, e acabei por ler um exemplar que um familiar me emprestou. Corri inúmeras livrarias, todas em centros comerciais (lembro-me de ter ido ao Fonte Nove e ao Alvalade, pelo menos), e de cada vez que perguntava pelo livro as pessoas olhavam para mim como se estivesse a pedir que me vendessem um elefante com asas. Mas o mais surreal foi uma das empregadas, que se virou para um outro empregado, perguntando: Olha lá, temos o Pepetela do Mayombe?

Terça-feira, Dezembro 13, 2011

Jogo

Não me importo nada que as pessoas me achem burra. Até gosto. De me fazer de parva. É tipo jogar à defesa. Melhor dizendo, é um ataque disfarçado de defesa. A arma é precisamente a nossa suposta estupidez. Ela faz com que as pessoas nos subestimem. Olham-nos e pensam, que parva, coitada, vê-se mesmo que anda às aranhas, que não sabe do que está a falar. E isso fá-las sentir superiores, conhecedoras. Fá-las sentir em pleno domínio da situação. Elas, as espertas, as visionárias, as brilhantemente inteligentes, que sabem analisar uma situação tendo em conta todas as perspetivas possíveis, e nós, as atrasadas mentais, as mentecaptas, as idiotas, que só vemos o que temos à frente do nariz, e nunca seremos capazes de dois raciocínios seguidos sem tropeçar. Elas conseguem ver aquilo que nós, coitadas, não vemos, e portanto possuem uma carta na manga, um terceiro olho, uma clarividência que lhes permite usar-nos, e à nossa estupidez, para sua soberba. São aquelas pessoas que não resistem a mostrar-nos, sempre de viés, como a nossa visão é limitada, pequenina, insignificante, e como a delas, pelo contrário, é ampla, rica, visionária. Aquelas pessoas que gostam de pôr os outros para baixo, para depois os calcarem com os pés e subirem mais alto. Só que cometem um erro crasso: subestimam-nos, precisamente porque nos acham parvinhas, ingénuas, estupidazinhas (e nós a lamber o prato). E, como tal, baixam a guarda. Sentem-se à vontade. Mostram-nos, ainda que sem disso se aperceberem, os pontos fracos, deixam calcanhares, tornozelos e outras ossaturas sensíveis a descoberto. Ao pé de um bobo, ninguém tem pudor de se despir, pois não? Nem de falar de mais, dizendo o que não deve. Acham que nos topam, e esse é o erro crasso, porque jamais põem em dúvida a qualidade do seu próprio julgamento. Burras, coitadas. Mas convencidas que a sabem toda. E nós, as parvas, as idiotas, deixamo-las pensar que somos isso mesmo, para que façam o seu número e baixem a guarda. Mostram-nos tudos, as gorduras demasiadas, as podridões infectas, as águas sulfurosas, e nós sempre com aquele ar aparvalhado, de quem não é nada consigo, ingénuas, aluadas, fingindo indiferença, ignorância. Deixamo-las inchar, como um pavão, só pelo gozo de nos rirmos delas, sem que disso suspeitem. Nem que lhe vemos perfeitamente a careca, as rugas, as mentiras mesquinhas com que se enfeitam. Julgam que nos enganam, e nós a gozar o prato. O conhecimento daquilo que os outros ignoram, mas estão convencidíssimos que sabem, é sem dúvida a melhor arma para os desarmar.

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Laughing Out Very Loud

Um tipo qualquer do Islão acha que as mulheres não deviam poder tocar em pepinos nem bananas, pois a sua forma fálica pode suscitar-lhes pensamentos pecaminosos... Será que este fulano leu Freud? Porque senão o manancial de objetos com potencial para nos despertar a líbido aumentaria assustadoramente, e talvez fosse melhor então nem nos levantarmos da cama. Isto para não dizer que a cama, por si só, também... pois. Teríamos de arranjar assim uns retiros, tipo vampiros, como caixões e outros recantos mórbidos; se bem que os caixões, os caixões, também são assim para o comprido e tal... Bom, deixando-me de delírios, penso eu de que, não se lembrou ele das garrafas, das colheres de pau, dos cabos das vassouras, das esfregonas, do cano do aspirador, do piaçá... eu quando vejo uma vassoura dão-me assim uns calores, a vocês não? Até que não caía nada mal, uma lei que proibisse as mulheres de utilizar este tipo de utensílios domésticos. Venha ela!

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

Uma questão cromática

Às vezes não se diz nada, simplesmente porque não há nada para dizer. De outras vezes, há tanto para dizer, e esse é o problema, porque o muito que haveria para dizer não pode ser dito. O resultado é o mesmo, mas o sítio onde nos encontramos é precisamente o oposto. Dois silêncios, dois irmãos; um branco, o outro, negro.

(a metáfora é unicamente uma questão cromática.)

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Fora de jogo

Há alguns anos atrás, quando se encontrava sentada à volta da mesa e rodeada de pessoas que falavam animadamente, era usual ser a única que permanecia calada o tempo todo. Hoje em dia, acontece-lhe o mesmo, tantas vezes: abre a página do FB, vê as atualizações dos muitos amigos e outros tantos conhecidos, e fica-se por aí. Não comenta, não laica, não chata, não nada. O ruído à sua volta é mais que suficiente. Prefere o silêncio de quem está fora de jogo.

Terça-feira, Novembro 15, 2011

Wondering

O mais novo, que já faz 9 anos em Fevereiro, e que ainda, de vez em quando, sai da cama a meio da noite e tateia o caminho até à cama dos pais, quase sempre a dormir em pé, pelo menos é o que parece; e que de outras vezes tem medo de estar no andar de cima sozinho, está que mal pode esperar pela viagem que vai fazer com a escola, onde vai passar uma semana fora de casa. De há uns tempos para cá que não fala de outra coisa. E a mãe, espantada (tanto de surpresa como de alguma preocupação), interroga-se (ficava melhor o inglês wonder, que tanto dá para nos interrogarmos como para nos maravilharmos) e pensa que, também ela, ainda tem muito que crescer.

Sábado, Novembro 12, 2011

Sorriso fossilizado

Ela olhou para mim e faltaram-me as palavras. Há qualquer coisa nela, nos olhos talvez, que me rouba o à vontade; qualquer coisa que sempre me deixa dividida entre a vontade de ficar, abraçar o momento, e de fugir. Acho que daria uma boa personagem. A cara, magra, angulosa, e os olhos pretos, escavados, fazem-na parecer uma bruxa. Uma bruxa das estórias para crianças, ou pelo menos aquilo que imaginamos quando pensamos numa bruxa de carne e osso. Também daria uma madrasta má bastante convincente. Isto porque os olhos guardam um brilho cruel que se adivinha multifacetado para lá do visível. Aqueles olhos poderiam levar-nos ao inferno, ou a qualquer lugar remoto onde o sofrimento se instalasse sem demoras nem vagares. E porém, ao segundo olhar, apercebemo-nos do engano. Não, não é apenas crueldade que mora neles; talvez até a crueldade mais não seja do que a frieza à superfície das águas. Sim, olhando melhor vemos a liquidez de uma tristeza infinita, um choro contido que não tem fim. Talvez por isso o seu melhor sorriso sempre me tenha constrangido, como se ele, o seu sorriso, fosse um cachecol que ela usasse num dia tórrido, de uma cor impossível, que não combinasse com nenhuma outra. Um sorriso mentindo descaradamente, colado ao rosto contra a vontade. O brilho dos olhos divorciado da boca rasgada, aberta, de cantos para cima. O rosto, contudo, poderia ser infinitamente belo no momento em que transbordasse, por fim, toda a tristeza contida em poços de água lodosa. Transformada em água límpida, verter-se-ia no olhar que, por fim, seria verdadeiro. E assim aquele sorriso, de tristeza a boiar nos olhos, seria lindo, e puro, e infinitamente doce.

Depois estremeci. Seria o meu, também, um sorriso falso, postiço, que só pudesse habitar as lágrimas? Um animal aquático incapaz de respirar o ar e pousar o pé em terra firme, para sempre perdido por terrenos aquosos de mágoas, águas que nunca estancam, incansáveis, eternas, imutáveis?

Seria o meu sorriso um fóssil marinho encontrado por engano em terreno inóspito, o meu rosto, de terra seca, infértil, no interior recôndito de um país longínquo?

Teria de escavar, desenterrar antigos estratos geológicos de períodos mortos com nomes impronunciáveis para o encontrar?

Sexta-feira, Novembro 11, 2011

Falta de imaginação

A professora mostra-nos alguns dos melhores trabalhos de arte, belíssimos, feitos pelos alunos, para que sirvam de inspiração e modelo para o trabalho futuro. Mais tarde, o meu filho queixa-se de que não tem imaginação para fazer coisas assim, que tem sempre de tirar as ideias de algum lado. Eu sorrio enquanto penso que a imaginação é tímida; talvez necessite mais da obscuridade do que da luz, para se manifestar. E, além disso, parece-me, não há nada mais imaginativo do que pensar que nos falta a imaginação. Daria uma boa estória. O rapaz que não tinha imaginação, ou o rapaz sem imaginação. Talvez a escreva qualquer dia.

Segunda-feira, Outubro 31, 2011

Excerto

Estamos deitados numa cama; ou melhor, eu estou, porque ela é como se não existisse, ou só existisse a sua voz. Estou então na cama com a voz de uma mulher. A voz de uma puta. Uma puta que apenas fala comigo. Não a vejo, não lhe sinto o corpo; só a voz. E penso: sou o único homem que conhece a voz desta puta. Os outros apenas a fornicam (nas palavras dela), e para isso não se usa a voz (isto já sou eu a pensar). Sou o único homem a quem ela dá a voz. Aos outros dá o corpo. Ou nem isso, segundo ela. Não, meu menino (não sei porquê, insiste em chamar-me assim). Uma puta não dá o corpo, nem sequer o vende. Uma puta despe o corpo, assim como se despisse um trapo velho, gasto, usado; depois atira-o à cara do cliente, atira-o para cima do homem que se julga o maior porque vai foder uma puta, e diz-lhe (sem usar a voz, como é evidente): toma lá essa merda, lambe-a, morde-a, mija-te nela, bate-lhe, atira-a à parede, arrasta-a na lama, cospe-lhe em cima, vá, dá-lhe, rasga-a, vem-te para dentro dessa merda. Come-a. Quando tudo acaba, a puta toma o corpo de volta (a camisola suja, rasgada, peçonhenta), lava-a com paciência e carinho (sim, diz o veludo da voz dela ao meu ouvido, há um carinho, uma ternura, um resto de alma que nunca se nos despega deste corpo, aquele que usamos e jogamos em cima da besta), e veste-a de novo, com vagar, com cuidado, quase com emoção, enquanto, ao espelho, vai contando os buracos. Depois é só remendar, disfarçar, mascarar o pano velho e gasto, debotado: e para isso há aqueles pós mágicos, os cremes, as cores vivas que nos devolvem ao rosto a graça que nunca tivémos.
O quê? Queres saber o quê? O que sentimos? Não sentimos nada, pá! Ah, isso. Em que é que pensamos enquanto eles nos fornicam?
Claro que pensamos. Dá para pensar imenso, às vezes até cansa. Sei lá! Em tudo. E em nada. Olha, o melhor seria perguntares, para onde é que vais, e não em que é que pensas. Sim, porque é isso que acontece: vou ali já venho. Então, despimos o corpo, o casaco, a camisola, atiramo-lo para cima do gajo, e ala, aí vamos, podemos ir fumar um cigarro enquanto pensamos na vida, ou fazer as unhas, arranjar o cabelo, se estamos mais inspiradas, essas coisas que vocês acham fúteis. Não digas que não. Os homens arranjam lá o cabelo! Os homens vão ao barbeiro, que é para não haver cá confusões. Fazer a barba, pois, que é de homem, pêlos na cara e no peito e essas tretas. E depois, se por acaso, e só por acaso, reparam que o cabelo está assim a precisar de ser aparado, ou desbastado, então vamos a isso, já que ali estão, faz-se o jeito. Aparado, hã, cortado não, muito menos arranjado. Isso são mariquices de cabeleireiro. O quê? Já há cabeleireiros para homens? Olha, eu cá nunca ouvi falar. Esses galos que aqui vêm não vão ao cabeleireiro. Está bem, se tu dizes eu acredito. Mas o quê? O que é que faço mais? Olha, faço contas. Pois, contas à vida. Uma puta também tem contas para pagar, ó se tem. Isto não é como nos filmes, em que as putas são sempre ricas e poderosas, ou então resgatadas por algum príncipe, como naquele filme da Julie Roberts. Às vezes também faço palavras cruzadas. Ou a lista das compras. Olha que é mesmo estúpido, mas lembro-me sempre do que tenho de comprar nessa altura, e depois esqueço-me. Sim, quando estou mesmo a fazer a lista já se me varreu. Estás-te a rir? A memória é puta como eu. Quando somos novas está tudo nos trinques, mas depois os anos não perdoam... Vai-se tudo abaixo.
Às vezes, muito às vezes, dou um mergulho no mar. Assim um mar azul turquesa, calmo como uma piscina, numa praia de areias brancas e coqueiros ao fundo. Geralmente não me deixo levar muito por estes devaneios porque senão deprimo-me, e depois é uma merda. Mas adoro nadar. Tu também? Já somos dois. Ah! Ah! Acho que dissémos ao mesmo tempo, não foi? Já não casamos hoje nem morremos amanhã. Era o que eu e os meus irmãos costumávamos dizer em crianças.
Para que queres tu que te conte de quando era criança?

(É assim que fala a voz da puta ao meu ouvido.)

Sábado, Outubro 29, 2011

Restos

Olhava em volta, e só via restos. Restos do jantar de ontem. Restos de espuma na banheira. Cabelos nos ralos. Restos de luz no vidro da janela. Réstias outonais, folhas castanhas em desalinho. Teias de aranha pelas paredes, nos tetos, aos cantos. Restos de porcaria na alcatifa. Depois censurava-se. Não, não se martirizava; calava-se. Calava o grito e o desejo de gritar. Falar em turbilhão, cuspir as palavras, vomitá-las; falar falar falar até encontrar a voz. A voz antes do medo. A voz antes do desastre. A voz antes de o mundo ter desabado.

A voz, e os restos.

Sexta-feira, Outubro 28, 2011

Uma escolha

Então ela pôs-lhe a faca nas mãos e disse-lhe, vais fazê-lo tu. Vais cortar os dedos, um a um, e não vais soltar um grito nem uma lágrima. Depois chamo uma ambulância e vamos para o hospital, e lá cuidarão do resto. Vais dizer-lhes que foste tu a fazê-lo, e não estarás a mentir. Quando voltarmos para casa, vais continuar a viver e a fazer tudo o que fazias antes, como se ainda tivesses dedos. Vais fingir que não se passou nada, entendes? Vais continuar como até aqui, e não quero ouvir um lamento. Vamos pôr uma pedra em cima do assunto. Quero ver-te sorrir, como se tudo estivesse igual. Vai estar tudo igual. Nada vai mudar. Entendeste tudo? Porque senão, já sabes as consequências. Eu vou deixar de te amar. O que é que escolhes? O meu amor, ou os dedos da mão?

Sexta-feira, Outubro 14, 2011

Mais poesia (2)


(imagem retirada da net)


Caminhamos na estrada do tempo sem olhar para trás.
Atiramos pedras ao rio sem as ver cair.
Ateamos flores nos caminhos e deixamos o sol aceso
para as matar.
Andamos sem pés,
bebemos de um trago o elixir das horas mortas.
Nas horas mais difíceis, acendemos a televisão
e morremos de tédio
ou de um tiro de canhão.
Nas horas vagas contamos carneirinhos,
cortamos as mãos em copos de vinho.
Nas horas do amor acendemos corpos abandonados,
gememos fúrias nas bocas esmagadas.
Mas esquecemos as mãos na poça de vinho.


Quarta-feira, Outubro 12, 2011

O tempo ainda é incerto, mas hoje traz uma certeza que lhe enche o peito, juntamente com o ar. Apesar da garganta dorida e da cabeça a latejar ligeiramente, o dia pertence-lhe.

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

Timidez celestial

O meu filho foi star of the week e ficou envergonhado.
(Eu sou igualzinha mas não digam a ninguém.)

Domingo, Outubro 09, 2011

Voltas voltas voltas e mais voltas

O tempo é incerto. Choveu durante a noite e a roupa molhou-se. Agora olha pela janela e tenta adivinhar a disposição das nuvens. Deveria antes dizer os humores das nuvens, disposição confunde-se facilmente com perspetivas espaciais. Dentro do corpo existe uma espécie de ameaça. Quase uma doença. Mas não, a ameaça, a antecipação do perigo, por vezes é pior do que o perigo em si. Ou não. Dentro do corpo enovela-se algo inominável. Às tantas não há espaço para a lucidez, para a serenidade, para respirar. Os novelos da angústia crescem em proporções despropositadas. Invadem, como um exército de sentinelas, os corredores estreitos da consciência e dos sonhos. Os sonhos não habitam a consciência, pertencem ao território nebuloso e constantemente mutável para lá dela, nos vales e nos abismos do insondável. Aqui a angústia pode-se expandir à vontade, sem constrangimentos. E multiplica-se, sem cessar. Até ao infinito. É aqui que ela tenta, sem êxito, circunscrevê-la à solidão sem portas do que lhe resta de antigos medos. Mas a angústia, além de daninha, é persistente. Insinua-se, contorce-se, despe-se, infiltra-se, goteja, corrói.

O corpo é apenas um. Não se pode dividir ao meio. A consciência também não. Não podemos separar-nos de nós mesmos, arrancar a metade doente e dizer-lhe, faz-te à vida, que a minha não levas. Não podemos despir aquilo de que não gostamos. Não podemos olhar para o braço e dizer, isto não sou eu. Nem para quem fomos ontem. Ou há trinta anos.

O que nos acontece então quando nos cortamos ao meio?

Perguntas de que não queria saber as respostas. As respostas são pesadas e têm picos e exigem um esforço constante. Há perguntas inocentes que despertam respostas pesadas como verdades esmagadoras. Perguntas de que não deveríamos guardas as respostas; antes livrarmo-nos delas, rapidamente e sem remorso. Porque elas não precisam de nós; não são crianças perdidas à procura de braços; é o remorso, o remorso de não saber a resposta certa; a resposta que porventura nos salvaria da confusão e da desilusão; a resposta mágica que reporia a ordem e a certeza no mundo; a resposta inexistente porque impossível, porque não há resposta, não existe tal possibilidade, a de que tudo ficará bem, e a de que o mundo volte a fazer sentido. Só deitando fora o remorso, e a culpa, e a impossibilidade; só vestindo a angústia, o tecido preto da angústia, e deixando o corpo livre debaixo dela; sussurrando-lhe as palavras, essas sim mágicas: não tenhas medo, este medo conheço-o eu, e não, não vai matar-te, o que te mata é a pena que tens de quem te deixou morrer sem um segundo de hesitação. E o remorso que te aprisiona é o mesmo que a tua raiva quer, à viva força, ter visto nos olhos que nunca tiveram nem coragem, nem dignidade, nem humanidade. Os mesmos que nunca te viram e te deixaram morrer sem um segundo de compaixão.

E depois o barulho do vento nas persianas confunde-se com o ruído da chuva e tudo volta ao princípio, quando existe a ilusão de que tudo está no seu devido lugar.

Sexta-feira, Outubro 07, 2011

Segurança

Nova rotura. Nova quebra. Nova perda? Não, não considero que seja uma perda. E há ganhos, também. Nestes oito meses fui abrindo portas e visitando lugares que há muito estavam esquecidos. Alguns quartos fechados, as mobílias cheias de pó e teias de aranha nos cantos. As portas custam a abrir. Muitas delas trancadas a sete chaves há décadas. Algumas, muitas, ficaram por abrir, e é isto que mais lamento, o saber que, agora, já não as chegarei a abrir, pelo menos aqui, contigo. Não estou a desistir nem a ser pessimista. As coisas têm uma continuidade, a confiança constrói-se. Passo a passo. E leva tempo. Leva muito tempo. O que construímos até aqui já não se apaga, claro; mas isso tinha um propósito, um objetivo, que era o de preparar o caminho, construir um edifício capaz de aguentar com os abanões, os altos e os baixos da descoberta. A descoberta nem sempre é excitante ou aliciante. Muitas das vezes é dolorosa, penosa, massacrante. Precisamos de nos conhecer e da serenidade que o conhecimento acarreta; porém, as águas agitam-se e o caudal aumenta, sentimos a enxurrada chegar, uma montanha furiosa que não dá tréguas, e sabemos que a serenidade não mora aqui, que nem sequer sabemos pronunciar tal palavra, porque foi coisa que nunca ninguém nos ensinou.

Mais do que uma jangada para rasgar as águas, mais do que um porto onde chegar, precisamos da certeza de que não estamos sós no meio dessa tempestade; que alguém, ao nosso lado, nos dá força apenas no facto de estar ali. Uma testemunha silenciosa, ou não. Alguém que connosco caminha e, nesse gesto, nos dá um espaço de segurança que sabemos nosso. Um espaço onde sabemos poder voltar, sempre, indefinidamente, até dele precisarmos. E quando não precisarmos será apenas porque esse espaço terá sublimado as suas paredes e estará eternamente presente.

Até lá, porém, tem de ser uma presença constante. Uma presença mais sentida na ausência, que é onde se sente realmente aquilo que se tem. Uma presença tão forte quanto ténue, porque sabemos que nada é certo nem eterno. Todavia, dentro da incerteza geral dos dias, este tempo tem de ser capaz de nos dar a ilusão da eternidade e do apoio constante. Sem isso não serve o seu propósito. Não resulta. Não vale a pena fazermos malabarismos emocionais, tentando convencer-nos de que depende da nossa vontade. Não depende. Nós não nos sentimos seguros porque nos apetece que assim seja, ou porque o queiramos muito; sentimo-nos seguros ou não. E quando os nossos sentidos nos dizem que não, não há nada a fazer.

Terça-feira, Outubro 04, 2011

Mais poesia


(imagem retirada da net)


Nunca gostei das coisas no lugar.
Da monotonia de quem não
cria.
Das palavras doces
de quem não grita.
Dos olhos incrédulos
de quem não chora.

Nunca gostei das coisas sempre iguais
dia após dia
nunca gostei desta máquina infernal
de sorrisos em série
palavras idiotas
mascaradas
de simpatia.

Nunca fui suave.
Nunca fui encantada.
Nunca fui beijada
por nenhum príncipe.

Sempre acordei de noite com o medo na boca.
Sempre me molhei na dor.
Sempre me cortei
nos pulsos
da vida.

o meu santuário


Sábado, Outubro 01, 2011

Aprender a ler

Mais grave do que não saber ler, acho eu, é levar à letra tudo o que se lê, ou seja, não saber ler nas entrelinhas, ou ser completamente cego para as metáforas. Mais do que o outro, preocupa-me este tipo de analfabetismo. É que os primeiros podem sempre aprender a ler. Agora, estes, não raro, estão absolutamente convencidos da perfeição dos seus raciocínios e do seu ainda mais claro entendimento. O que faz com que a coisa tome proporções bíblicas.

(republish)

Sexta-feira, Setembro 30, 2011

Personal fiction 2

Há anos que minto compulsivamente. A compulsão permite o controlo da ansiedade. Através de um comportamento, desviamos a atenção da derrocada eminente. Tememos de tal maneira que o mundo desabe na nossa cabeça que dispendemos uma atenção permanente aos mais ínfimos sinais. Modo: alerta vermelho. Constante. E às tantas habituamo-nos, e quando percebemos uma acalmia aparente, desconfiamos. Se rimos, fazemo-lo para dentro, não vão as gargalhadas detonar o inevitável. E o inevitável, já sabemos o que é, já lhe vimos sentindo o cheiro há décadas; desde sempre; talvez desde o início, o lago primordial e amniótico. Esse parece ser o único refúgio digno do nome; o único lugar na terra onde podíamos fechar os olhos. E é para isso, para fechar os olhos, que enfeitamos a realidade. Mentimos. Afinal, sempre nos disseram isso mesmo: que os sapos se transformam em príncipes, que as criadas se transformam em princesas, que as bruxas acabam no fundo de um penhasco. Não custa nada alargar a fantasia, como quem baixa uma bainha, para nos conseguirmos enfiar lá dentro. E, depois de passajado, limpo a seco e engomado, ninguém nota que o tecido é falso.

Há anos que minto, portanto, para que o teto não me caia em cima.

Talvez esteja na hora de parar, e olhar para cima. Avaliar as traves do teto e decidir se vale a pena chamar um empreiteiro.

Personal fiction

Eu sou uma personagem de ficção. Inventei-me. Recriei-me. Não tinha idade suficiente para ver o que de bom e precioso tinha dentro de mim. As crianças são incapazes de reconhecer o mal à sua volta, sentem-no nas entranhas. O mundo ao seu redor é o seu mundo, o interior. Não gostei do que vi. Era demasiado feio, sinistro, cruel, terrível. Quis ser outra, portanto. Renascer. E inventei-me. O resto, podem adivinhar. É muito mais fácil, muito mais aliciante, viver na fantasia, do que na realidade.

A realidade, porém, cobra. E com juros.

Quinta-feira, Setembro 29, 2011

Poesia (5)


(imagem retirada da net)


As palavras que dizes são mentirosas
Tão generosas, as palavras que calas
Aflitas, as palavras que gritas
Mudas, as palavras que ocultas

As palavras com que encantas são falsas esperanças
As palavras que murmuras são cristal
As palavras que não ousas, tímidas, envergonhadas
As palavras que resgatas, cúmplices, culpadas

As palavras que disparas são balas certeiras
Palavras verdadeiras
As palavras que incendeias são desespero
As palavras que choras são paixão

Palavras com que atas e desatas os nós furiosos da razão
Palavras com que auscultas o coração
Palavras com que corres fugindo de ti mesmo
Palavras com que mordes o medo

Nuas, as palavras com que morres

Quarta-feira, Setembro 28, 2011

Poesia (4)


(imagem retirada da net)


Trazes a noite sumarenta na boca
E estrelas encharcadas nos braços
Trazes os passos mortos de cansaço
Trazes os olhos húmidos de ventania
Trazes a garganta inflamada de grilos
E a voz abafada, escura, apedrejada

Foges da multidão que te persegue
No rasto do teu medo
Trazes botas cardadas
Com calcanhares de aço
Trazes pedras esquecidas nos bolsos
Trazes flores nos cabelos
E almas perdidas nos becos da memória

Trazes o fio da história preso ao pescoço
Trazes a vida embrulhada no fundo da mala
Trazes livros, dezenas de livros
Que nunca lerás
Mas sabes de cor

Preso ao teu sentir
Por mil palavras amordaçadas
Vais lançá-las do cimo do morro
Vais lançá-las na multidão em chamas
Que te aguarda, expectante
Que te acusa, vigilante
Que te resgata da solidão errante
E tu, que não tens nome
Vais gritar lá de cima
Bem alto
O nome do teu medo
Escuridão

Terça-feira, Setembro 27, 2011

Poesia (3)


(imagem retirada da net)


Como se o vento
E a chuva
Soubessem a sal.
Nasce-me o sol por entre os dedos
E dos lábios escorrega a malícia
Sumarenta
De uma uva.
Estico os braços
Na preguiça
Felina e dormente
Do meu ventre.
Solto os lírios dos cabelos
E novamente
A chuva enche os rios
Caudalosos
Dos meus medos.

Segunda-feira, Setembro 26, 2011

Poesia (2)


(imagem retirada da net)


Quando o silêncio chegar
eu serei apenas pássaro inquieto
eternamente no rasto do teu voo.

Quando a mudez tomar conta de mim
eu serei apenas um corpo quieto
esquecido das maré-cheias
do mar revolto nas veias.

Quando o gelo invadir a minha pele
eu serei apenas fumo branco
ao longe no horizonte
e adivinharás casas, pessoas, vida
adivinharás calor na planície árida e fria
adivinharás cinzas adivinharás morte
e guiarás os passos até ao norte
de mim
para me resgatares deste silêncio
sem rosto nem fim.

Domingo, Setembro 25, 2011

Escolha

Tinha feito uma escolha. Cedo de mais para saber o que escolhia.
Fora o medo a guiar-lhe os passos.
Tivera de abandoná-la.
Como a mãe que tomou a decisão de salvar primeiro a filha, quando o carro em que seguiam caiu ao rio. Quando as equipas de socorro chegaram já não foi possível salvar o filho.
O rapaz era mais velho, mais forte, talvez por isso a mãe tenha optado por socorrer primeiro a filha. Talvez pensasse que ele se conseguisse desembaraçar sozinho, e ela não. Talvez.
O que passará pela cabeça de uma mãe numa situação destas?
Terá de viver para o resto da vida com a escolha que fez. Conseguirá perdoar-se?
Conseguirá sobreviver?
Também ela fez uma escolha. Optou por fechar a porta, e deixá-la do outro lado. À criança. À verdade.
Mas o que é a verdade?
Fechou a porta. Deixou-a lá. E agora?
Talvez não seja tarde. Talvez desta vez as equipas de socorro cheguem a tempo.
Não, essa parte de si não está morta. Ainda pode recuperá-la. Olhá-la nos olhos. Abraçá-la.
Matá-la? Preparar-lhe o funeral com pompa e circunstância, discursar junto à lápide, festejando a sua libertação na morte?
Que coisa mais disparatada.
Fazem-lhe arrepios, essas almas iluminadas que prometem milagres empacotados. É só juntar água.

Poesia do outro lado da lua


(imagem retirada da net)


Quando eu gritar
lembra-te de secar as fontes
da minha voz
para que a água estanque
e a corrente
inverta o seu sentido
líquido
e retorne ao mar
de onde nasceu.

Quando eu gritar
lembra-te de inventar as palavras
sem sentido
as gargalhadas sem motivo
os dedos brancos com que desfio
a razão.
Não te esqueças dos pássaros. Nem da luz.
Não se faz amor de corpo vazio.

Quando eu gritar
estende apenas no chão
o braço partido
do eco da minha voz
até ao infinito.

Quarta-feira, Setembro 21, 2011

Curtas

O mais novo cortou os caracóis. Estava com uma cabeleira enorme. A mãe olhou os caracóis no chão do salão, e lembrou-se. Os cabelos caídos, descartados, ainda retêm o brilho de antes. Podia encher uma almofada. A mesma frase. Tantas vezes. O mais velho agora cozinha na escola. Cozeu massa, fritou bacon, picou cebola e tomate para um refogado, enquanto a mãe supervisionava e ajudava. No dia seguinte levou os ingredientes para a escola num saco de plástico. O mais novo tem natação às quartas e é por isso que cortou o cabelo. Quando se viu ao espelho disse que não gostava do cabelo assim tão liso. A mãe sorriu e disse-lhe que ele estava muito bonito, só ainda não estava habituado a ver-se sem os caracóis. De manhã, no recreio da escola, o amigo disse-lhe que ele estava muito bem assim. A mãe ouviu a conversa, um pouco afastada, e sorriu. Sorriu muito, até se riu. No recreio o filho mantém a distância. Quase nunca se esquece de lhe acenar quando entra, mas às vezes esquece-se. Já não há beijos em público, e mãos dadas só para atravessar a estrada. Depois tira a mão pequenina da dela, e caminha ao seu lado.
O mais novo está a ficar mais velho.

Domingo, Setembro 04, 2011

Basta

Gosto de gelados, de praia, do verão. Não gosto de ter os pés frios, nem de bróculos, nem de óculos espelhados. Gosto da neve. Não gosto do degelo nos polos. Gosto de animais, mas fora de casa. Não gosto de música aos berros, de sapatos apertados ou de cerveja. Gosto de andar descalça. Não gosto de me expor. Gosto de nadar, de andar, de deixar andar. Não gosto de correr, nem de sofrer, nem de temer. Ou tremer. Gosto do por do sol, das cores do arco-íris, de céus sem limite. Não gosto de andar de avião. Mas ando. Também não gosto de andar de metro. E só não ando porque, por enquanto, não preciso. Gosto de andar de comboio, e de barco. Gosto de andar de baloiço. Gosto de dormir, e de acordar cedo. Também gosto de dormir, e de acordar tarde. Gosto de não fazer nada. E detesto não saber o que fazer. Não gosto de correrias. Gosto da calma, do silêncio, da tranquilidade. Adoro o som de um regato a correr. Gosto de um bom filme. E não gosto de filmes maus. Bullshit. Gosto de dizer palavrões, mas não gosto que os meus filhos digam. Mas às vezes deixo-os dizer. Não gosto de ter medo. Gosto de estar em casa. Gosto de escrever. E de ler. E de ouvir música. Não gosto de não saber o que dizer. Nem de falar em público. Nem para o boneco, ou para as paredes, o que vai dar no mesmo. Não gosto de pessoas que têm a mania. Ou que estão convencidas de que não têm a mania, mas têm. Não gosto de quem acha que tem sempre razão. Não gosto de aldrabões. Nem de trapaceiros. Tão pouco de pantomineiros. Gosto desta palavra, pantomineiro. Melhor ainda, pantomineiro de um cabrão. Também não gosto de falinhas mansas. Nem de lambe botas. Não gosto de capachos, nem de paus mandados. Não gosto de engolir sapos. Não gosto de vomitar. Nem de me engasgar. Gosto de respirar. De gritar. De chorar. Também gosto de rir, sim. Mas não gosto que me façam cócegas. Gosto de massagens nos pés. Gosto de beijos, de festas na cabeça, de carícias, de tudo o que na pele seja meu e da minha vontade. Não gosto da dor. Não gosto de mentir. Nem de mentirosos. Não gosto de covardes. Não gosto de bêbados. Não gosto de palhaços. Não gosto de teatros. Mas gosto muito de teatro. E um número de palhaços, se for bom, também. Também gosto de cinema. E de festas. E de estar com amigos. E de muita gente. Tanta gente. Gosto de saber que posso contar com alguém. Gosto de saber que não estou sozinha. Mas gosto de estar só. E gosto de estar acompanhada. Gosto das coisas com conta, peso e medida. Gosto da verdade e de dizer a verdade. A minha verdade. Gosto de dizer o que sinto. Gosto de dizer que não gosto quando não gosto, e que gosto quando gosto. Gosto de ser eu. Não gosto da outra que tenho de ser por conveniência. Não gosto de fingir. Não gosto de fingir que gosto quando não gosto. Não gosto de me sentir obrigada a fazer o que não quero. Não gosto de sentir que não posso dizer basta.
Basta!

Quarta-feira, Agosto 31, 2011

Posso imaginar?

Imagino um prédio alto, de muitos andares, e uma janela ampla, a vista cainda sobre a grande cidade, lá em baixo. Imagino um céu de nuvens baixas, cinzentas, um bailado de cambiantes do branco ao negro, ao sabor da luz que a chuva arrasta no seu rumor. Imagino as gotas de água desenhando rios na janela. Imagino o ruído da chuva a bater no vidro. Imagino alguns relâmpagos ao longe, fulgurações distantes. Imagino a cidade apenas iluminada pela luz quase morta das nuvens, a mesma luz que se acende em repentinos clarões quando as nuvens se definham em prantos. Imagino o silêncio do quarto povoado de ruídos e a luz a escorrer nas paredes frias. Imagino o espaço a dilatar e a encolher consoante o teu olhar viaja ou repousa, distraído. Imagino a água da chuva a brilhar-te na íris, e a trazer-te de volta céus distantes encharcados de uma outra chuva, aquela que traz a essência da própria luz. Imagino uma criança correndo para apanhar a chuva, ou fugindo dela, como num jogo de apanhada, e isto faz-me lembrar a história de um amigo meu que, quando ia para casa, de madrugada, depois das noitadas com o grupo de amigos, corria atrás da noite, porque o romper do dia quase sempre o apanhava a meio do trajeto, e ele precisava de se deitar com a escuridão para poder dormir. E então, contava ele, fazia o caminho quase a correr, porque o dia vinha atrás de si e ele não podia deixar escapar a noite. E nós, claro, ríamos.

Sexta-feira, Agosto 26, 2011

Instante distante

Sonhei que te encontrava e, subitamente, não havia palavras. As mesmas palavras que antes eram o nosso ponto de encontro já não tinham significado algum, não encontravam eco e eram incapazes de qualquer intenção. As palavras morriam e o sonho era um filme mudo. Já não te via há tanto tempo, tinhas mudado, mais rugas, mais cabelos brancos. Imaginava as mesmas mudanças no meu rosto e sorria. Tu parecias não dar por nada. O teu olhar, porém, ainda era o mesmo. Nele estava contida a tua voz. Estranhei a tua proximidade, porque nunca antes me aventurara a imaginar-te tão íntimo. Tão meu. Meu, porém, era apenas o tempo onde o silêncio se deitava, para nunca mais acordar. Meu era apenas o vazio antes habitado pelas nossas palavras. E minha era a distância que nos separava, e estava ali, inteira, nas minhas mãos. Abri-as, às mãos, e deixei-a voar, uma ave cinzenta cujas asas, ao longe, se encheram de cor.

Segunda-feira, Agosto 22, 2011

Atenção que este é um post assim para o pesado...

Não tenho pachorra nenhuma para ouvir aquelas mulheres que estão sempre a dizer que precisam de perder peso, que estão gordas, que têm de fazer desaparecer a barriga e outras partes proeminentes, e depois a gente olha para elas e são a elegância em pessoa. Dão-me raiva. Será que não têm espelhos em casa? Ou não têm olhos na cara para ver que estão ótimas? Nunca digo nada, claro, mas por dentro fico a remoer. É que até me sinto ofendida - porque se suas excelências se acham gordas, então de mim só podem achar que sou uma baleia. E não, não sou. Nem baleia nem gorda, apesar dos meus 80 kg (ou quase 80, não tenho a certeza). Podem chamar-me redondinha, gordinha, cheinha, o que quiserem - mas gorda não, tenham lá paciência. (Também me podem chamar alienada, ou cega, ou parva - não mata nem mói). Gordos são aqueles que a gente vê no programa Fat Families. Estou muito bem assim. É verdade, apesar dos esforços consideráveis em sentido contrário, levados a cabo, ao longo dos anos, por uma parte da minha família, que, coitados (perdoem-me por vos ter defraudado as expetativas), devem ter sonhado com uma filha, ou uma irmã, ou uma sobrinha, ou uma neta, ou uma prima anorética (pois só assim se explica que, ainda hoje, de vez em quando, me façam reparos desagradáveis sobre o meu peso), acho que estou muito bem assim. Sim, podia perder uns quilitos, não há dúvida, mas não me apetece fazer dieta. Dietas para mim só se for por intolerância alimentar, como já aconteceu quando o leite me começou a irritar a pele e durante coisa de um ano e picos deixei de comer ou beber laticínios. Mas mais do que isso não. Gosto demasiado de comer. Para castigo, já me basta não poder comer feijão.
Portanto, queridas amigas, da próxima vez que se lembrarem dessas tretas das dietas e das gorduras e tal, e antes de abrirem a boca, vejam-se ao espelho, sim? Mas com olhos de ver!

Quinta-feira, Agosto 11, 2011

Outra palavra séria

Anda para aí uma mensagem a circular no Facebook, dirigida aos principais responsáveis por estes distúrbios violentos nas ruas do Reino Unido, e que diz qualquer coisa do género: se querem ser homens e lutar a sério, alistem-se no exército e vão para o Afeganistão lutar numa guerra a sério, isto misturado com algumas palavras menos simpáticas ( u wanna be big men and fight to the death , well get your sorry little arses on the next plane to Afghanistan and stand alongside real men , they're called soldiers and they are fighting a war, unlike you bunch of pathetic wastes of space !!).

Apesar de esta mensagem me provocar alguma simpatia à primeira leitura, uma simpatia que nasce do repúdio por estes actos, não deixa de me provocar uma certa apreensão à segunda. Gostaria de partilhar esta minha apreensão, e para isso é preciso que pensemos com muito cuidado no que esta mensagem realmente diz.

Na minha opinião, os cenários destes distúrbios dramáticos são uma amostra muitíssimo reduzida do que uma população local enfrenta num cenário de guerra, uma população que é em tudo inocente e composta por pessoas dignas e trabalhadoras como o são as ruas de Londres e de qualquer cidade do mundo. A guerra é uma das coisas mais abomináveis a acontecer todos os dias em locais distantes, e o que é mais dramático é que num cenário de guerra os actos de violência (mesmo aqueles muito mais graves do que os que vimos acontecerem nas nossas ruas) são completamente impunes. Aliás, é esse o objectivo de uma guerra, destruir, eliminar, matar.

O que esta mensagem diz nas entrelinhas é o seguinte: se estes jovens querem causar distúrbios, partir montras, pegar fogo a casas e carros, que o vão fazer para longe, para outras ruas, onde deixarão de ser considerados arruaceiros e criminosos para passarem a homens a sério, cujas acções serão então justificáveis e até desejáveis, uma vez integradas num cenário de guerra, uma guerra que não é mais do que uma violência atroz, mas desta vez justificável por uma causa séria e global, como o combate ao terrorismo, ou outra qualquer. O que esta mensagem no fundo sugere é que o que andamos a ouvir os nossos políticos e jornalistas e analistas dizer, que nada pode justificar e desculpar estes actos de violência, é mentira, ou antes, não é absolutamente verdade; a mesma violência torna-se desculpável e aceitável se praticada num país remoto em guerra, contra populações em tudo igual à nossa.

O que é dramático é que os exércitos estão pejados de indivíduos com graves distúrbios psicológicos, problemas de agressividade, ausência de remorso ou culpabilidade pelas suas acções, iguaizinhos aos que vemos nestes jovens e nestas crianças que se divertem a partir montras e a destruir comunidades. E o que é grave é que estas característcas psicopatológicas tornam-se aceitáveis e até desejáveis nesse contexto. Quem não se lembra daquele vídeo que mostrava comandos de um helicópetro a bombardear pessoas na rua de uma cidade em ruínas de guerra, como se fosse um jogo, por entre gargalhadas e palavras jocosas?

O que estamos a dizer nesta mensagem é que só não aceitamos esta violência se for na nossa rua, na nossa cidade, no nosso país, no nosso mundo. Mas se for suficientemente longe, num país em guerra, encolhemos os ombros e acenamos com a cabeça. E nem sequer perdemos tempo a pensar nas vítimas inocentes.

Há quem pense que a humanidade evoluirá no dia em que não houver mais doenças incuráveis, ou injustiça, ou miséria, a lista pode ser interminável. Eu também concordo, mas para mim, no dia em que não precisarmos de exércitos, aí sim, daremos um passo gigante na evolução.

Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Uma palavra séria

Eu não consigo compreender a resistência de muitas pessoas a que se fale e procure compreender o que poderá estar na origem de comportamentos colectivos de violência, como os que assistimos durante os últimos dias em algumas cidades do Reino Unido. Para mim é muito claro que tentar entender e clarificar as origens de um problema não é o mesmo que justificá-lo ou torná-lo mais aceitável ou menos grave. Mas o que é certo é que algumas pessoas reagem como se lhes espetassem uma agulha quando se procura falar deste assunto. Elas pura e simplesmente não querem saber para nada das causas de tais comportamentos, querem apenas punir quem os comete e pará-los.
Punir é necessário e mais ou menos fácil. Evitar é que já é mais difícil, principalmente se teimarmos em ignorar as causas. É mais que redundante que conhecendo, ou procurando conhecer, as causas de um fenómeno, estamos mais perto do seu controlo, ainda que não absoluto, o que pode fazer com que a sua incidência diminua.
Às vezes as pessoas são um bocado tapadas nestas questões, e isso deve-se apenas ao facto de tais questões lhes provocarem respostas emocionais muito primitivas. Por isso vou usar um exemplo, que não deixando de provocar respostas emocionais, desta vez as direcciona para a via oposta. Imaginemos o tecido social como um corpo doente. Um corpo afectado pelo cancro. Ora o cancro, como sabemos, é uma doença que muitas das vezes tem consequências fatais. Quando já está num estado muito avançado, de nada serve procurar conhecer as suas causas, uma vez que a pessoa vai morrer de qualquer modo. Muitas das vezes, essas causas podem até causar sentimentos de culpa e de ressentimento na vítima, como acontece por exemplo com um fumador compulsivo com cancro do pulmão em estado terminal. Tal pessoa pode sentir-se bastante mal pelo facto de ter contribuído para o seu estado, e o facto de alguém lho lembrar é passível de aumentar esse mal-estar. Mas onde estaríamos nós se, enquanto sociedade (e estou a pensar também na comunidade médica e científica) nos tivéssemos ficado pelo respeito e tolerância a estes sentimentos perfeitamente aceitáveis de remorso das vítimas, e por pudor não nos tivéssemos lançados na investigação científica necessária para a compreensão das causas de tal doença? Os benefícios do conhecimento dessas causas são óbvios: a sua prevenção. Sem ela não teríamos avançado para um cada vez maior alerta social em relação à doença, e nem para a sua cura.
Conhecer o que pode estar na origem de um fenómeno social tem o mesmíssimo objectivo e não pretende de maneira nenhuma justificar ou tornar desculpáveis os actos em si. O que se pretende é apenas isso: evitá-los no futuro. Se nos lançarmos na investigação séria do que poderá ter motivado miúdos de idades compreendidas entre 10 e 20 anos a destruir a própria comunidade (a sua casa!) sem um pingo de remorso ou consciência, poderemos estar a abrir uma porta para o futuro. Pensemos na geração de crianças de 5 anos, que daqui a 10 anos terão 15. Pensemos nos recém nascidos de agora, que em 15 anos serão adolescentes. Quantos dramas destes poderemos começar a tentar evitar?
Além de que, ainda em relação a estes miúdos envolvidos nestes distúrbios, a verdade é que a maioria são crianças e estão ainda numa fase de desenvolvimento da sua personalidade, o que, qualquer técnico de saúde mental está careca de saber, implica que muitos deles podem ser recuperados. Não são de maneira nenhuma, ou poderiam não ser, casos perdidos. Têm de ser punidos e responsabilizados pelos seus actos, como é evidente, mas haveria muito trabalho a fazer, no sentido de mudança de comportamento, de acompanhamento, de reabilitação, tanto social como psicológica. E isto não pode ser ignorado.

Terça-feira, Agosto 09, 2011

Too much quiet




































Não se vê quase ninguém na rua, mas isso é o habitual. Subi a escadaria junto ao lago, e a luz verde, coada pela copa das árvores, aconchegou-me nos seus braços. Passou por mim um homem a correr, com os headphones nos ouvidos. Tudo normal. Ao chegar lá acima, deparei-me com a extensão imensa do relvado quase deserta. Um pequeno grupo com uma bola, um ou outro tipo deitado no chão a curtir o sol. Com um dia como o de hoje, com esta temperatura no ar e o sol a brilhar por entre as nuvens, isto sim, não é nada habitual. O normal seria estar o relvado cheio de gente, pessoas deitadas, sentadas, em pé a correr atrás de bolas, crianças em correria e gritaria, vozes espalhadas no vento. O silêncio é assim um pouco pesado. Depois ouvem-se as sirenes. Carros da polícia para cá e para lá. Isto também costuma ser uma constante; porém, hoje é como se o som fosse, de alguma maneira, completamente diferente. Como se nos fizesse subir o medo à garganta. Vou andando, sinto o sol nos olhos, o vento nos cabelos, o cheiro da relva no ar. As pessoas com quem me cruzo são as mesmas de sempre. O grupo que joga à bola é uma família. Passa um homem que chuta a bola para o miúdo, com um sorriso. Atravesso a rua e, no olhar das pessoas, vejo qualquer coisa  que se encolhe. A paisagem é em tudo igual. Aqui não houve tumultos, tão pouco lojas ou carros incendiados. Dou com a CO-OP fechada. Não estava à espera disto, e no entanto é tão lógico que assim seja. Volto para trás, faço o caminho de volta. Está um dia lindo. Mais carros da polícia, mais sirenes a anunciar o perigo que pode estar aqui mesmo ao lado. Acho que é essa a diferença. Antes as sirenes anunciavam perigos distantes, por mais perto que estivessem; hoje, o perigo está mesmo aqui ao lado, ainda que o esteja a alguns (poucos) quilómetros.

Sexta-feira, Julho 29, 2011

Lagrimário

Tá mau, hoje. Inda não verti minha lágrima. Não, não me sinto bem assim; parece que tenho a camisola do avesso, sabe? Ou os sapatos trocados nos pés. Hoje em dia ninguém dá importância a estas coisas. A bem dizer, nunca se deu a devida importância. Choramingar é coisa de criança. Homem que é homem e mulher que é mulher não chora, aguenta. Aguentam calados. Devia haver lugares próprios para deixar os olhos em água. Assim uma espécie de santuários. Não precisava de ser nada assim grande; umas guaritas, como as retretes, já estava. Ou então assim uns sítios remotos, no meio do mato, onde ninguém nos importunasse, para além das moscas, das abelhas e do canto dos pássaros. Agora assim não dá. Um cristão quer verter umas lagrimitas sem consolo e não pode. Ora porquê, porque fica mal. Ou talvez nem seja isso, vem logo meio mundo perguntando, então o que é isso, maria, porque choras? Ainda bem que as pessoas se preocupam, claro, não é disso que estou a falar; é da necessidade de chorar sem testemunhas, sem que ninguém nos interrompa nem faça perguntas. Chorar só. Ou gritar. Às vezes preciso, e fico aqui neste sufoco. Não posso. Tenho as crianças à minha volta, os vizinhos; os vizinhos vão pensar que estou maluca. Se calhar não. Sei lá! Chorar é uma coisa assim muito íntima para se fazer em público. Pelo menos para mim. E tenho cá dentro umas lágrimas muito antigas que não podem ser soltas assim à frente de qualquer um. De nenhum, melhor dizendo. Não, elas são tímidas, mas teimosas, muito teimosas. Exigem privacidade absoluta. Era. Isso. Uns lugares assim para chorar. Não precisava de ser nada de grande; umas casitas, assim do tamanho de uma despensa, já tava bom. Mas tinha de ser assim bem cuidado, pois. Umas cores claras, assim as paredes azuis clarinhas, assim umas pinturas, umas andorinhas, um rio, o mar, sei lá eu. Se fosse preciso a gente dava uma moedinha pra entrar. Nem custava nada. Ao menos assim podia verter minhas lágrimas descansada. Cinco minutos chegavam. Todos os dias, pois. Podia-se chamar a fonte da choradeira. Ou da consolação. Lagrimário? Isso é palavra complicada. O senhor é que sabe. Até se podiam engarrafar e vender como líquido milagroso. Não acredita no poder das lágrimas? Ora, é porque nunca chorou de verdade. Vá por mim, que não há remédio melhor para todos os tipos de maleitas. Mas não, tem de vir cá de dentro. Que nada, as lágrimas não nascem nos olhos, não senhor. O senhor nunca chorou de verdade, é o que é. Você é que precisava de um desses cubículos para desatar as vergonhas. As lágrimas vêm cá de dentro do peito, às vezes de bem do fundo do ventre. E só sobem aos olhos depois de afogarem a garganta. Sem garganta afogada não se chora nada; aquilo é só água estagnada que não lava nada. Ora essa! Um homem desse tamanho e não sabe o que é chorar! A gente vê cada uma!

Quinta-feira, Julho 28, 2011

Pequeno conto sobre a velha angústia

Os ataques de pânico têm voltado com frequência.
Já os conhece. Até os pode chamar pelo nome, como se fossem velhos amigos. Ou conhecidos. Uns mais íntimos, outros menos.
Às vezes é apenas um pensamento sinistro. Um pressentimento, melhor dizendo. Os pensamentos não trazem atrelados a certeza da sua veracidade absoluta. Ora então, um pressentimento. Uma certeza. A morte a aproximar-se. Cada segundo um passo na sua direcção. Sente-a chegar depois, pelo corpo. Primeiro é o coração que dispara, depois o peito que se encolhe, depois a garganta que seca, incapaz de incorporar o ar, depois a cabeça que parte, veloz, em direcção às nuvens. As tonturas. Os vómitos.
De outras vezes é ao contrário. O corpo em primeiro lugar. E só depois a certeza aterradora. A morte atravessada na garganta. Engasgada. Nem sai, nem vai para baixo.
Ela já sabia lidar com eles. Com os ataques. Tantos anos a aprender, a estabelecer uma relação, a conhecê-los. Sabia como evitá-los, como desviar-se, como fazer marcha atrás, inverter a direcção. Manter-se a salvo.
E agora? Parece que não sabe nada.
Recorda-se de conversas. Amigos e amigos de amigos todos reunidos, sentados no chão, pernas cruzadas. Por vezes eram só trocas de anedotas, de outras discutiam a profundidade e os mistérios do universo com humildade e veemência. Fumavam charros e riam por tudo e por nada. O mundo perdia os contornos e o mais ínfimo detalhe era motivo de gargalhadas convictas. Há que rir com convicção, pensava. Ou não. Porque às vezes o haxe, em vez de lhe mostrar o lado cómico da existência, entretinha-se a avolumar aquela angústia que nunca a largava, mesmo quando escondida no canto mais remoto da consciência.
Deixou de fumar. A angústia, essa, conteve-se. Ficou lá, qual animal selvagem domesticado.
Ela sabia lidar com o medo. E isso tranquilizava-a.
Ora numa dessas conversas, uma vez, um dos amigos de outros amigos falara daquilo. Assim, naturalmente. Estavam naquela idade em que partilhar intimidades insondáveis era a mesma coisa que partilhar mantas no inverno. Ou cigarros. Ou um lugar à volta da mesa. E ela ouviu, estarrecida, que esse amigo de outro amigo sofria do mesmo mal. E ela, que nunca falava disso - era um assunto só seu - também falou, dessa vez. Deixou-se levar. Abriu aquela porta, sem pensar.
E outro amigo, talvez perturbado com a conversa, dissera qualquer coisa como, mas vocês só pensam na morte? Vocês não gostam da vida? Não gostam de estar vivos?
E ela, sorrira para dentro, porque sabia, sentia a resposta pronta na ponta da língua. Nem precisava de pensar nisso. Sequer de ensaiar pensamentos, ou lógicas, ou palavras. Era tão óbvio. Era tão real.
É precisamente por gostarmos de estar vivos, que não queremos morrer. E que a ideia nos apavora. Só tem medo da morte quem ama a vida acima de tudo.
E esse sentimento, essas palavras, esse pensamento, chamem-lhe o que quiserem, é o mesmo que agora lhe afaga as entranhas, depois do medo corrosivo espalhar o seu veneno, incansável. Uma espécie de mantra. Só tem medo da morte quem ama a vida acima de tudo.
Talvez a vida não se possa amar. Talvez a vida só se possa viver, sem pensar muito nisso. Talvez o amor que alguns dedicam à vida esteja mal canalizado. Talvez devessem amar acima de tudo as pessoas, os lugares, os corpos, os pássaros, a luz da manhã, os caracóis lentos, as aranhas pacientes, as ervas, as flores, as árvores, o mar, os peixes, as algas, os céus, as nuvens, o ar que lhes entra nos pulmões.
Ou talvez não devesse amar nada disso, apenas a si mesma. Não dizem os entendidos que para amar o mundo e os outros temos primeiro que nos amar a nós próprios?
Ela sabe lá. Ela só sabe que tem medo. Às vezes nem sabe de quê, ao certo. E não, não é masoquismo, nem estupidez. É amor à vida.
A mesma vida que insiste em escapar-lhe dos dedos.
Isto, sim, talvez já seja uma ilusão.

Terça-feira, Julho 26, 2011

a criança

está viva a criança. e no entanto sente-se morta. e no entanto dói-lhe tudo. está cheia de medo a criança. o medo uma coisa física a morder-lhe o peito. grita. chora. berra. ela não precisa que lhe estanquem o choro. o choro é sinal de que está viva. o medo também, embora não tenha idade para o perceber. ela não precisa que lhe perguntem nada. não precisa de olhares preocupados. não precisa que lhe tomem o pulso, nem que lhe respirem para dentro da boca. não precisa de gente assustada a auscultar-lhe o coração. o coração é terreno demasiado íntimo. ela só precisa que a abracem, com força. que a assegurem de que está viva. que lhe digam que não vai morrer. que está tudo bem. que vai ficar tudo bem. só isso. é pouco? é tudo.

Domingo, Julho 24, 2011

dois caminhos

dois caminhos. existem sempre dois caminhos. um que nos leva para longe e nos lança no mundo. outro que nos faz procurar os passos de regresso. um que nos dá asas e nos empurra para as nuvens. outro que nos prende à terra, que nos cresce raízes nos pés para não perdermos o caminho de volta. dois caminhos. um não existe sem o outro. é para podermos voltar um dia que nos afastamos. quando decidimos partir ainda não sabemos que um dia voltaremos. porém precisamos partir para voltar. precisamos de nos perder no caminho. nos atalhos sombrios. nas noites sem lua. precisamos de nos perder nas montanhas e colher estrelas do céu. as mãos cheias de sonhos. perder a alma nas nuvens. despir o peso do corpo e flutuar nas alturas. descer aos vales. mergulhar nos lagos. ir ao fundo do mar. sonhar peixes e anémonas e recifes inteiros e algas verdes e castanhas. habitar a solidão das baleias distantes. liquefazer a pele no esforço do entendimento e deixar as algas brotar dos ouvidos. emaranharem-se na complicada rede de dendrites e axónios. voltar à superfície e manter o olhar marinho no fundo dos bolsos. uma réstia de humidade a inundar-nos os campos da solidez. solidão? lucidez? porque não lucidão? e depois voltar. voltar como quem descobre um novo caminho e se vai encantando com a sua inesperada familiaridade. reconhecimento. descobrir que é impossível conhecer sem reconhecer. talvez não haja nada de novo no mundo afinal. talvez só seja novo o nosso desejo de conhecer. talvez a novidade seja uma alucinação. voltar a pisar as antigas pegadas. descobrir trilhos muito antigos. lendas ancestrais. o segredo dos antepassados. sussurros que ficaram trancados a sete chaves. voltar pelo mesmo caminho. um caminho diferente. em tudo novo e em tudo velho. voltar ao lugar de onde se partiu. e de repente ver a casa em ruínas. a nossa casa em ruínas. foi das ruínas que fugimos? ou terão disseminado lentamente na nossa ausência? já não nos lembramos. não temos ideia. a imagem que guardamos é de uma outra vida. talvez uma ilusão. a casa em ruínas na nossa frente será uma outra ilusão? ou será apenas o medo? o medo de que tudo o que deixámos para trás tenha de facto apodrecido? o medo de que o que abandonámos esteja perdido? sem remédio? a casa está em ruínas e a nós faltam-nos os braços. as pernas estão gastas, quase mortas de cansaço. serão as nossas próprias ruínas? voltámos e não reconhecemos nada. um deserto de areia escadante, uma planície inóspita. o passado em cacos. o medo na garganta. uma imagem surge então. nítida. no meio das ruínas. uma mão. um braço. um tronco. pernas. outro braço. uma cabeça. um corpo. o corpo de uma criança. está debaixo de umas vigas de madeira. está presa. está morta? corremos. afastamos os detritos. abeiramo-nos daquele corpo frágil. sentimos o pulso. o pulso. pulsa. está viva. auscultamos o peito. respira. está viva. está viva! seguramo-la nos braços. com firmeza. arrastamos o seu corpo para terreno aberto. afagamos-lhe o rosto. ela abre os olhos. está viva. olha-nos. está viva. já não há ruínas. ou antes as ruínas são apenas isso: ruínas de uma casa antiga. paredes velhas. feridas. vigas que soçobraram. exaustas. abertas. mortas. tetos que cederam às intempéries. caídos. a criança está aqui. a criança está viva.

Sábado, Julho 23, 2011

tudo por amor

para não perder o teu amor
tive que esquecer quem sou
tive que matar o que ficou
de lucidez
tive que morrer
uma e outra vez

só para não perder o teu amor
só para te ter de volta
os teus olhos que me davam
a vida e abraçavam
os dias de luz

tive que escolher
ou era eu ou eras tu
a dor que sentia
jamais estancaria
e então escolhi
porque sem ti
não era nada

sem ti não existia
sem ti não havia mundo
nem luz nem dia
não havia braços nem mãos
nem pássaros nem chão

sem ti era o vazio
e a dor enorme
da destruição

eu precisava da tua boca
para respirar
dos teus braços
para me erguer
das tuas pernas
para caminhar
do teu coração
para poder esquecer

esquecer tudo
o que era via ouvia sentia
esquecer a dor
a fronha enxovalhada
os lençóis brancos
da cama molhada
esquecer a alma
o corpo partido
as planícies desertas e náufragas
boiando à deriva

e como posso eu amar-te agora
se já não tenho coração?
como posso pensar
se perdi a razão?
como posso ser depois de esquecer?
como posso te amar
sem antes te odiar
por me teres deixado morrer?

Sexta-feira, Julho 22, 2011

Mas porque é que o Mundo não pára?

E porque é que não podemos sentir a dor dos outros?
Como seria diferente, a Vida, o Mundo, se pudéssemos sentir a dor dos outros. Nem que fosse só por um segundo.
Todos os gestos, afinal, não servem para nada, se não formos capazes daquele, do único, que pode, de facto, tocar alguém. Tocar noutra pessoa. Mas tocar mesmo. Agarrá-la, ampará-la, não a deixar cair. Não a deixar ir. Não a deixar morrer.
Eu vi, sim, eu vi que estavas triste. Naquele dia. Pode parecer paranóia, mas vi. E já nem me lembro bem do que dissémos uma à outra, só me lembro da sensação de estranheza, só me lembro da tua tristeza. E claro que não perguntei. Não indaguei. Só em crianças somos livres de perguntar. De dizer. E às vezes nem isso.
Por isso, já sabia, sem saber. Já sabia, antes de saber, que fora essa tristeza a levar-te. E foi sem surpresa que soube que foste tu que decidiste acabar com a tua vida. Sem surpresa, e com todo o peso do mundo a cair-me em cima. E mais uma vez, quis dar-te a mão, quis agarrar-te, quis ter estado lá. Mas não estava. E agora, é tarde.
Decidiste? Uma pessoa deprimida pode lá decidir alguma coisa! Uma pessoa deprimida arrasta-se pela vida, aos trambolhões, e quando cai, quando cai, já não consegue levantar-se. Ou finge que se levanta, para evitar perguntas. Decidir acabar com a vida? Como é que alguém mergulhado num poço de tristeza consegue decidir alguma coisa, quanto mais acabar com a vida? Com a vida, ou com o sofrimento? Como é que alguém pode entender, sem ter estado lá?
E depois, convencemo-nos de que não podíamos fazer nada. Eu não. Eu acho que podia ter feito alguma coisa. Quero acreditar com todas as minhas forças que podia ter-te estendido a mão. Um gesto. Tão simples. E tão impossível. Agora.
Para o raio com a crise, e com o aquecimento global e as catástrofes climáticas que se avizinham, com o terrorismo e com a violência generalizada. Porque a mim, o que me assusta mesmo neste Mundo em que vivemos, é esta solidão de pedra que distancia as pessoas, este drama diário de pessoas incapazes de comunicar e de se ajudar. Quantas pessoas não morrem assim, completamente sós, porque desistem, porque o fardo que carregam é demasiado e não são capazes de pedir ajuda, porque não aguentam, porque não gritam por socorro ou porque o grito que lançam é mudo, ou então não há realmente ninguém que o oiça? Como é possível que não oiçamos estes gritos? É esta redoma de sofrimento em que nos afundamos, sozinhos, completamente divorciados do mundo e dos outros, que mais me assusta. Isto sim é uma ameaça mundial. E o mundo devia parar, a cada corpo que cai. A cada vida que morre. O mundo e todos nós. Devíamos parar, deviamos poder sentir a dor dos outros. Dos que caem. Dos que morrem. Dos que simplesmente não se aguentam em pé.
Fico só, com este gesto mudo, a mão que não chegou até ti, a mão que deixa, por um segundo, de ser minha, e voa até encontrar a tua, lá onde estejas, outra vez criança, minha amiga para sempre.

Quarta-feira, Julho 20, 2011

Querida Rosário

Recordo o teu rosto suave, os olhos claros, o cabelo escorrido, o sorriso tranquilo. Recordo o teu rosto de criança. Quando brincávamos aos cinco eras sempre o Júlio, porque eras alta, maria-rapaz, e tinhas o cabelo loiro e curtinho. Lembro-me de tantas vezes ter ficado contigo no refeitório até toda a gente já ter ido para o recreio e a dona Luísa começar a limpar as mesas e a mandar-te despachar, porque nunca querias comer e demoravas sempre eternidades. Eu ficava contigo porque não queria deixar-te sozinha. Eras muito parecida comigo, não por fora, mas por dentro. Eras tímida como eu, e choravas por tudo e por nada. Eu também, e se calhar por isso sentia-me tua irmã. Nunca fomos as melhores amigas mas entre nós havia uma afinidade quase táctil, uma coisa que não precisava de palavras nem de demonstrações constantes, porque estava lá sempre que nos olhávamos. Aquele entendimento que basta a duas almas que são o espelho uma da outra. Era assim, nós crianças, e é assim que quero guardar-te. Depois encontrámo-nos de novo por volta dos 17, vimo-nos umas poucas de vezes, e a última vez foi quando fui tratar de qualquer coisa à repartição de finanças em s. domingos, para aí há uns dez anos, se calhar. Ainda moravas no mesmo sítio. Estavas com um ar cansado e achei-te triste. Claro que não disse nada, estas coisas nunca se dizem quando se perdeu já aquela intimidade e espontaneidade da infância. Trocámos algumas palavras e ficou-me o teu sorriso, o mesmo de antes, apesar dos olhos sombrios. Agora que sei que essa foi a última vez que te vi não páro de pensar. Não sei o que aconteceu, só sei que partiste. Tão cedo. Queria voltar atrás, até àquele instante, ou talvez ainda mais, até aos recreios da CEBE, e agarrar-te na mão e não te deixar escapar. Queria ter estado lá, contigo, em todas as vezes que precisaste de uma mão. Hoje a minha mão já não te alcançará. Nunca mais. Quero acreditar que estás aqui e que não te foste, e só sinto o vazio de saber-te ausente. Queria ao menos poder despedir-me, estar perto, estar presente na tua última morada. Queria poder acompanhar-te, não te deixar sozinha, como quando ficava ao teu lado na mesa do refeitório, implorando-te com os olhos que comesses, para podermos ir brincar para o recreio. Acho que às vezes cheguei a comer do teu prato para te ajudar. Minha querida amiga, vai em paz. Até sempre.

Segunda-feira, Julho 18, 2011

Amigo

Acordou e deixou-se ficar dentro do sonho.
Não que fosse um lugar agradável ou quentinho; pelo contrário. Estava seca, contraída, na nuca aquela sensação desconfortável de ter dormido para o lado errado. No pescoço o esforço dorido dos músculos exaustos. No peito aquela pontada que conhecia tão bem.
Há idiotas que pensam que o medo é a ausência do amor. Que o medo é uma espécie de território das trevas onde uns gajos assim meio masoquistas, cegos para a luz e para a clarividência, gostam de se enterrar.
E, como bons idiotas, nem se apercebem da sua própria e confrangedora ignorância.
Havia dois medos que lhe ocupavam o quarto. Um estava dentro de um espelho muito antigo, que não se atrevia a olhar de frente. Era um medo monstruoso, feito de cabelos e nuvens muito escuras. Tinha garras, este medo. E dentes. E facas. E outros objectos fálicos que nem vale a pena enumerar.
O outro medo era pequenino. Uma criança com uns cinco, seis anos. Este medo tinha-lhe dado a mão já há muito tempo, e abraçava-a e confortava-a sempre que era preciso.
Era, de tudo o que tinha, o mais parecido com um amigo.

Quinta-feira, Julho 14, 2011

Ninguém viu

A rua estava deserta.
Ela também.
Às vezes pensava em meter-se dentro de alguém que passasse. Enfiar-se pela boca, de mergulho, e aninhar-se nas entranhas, ao fundo do estômago, na curva dos intestinos, na estreiteza da vesícula, ao lado do coração, no baloiço da respiração. Ficar ali, quietinha, quentinha. Andava pelas ruas mal iluminadas, à luz dos candeeiros e da lua, e ia dizendo para dentro, este sim, esta não, aquela é que era. Uma puta na esquina, de mini saia a rasgar a curva das pernas, perigosamente abertas; àquela podia saltar-lhe para dentro do pito, aí é que iam ser noites loucas. Um bêbado pisado, amarrotado no chão, vomitando as tripas; este não, que para náufraga já me basto eu. Um homem mistério, envolvido num sobretudo escuro, os cabelos escorridos ocultando o rosto, um rasto a perfume de cachimbo acabado de fumar; nos teus pulmões é que eu queria morar. E voou feita pena, saltou feita bola e desfez-se no ar e entrou-lhe pelas narinas numa inspiração mais profunda. E ninguém viu.

Sexta-feira, Julho 08, 2011

Coitados, os pássaros é que não têm culpa

Às vezes sinto-me assim um bocado idiota. De outras vezes, é mais uma formiguinha, um ser minúsculo a tentar mover-se num mundo de gigantes. A tentar erguer a sua voz, mas toda a gente fala mais alto. E neste mundo da escrita, onde tudo se passa em silêncio, é mais uma mosca, daquelas que se enxotam com impaciência.

Isto tudo vem a propósito aqui do recorte de jornal abaixo. Apesar de ainda não ter segurado no jornal propriamente dito, a sensação é a mesma. Ver um texto escrito por mim, com o meu nome, impresso, publicado. É que é a primeira vez que um texto da minha autoria é publicado.

Podem dizer-me, não tens tentado o suficiente. Talvez seja verdade. Deixem-me contar-vos uma história. Tinha 12 ou 13 anos quando escrevi o meu primeiro poema. Já escrevia estórias, mas nunca tinha escrito poesia. Eram umas quadras, parece-me, com uma rima mais ou menos certinha, outras nem tanto, que falava de liberdade, pombas libertando-se de grades e voando nos céus, coisas assim. Ora, já não me lembro bem como, esse poema chegou às mãos de alguém que aconselhou a sua participação num concurso, na altura promovido pela Associação Juvenil da CGTP Intersindical. Era a Interjovem, parece-me.

É claro que participei, toda entusiasmada. E no dia em que anunciariam os vencedores lá fui, com os meus pais e irmão, ver a exposição com os trabalhos premiados. Ia cheia de expetativas, que rapidamente caíram por terra. E a consternação não se deveu unicamente ao facto de não ter ganho nenhum prémio. Não, a consternação era outra...

Deixem ver se me lembro. O concurso era bastante diversificado, e os temas iam desde a poesia às artes plásticas (pintura, escultura, gravura), passando pela prosa; até trabalhos em lavoures, parece-me. Para cada tema havia 1º, 2º e 3º prémio. Quando chegámos à secção da poesia, deparámo-nos com os nomes das obras e dos autores a quem tinham sido atribuídos cada um dos prémios... Neste caso, do autor. Sim, os 3 prémios tinham sido atribuídos ao mesmo nome. Até ainda me lembro do nome, era Luís Maçarico. Nunca mais me esqueci, e já vão perceber porquê. Ora então o sr. Maçarico tinha, não só, arrebanhado os 3 prémios de poesia, mas também de prosa. Logo aí, veio aquela pontada de estranheza à boca do estômago. A sensação de que algo não batia lá muito certo, apesar dos meus 12 ou 13 anos. Demos mais umas voltas pela exposição, e a surpresa ainda não terminara: é que ao mesmo nome tinham sido igualmente atribuídos, nada mais nada menos, do que os 3 prémios relativos à pintura e à escultura. Pois. O tal do Maçarico não era só um arrebanhador de prémios, era também um artista bastante versátil.

Bom. Acho que não voltei a concorrer a mais nada durante algum tempo. Sempre que pensava nisso aparecia assim uma nuvem negra no horizonte com o nome Maçarico a bailar por entre a nebina. Passaram-se uns anitos, e para aí aos 16 resolvi voltar a concorrer. Não me perguntem porquê. Acho que entretanto ganhara uma menção honrosa num concurso na escola secundária, com um conto sobre o 25 de abril, e talvez isso me tenha dado ânimo. Ainda assim, não sei porque diabo voltei a concorrer ao mesmo concurso da Interjovem. Talvez masoquismo; talvez porque lá no fundo me quisesse certificar de qualquer coisa. Tirá-la a limpo.

Disse para mim mesma que aquele primeiro poema era muito mauzito e muito infantil e que agora é que era. Os poemas que agora escrevia eram muito melhores, muito mais maduros. Umas tretas assim. E lá voltei a concorrer. E lá voltámos, a família toda, em romaria à noite da exposição. Numa repetição em tudo semelhante à anterior, e incrivelmente com a mesma dose de surrealismo. Sim, acreditem que é verdade. O tal do Maçarico, 3 ou 4 anos depois, voltava a arrebanhar os 3 prémios da literatura (poesia e prosa) e mais uns quantos nas outras áreas, que já não consigo especificar, para além das artes plásticas. Em cada secção que visitávamos lá estava o fatídico nome, em destaque num dos 3 premiados.

Nessa segunda vez já tinha idade suficiente para me chegar ao nariz o cheiro do esturro. Daí em diante, sempre que penso em concorrer ao que quer que seja, há um bichinho qualquer que me sopra ao ouvido que não vale a pena o esforço. E depois vejo um maçarico, um daqueles tubos a deitar uma chama azul pela boca.  Fiquei traumatizada, o que é que querem.

Quinta-feira, Junho 30, 2011

Uma mulher de palavra

Era uma mulher de palavra. As palavras nasciam-lhe nos braços e derramavam-se pelas mãos abertas. Fugiam-lhe entre os dedos. Era uma mulher de palavra, e ficava sem palavras. A voz perdia-se nos labririntos dos argumentos e emudecia nos becos sem luz das trocas azedas de palavras; palavras gastas à bruta e à pressa, mal nascidas, cuspidas, vomitadas, violadas; a ela, uma mulher de palavra, a voz atraiçoada. Quando cantava abria o peito aos pássaros e esquecia as palavras; esquecidas, as palavras antes esfaqueadas ganhavam força e melodia e voavam aladas nas alturas, mergulhavam na água das nuvens, mexiam o corpo e dançavam; caíam, exaustas, e escorriam languidamente pelo pescoço de Deus, volúpia interdita e apetecida, interrompida por meias palavras, murmúrios, rios silenciosos de asas nocturnas, risadas cristalinas, água espelhada no charco de um olhar minucioso, íntimo, um olhar preciso, atento, irrequieto, pronto a morder. As palavras iam e vinham, nasciam, morriam-lhe na boca, a ela, uma mulher de palavra. Uma mulher sem palavra. Uma mulher nua. Uma mulher vestida apenas com a pele do corpo, e as palavras que já não lhe cabem na boca. Uma mulher sem boca. Louca. Alucinada.

(este texto foi um dos vencedores do Desafio de Escrita - Micronarrativas, promovido pela ecO - Associação Cultural de Leiria, e foi publicado hoje, 1 de Julho, no Região de Leiria.)

Transpiração

A água ferve.
A cabeça voa.
O pensamento corre, da faixa azul de azulejos em cima do fogão para a parede branca, e desta para o brilho metálico dos talheres lavados.
A água a ferver.
A cabeça a latejar.
O pensamento a correr pelo chão de mosaicos, a deter-se na linha de luz junto à porta, um bocado de sol a rasgar o chão. O chão líquido no olhar alucinado.
A tua voz já não mora aqui. Há muito que o desejo da tua voz lhe ocupou o lugar, na mesa da cozinha, no sofá da sala, no lado direito da cama.
O desejo da tua voz é o mais parecido que há com uma dor de ouvidos.
A água ferve. O vapor espalha-se no ar tépido.
Levanto-me e apago o lume. Tiro uma caneca da prateleira e um pacote de chá da caixa preta, com letras brancas, onde a palavra chá é, de súbito, uma obscenidade.
Num relance, vejo-te o corpo nu, a escorrer água, saído do duche. A toalha turca numa intimidade que me arrepia os cabelos da nuca. A tua boca húmida, ligeiramente aberta, a deixar entrever o branco dos dentes.
E uma palavra, puta, a escorrer-te dos lábios.
O vapor bate-me no rosto, enquanto despejo a água na caneca. O pacote de chá perverte momentaneamente a lei da gravidade, sangrando, o mar em ebulição à sua volta. E é então que vejo o meu coração em ruínas.

Temperatura

Encontrava-se a um canto da cama, o corpo enrolado, como morto. As costas deixavam de lhe pertencer. Era um caracol, protegido pela concha dura. Nas costas ardia-lhe qualquer coisa húmida. Não sabia o que era. A sensação era semelhante à da mão da mãe, e, ao mesmo tempo, substancialmente diferente. Este toque acordava-lhe qualquer coisa debaixo da pele, como se formigas incandescentes se passeassem pelos seus braços e pernas, detendo-se em turbilhão na barriga, ameaçando explodir. Era por isso que se encolhia e enrolava sobre si mesma: para abafar aquela vertigem no centro do corpo. Paralizava os músculos, tornava-os de pedra, para que nada sentissem. Erguia muro atrás de muro até as costas estarem longe, muito longe de si. Dentro das muralhas ficava quieta, muda, adormecida, igual a uma estátua; e com tanta força cerrava os olhos e os sentidos que chegava a acreditar que não estava ali, que estava trancada dentro da fortaleza de pedra que era o seu corpo e que nada a podia tocar. A coisa, todavia, era persistente, e a pele das costas arrepiava-se, contorcia-se em silêncio, gritava num desespero mudo, enquanto dentro de si a temperatura, lenta, fria, deslizava, e subia, subia, subia.

 

Quinta-feira, Junho 23, 2011

Back to normal again

O facebook estava em baixo, com uma mensagem de erro no site esquisita, e eu disse para os meus botões, pronto, é hoje que isto deu o berro. Ora quero lá saber! Vou para o blogue que é onde eu estou bem. Já nem me lembro de como era, só eu e o blogue e meia dúzia de gatos pingados que me liam, uns mais gatos que os outros, outros mais pingados. E agora tenho uma página de fãs a tudo, e olha, o logo está cá mas já não diz quantas pessoas gostam disto; e para que é que eu preciso de saber quantas pessoas gostam disto? Não me vou armar em parva e dizer que não me importa nada, porque é mentira; claro que gosto que me leiam, por alguma razão criei a página e andei a chatear meio mundo para que clicassem no like. A verdade é que isto vicia, toda a gente sabe, a gente acha que não, que até passa muito bem sem os tags e os comments e os events e os chatos do farmville e as montanhas de friends e os links e os happy birthdays e os coraçõezinhos e as perguntas idiotas e os links marados e as dores de cabeça e mais não sei quê, as notas e os statuos e os vídeos e tanta gente a falar ao mesmo tempo, arre!, mas depois andamos todos lá caídos, todos os dias, que isto um dia sem ir ao FB é assim um dia esquisito, parece que nos falta qualquer coisa, ou que temos alguma coisa trocada, tipo quando vestimos uma meia de casa cor ou a camisa do avesso. E falta mesmo, falta-nos saber dos amigos, o que andam a comer e a fazer e a dizer, o que gostam e o que não gostam, falta-nos saber do mundo, que isto agora para saber de alguma coisa não há como o FB, qual telejornal qual quê, ainda alguém vê notícias? As coisas aqui correm de boca em boca, ou melhor, de face em face, que é como as notícias se espalham melhor, toda a gente sabe. Sabe-se de tudo e denuncia-se tudo, e até começam a surgir resultados, parece-me, olhem aquela dos magistrados que copiaram no exame, e que tinham tido todos nota dez, foi toda a gente a espalhar o link e a dar-lhes em cima, e olhem o que aconteceu, vão todos a exame outra vez, agora digam-me lá, se isto tivesse acontecido, digamos, há dez anos, o que é que teria sucedido? Uma notícia nos principais telejornais e jornais nacionais, em papel e online, e pronto, as pessoas ficariam escandalizadas mas ninguém ia protestar, organizar manifestações, pois não? Iríamos ficar todos a dizer, olha o país que temos, que merda e tal, mas a nossa voz não se faria ouvir em lado nenhum, pois não? Muito menos iria haver novo exame. Bom, mas estou para aqui com esta conversa, e não era bem isto que eu queria dizer, quando dei com o FB em baixo apeteceu-me escrever um post negativo deste, a dizer mal, digamos assim, a mostrar como estamos tão agarrados a este bicho que até nos esquecemos de conversar, ou telefonar, até os emails (já nem falo em cartas), hoje trocam-se mais mensagens via FB com os amigos do que emails, querem apostar? Estava mesmo decidida a escrever algo assim forte, tipo, bah, para que é que eu preciso disto, eu estou muito bem com o meu blogue de estimação onde escrevo quando me apetece e o que me dá na gana só porque gosto de escrever e é isso que quero e acabou-se. Fuck facebook. Tipo grito de revolta. Mas depois aquela porcaria voltou, o erro ou lá o que era acabou, e lá fui eu à minha homepage, que já não andava por lá há que tempos, leia-se um ou dois dias, os que duraram esta constipação pecaminosa que me entupiu os ouvidos e me transformou numa zombie em estado de sonambulismo avançado durante quase 48 horas. Enfim, dizia eu, lá fui espreitar, cheia de saudades dos amigos e de ver as parvoíces que andam a dizer, e as coisas sérias também, pois claro, e lá fiquei toda emocionada com as fotos dos bebés dos meus amigos que acabaram de ser pais, e com mais uma ou outra novidade, às vezes são coisas pequeninas, daquelas trivialidades que se dizem mas que fazem sorrir, e lá estava eu, completamente rendida ao bicho que me dá assim de repente, todos os dias, novas dos meus amigos, que de outra forma eu não saberia, porque não os tenho aqui ao alcance da mão, ou das pernas, ou do carro. E pronto! Back to normal again.