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terça-feira, outubro 04, 2011
quinta-feira, maio 12, 2011
Desejo maior
Pronto, eu rendo-me, crédula e demente, à tua existência; se quiseres até vou em peregrinação, não a Fátima, mas ali ao alto da colina do parque, que é um lugar onde, de certeza, escolherias para tua morada, ainda que transitória ou parcial, uma vez que tens de te distribuir pelo mundo fora. Posso aprender a rezar, se for caso disso, e também acender uma velinha; até penitenciar-me, desde que não implique flagelações corporais, que para isso não tenho estômago; um mês sem comer chocolate, que te parece? Não faças essa cara, que não há pecado maior que a gula, não é assim? Mas vá, chega de conversa; o que eu quero dizer é que este, este é que não pode passar. Vá lá.
quarta-feira, maio 11, 2011
Veias cavas
Também, não sei o que me deu para me pôr agora a falar contigo. Faço-me essa pergunta e encolho os ombros de seguida, porque a verdade é que estou um bocado farta desta minha necessidade quase doentia de explicar tudo. O que também não deixa de ser verdade é que o cepticismo, aquele de que falava mais abaixo, há muito que me abandonou. Há muito que abdiquei da racionalidade, a mesma de que tanto me orgulhava aos dezasseis anos, e há muito, também, que deixei de acreditar apenas naquilo que vejo. Por vezes, aliás, encontro muito mais verdade no que apenas pressinto, ou intuo; ou naquilo que desconheço. O desconhecido fascina-me, apesar de ainda me assustar; e o que me fascina mais é o facto de saber que nunca vou conhecer tudo. Acreditar em ti, porém, ainda não. A pergunta, então, ganha renovada (im)pertinência: o que é que me deu para me pôr a falar contigo, se nem sequer acredito que estejas aí? A maluqueira chegou tão longe? O meu lado irónico segreda-me ao ouvido que isto é tudo uma invenção, uma brincadeira, um pretexto para escrever; afinal não passas de mais um personagem criado por mim. Pois, deus sou eu, então não percebeste logo? Mas depois há aquele significado oculto que nasce de tudo aquilo que fazemos e pensamos, quase sem darmos conta; algo que trespassa a nossa vontade e a realidade à nossa volta. Não, deixa-te de lérias, diz-me o meu outro lado, o mais clarividente; aquele que não precisa de olhos para ver; tu estás mesmo a falar com deus. Ou, pelo menos, com aquilo que imaginas possa ser igualado a deus. É difícil perceber o que significará este conceito para uma pessoa que afirma não crer em deus, mas ele existe. O conceito. E não é apenas ideológico, é também um espaço emocional. Um espaço que o descrente sabe à partida não ter acesso. Pois eu, ou uma parte de mim, há muito que abri essa porta. Não a porta para deus, mas para outras realidades, outras vivências, outros universos.
Mas para quê, então? A pergunta persiste. E porquê agora? Será mesmo só uma brincadeira, uma forma espirituosa de arranjar assunto? Ou estarei mesmo à procura de algo? Um sinal? Um milagre? Não, claro que não, responde o meu lado irónico, com um sorriso displicente. E depois ri-se. O meu lado fútil, aquele que detestava na adolescência e com quem me reconciliei por aí, pelas esquinas, pelos túneis das veias cavas que me indicaram o caminho para o coração, diz-me que se calhar estou mas é na crise da meia idade. Mas espera, não, isto não é um rótulo; estás naquela fase de olhar para trás, para a frente, avaliar o caminho, medir as distâncias, percorridas e por percorrer, imaginar os atalhos que poderiam ter sido desbravados, pesar a bagagem e deitar fora o supérfluo, que as costas já não são as mesmas de há vinte anos, e lá num recanto escondido da mente, continuar a sonhar com o mar. Não fosse o meu lado supérfluo a falar. Apesar de termos feito as pazes, às vezes ainda me dá ganas de lhe deitar as mãos ao pescoço. E agora fala o meu lado rebelde, aquele que domei com esmero na adolescência: eu quero lá saber de fases. Eu não vivo por fases. Crise da meia idade? Não sei o que é, assim como nunca cheguei a perceber o que é a crise da adolescência. Tenho por elas o mesmo desprezo que os portugueses têm pelos políticos quando os ouvem falar da crise, seja ela local, global, lojística, financeira, ou o raio que o parta. Crises são as guerras, a fome de populações inteiras, os cataclismos, as catástrofes naturais: tornados, tsunamis, terramotos, avalanches, derrocadas. Crises que nos obrigam a sobreviver sem olhar a meios. O subsequente chama-se stress pós traumático e acompanha-nos para o resto da vida. Mas disso, meu deus, deve tu estar farto de saber, que tens olhos e ouvidos por toda a parte.
Mas para quê, então? A pergunta persiste. E porquê agora? Será mesmo só uma brincadeira, uma forma espirituosa de arranjar assunto? Ou estarei mesmo à procura de algo? Um sinal? Um milagre? Não, claro que não, responde o meu lado irónico, com um sorriso displicente. E depois ri-se. O meu lado fútil, aquele que detestava na adolescência e com quem me reconciliei por aí, pelas esquinas, pelos túneis das veias cavas que me indicaram o caminho para o coração, diz-me que se calhar estou mas é na crise da meia idade. Mas espera, não, isto não é um rótulo; estás naquela fase de olhar para trás, para a frente, avaliar o caminho, medir as distâncias, percorridas e por percorrer, imaginar os atalhos que poderiam ter sido desbravados, pesar a bagagem e deitar fora o supérfluo, que as costas já não são as mesmas de há vinte anos, e lá num recanto escondido da mente, continuar a sonhar com o mar. Não fosse o meu lado supérfluo a falar. Apesar de termos feito as pazes, às vezes ainda me dá ganas de lhe deitar as mãos ao pescoço. E agora fala o meu lado rebelde, aquele que domei com esmero na adolescência: eu quero lá saber de fases. Eu não vivo por fases. Crise da meia idade? Não sei o que é, assim como nunca cheguei a perceber o que é a crise da adolescência. Tenho por elas o mesmo desprezo que os portugueses têm pelos políticos quando os ouvem falar da crise, seja ela local, global, lojística, financeira, ou o raio que o parta. Crises são as guerras, a fome de populações inteiras, os cataclismos, as catástrofes naturais: tornados, tsunamis, terramotos, avalanches, derrocadas. Crises que nos obrigam a sobreviver sem olhar a meios. O subsequente chama-se stress pós traumático e acompanha-nos para o resto da vida. Mas disso, meu deus, deve tu estar farto de saber, que tens olhos e ouvidos por toda a parte.
terça-feira, maio 10, 2011
Agora que comecei tomei-lhe o gosto
Se calhar devia deixar cair as palavras, uma a uma, como pedras num charco, e ficar a ver os círculos na água abrindo-se até ao infinito. Se calhar devia deixar nascer na garganta a vontade de cantar ou gritar até ficar rouca. Um grito animal que devorasse o fogo que me corrói a garganta de cada vez que me calo. Sim, tenho a garanta permanentemente inflamada por causa daquilo que não me atrevo a dizer. Tu deves ser um ouvinte paciente. Daqueles que não interrompem, não bocejam, não piscam os olhos nem olham para o relógio. Daqueles que nem sequer dizem nada, que parecem olhar para dentro de si mesmos, ou para as nuvens, ou para ontem. De tal forma que a gente chega a duvidar se nos estão mesmo a ouvir, ou se adormeceram de tédio. Talvez o melhor ouvinte seja esse, o que apenas finge que não ouve, enquanto se apresenta distraído para não nos coibir ou despertar a timidez latente que todas as confissões embargam. Quem sabe só na penumbra, ou acreditando que não temos testemunhas, ousemos enfim erguer a voz. Não a voz que nasce da vibração das cordas vocais, mas aquela que nos vem cá do fundo, do ventre, do plexo solar, fonte da energia que nos alimenta a corporalidade. Essa voz eu desconheço. Talvez tu ma possas dar a conhecer. Não sei. Quero crer que as pessoas se dirigem a ti muitas vezes em desespero de causa, quando à sua volta não encontram de facto aqueles ouvidos de que precisam. Alguém que saiba escutar. Consegues dizer assim de repente o nome de alguém que o saiba? Pensa bem... Escutar exige silêncio. Muito pouca gente sabe estar em silêncio. E depois há outra coisa, é que quem escuta verdadeiramente não faz perguntas, deixa o outro falar. deixa o outro fazer as perguntas e responder-lhes, ou não; ou simplesmente calar-se. Escuta-lhe o silêncio e isso basta. Escuta-lhe o silêncio como se o bebesse, e assim incorpora-o no seu próprio silêncio. E de seguida devolve-lho, o seu silêncio, fruto da comunhão dos dois. É isso que representas, sim. Um par de ouvidos do tamanho do maior continente mundial. As igrejas deviam ter pintados nas paredes altas e nos tectos ouvidos alados, em vez de anjos. E nos vitrais deviam brilhar puríssimos ouvidos celestiais. As batidas do tambor deviam substituir a melodia aquosa do órgão, nas missas; o caracol devia ser considerado um animal divino, e o tímpano, essa delicada membrana, devia ser preservado de ruídos exacerbados que atentassem contra a sua pureza virginal... Estás a sorrir. Consigo ver-te sorrir, apesar de tentares, a todo o custo, disfarçar. Como aqueles pais que se esforçam por não rir quando os filhos praguejam. Confessa que achas piada às minhas blasfémias. E depois, acertei, não foi? Eu, que não sei rezar, acabei de te dar o retrato da verdadeira oração. Ou deveria dizer, da essência da oração. É que não há uma verdade, nesta matéria, como em tantas; ou pelo menos, apenas uma verdade. O que há é uma essência, que se preenche com o significado que cada um lhe atribui. Cada um procura o seu silêncio, ou o seu ruído, ou simplesmente o seu estar. Sem silêncio nem ruído. E claro que as palavras são escusadas. O que interessa é o que elas dizem. Ou acendem, iluminam, ateiam, transportam, afluem. Confessa, vá. Para uma descrente até que saí melhor que a encomenda.
segunda-feira, maio 09, 2011
Oração subordinada
Talvez afinal não seja tarde para aprender a falar contigo. A verdade é que não sei dirigir-me a ti pelos métodos convencionais. Nunca rezei um terço, nem uma ave maria, nem sequer um pai nosso. Lembro-me de ter entrado em muitas igrejas, ao longo de todo o país, principalmente em visitas a cidades e terreolas por onde passávamos nas férias; contudo, nunca para ir à missa. A única missa a que assisti foi numa queima das fitas da universidade sénior, quando uma das inúmeras primas mais velhas terminou uma licenciatura qualquer, teria eu para aí uns dezoito ou dezanove anos. Gostei do ambiente festivo, das vozes do coro e da música do órgão. Antes disso vi muitas vezes pessoas em oração contida, ajoelhadas ou sentadas, murmurando ladainhas ininteligíveis enquanto as mãos se afadigavam com as contas do terço, e nunca fiz a mais pequena ideia do que te diriam elas em tais sussurros silenciosos. Pode dizer-se que sou uma completa ignorante no assunto. Não espanta, portanto, que me sinta constrangida. Tenho, para além disso, um passado pragmático de cepticismo científico que nunca me permitiu entender nem conceber a tua existência, pelo que me encontro numa posição deveras patética se atendermos às certezas absolutas que, já na infância, me assaltavam e me faziam crer no total absurdo que era alguém acreditar em ti, e, por suposto, falar-te. Por conseguinte, aqui me encontro, a fazer esta triste figura de não saber por onde começar, nem o que dizer, muito menos que raio me deu para sequer me passar pela cabeça a tentativa de encetar uma conversa contigo. Ainda para mais está visto que não perdi a arrogância que o tal cepticismo me deixou de herança; se estás a ouvir-me estás também absolutamente convicto da minha condição extrema de pecadora, uma vez que, e isto em abono da verdade deve-se apenas à minha franca ignorância sobre os correctos modos de me dirigir à tua virtuosa divindade, insisto em tratar-te por tu e em transformar um momento solene e de profundíssimo significado como é a oração, numa conversa de tu cá tu lá. Mas se és tão generoso como dizem os que em ti crêem, e se tudo perdoas e amas igualmente todos os teus filhos e filhas, como apregoa com quem contigo partilha intimidades divinas e com todos os modos a preceito (perdão, talvez intimidades não seja a palavra adequada, talvez espiritualidades venha mais a calhar); se de facto todos os pecadores têm um lugar no teu coração, com certeza perdoarás também a minha falta de jeito, e como és a inteligência suprema, saberás ler nas minhas pobres palavras, sem nobreza nenhuma, o significado que elas guardam, este sim o fulcro da questão, e não os adornos nem os malabarismos que a riqueza do vocabulário apropriado tantas vezes mascara, sem contudo dar qualquer riqueza intrínseca ao que se diz. E com tanta explicação já me perdi, já nem sei bem o que te queria dizer. Se calhar devia era deixar-me de explicações e justificações e apenas procurar dizer o que quero, sem pretenções, mas também sem medo de ofender a tua condição superior e absoluta. É isto que mais me faz confusão, sabes, quando vejo tanta gente prestar-te adoração, curvar-se perante ti, idolatrar e venerar as tuas qualidades sublimes e gloriosas, e vejo apenas um rebanho de ovelhinhas assustadas, a confessar os respectivos pecados e a cumprir a penitência com a resignação e o alívio de quem teme a qualquer momento o trágico castigo divino. Que as pessoas te amem e te venerem em festa, e que assim se elevem à tua graça e se sintam parte de algo maior e imbuídas de uma força divina que as faz ter esperança e fé e mover montanhas se for caso disso, não me faz confusão nenhuma, antes pelo contrário; chego a invejar tal estado de espírito. Mas que as pessoas te temam e se refugiem no medo para assim se martirizarem e prolongarem uma existêcia mesquinha, onde a falsidade e a hipocrisia imperam, onde a maldade germina e o terror é a arma que arremessamos aos olhos dos que connosco não comungam, isso nunca vou entender, e, tenho a certeza, se realmente estás aí, também não entenderás e nem sequer aceitarás, já que tudo vês e em todo o lado estás. Mas olha, também não era bem isto que te queria dizer, e agora já me passou. Desculpa, deve ser da hora. Se sabes ler nas entrelinhas, tudo isto faz sentido; se não sabes, fica para a próxima. Também não sei como me devo dirigir a ti nas despedidas, por isso fico-me pelo modo terno e informal com que a minha avó me desejava, antes de dormir, uma noite descansada. Apesar de não ter a certeza se aí, no teu poleiro, também há dias e noites; ou se, pelo contrário, é sempre dia, ou antes uma noite eterna. Sem dia não há noite e sem noite não há dia, assim como sem luz não há escuridão e vice versa. Para ti tanto faz, já que tudo vês e em toda a parte estás; portanto não será dia nem noite, nem luz nem escuridão, nem vida nem morte, já que tudo é nada quando nada é tudo o que não podemos ver.
sexta-feira, abril 29, 2011
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