Sábado, Dezembro 19, 2009

Devo estar a ficar velha

Nevou e eu não escrevi posts sobre isso, nem sequer fiquei a olhar pela janela como das outras vezes. Em vez disso, só pensava nas estradas bloqueadas pelo gelo e no dinheiro que o meu marido não traria para casa. Tive de ir às compras com os miúdos e fartei-me de lhes gritar que parassem de atirar bolas de neve um ao outro e se despachassem. Mas na volta lá segurei nos três sacos e até os deixei esparramarem-se no chão para brincarem ao anjo da neve. Ficaram todos molhados e o Diogo perdeu uma luva mas estavam felizes. E eu, ou aquela parte de mim que ainda não envelheceu, também.


(Tirei, tirei fotografias, mas não consigo tirá-las da máquina.)

Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Lixo com ele!

Eu às vezes dá-me assim umas coisas e pareço aquelas pessoas que não conseguem deitar as coisas para o lixo. Os meus filhos têm a quem sair, principalmente o Diogo, que colecciona tudo, até pauzinhos e pedrinhas da rua. Cada vez que arrumo as estantes dá-me ganas de enfiar tudo no lixo e então durante as mudanças nem se fala. Mas acho que desta vez exagerei, porque agora não consigo encontrar um par de luvas do David que estava perfeito para o Diogo, que perdeu hoje uma luva no meio da neve.

Uma vez assisti na televisão ao caso de uma velha que não conseguia entrar em casa porque havia sacos cheios de tralha até ao tecto. A porta da rua só abria uma nesguinha e lá se viam os sacos a abarrotar de coisas inimagináveis. Fartei-me de rir e ainda me rio cada vez que me lembro das imagens, e acho que é um riso assim a atirar para o nervoso miudinho. Eu às vezes já não consigo arranjar espaço dentro do frigorífico e depois descubro lá caixas com comida já a cheirar mal ou então legumes quase podres. Isto era mais dantes que ultimamente tenho feito umas poucas de revoluções dentro desta cabecinha. Agora só me falta converter o resto da família a esta compulsão do lixo com ele!
Eu tenho a mania de guardar, pois, e o meu ponto fraco são as coisas que os meus filhos me dão. Ando com os bolsos dos casacos e a mala cheia de pedrinhas e de papéis muito dobradinhos com desenhos do Diogo e alguns recados a dizer I love you e outras coisas do género. Mas as outras coisas já me deixei disso. Para que é que a gente quer carradas de extratos bancários e contas de há três anos atrás? Lixo com ele! A minha amiga diz que guardar contas velhas é muito mau para as nossas finanças porque afasta o dinheiro, e eu acho que isso é uma grande treta mas já agora lixo com ele!, que bem estamos a precisar de uns dinheiritos.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

Sonhos

A minha amiga tinha-me dito para não me preocupar, porque ela sonhara que eu ia viver nesta casa. "Um dia acordei depois de um sonho em que te via a viver aqui, e desde aí soube que isso ia acontecer." Contou-me também que costuma ter estes sonhos, às vezes. São sonhos diferentes dos outros porque os acontecimentos surgem muito reais, e não com aquela névoa própria dos sonhos. Sonhou com a morte do sogro antes de acontecer. Viu o caixão descer à terra e contou-me que, depois, quando estava no funeral, era igualzinho. Sonhou com os filhos muitos anos antes de eles nascerem: namorava com um amigo do actual marido, e um dia teve um sonho em que estava casada com ele e tinha duas crianças, um menino e uma menina, com os nomes e as caras dos filhos. No outro dia contou o sonho ao namorado e riram-se muito. Daí a uns anos casou mesmo com o tal amigo dele, e teve as mesmíssimas crianças com que sonhou. Bom, depois disto, fica difícil não confiar nos sonhos dela.

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

Despensa ou dispensa?

Boa, tantos armários, tanto espaço! Aqui as panelas, acolá as caixas de plástico. Até há gavetas, há tanto tempo que não arrumava os talheres em gavetas! Compartimentos para os garfos, facas, colheres e outros utensílios inumeráveis. Até parece que estou a brincar às casinhas. Na verdade, não me lembro muito de brincar às casinhas. Era mais carrinhos, algumas bonecas, legos, soldadinhos da Airfix... Airfix? Não sei se é assim que se escreve.

Frascos para as massas e arroz, açúcar e farinha nas prateleiras mais altas, ai que não chego às prateleiras mais altas... O que vale é que tenho um homem alto, mas uma mulher não pode estar dependente de um homem, não acham? Ainda para mais para arrumar os armários da cozinha. Ora, ainda melhor que um homem, mesmo grande, é um step stool mesmo à maneira, comprado no ikea... Agora já chego a todo o lado e se for preciso até limpo o cimo dos armários e do frigorífico.
Assim sim: pratos e travessas de loiça, formas, tigelas, copos, jarros, tanta tralha, mas até sobrou espaço, quem diria? Os frascos de vidro da minha mãe, as embalagens do chá, os rolos de papel, a película aderente e a folha de alumínio, sacos para congelar, sacos para embalar, saquinhos e sacolas, palhinhas e pintarolas, tudo cabe na dispensa (há tanto tempo que não tinha uma dispensa... E por falar nisso, como é que se escreve, despensa ou dispensa?)

(se fosse tão fácil arrumar-me em prateleiras.)

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

É verdade,

também pode ser do chocolate, pois. É imperdoável, gostar de chocolate e não poder comer (ou não poder comer demais, o que vai dar ao mesmo, em se tratando de chocolate). Quase que preferia ter a cara da Manuela Ferreira Leite.

Imaginarium

Estamos, eu e o Diogo, com umas borbulhas esquisitas. Não são tantas que me preocupem de facto nem tão poucas que passem despercebidas. Nem sequer são do mesmo género. As minhas talvez sejam picadas de algum insecto desconhecido, as dele alguma coisa que ande a comer. Mas o quê, santo Deus? Será que anda a comer ovo a mais? Talvez. Será do stress da mudança? Lembro-me daqueles quadros que referem os níveis de stress associados a acontecimentos vários. Os níveis mais elevados estão associados a acontecimentos como a morte de um ente querido, o nascimento de um filho, e a mudança de casa anda lá perto, acho. Estas racionalizações ajudam bastante a justificar a nossa ansiedade e a não nos sentirmos nem fracos nem idiotas. Sim, porque não há nada pior do que sofrer de males imaginários. A imaginação quer-se para coisas mais (f)úteis, não é assim?


(pois eu gosto de inventar enredos, embrenhar-me em angústias, enredar-me em teias de mágoas e de enganos, imaginar-me noutra pele a sofrer e a sorrir dentro dela. Não, não sofro de males imaginários. Sofro de males inimagináveis.)

Domingo, Dezembro 06, 2009

Come a sopa joana come a sopa

In school, when I'm eating the soup, my friends say I'm eating sick!

...
É triste ver como estes miúdos aqui nunca viram um prato de sopa na vida, quanto mais comê-lo.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Mudança de casa 11

Já me esquecia. A caldeira de vez em quando assobia.

Mudança de casa 10

Isto já vai longo e eu já estou cheia de sono.

Mudança de casa 9

Deviam inventar um concurso aqui para ver quem tem a casa mais pequena.

Mudança de casa 8

Os meus filhos estão muito mal habituados.
(mea culpa, mea culpa...)

Mudança de casa 7

Só quando montámos a cama é que percebemos que não conseguíamos passar para o outro lado do quarto.

Mudança de casa 6

Mas afinal o que é um forno na vida de uma mulher?

Mudança de casa 5

Ai, se pudesse levava-te comigo...
(o que me ocorreu quando abri o forno da outra casa, depois de ter passado a tarde a esfregar este.)

Mudança de casa 4

A minha amiga é uma querida mas acho que nunca lavou o forno.

Mudança de casa 3

Mas como é que foi possível ter vivido aqui quase cinco anos?
(o que me ocorre dizer sobre a outra casa.)

Mudança de casa 2

Já não tenho de levantar os braços para chegar ao microondas.

Mudança de casa 1

Tenho as costas feitas num oito.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Chuva, vento, partidas e chegadas

Os meses, os dias, os anos, tudo se vai repetindo indefinidamente. A casa é muito mais silenciosa só com um filho. Acho que já escrevi isto antes. Também já senti esta mistura de ansiedade e espanto pela constatação da passagem do tempo. Aquele limiar onde os filhos deixam de ser nossos, ou apenas nossos. De manhã a chuva não ajudou à despedida, mas o meu sorriso era sincero. Ao meu lado estava o mais novo, de olhos franzidos e cara de sono, que se levantou heroicamente uma hora mais cedo porque fez questão de levar o irmão à escola. Ficámos ali a acenar à chuva, nós e mais umas quantas almas, outros pais e mães e irmãos, enquanto o autocarro punha o motor a trabalhar e se afastava até à curva. A chuva não abrandou mas o meu coração serenou.


Já me esquecia, esta semana mudamos. Finalmente.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Sopa juliana

Faço sopa como quem passaja as meias ou passa o espanador pelas prateleiras ou deixa escorregar os olhos para o abismo dos céus sem dar por isso: sem querer, sem pensar, sem sequer sentir. Às vezes a faca escorrega e acorda-me daquele ruminar de sonhos com uma dor pequenina e aguda num dedo, e então tudo se desenha concreto ao meu redor e eu tenho de cerrar os dentes para não deixar escapar a dor de quase dar em doida com a sucessão de gestos repetitivos em que se tornou a minha vida. Imagino-me a arrumar as mochilas dos miúdos, daqui a pouco: fatos de banho, toalhas, toucas, óculos para mergulhar, chinelos para não apanharmos fungos nos pés. Gel de banho, champô. Hoje é dia de natação e só isso já me alivia o peito. Acho que os médicos deviam prescrever mergulhos e braçadas para as crises de angústia. Também para a raiva. Não, não a doença com o nome raiva, mas a outra, a raiva que nos assalta de súbito sem sabermos porquê, e nos dá vontade de atirar alguém à linha do comboio. O quê, nunca sentiram vontade de matar alguém? Fiquem sabendo, pois, que o que vos tem livrado desse impulso mórbido não é a vossa veia angelical ou bondade intrínseca, mas sim uma eficiente e sólida mordaça, uma auto-censura determinante.

Deixei o post a meio e agora já não me lembro do que ia escrever a seguir. Tanto, que enveredei por outro caminho. Com a vida passa-se a mesma coisa: vamos, determinados, numa dada direcção, e quando damos por nós distraímo-nos e estamos a andar em sentido contrário. Ou para leste, ou para oeste. Sei lá.
Lembro-me que queria falar de mim, da minha vontade de escrever um livro, das minhas dúvidas, dos meus temores, da minha paralisia e dos meus ossos doridos, sem ninguém perceber que estava a falar disso. Lembro-me de querer usar as palavras retirando-lhes o sentido e espremendo-lhes o sumo que só os sentidos mais primitivos conseguem beber. Eu às vezes queria usar as palavras como quem escreve música. Esquecer as metáforas e as orações e deixar-me levar apenas pelo som, pela melodia, pelo ritmo, pela cor. Não querer dizer nada com elas, não querer dar nenhum sentido ao que escrevo; apenas deixar fluir a beleza que habita a voz, como uma ave graciosa num bailado lento de asas ao vento.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Eu educo, tu educas, ele educa...

Não compreendo os pais que não se preocupam em (ou não querem, ou não se importam com isso) educar os filhos. E por educar entendo coisas simples. Como, por exemplo, entrar em casa e limpar os pés. Ir depois à casa-de-banho e lavar as mãos. Comer sentados à mesa, e não a passearem-se pela casa. Em relação a este tópico a coisa às vezes é gritante: mãos e bocas cheias de comida a esfegarem-se nos sofás, nas paredes, nas camas, em todo o lado. Obedecer quando se lhes diz que não podem comer fora da mesa. Não nos bombardearem com pedidos (posso jogar no computador? Posso jogar na x-box? Posso ver um filme?) enquanto estamos a tratar do jantar e não responderem que estão aborrecidos por estar à espera. Em vez disso, e já agora, dar-nos uma mãozinha é que era. Não saltarem com os pés para cima dos sofás nem das camas.

Eu sou uma chata e estou sempre a repetir que se sentem bem à mesa, que não podem comer no sofá, que tenham modos, o diabo a quatro. Mas ao menos sei que, em casa de outras pessoas, eles se vão portar como deve ser. Já o mesmo não posso dizer dos miúdos que me caem aqui de para-quedas. Por mais que isso me custe...

Sábado, Novembro 14, 2009

O mistério da lente desaparecida

Esfregar os olhos com zelo e preguiça, demoradamente, até começar a ver pontinhos luminosos e coloridos é das melhores coisas que há. É claro que todas as pessoas que usam lentes de contacto sabem, ou melhor, aprendem, que não podem entregar-se a esse prazer assim com tanto deleite como gostariam. Aprendem, por isso, a moderar a pressão nos olhos, a emprestar delicadeza ao gesto. O que para mim é um martírio. Isto porque esfregar os olhos tornou-se quase um reflexo automático. Tipo coçar o nariz, passar a mão no cabelo. Se fosse homem, cofiar a barba (se tivesse barba). Bom. Às vezes esqueço-me e quando dou por mim já é tarde. Como ontem. Abri o olho a medo e já não estava lá. A lente. Já não estava no lugar, porque geralmente não cai, fica grudada na parte interior da pálpebra, e com jeito acaba por sair. Pois eu perdi o jeito. Bem que massagei o olho a ver se ela dava as caras. Nada. Por fim, já em pânico, a imaginá-la no meio dos meus neurónios, interferindo com o caminho das sinapses, a embrulhar-se nas dendrites e nos axónios (a desavergonhada), tanto esfreguei o olho e tanto mexi (já a via em todo o lado) que acabei com uma inflamação daquelas. Fui ao hospital, mandaram-me para o centro óptico (não há especialistas de oftalmologia nas urgências. Também não há psiquiatras. Bem, isto dava outro post, por isso, adiante). Lá chegada, atenderam-me logo. Bem que me repuxaram as pálpebras: da lente, nem sinal. Em vez disso, uma pequena lesão que pode infectar e por isso umas gotas com antibiótico. A irritação já passou. Mas onde terá ido parar o raio da lente?

Este podia ser insight 3

Estão os dois mergulhados no jogo da x-box e de repente, no meio da conversa (sempre em inglês, como é óbvio) ouço duas palavras soltas, no meio de uma frase a que não consegui apanhar o sentido: mama's boobs.


Depois faz-se silêncio e eu olho para trás e eles estão de olhos pregados ao ecrã a conterem o riso.

«É o quê?» pergunto.
«Nada, nada...»

Mas o riso não desgruda, claro está.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Insight 2

Mum, do you know what rape means?
Yeah, I know. Do you?
Rape is to hurt someone's soul.

(Fiquei a pensar em como as feridas na alma sangram muito mais que as do corpo.)


(Ou antes, em como corpo e alma são uma e a mesma coisa.)

Insight 1

When the worst happens, the worst thing to do is pretending nothing's happened.

O senhor Vargas

Entrei para a minha escola primária em 1975. Era um casarão antigo, bem conservado, de paredes pintadas a rosa escuro, com um grande jardim onde havia uma palmeira, duas árvores da borracha (penso que naquela altura já seriam centenárias), um cipestre e mais umas quantas árvores de que desconheço o nome, com folhas de forma curiosa, contituídas apenas pelo veio, ao centro, de onde partem longos dedos, verdes e finos. Se fechar os olhos, consigo sentir o cheiro dessas folhas, que se pegava à roupa e à pele, deixando uma camada fininha e um pouco peganhenta entre os dedos, assim como o cheiro dos caroços das tâmaras, que tinham a forma de pequenos papo-secos, com os quais eu enchia os bolsos para brincar, e ainda o cheiro das folhas finas e esguias das árvores da borracha, em forma foice, que mudavam de cor assim que tocavam o chão. Também brincava com uns chapéus pequeninos que se desprendiam das inúmeras bolotas que caíam das árvores.

Havia uma outra árvore, completamente deitada sobre o chão, apoiada a um velho poço que tinha sido fechado com cimento, para onde podíamos subir sem perigo. Tanto a árvore como o poço faziam as delícias da criançada. Ainda me lembro dessa árvore cheia de pequenos ramos secos que lhe brotavam do tronco como estranhos cabelos, e que a mim lembravam uma espécie de penugem, pois, quando o senhor Vargas desbastou aqueles paus todos à tesourada, deixando a textura do tronco à vista, eu não achei nada melhor para descrever aquela operação do que ó mãe, o senhor Vargas depenou a árvore! O senhor Vargas era uma espécie de pau para toda a obra: guiava a carrinha, cuidava do jardim, transportava caixotes e sacos de batatas e legumes para a cozinha, fazia trabalhos de carpintaria, pintava paredes e desentupia canos. Tinha também outras actividades mais sinistras: cortava a cabeça aos meninos que se atrevessem a subir os velhos portões de ferro escuro, situados nos dois cantos superiores daquele enorme jardim, e que davam acesso ao jardim da casa contígua, onde nunca cheguei a perceber se morava alguém. Depois, enfiava as cabeças desobedientes dentro de um saco, e ia enterrá-las à meia noite na terra escura e húmida do outro jardim. Era o que afirmavam os meninos e as meninas que comigo se sentavam junto desses portões altos, os olhos acesos num assombro grande e redondo e os pés desejosos de escalarem por ali acima (os pequenos ornamentos circulares de ferro pareciam estar ali para ajudarem a subida) e provarem o chão do lado de lá, que subia em pequenos degraus de pedra até se perder de vista.

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

A professora da segunda classe

Até àquele dia em que a minha professora da segunda classe, olhando-me com gravidade, decretou que não podia ser. Este não é o teu nome, disse, apontando a pequena palavra de quatro letras com que eu assinava os desenhos e os pequenos textos que escrevia. Era assim que toda a gente me chamava, mas aquele não era o meu nome. A partir de hoje, vais passar a escrever o teu nome como deve ser. Eu deixei cair os olhos para o chão, envergonhada. E obedeci, claro. Obedecia sempre. E passei a escrever sempre o meu nome, Gabriela, seguido dos dois apelidos. Ninguém dava pelo erro. Só eu.

Escrava Isaura

Também me lembro de brincar à escrava Isaura. E da cantar a canção, à noite, na cama: "Leré leré leréleréleré leré leré leréleréleré..." Tinha uma atracção mórbida pelo trono onde os escravos eram chicoteados. De maneira que era quase sempre essa parte que tentava reproduzir nas brincadeiras. Esticava os braços, e ficava pendurada numa viga de uma porta, na varanda da casa dos meus avós. Eu era a escarava Isaura, e um dos meus primos fazia de Tonico (já não me lembro se era Tonico), enfim, o que me chicoteava. Depois deixava-me cair, a fingir de morta, para o chão. Desconheço se esta brincadeira possuía algum magnetismo erótico oculto, ou se era a pura atracção sado-masoquista que nos excitava. Lembro-me destas brincadeiras, em que nos deitávamos na terra suja do quintal, e em que, supostamente, não estaríamos à mercê dos perigos potenciais que toda esta artilharia informática e virtual hoje em dia imiscui na mente dos nossos filhos, onde a violência se distingue como factor de risco principal. Credo, que ignorância a nossa.

E disto, não têm saudades?

Gabriela

Não sei porquê, lembrei-me disto. Do meu nome. De como em criança detestava o meu nome, e a culpa nem sei bem de quem foi, se do Jorge Amado, se da Gal Costa, se da TV Globo (era da Globo, não era?), se da Sónia Braga, se de alguém de facto. O que é facto é que já não podia ouvir as pessoas, sempre a gracejarem, cada vez que me viam. Ou ouvir a canção, na voz límpida e cheia de sonoridade da Gal. Gabriela, meus camarada. Gabriela, cravo e canela. Deixei de ser eu, para me tornar numa anedota. Sei lá se foi isso. Naquela idade não nos apercebemos bem do porquê das coisas, apenas sentimos e pronto. Eu desatava a gritar cada vez que a ouvia e antecipava os sorrisos babados à minha volta. Gritava e fugia. Escondia-me. Não suportava aquilo. De tal maneira, que votei o meu nome ao esquecimento. Talvez não tenha sido intencional, mas a verdade é que passados alguns anos já ninguém me chamava Gabriela. Nem a minha mãe. A não ser quando estava zangada.

E por sinal, gosto muito da música. E da Gal, também. Da Sónia, aquele portento de mulher morena. E da novela, sim, gostei imenso e até a revi. O livro, como é habitual, é bem melhor que a novela. E do meu nome também, já agora.

Aliás, naquela altura, em que renegava a Gabriela, eu queria mesmo era ser a Malvina. Brincava com a minha melhor amiga à Mal e à Jé, que era um código para que ninguém percebesse os nomes, Malvina e Jerusa. Ninguém eram os meus primos e irmão. Mas claro que todos percebiam. Também brincávamos a outras coisas, e dávamos beijos na boca. Isto, sim, sempre foi segredo.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009



Saudades dos girassóis.

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Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Compenetrado e concentrado



a fazer um livro.

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Mais outono



Hoje quando passei pela casa da minha amiga eslovaca senti falta de bater-lhe à porta e caminharmos juntas pelo carreiro junto ao lago até à escola. Olhei as janelas vazias e sorri para dentro. É que, em breve, a casa estará de novo cheia. E não terei de bater à porta para entrar :-)

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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Não percam



este documentário. E não, não se deixem iludir pelo facto de existir um oceano entre a Europa e os Estados Unidos. E depois, enfureçam-se, criem grupos no face-book, gritem, façam alguma coisa em concreto. Sozinhos não podemos mudar o mundo, pois não. Mas todos juntos, talvez (ou muitos. Ou alguns. Não importa. O que importa é que fiquemos com vontade de mudar alguma coisa).

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Ditadura(s)

Então ela disse-me aquilo, esse rapaz tem medo de falar. Tem medo de pensar. Esse rapaz vive numa ditadura. Pode dizer-lhe assim, tu vives numa ditadura dentro da tua cabeça. Sabes o que é uma ditadura? E depois pode explicar-lhe. Eu naquela altura não sabia o que era viver numa ditadura. Mas hoje (hoje?) sei (sei?) que sabia. Sabia? Sei? Quem vive numa ditadura não sabe o que é uma ditadura. A não ser que já tenha feito a revolução. E eu bebia-lhe as palavras e pensava, não sei nada. Como tantas outras vezes. E pensava, quando crescer quero ser como ela. Quando crescer? Sim, serei sempre essa eterna criança que nunca cheguei a conhecer.


Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Sábado, Outubro 31, 2009

Noite das bruxas

Havia um fantasma que a visitava todas as noites de insónia. Entrava-lhe pela janela de braços estendidos e com mãos frias afagava-lhe o ombro. Ela fechava os olhos e tinha na sua frente uma cama alta, imensa, com aquela manta vermelha aos quadrados que lhe fazia comichão no corpo. Depois havia algo dentro do seu corpo que se partia, enquanto se encolhia, junto à parede, o mais possível para fora da manta, e nas costas lhe ardia qualquer coisa que nunca soube o que era. Tentava a custo proteger a parte da frente do corpo como se as costas não lhe pertencessem. Cerrava os dentes e de olhos fechados procurava fugir dali. De tal forma que conseguia anular a dor, os sentidos, e hoje não se lembra, não sabe, não consegue nomear aquela sensação medonha. Só sabe que era monstruosa, que a esmagava de encontro à parede, que a virava do avesso, que a deixava como morta. Fingia de morta. Acreditava que assim, nada a poderia atingir, e que o monstro, ou seja lá o que fosse, acabaria por ir-se embora, para cima do telhado. Como dizia a canção que a mãe lhe cantava, outrora.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Outono #

Outono

Os dias estão mais curtos, e a luz despede-se, rasteira. A luz no outono é feita de longos dedos que, num instante derradeiro, nos afagam o rosto em brilhos de cores quentes que já não queimam, apenas deixam um rasto de folhas esquecidas, amarelas, castanhas, a lembrar os dias longos e a combustão verde e fresca da clorofila. A luz do outono é uma eterna partida, a alma parada na pedra fria da estação, os pés gelados assentes no duro inverno, as mãos feitas de luz e de adeus em gestos de folhas secas ao sabor de um vento apenas húmido. De noite o frio mergulha-nos nos ossos e em sonhos viajamos para lugares improváveis, que rapidamente esquecemos ao acordar na luz de uma nova manhã cheia de promessas. E então levantamo-nos da cama num gesto igual ao de tantos dias e sacudimos o pó dos sonhos que ainda se nos agarra aos cabelos. Um gesto inútil, porém: para o resto do dia ficará aquela sensação de estarmos ainda mergulhados no sono, e todos os gestos rotineiros destinados a ligar-nos à terra representarão um esforço inglório. Apesar dos pratos e dos talheres na mesa, e das horas a chamar por nós, e das bocas dos miúdos em gargalhadas redondas e daquela comichão na boca do estômago como um aviso, um alarme, um despertador, continuamos a dormir, como se a noite ainda não nos tivesse abandonado o fundo da retina e nos pesasse nas pálpebras com uma indolência de séculos. Apesar da luz, lá fora, se despedir com um leve roçar de dedos e os gritos dos pássaros, lá muito ao fundo, nos espalharem ecos dentro das salas amplas e iluminadas do ouvido interno.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Mudança da hora

Os dias escapam-se-me das mãos.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

O tempo e o rio

O tempo é como um rio. Um rio com muitas vozes. Eu estou no meio de todas as vozes. Sigo pelo rio, pelo tempo, atordoado, adormecido, derrotado. Fui naufragando pelo caminho, até todo o meu corpo mais não ser do que uma jangada à deriva. Um tronco à deriva. À minha volta, no rio, apenas as vozes são reais. As vozes que me cercam não pertencem a nenhum tempo; ou antes, pertencem a todos os tempos. Presente, passado e futuro. Eu só tenho passado. O presente esfumou-se e o futuro foi-me roubado. No meio das vozes fico surdo. A surdez não é a ausência de sons, mas antes uma sonoridade interna demasiada que nos impede de escutar os sons do mundo. Eu oiço vozes na minha cabeça que às vezes me impedem de ouvir o que se passa à minha volta. De outras vezes, essas vozes guiam-me. A minha cabeça é como um rio, também com muitas vozes.
A primeira vez que te vi, ainda gaiato na Casa Branca, a voz sussurrou-me: Olha para ela. Tu passavas com a tua mãe e ninguém se atrevia a olhar para vocês. Eu sabia disso, todas as crianças o sabiam. Como isso era possível, não sei; talvez todas as crianças se limitassem a imitar os adultos, como acontece desde que o mundo é mundo. Pois a voz disse-me: Olha para ela. Eu tive medo. Sabia que era proibido. Mas a curiosidade foi mais forte e olhei. E o que vi foram os teus olhos, límpidos, da cor da água, que reflectiam uma luz mais poderosa que o sol. Olhavas para todo o lado, como se bebesses o ar com essa luz e, pareceu-me, cada coisa deste mundo que o teu olhar abandonava resignava-se a uma existência subitamente sombria. Era como se os teus olhos emprestassem a luz ao mundo para depois a tomar de volta, semeando sombras em redor.
Foi assim que o mundo ficou depois de ires. Um lugar sombrio. Um deserto de sombras. Sem ti no mundo deixou de haver norte, ou sul; deixou de haver pontos cardeais. Deixou de haver longe ou perto, deixou de haver infinito. A única coisa infinita é o céu que se acende de estrelas todas as noites, o céu que eu perscruto, ansioso, à tua procura. Tenho a certeza que estás aí, no meio desses sóis longínquos, tu que eras uma criatura da luz.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

E uma boa estória

tem que ser muito mais (muito muito mais) do que apenas bem escrita. Tem que conseguir fazer-nos saltar para dentro dela. Tem que nos servir como um vestido que não queremos mais despir.

Não

afinal os bons livros não são aqueles que não conseguimos parar de ler, mas os que não queremos parar de ler.

Domingo, Outubro 18, 2009

Ainda derramando leite

Ler dá-me vontade de escrever. Quanto mais leio, mais tenho vontade. Geralmente, o que leio não chega aos pés do que escrevo*, mas não perco muito tempo com isso. Porque o que escrevo sai-me da alma e acaba, mal ou bem, por cumprir esse desígnio de me devolver um sentimento de fé.


(* Ah! Ah! Se eu fosse dada a teorias freudianas diria que me fugiu a boca para a verdade, e que no subconsciente sou mas é uma convencida e das grandes, mas eu juro que queria escrever o contrário - o que escrevo não chega aos pés do que leio - e só agora dei pelo erro!)

Acabei o Leite Derramada e ainda estou embrenhada em todas aquelas linhas que nos vão empurrando ao longo do livro, como se mãos invisíveis nos guiassem na visita a um velho casarão cheio de quartos, uns a seguir aos outros, sem ordem ou arrumação, alguns obscuros e perdidos nas sombras, outros cheios de janelas por onde a luz nos bate nos olhos e nos encandeia. Um livro é bom quando a gente começa a ler e não consegue parar, ou não quer parar, e ainda que pare, fiquemos ainda a viajar naquele mar de palavras enquanto fazemos outras coisas (ou fingimos fazer). Um livro é bom quando nos leva a constinuarmos a estória, em surdina, para dentro da nossa história. Esse livro passa-se dentro da cabeça de um velho moribundo, com a memória comida pelo Alzheimer, e acho que nunca li relato mais comovente e mais consistente com os restos de uma vida.
Também eu estou a escrever uma longa estória, toda ela passada dentro da cabeça dos personagens, e já me interroguei várias vezes se conseguirei a proeza de aguentar essa estrutura sem tornar aquilo num sucessivo desbravar de memórias maçudo e cansativo. É uma grande proeza, de facto, aguentar esse tom durante páginas e páginas sem tornar a leitura excessiva e cansativa. Proeza que tenho dúvidas de conseguir.

As pedras catedrais corações

Queria poder livrar-me das garras deste amor doentio. Aquele laço que amarra o mais fundo de mim à eterna ideia da derrota. Aquele temor daninho que me envenena as nascentes do ser. As possibilidades nascentes. Queria poder inventar um amor novo, sedutor de mim, que me levasse nas asas da paixão até lá, àquele lugar longínquo da ilusão. Lugar de espelhos, pedras, catedrais, rostos, sonhos, corações.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Baba até mais não

O miúdo passou nos testes e ficou entre os 180 melhores. O que quer dizer que, provavelmente, vai entrar para a escola que quer. :-)

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Se houvesse um humorómetro, estaríeis abaixo de zero, ó portugueses ofendidos

Mas alguém me explica porque é que está tudo em polvorosa por causa das patetices que a Maitê Proença disse num programa que ainda para mais já foi há dois anos? Para muitos portugueses dizer mal do país é uma espécie de compulsão, para outros muitos de religião, mas mais ninguém pode abrir a boca para dizer seja o que for, que fica logo tudo ofendidíssimo! Descontraiam o pélvis, como dizia o professor de dança ou qualquer coisa do género de um amigo meu. E, caso não saibam, pélvis é um músculo situado dois ou três dedos abaixo do umbigo. Enfureçam-se com outras coisas mais importantes, pá! Será que ninguém que não seja português pode mandar umas piadas sobre os portugueses? Até eu, se passasse ao pé daquela porta em Sintra pensaria, olha o otário com o número ao contrário... Ainda que muito boa gente se sinta ofendida com o vídeo, será que não têm mais que fazer do que andar a criar grupos no face book a pedir que a mulher lamba o chão dos jerónimos? Francamente, vão mas é trabalhar, que o país precisa de andar para a frente.

Domingo, Outubro 11, 2009

Boa MIETZ!!!

Estremoz elegeu um presidente da Câmara de um movimento independente. E entre os vereadores, um deles é o meu pai. Boa! :-)

Derramando leite

«É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.»

«Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta.»

Chico Buarque, Leite Derramado

Sábado, Outubro 10, 2009

Escolas e outras coisas

Continuamos a ver escolas, e, apesar de já estar um bocado farta de tantas andanças (percorremos a escola de uma ponta à outra) continuo pasmada com o que vejo. E digo outra vez, agora é que eu queria andar na escola. As pessoas hoje andam muito preocupadas com a violência nas escolas, mas está-me cá a parecer que acontece com este problema o mesmo que acontece com muitos outros: sempre houve, mas só agora é que se fala disso. E fala-se tanto que realmente dá a impressão que a coisa assume proporções gigantes. Ora eu, que nesta altura já visitei (quantas? Deixa-me cá pensar...) aí umas cinco ou seis escolas, ainda não vi uma única cena de violência. Podem-me dizer que o comportamento dos miúdos não será o mesmo com visitas na escola, pois a mim o que me espanta é precisamente que, durante estas visitas, em que bandos de pais e filhos e até bebés passeiam pelos corredores, à mistura com os estudantes enquanto estes mudam de sala, não aconteçam acidentes do tipo, miúdos a correr desvairados e a levarem tudo à frente. É que é mais ou menos esta a imagem que guardo da minha escola preparatória e depois secundária, do pessoal em correria desenfreada pelos corredores, empurrões, encontrões e coisas piores. Pois o que tenho visto são corredores cheios onde é difícil deslocarmo-nos, mas nada de encontrões nem de atropelos, tudo muito ordeiro, pedidos de desculpa e com licença, uma maravilha. E não pensem que tudo ordeiro quer dizer tudo em sentido como se estivessem na tropa; não senhor, há risos, conversas, barulho, movimento, enfim, vida.

Geralmente o que se ouve por aí é que no meu tempo é que era bom. Pois eu digo o contrário: no meu tempo era uma porcaria. Comigo, por exemplo, a escola falhou redondamente. No quê? Não, não foi a nível académico. Mas a escola é muito mais do que isso, do que transmissão de conhecimentos. A escola tem de preparar para a vida. No que é que falhou? Eu digo: não me ensinou a acreditar em mim nem nas minhas capacidades. Não me incutiu auto-estima nem confiança em mim mesma. Não me valorizou como pessoa nem como sujeito activo na minha própria aprendizagem. Desenvolveu muito pouco o espírito crítico e a auto-reflexão. Não me encorajou nem me apoiou nas minhas fraquezas. Não fomentou o espírito competitivo positivo. Não fomentou o sentimento de segurança nem de pertença. Em suma, e em termos pessoais e sociais, um verdadeiro falhanço.
Muita gente continua a achar que o que as crianças encontram em casa é muito mais importante do que o que encontram na escola. Só que as crianças crescem e deixam de ser crianças. É claro que a família é o alicerce mais importante de uma pessoa, mas a escola é talvez o segundo. Na adolescência é preciso sair de casa e ir ao encontro do mundo.
Não, o mundo não está cada vez pior. O mundo é um lugar cada vez melhor. As coisas mudam para melhor, sim.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Afinal

não houve guerra. Bastou dizer-lhe que estou preocupada porque o irmão não come, para entender e aceitar o facto. Está um crescido, o rapaz :)

Por cá

a Hanna Montana sempre teve voz de bagaço.


(coisas de que me lembrei das férias)

E

vai ser uma guerra, porque vão querer os dois packed lunch.

Vou ter de resistir com firmeza.
Senão o melhor é ir perguntar se por acaso não precisam de uma ajudante na cozinha.
Sempre me pagam alguma coisa.

...

O miúdo não come.

Ontem deitou a comida para o chão.
Vou ter de lhe mandar almoço de casa.
Merda.

Domingo, Outubro 04, 2009

E as mudanças

trazem outras mudanças. Sim, acredito.