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terça-feira, outubro 04, 2011
Mais poesia
Nunca gostei das coisas no lugar.
Da monotonia de quem não
cria.
Das palavras doces
de quem não grita.
Dos olhos incrédulos
de quem não chora.
Nunca gostei das coisas sempre iguais
dia após dia
nunca gostei desta máquina infernal
de sorrisos em série
palavras idiotas
mascaradas
de simpatia.
Nunca fui suave.
Nunca fui encantada.
Nunca fui beijada
por nenhum príncipe.
Sempre acordei de noite com o medo na boca.
Sempre me molhei na dor.
Sempre me cortei
nos pulsos
da vida.
quinta-feira, setembro 29, 2011
Poesia (5)
As palavras que dizes são mentirosas
Tão generosas, as palavras que calas
Aflitas, as palavras que gritas
Mudas, as palavras que ocultas
As palavras com que encantas são falsas esperanças
As palavras que murmuras são cristal
As palavras que não ousas, tímidas, envergonhadas
As palavras que resgatas, cúmplices, culpadas
As palavras que disparas são balas certeiras
Palavras verdadeiras
As palavras que incendeias são desespero
As palavras que choras são paixão
Palavras com que atas e desatas os nós furiosos da razão
Palavras com que auscultas o coração
Palavras com que corres fugindo de ti mesmo
Palavras com que mordes o medo
Nuas, as palavras com que morres
terça-feira, setembro 27, 2011
Poesia (3)
Como se o vento
E a chuva
Soubessem a sal.
Nasce-me o sol por entre os dedos
E dos lábios escorrega a malícia
Sumarenta
De uma uva.
Estico os braços
Na preguiça
Felina e dormente
Do meu ventre.
Solto os lírios dos cabelos
E novamente
A chuva enche os rios
Caudalosos
Dos meus medos.
E a chuva
Soubessem a sal.
Nasce-me o sol por entre os dedos
E dos lábios escorrega a malícia
Sumarenta
De uma uva.
Estico os braços
Na preguiça
Felina e dormente
Do meu ventre.
Solto os lírios dos cabelos
E novamente
A chuva enche os rios
Caudalosos
Dos meus medos.
segunda-feira, setembro 26, 2011
Poesia (2)

(imagem retirada da net)
Quando o silêncio chegar
eu serei apenas pássaro inquieto
eternamente no rasto do teu voo.
Quando a mudez tomar conta de mim
eu serei apenas um corpo quieto
esquecido das maré-cheias
do mar revolto nas veias.
Quando o gelo invadir a minha pele
eu serei apenas fumo branco
ao longe no horizonte
e adivinharás casas, pessoas, vida
adivinharás calor na planície árida e fria
adivinharás cinzas adivinharás morte
e guiarás os passos até ao norte
de mim
para me resgatares deste silêncio
sem rosto nem fim.
eu serei apenas pássaro inquieto
eternamente no rasto do teu voo.
Quando a mudez tomar conta de mim
eu serei apenas um corpo quieto
esquecido das maré-cheias
do mar revolto nas veias.
Quando o gelo invadir a minha pele
eu serei apenas fumo branco
ao longe no horizonte
e adivinharás casas, pessoas, vida
adivinharás calor na planície árida e fria
adivinharás cinzas adivinharás morte
e guiarás os passos até ao norte
de mim
para me resgatares deste silêncio
sem rosto nem fim.
domingo, setembro 25, 2011
Poesia do outro lado da lua
Quando eu gritar
lembra-te de secar as fontes
da minha voz
para que a água estanque
e a corrente
inverta o seu sentido
líquido
e retorne ao mar
de onde nasceu.
Quando eu gritar
lembra-te de inventar as palavras
sem sentido
as gargalhadas sem motivo
os dedos brancos com que desfio
a razão.
Não te esqueças dos pássaros. Nem da luz.
Não se faz amor de corpo vazio.
Quando eu gritar
estende apenas no chão
o braço partido
do eco da minha voz
até ao infinito.
sábado, julho 23, 2011
tudo por amor
para não perder o teu amor
tive que esquecer quem sou
tive que matar o que ficou
de lucidez
tive que morrer
uma e outra vez
só para não perder o teu amor
só para te ter de volta
os teus olhos que me davam
a vida e abraçavam
os dias de luz
tive que escolher
ou era eu ou eras tu
a dor que sentia
jamais estancaria
e então escolhi
porque sem ti
não era nada
sem ti não existia
sem ti não havia mundo
nem luz nem dia
não havia braços nem mãos
nem pássaros nem chão
sem ti era o vazio
e a dor enorme
da destruição
eu precisava da tua boca
para respirar
dos teus braços
para me erguer
das tuas pernas
para caminhar
do teu coração
para poder esquecer
esquecer tudo
o que era via ouvia sentia
esquecer a dor
a fronha enxovalhada
os lençóis brancos
da cama molhada
esquecer a alma
o corpo partido
as planícies desertas e náufragas
boiando à deriva
e como posso eu amar-te agora
se já não tenho coração?
como posso pensar
se perdi a razão?
como posso ser depois de esquecer?
como posso te amar
sem antes te odiar
por me teres deixado morrer?
tive que esquecer quem sou
tive que matar o que ficou
de lucidez
tive que morrer
uma e outra vez
só para não perder o teu amor
só para te ter de volta
os teus olhos que me davam
a vida e abraçavam
os dias de luz
tive que escolher
ou era eu ou eras tu
a dor que sentia
jamais estancaria
e então escolhi
porque sem ti
não era nada
sem ti não existia
sem ti não havia mundo
nem luz nem dia
não havia braços nem mãos
nem pássaros nem chão
sem ti era o vazio
e a dor enorme
da destruição
eu precisava da tua boca
para respirar
dos teus braços
para me erguer
das tuas pernas
para caminhar
do teu coração
para poder esquecer
esquecer tudo
o que era via ouvia sentia
esquecer a dor
a fronha enxovalhada
os lençóis brancos
da cama molhada
esquecer a alma
o corpo partido
as planícies desertas e náufragas
boiando à deriva
e como posso eu amar-te agora
se já não tenho coração?
como posso pensar
se perdi a razão?
como posso ser depois de esquecer?
como posso te amar
sem antes te odiar
por me teres deixado morrer?
quarta-feira, junho 01, 2011
"Pirata"
"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo."
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo."
Sophia de Mello Breyner Andresen
terça-feira, setembro 14, 2010
Tempo de sobra
Sobra-me o tempo, e não sei que fazer dele.
Sobram-me os dias, as horas, o entendimento.
Sobra-me a tarde, a escorregar de mansinho para a noite.
Sobram-me os sonhos.
Sobra-me a linha nos novelos.
Sobra-me a linha nos novelos.
Sobra-me o tempo, e não sei onde encontrá-lo.
Sobram-me horas intactas nos bolsos, e no entanto
Procuro-as convencida de que as deixei algures
Esquecida.
Sobra-me a memória.
Sobra-me a história.
Sobra-me a vida.
Sobra-me a vida.
Sobram-me as palavras, e não encontro as que procuro.
Sobram-me os significados, e nada entendo do que vejo.
Sobram-me os dedos, em complicados preceitos.
Sobram-me os dedos, em complicados preceitos.
Sobra-me o olhar.
Sobra-me o esquecimento.
Sobra-me a dor, que não cabe no peito.
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