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domingo, novembro 03, 2013
Leituras
Que Importa a Fúria do Mar
Ana Margarida de Carvalho
Este livro não se devora; e não se devora porque precisa de ser digerido com vagar, com tempo para saborear e ruminar; com tempo para parar e voltar atrás e ler de novo, seja porque a beleza da descrição nos faz querer beber lentamente e ao minuto cada palavra, ou porque a acidez de algumas passagens nos arde na boca do estômago, ou talvez ainda porque as lágrimas nos inundam os olhos de pura comoção e a vista se nos turva. É um livro que não se lê; sente-se. Ouve-se. Cheira-se. Entranha-se. E quando damos por nós estamos lá dentro. No meio do campo, a ouvir os sons da bicharada; aos solavancos no comboio, ao lado de Joaquim, naquela viagem infernal a caminho da incerteza; no olhar entediado de Eugénia, contando as moscas, procurando evadir-se, sem nunca repousar, sempre ausente e perdido entre os seus abismos e o mundo, o passado e as memórias; e depois, finalmente, apaixonado, deslumbrado, amedrontado, extasiado, tudo ao mesmo tempo, que quando dá por ela e já não consegue domar nem dominar os sentimentos que lhe brotam ao desbarato dos poros. Na frigideira no Tarrafal, em morte lenta, abafada, asfixiada; no mar lodoso de algas moribundas até à cintura, e no alívio das feridas ardendo na água salgada; na fúria do mar que amaldiçoa quem o ousa abandonar com o cheiro putrefacto das coisas mortas. Este livro tem vida e apodera-se de nós e quando damos por isso já não há nada a fazer, recusamos acordar do sonho e ficamos parados naquele segundo eterno em que os olhos se perdem no azul do mar, lá ao fundo, ao virar da última página; e é na nossa cara que o vento bate de chofre, no embalo da corrida até à última palavra, mar, numa promessa de eternidade.
segunda-feira, abril 22, 2013
Amigo
Há muitos anos atrás, morria-lhe um amigo, e a vida nunca mais foi a mesma. Um amigo daqueles que, se hoje estivesse vivo e ainda que não se vissem há anos, a conheceria por inteiro. Amigos desses são raros, mas existem: sabem quem somos, conhecem-nos por dentro e por fora, não precisam de justificações nem de pedidos de desculpa, e estão sempre connosco, ainda que a última vez que nos tenhamos visto tenha sido há mais de 20 anos. Amigos desses não morrem. Nunca os deixaremos morrer.
sábado, abril 24, 2010
Um blog serve mesmo para isto
Uma amiga que já não vejo há bué (o quê, 20 anos?) e que me descobriu através do blogue. Desde aí, temos trocado emails, muitas palavras, muitas emoções. Ela entrou sem pedir licença, sentou-se, leu, gostou, disse-me isso mesmo, com as palavras exatas (nem sempre é assim, mas às vezes as palavras são mesmo necessárias) e juntou o seu quadradinho ali nos seguidores. Sem cerimónias. Eu, que comecei este blogue especialmente para os meus amigos, e que da maior parte deles, as mais das vezes, nem oiço a respiração, fiquei sem palavras. E muito feliz. Se calhar é tudo uma parvoíce, pois é. Quando se está longe dá-se importância a estas parvoíces.
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Sonhos
A minha amiga tinha-me dito para não me preocupar, porque ela sonhara que eu ia viver nesta casa. "Um dia acordei depois de um sonho em que te via a viver aqui, e desde aí soube que isso ia acontecer." Contou-me também que costuma ter estes sonhos, às vezes. São sonhos diferentes dos outros porque os acontecimentos surgem muito reais, e não com aquela névoa própria dos sonhos. Sonhou com a morte do sogro antes de acontecer. Viu o caixão descer à terra e contou-me que, depois, quando estava no funeral, era igualzinho. Sonhou com os filhos muitos anos antes de eles nascerem: namorava com um amigo do actual marido, e um dia teve um sonho em que estava casada com ele e tinha duas crianças, um menino e uma menina, com os nomes e as caras dos filhos. No outro dia contou o sonho ao namorado e riram-se muito. Daí a uns anos casou mesmo com o tal amigo dele, e teve as mesmíssimas crianças com que sonhou. Bom, depois disto, fica difícil não confiar nos sonhos dela.
terça-feira, novembro 17, 2009
Eu educo, tu educas, ele educa...
Não compreendo os pais que não se preocupam em (ou não querem, ou não se importam com isso) educar os filhos. E por educar entendo coisas simples. Como, por exemplo, entrar em casa e limpar os pés. Ir depois à casa-de-banho e lavar as mãos. Comer sentados à mesa, e não a passearem-se pela casa. Em relação a este tópico a coisa às vezes é gritante: mãos e bocas cheias de comida a esfegarem-se nos sofás, nas paredes, nas camas, em todo o lado. Obedecer quando se lhes diz que não podem comer fora da mesa. Não nos bombardearem com pedidos (posso jogar no computador? Posso jogar na x-box? Posso ver um filme?) enquanto estamos a tratar do jantar e não responderem que estão aborrecidos por estar à espera. Em vez disso, e já agora, dar-nos uma mãozinha é que era. Não saltarem com os pés para cima dos sofás nem das camas.
Eu sou uma chata e estou sempre a repetir que se sentem bem à mesa, que não podem comer no sofá, que tenham modos, o diabo a quatro. Mas ao menos sei que, em casa de outras pessoas, eles se vão portar como deve ser. Já o mesmo não posso dizer dos miúdos que me caem aqui de para-quedas. Por mais que isso me custe...
sexta-feira, setembro 18, 2009
Coisas
Hoje pedi à minha amiga eslovaca que me levasse os miúdos para a escola.
Mora na mesma rua que eu, a minha amiga, lá no cimo. E eu fiquei à porta a vê-los subir a rua, fechada no casaco e com o capuz a cobrir-me a cabeça e as orelhas, e mesmo assim a sentir o frio nas mãos e nos pés, dentro das pantufas e sem meias.
O peso na cabeça não me deixava pensar com clareza, e os olhos doridos da luz da manhã traziam-me lacrimejos presos às pestanas. Fiquei ali a vê-los subir a rua, duas figurinhas cada vez mais pequeninas, até já só serem do tamanho do meu dedo polegar, a sentir o cérebro latejar.
Enquanto isso, pensamentos sinistros invadiam-me a consciência sem eu querer. Assim uma espécie de alarme que subitamente me despertasse de um sono de séculos, alertando-me para perigos inconcebíveis. Daqueles que nem nas trevas nos atrevemos a confessar.
Fiquei a vê-los subir a rua, aos cinco, a minha amiga e os dois filhos, mais os meus rapazinhos. Fiquei a vê-los como num sonho que tive há pouco tempo, em que acontecia isso mesmo - pela primeira vez, entregava os meus filhos a alguém para que os levasse à escola.
Ora acontece que isso mesmo - entregar os meus filhos a alguém, nem que seja apenas por minutos, emprestar-lhe as mãos e os olhos vigilantes e atentos a tudo à sua volta - é uma verdadeira prova de fogo. Daquelas em que se tem mesmo de engolir fogo, como no circo - ou antes, nem como no circo, porque no circo é tudo fingimento. Mas pronto. Ela, a minha amiga, passou na prova, com distinção e tudo.
(isto é como levar uma injecção, quando damos por ela, já passou.)
domingo, setembro 06, 2009
Sonhos
Outro dia sonhei com a Lelena. Já não me lembro do que era o sonho, mas lembro da cara dela. Era a mesma das fotos que ela colocou lá no blogue. E de repente aquelas palavras todas que tanto me encantam e espantam tinham um rosto. Embora eu soubesse que sim, havia um rosto por detrás delas, era aquele rosto que cabe no espaço que a imaginação trata de esconder. A imaginação tem muito pouco de visual, apesar de a gente não se aperceber disso. A gente imagina sempre tudo, menos o retrato nu e cru da coisa.
Esse sonho fez-me lembrar do outro que tive com a Alex, já há um tempo atrás. Sonhei que a gente afinal morava no mesmo prédio, e nem sonhávamos que estávamos ali, uma ao lado da outra. Essa ideia depois ficou a morar em mim por algum tempo, e acabei escrevendo um conto sobre ela. Sobre esta proximidade de nos pensarmos ausentes e nos ausentarmos, por vezes, até de nós, sem sabermos que afinal moramos mesmo ali ao lado. O conto já tem barbas. Ainda deve estar no outro lado da lua, chama-se era uma vez na blogosfera. Mas podia ser noutro lado qualquer.
domingo, junho 14, 2009
E depois do silêncio, a festa das palavras
(porque um blog também serve para isto, e eu já não me lembrava)
Amiga Lelena, adorei tuas palavras e resolvi pegá-las e trazê-las comigo.
Aqui estão elas, junto com as minhas, mais em baixo:
PEQUENO TRATADO SOBRE PESSOA E PALAVRA
Tem pessoa
que encanta palavra
Tem pessoa que usa palavra em vão
Tem palavra que usa pessoa
Tem pessoa que usa palavra
Tem pessoa que não tem palavra
Tem pessoa que entorta palavra
Tem pessoa que planta palavra no chão
Tem pessoa que planta palavra na cara
de outra pessoa
que fica sem palavra
Tem palavra que eleva pessoa
que cura pessoa
que anula pessoa
Tem pessoa que leva palavra pra casa
Tem pessoa que domina palavra
Tem palavra que domina pessoa
Tem palavra que diz palavra
Tem palavra que diz pessoa
Tem pessoa que diz pessoa
Tem pessoa que diz palavra
Tem palavra que é gesto de pessoa
Tem pessoa que não vê palavra
Tem pessoa que não ouve palavra
Tem pessoa que enfeitiça palavra
Tem palavra que é qualquer coisa
que queira a pessoa
Tem pessoa que é qualquer coisa
que queira a palavra
Tem palavra que escapole de pessoa
(parece ter vida própria essa palavra)
Tem pessoa que escapole de palavra
(parece ter vida própria essa pessoa)
Tem pessoa que fica doendo depois de palavra
Pessoa vem antes de palavra
Tem palavra que fica
depois de pessoa
Tem pessoa que fica
além de palavra
Tem pessoa
e tem palavra
(por Lelena Lucas em www.lelenalucas.blogspot.com)
E agora as minhas Palavras Nuas:
As palavras que dizes são mentirosas
Tão generosas, as palavras que calas
Aflitas, as palavras que gritas
Mudas, as palavras que ocultas
As palavras que encantas são falsas esperanças
As palavras que murmuras são cristal
As palavras que não ousas, tímidas, envergonhadas
As palavras que resgatas, cúmplices, culpadas
As palavras que disparas são balas certeiras
Palavras verdadeiras
As palavras que incendeias são desespero
As palavras que choras são paixão
Palavras com que atas e desatas os nós furiosos da razão
Palavras com que auscultas o coração
Palavras com que corres fugindo de ti mesmo
Palavras com que mordes o medo
Nuas, as palavras com que morres
(primeiro publicado em O Outro Lado da Lua)
Acho que casam bem, as tuas e as minhas
Obrigada, amiga.
Amiga Lelena, adorei tuas palavras e resolvi pegá-las e trazê-las comigo.
Aqui estão elas, junto com as minhas, mais em baixo:
PEQUENO TRATADO SOBRE PESSOA E PALAVRA
Tem pessoa
que encanta palavra
Tem pessoa que usa palavra em vão
Tem palavra que usa pessoa
Tem pessoa que usa palavra
Tem pessoa que não tem palavra
Tem pessoa que entorta palavra
Tem pessoa que planta palavra no chão
Tem pessoa que planta palavra na cara
de outra pessoa
que fica sem palavra
Tem palavra que eleva pessoa
que cura pessoa
que anula pessoa
Tem pessoa que leva palavra pra casa
Tem pessoa que domina palavra
Tem palavra que domina pessoa
Tem palavra que diz palavra
Tem palavra que diz pessoa
Tem pessoa que diz pessoa
Tem pessoa que diz palavra
Tem palavra que é gesto de pessoa
Tem pessoa que não vê palavra
Tem pessoa que não ouve palavra
Tem pessoa que enfeitiça palavra
Tem palavra que é qualquer coisa
que queira a pessoa
Tem pessoa que é qualquer coisa
que queira a palavra
Tem palavra que escapole de pessoa
(parece ter vida própria essa palavra)
Tem pessoa que escapole de palavra
(parece ter vida própria essa pessoa)
Tem pessoa que fica doendo depois de palavra
Pessoa vem antes de palavra
Tem palavra que fica
depois de pessoa
Tem pessoa que fica
além de palavra
Tem pessoa
e tem palavra
(por Lelena Lucas em www.lelenalucas.blogspot.com)
E agora as minhas Palavras Nuas:
As palavras que dizes são mentirosas
Tão generosas, as palavras que calas
Aflitas, as palavras que gritas
Mudas, as palavras que ocultas
As palavras que encantas são falsas esperanças
As palavras que murmuras são cristal
As palavras que não ousas, tímidas, envergonhadas
As palavras que resgatas, cúmplices, culpadas
As palavras que disparas são balas certeiras
Palavras verdadeiras
As palavras que incendeias são desespero
As palavras que choras são paixão
Palavras com que atas e desatas os nós furiosos da razão
Palavras com que auscultas o coração
Palavras com que corres fugindo de ti mesmo
Palavras com que mordes o medo
Nuas, as palavras com que morres
(primeiro publicado em O Outro Lado da Lua)
Acho que casam bem, as tuas e as minhas
Obrigada, amiga.
quinta-feira, março 26, 2009
Filmes

Ando a fazer pesquisa sobre o 25 de Abril e deparei com o filme Os Capitães de Abril no youtube. Não fazia a mínima ideia que era possível visualizar o filme na íntegra, apesar de ser às prestações. Como não cheguei a vê-lo nem no cinema nem na TV, caiu que nem ginjas. Parti o coco a rir com os gajos a despirem-se no carro e a desatinarem com os gays do lado de fora do carro, com a revolução a parar no sinal vermelho e outras cenas hilariantes. Há momentos grandiosos, como quando as tropas do regime se juntam a Salgueiro Maia. E toda aquela confusão nas ruas, aquilo deve ter sido mesmo assim. Não acho que o filme esteja um espectáculo, mas gostei.
Mas o melhor de tudo foi ouvir a voz do Carraca na boca do Tenente Lobão. Também aparece lá no bar do RCP mas meio desfocado, nem dá para ver que é ele. É uma pena não o terem posto a desempenhar o papel na íntegra; um lamentável erro de casting, na minha opinião. É bem mais giro que o outro.
Um beijo para ti, ó Pedro :-)
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Pastéis de belém
Hoje, depois de nadar, fui até ao bar. Bebi um chá de framboesa morno e comi um pastel de nata. Eu não consigo beber chá quente, e geralmente as pessoas olham-me com surpresa quando lhes peço que ponham metade de água quente e metade de água fria na chávena. Quanto aos pastéis de nata, são fresquinhos e saborosos. Também vendem croissants e bolas de berlim. Lembrava-me vagamente da história que o homem atrás do balcão me contara há um tempo atrás, do empregado português que lhe ensinara a fazer aqueles bolos. Mas não tinha bem a certeza, por isso resolvi perguntar-lhe outra vez. Ele respondeu-me que os encomenda a uma confeitaria local. Fiquei desapontada. Provavelmente imaginei aquele enredo, mas ao menos era bem mais interessante. Provavelmente, também, é por causa disso - da minha imaginação - que a minha memória não é lá muito boa para guardar as histórias que oiço. Se calhar até nem as chego a ouvir de facto - invento-as. Sentei-me a uma das mesas a beberricar o chá e a comer o pastel de nata coberto com canela. Para dizer a verdade, nunca fui grande apreciadora de pastéis de nata. Mas estes sabem bem, e trazem-me memórias à boca. Talvez seja esse o sabor que procuro, o das memórias. Honra seja feita, porém, aos pastéis de belém. Os melhores pastéis de lisboa, portugal, mundo e arredores, costumava dizer o meu amigo Rui Parente. Ou talvez não fosse bem isso que ele dizia, e eu esteja agora a inventar - a recordar - as suas palavras. Íamos muitas vezes aos pastéis de belém. Sentávamo-nos sempre à mesma mesa - a que fica junto da porta, naquele corredor paralelo ao átrio principal. Aquela era a mesa dele. Desde criança que se sentava àquela mesa, quando lá ia com o pai e a irmã. Depois contava uma história qualquer acerca dos azulejos gastos e azuis das paredes, de que já não me lembro. Desta não me lembro mesmo, de maneira que não consigo reinventá-la. Os olhos dele também eram azuis. Porém, não guardavam nenhuma frieza, como a maioria dos olhos azuis que conheço. Neles não se reflectia o céu, mas o mar. Eu invejava-lhe a calma e a tranquilidade aparentes. Invejava, sobretudo, a sua capacidade de ficar em silêncio sem constrangimentos. Era capaz de ficar uma tarde inteira sem abrir a boca, se não estivesse para aí virado. Não falava para fazer conversa, ou para quebrar o silêncio. Porém, quando estava bem disposto, era daquelas pessoas que fazem rir o mundo à sua volta. Acho que, a dada altura, cheguei a apaixonar-me por ele. Aliás, acho que me apaixonava por todos aqueles com quem me identificava, naquela altura. Lembro-me muitas vezes dele e daqueles olhos de onde via espreitar o mar. Éramos da mesma idade. Uma idade eterna. Exactamente uma semana depois de fazer vinte anos, estava morto. Nunca cheguei a saber o que aconteceu naquela maldita noite, nem quero saber.
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Já disse
que a minha amiga eslovaca faz massagens?
Pois faz. E que massagens. Parece que tenho umas costas novas.
Sabem aquela música dos Beatles; "don't carry the world upon your shoulders"?
Pois, parece que foi feita para mim. Só não me chamo Jude. Mas podia.
Pois faz. E que massagens. Parece que tenho umas costas novas.
Sabem aquela música dos Beatles; "don't carry the world upon your shoulders"?
Pois, parece que foi feita para mim. Só não me chamo Jude. Mas podia.
domingo, junho 15, 2008
Outros tempos II
Lembro-me também de um trabalho para saúde mental que era um estudo qualquer que metia marinheiros. Não me lembro da ponta de um corno do que tratava o tal estudo, nem o que pretendíamos provar, mas lembro-me que era com marinheiros. Passámos dois ou três dias em casa de uma das colegas, em Paço de Arcos, parece-me (à volta só havia prédios todos iguais) e acho que ao fim desse tempo estávamos todas com alguns neurónios a menos. De certeza que todos os estudantes têm no seu currículo um ou dois (ou mais) trabalhos deste género, em que a metodologia imposta roçou as franjas da esquizofrenia. Lembro-me de estarmos a distribuir questionários entre as quatro (éramos quatro ou cinco, já não sei), aos quais tínhamos de responder em nome dos supostos marinheiros. Cada grupo de marinheiros tinha de corresponder a um certo perfil psicológico, pelo que as respostas tinham de bater certo com isso. Lembro-me que às tantas não podíamos mais com o caricato de tudo aquilo e desatávamos a rir sem conseguir parar, agarradas à barriga. Já não me lembro se refutámos ou confirmámos o raio da hipótese em causa. Lembro-me ainda de uma série de trabalhos que não nos deram descanso durante semanas a fio, com umas festas pelo meio e muita loucura à mistura, e de que, já não sei como, acabaste por torcer o pé ou qualquer coisa do género, o que fez com que durante uns tempos andasses com uma bengala de madeira, que um dos nossos colegas te arranjou (seria da mãe dele, ou da avó, já não me recordo). Tu gostavas de andar com a bengala e parece-me que acentuavas ainda mais o andar coxeante (meu Deus, isto existe?), vá lá, o coxear, só para poderes curtir a situação. Depois, às vezes, quando nos dava a veia tresloucada, o que acontecia amiúde, largavas a bengala para o chão com estrondo, num gesto teatral, e ensaiavas uns passos esforçados, enquanto gritávamos, histéricas, com o sotaque açucarado do outro lado do atlântico: "milagre! Milagre!" Geralmente, dava-nos estes ataques no meio de montes de gente, pelo que ficava tudo a olhar para nós como se sofrêssemos de algum desvario. E nós, raladas.
Outros tempos
Também tenho umas saudades parvas que, volta e meia, me roem os ossos, mas com essas posso eu bem. São saudades de coisas parvas, mas que antes faziam todo o sentido e percorriam os pontos cardeais de norte a sul dos dias, espreguiçando-se no langor do oriente e repousando num sono sem nuvens nos últimos suspiros do ocaso. Eram tempos de muitas noitadas. Às vezes trocávamos o sentido dos ponteiros do relógio, e o tempo começava a andar para trás, de tal forma que o dia entrava pela noite dentro e a noite era quando o sol do meio-dia dilatava as pedras da calçada. Às vezes fazíamos directas atrás de directas e as manhãs surpreendiam-nos com olheiras e cabelos desgrenhados e ataques de riso que nos faziam parecer dementes aos olhos de quem se apressava nas ruas para entrar a horas no emprego, e que eram muito mais explosivos do que aqueles provocados pelas pedras que apanhávamos. De outras vezes ficávamos a estudar pelas noites dentro, na véspera das frequências, e às tantas já não dizíamos coisa com coisa e gargalhávamos sem eira nem beira, mas, caramba!, no outro dia, apesar de não estarmos frescas, sentávamos diante da temida folha de perguntas e os raciocínios saíam-nos da ponta dos dedos como se tivéssemos dormido a noite inteira. Bom, pelo menos era o que nos parecia, na altura. Estudávamos sempre na tua casa, que partilhavas com outras colegas de curso, no bairro de ruas paralelas e transversais cruzando-se em paralelipípedos mais ou menos regulares junto ao liceu Filipa, para onde à noite as putas levavam os clientes. De outras vezes, sem calhamaços para estudar, cantávamos pela noite dentro e não deixávamos os vizinhos dormir, mas nem nos importávamos porque nessa altura não podíamos supor o estrago causado por umas poucas horas sem dormir numa única noite de uma vida anónima. Não tínhamos filhos para deitar sem sonos para velar nem contas para pagar nem dia para receber nem bocas para alimentar nem paz para almejar nem pão para pôr na mesa. Aliás, nessa altura, quanto menos paz, melhor. Era assim, e era bom.
sábado, janeiro 12, 2008
terça-feira, agosto 21, 2007
Kate
Este é para ti :)
Gostei muito, mesmo muito, de te conhecer.
Fiquei com curiosidade de conhecer os teus miúdos, mas ainda mais vontade de uma jantarada, ou almoçarada, ou outra coisa qualquer acabada em ada, com muita conversa, e sem miúdos por perto...
Para a próxima não escapa ;)
Um beijo para ti.
Gostei muito, mesmo muito, de te conhecer.
Fiquei com curiosidade de conhecer os teus miúdos, mas ainda mais vontade de uma jantarada, ou almoçarada, ou outra coisa qualquer acabada em ada, com muita conversa, e sem miúdos por perto...
Para a próxima não escapa ;)
Um beijo para ti.
sábado, agosto 18, 2007
O nosso dia
Não tenho fotografias (ainda).
Mas tenho palavras.
Muitas correrias, muitas gargalhadas. Saltos por cima dos bancos às riscas. Alguns amuos e beicinhos. Salpicos de água pelo ar e uma camisola de uma senhora molhada. Eh eh! Uns vizinhos de mesa pouco amigáveis. Gelados, sol, muito sol, e vento fresquinho. Pinheiros, e chuva de caruma para cima dos bancos... Água, e relva, muita relva pelo ar. E cócegas, muitas cócegas. Uma sopa de relva. E a história do monstro da relva! E os olhos deles muito abertos... E as missangas perdidas na relva, e nós de rabo para o ar à procura delas... Está aqui, está aqui uma!
E lá no fundo, o rio, sempre o mesmo azul.
Foi um dia em cheio, não foi, ó miúdas???
Mas tenho palavras.
Muitas correrias, muitas gargalhadas. Saltos por cima dos bancos às riscas. Alguns amuos e beicinhos. Salpicos de água pelo ar e uma camisola de uma senhora molhada. Eh eh! Uns vizinhos de mesa pouco amigáveis. Gelados, sol, muito sol, e vento fresquinho. Pinheiros, e chuva de caruma para cima dos bancos... Água, e relva, muita relva pelo ar. E cócegas, muitas cócegas. Uma sopa de relva. E a história do monstro da relva! E os olhos deles muito abertos... E as missangas perdidas na relva, e nós de rabo para o ar à procura delas... Está aqui, está aqui uma!
E lá no fundo, o rio, sempre o mesmo azul.
Foi um dia em cheio, não foi, ó miúdas???
quarta-feira, agosto 01, 2007
Eu sei, eu sei
tenho montes de telefonemas atrasados, mas o que é que querem, o tempo escorre depressa demais, e quando dou por mim já não são horas de ligar para quem ainda não se conhece... assim tão bem! Mas eu prometo!
Hoje andei andei andei andei pelas ruas de Lisboa.
E almocei com uma pessoa muuuuuuito especial!
;-)
Hoje andei andei andei andei pelas ruas de Lisboa.
E almocei com uma pessoa muuuuuuito especial!
;-)
sexta-feira, maio 18, 2007
terça-feira, abril 10, 2007
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