Continuamos a ver escolas, e, apesar de já estar um bocado farta de tantas andanças (percorremos a escola de uma ponta à outra) continuo pasmada com o que vejo. E digo outra vez, agora é que eu queria andar na escola. As pessoas hoje andam muito preocupadas com a violência nas escolas, mas está-me cá a parecer que acontece com este problema o mesmo que acontece com muitos outros: sempre houve, mas só agora é que se fala disso. E fala-se tanto que realmente dá a impressão que a coisa assume proporções gigantes. Ora eu, que nesta altura já visitei (quantas? Deixa-me cá pensar...) aí umas cinco ou seis escolas, ainda não vi uma única cena de violência. Podem-me dizer que o comportamento dos miúdos não será o mesmo com visitas na escola, pois a mim o que me espanta é precisamente que, durante estas visitas, em que bandos de pais e filhos e até bebés passeiam pelos corredores, à mistura com os estudantes enquanto estes mudam de sala, não aconteçam acidentes do tipo, miúdos a correr desvairados e a levarem tudo à frente. É que é mais ou menos esta a imagem que guardo da minha escola preparatória e depois secundária, do pessoal em correria desenfreada pelos corredores, empurrões, encontrões e coisas piores. Pois o que tenho visto são corredores cheios onde é difícil deslocarmo-nos, mas nada de encontrões nem de atropelos, tudo muito ordeiro, pedidos de desculpa e com licença, uma maravilha. E não pensem que tudo ordeiro quer dizer tudo em sentido como se estivessem na tropa; não senhor, há risos, conversas, barulho, movimento, enfim, vida.
Geralmente o que se ouve por aí é que no meu tempo é que era bom. Pois eu digo o contrário: no meu tempo era uma porcaria. Comigo, por exemplo, a escola falhou redondamente. No quê? Não, não foi a nível académico. Mas a escola é muito mais do que isso, do que transmissão de conhecimentos. A escola tem de preparar para a vida. No que é que falhou? Eu digo: não me ensinou a acreditar em mim nem nas minhas capacidades. Não me incutiu auto-estima nem confiança em mim mesma. Não me valorizou como pessoa nem como sujeito activo na minha própria aprendizagem. Desenvolveu muito pouco o espírito crítico e a auto-reflexão. Não me encorajou nem me apoiou nas minhas fraquezas. Não fomentou o espírito competitivo positivo. Não fomentou o sentimento de segurança nem de pertença. Em suma, e em termos pessoais e sociais, um verdadeiro falhanço.
Muita gente continua a achar que o que as crianças encontram em casa é muito mais importante do que o que encontram na escola. Só que as crianças crescem e deixam de ser crianças. É claro que a família é o alicerce mais importante de uma pessoa, mas a escola é talvez o segundo. Na adolescência é preciso sair de casa e ir ao encontro do mundo.
Não, o mundo não está cada vez pior. O mundo é um lugar cada vez melhor. As coisas mudam para melhor, sim.