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sábado, outubro 22, 2016

Poucas palavras

Acabou-se-me o sal. Gastei o resto no arroz de pato que fiz para o jantar. Cozinhei também o coração do animal. É essa a minha função diária: alimentar. Estômagos, corações, uma família, várias vidas, uma cidade, divindades. Talvez um dia descubra que também alimento estrelas noutras galáxias. No peito ficam as palavras que não ousam esse brilho. Encontram uma forma de liberdade na inexistência. Uma certa beleza revestida de silêncio. Belo é o gesto que enfeita a palavra: a enxada que fecunda a terra. A espera no arredondar do ventre. O primeiro vagido, linguagem primordial. Beleza, traz o vento, em sinais distantes do outro lado do mundo, vozes que nos pertencem porque já nos habitam o coração. As palavras podem ir no vento, a beleza fica no olhar de reconhecimento. No espanto. No sorriso. Até no desapontamento, porque diz da paixão, da urgência. O coração, porém, desconhece a urgência, o tempo, as palavras. O coração sabe do medo, da fragilidade, da ternura, da vergonha, da dor e do amor, do riso e das lágrimas, do ritmo, do compasso da espera, da febre, da saudade, dos sonhos, dos rios e dos mares e dos lugares onde poderemos ser felizes. O coração pulsa debaixo da terra e encerra a beleza que o desapontamento não encontra. Não sei o caminho, ando às escuras e não me pertencem os teus passos. Deixo uma flor em cada encruzilhada.
(Eu sou de muitas e poucas palavras. Para além das que guardo debaixo da terra.)

quarta-feira, março 12, 2014

Quem não sabe, inventa

Há uns anos atrás, o rapaz queixava-se de falta de imaginação. Eu não consigo fazer desenhos daqueles, terá dito, depois de ver os trabalhos de arte de outros alunos, preciso de ir buscar ideias a qualquer lado; não consigo imaginar coisas assim. Nessa altura, a mãe encolheu os ombros e fez uma nota mental para uma eventual estória. Não perde a mania de ver estórias em todo o lado. Ora, há coisa de um mês, o professor de história gracejava com a aparente falta de objectividade encontrada em alguns trabalhos do mesmo rapaz, onde ideias suas eram apresentadas para colmatar aqui e ali falhas de evidência histórica. Entre sorrisos, o professor lá deu uma pequena lição sobre a necessidade de a História se apoiar em factos objectivos, e não em ideias subjectivas. Ao que a mãe se lembrou da primeira nota, e desta vez acrescentou outra: afinal, nem tudo está perdido.

(E agora, ao escrever isto, faz outra, do papel que a imaginação desempenha, tanto na vida dos indivíduos, e não apenas na criação artística, mas principalmente na construção do conhecimento histórico e científico. A famigerada objectividade que, em rigor, nunca se alcança. E no modo como a ficção é, acima de tudo, um produto do desconhecimento. E de como, quando o desconhecimento se agudiza na ignorância, a ficção colectiva pode cristalizar em formas malignas: dogmas, verdades absolutas, poderes inquestionáveis. Episódios psicóticos dominando toda uma população, época ou nação.)

terça-feira, agosto 09, 2011

Too much quiet




































Não se vê quase ninguém na rua, mas isso é o habitual. Subi a escadaria junto ao lago, e a luz verde, coada pela copa das árvores, aconchegou-me nos seus braços. Passou por mim um homem a correr, com os headphones nos ouvidos. Tudo normal. Ao chegar lá acima, deparei-me com a extensão imensa do relvado quase deserta. Um pequeno grupo com uma bola, um ou outro tipo deitado no chão a curtir o sol. Com um dia como o de hoje, com esta temperatura no ar e o sol a brilhar por entre as nuvens, isto sim, não é nada habitual. O normal seria estar o relvado cheio de gente, pessoas deitadas, sentadas, em pé a correr atrás de bolas, crianças em correria e gritaria, vozes espalhadas no vento. O silêncio é assim um pouco pesado. Depois ouvem-se as sirenes. Carros da polícia para cá e para lá. Isto também costuma ser uma constante; porém, hoje é como se o som fosse, de alguma maneira, completamente diferente. Como se nos fizesse subir o medo à garganta. Vou andando, sinto o sol nos olhos, o vento nos cabelos, o cheiro da relva no ar. As pessoas com quem me cruzo são as mesmas de sempre. O grupo que joga à bola é uma família. Passa um homem que chuta a bola para o miúdo, com um sorriso. Atravesso a rua e, no olhar das pessoas, vejo qualquer coisa  que se encolhe. A paisagem é em tudo igual. Aqui não houve tumultos, tão pouco lojas ou carros incendiados. Dou com a CO-OP fechada. Não estava à espera disto, e no entanto é tão lógico que assim seja. Volto para trás, faço o caminho de volta. Está um dia lindo. Mais carros da polícia, mais sirenes a anunciar o perigo que pode estar aqui mesmo ao lado. Acho que é essa a diferença. Antes as sirenes anunciavam perigos distantes, por mais perto que estivessem; hoje, o perigo está mesmo aqui ao lado, ainda que o esteja a alguns (poucos) quilómetros.

quarta-feira, setembro 15, 2010

E não se pode fazer nada?

Todos os anos, por esta altura, começo a ler os posts do costume sobre o início do ano escolar e dos seus consequentes gastos, agudizados na parafernália, cada vez mais a roçar as franjas da aberração, de livros escolares. Está mesmo tudo maluco, pois está. Eu cá, até posso ter gastado um dinheirão em roupa para o miúdo, mas não gastei um cêntimo (nem vou gastar) em livros escolares. A única coisa que comprámos, aliás, foi uma mala e um estojo. Cadernos, a escola providencia, assim como os livros, usados, com folhas escritas e ligeiramente amarrotadas, capas encadernadas e os cantos das páginas a encaracolar. E quem é que se rala com isso? E, meus senhores doutores do ministério da educação ou de onde quer que seja, será que ainda não passou pela cabeça de ninguém fazer algo semelhante? Sim, isso mesmo: os livros são facultados às escolas, e passam de ano para ano, de turma para turma, qual é o problema? Quanto dinheiro se gasta? Quanto dinheiro se poupa? Será que ninguém sabe fazer contas? Ou só sabem fazer as contas que lhes convém?

(Ó minha gente, pais e mães neste caso, e será que não se pode fazer nada? Mesmo? E os grupos disto e daquilo que se criam no FB, as mais das vezes umas parvoeiras de atrasados mentais? E que tal usar essa energia em massa? Como? Caramba, com um boicote colectivo! Sim, não comprem livros! Recusem-se! Exijam que os mesmos sejam fornecidos pela escola! Eu, se vivesse aí, era o que fazia. Pelo menos, procurar sensibilizar as pessoas para esta alternativa, mostrando como é prática de outros países, dependendo exclusivamente da vontade dos governantes. Mãos à obra, pá!)

terça-feira, junho 08, 2010

CHERUB

O meu filho anda entusiasmadíssimo a ler os livros da CHERUB. Eu também, diga-se de passagem. Gosto de ler livros juvenis, e em inglês junto o útil ao agradável. Hoje ele comentava que "Mr. Large ir really mean..." Eu aproveitei para dizer-lhe que acho a forma como tratam os miúdos inaceitável. Ele, apesar do inaceitável aos meus olhos, gostaria de andar numa escola assim. Claro, penso com os meus botões, qual não é o miúdo da idade dele que não deseja ver-se envolvido numa excitante empreitada, ainda para mais espionagem, a brincadeira preferida de todos eles...
Falando a sério, e porque acho que os livros, apesar de ficção, têm também muito de realidade (a realidade da imaginação é talvez aquela que se aproxima mais da verdade, seja lá o que isso for), a ideia de crianças espiando criminosos é atraente e faz-me sorrir... Talvez aquela parte de mim ainda meio criança, meio adolescente, que deseja fazer justiça a todo o custo. Crianças espiando antigos oficiais e generais alemães, durante a segunda grande guerra, e ajudando a derrubar o nazismo, quase que me traz uma gargalhada à garganta... E novamente aquele sentimento juvenil e tão pueril da justiça. Bom. Apesar do sorriso (e talvez por causa dele), tudo isto, todos estes sentimentos ingénuos (chamemos-lhe assim) são para mim um sinal de alarme. Porque roubar a infância a uma criança é sempre um ato abjeto, seja lá com a desculpa que for. Seja para espiar nazis, traficantes de droga, terroristas, o diabo a quatro. As crianças têm direito a ser crianças ponto final. "But it's their choice, and they can quit when they want", dizia-me o meu filho. Sim, filho, é verdade, mas como posso explicar-te, a ti que tens 10 anos, que aos 10 anos nenhuma criança está apta a tomar uma decisão dessas, com consciência e em perfeito poder de uma vontade autónoma? Está claro que aquelas crianças não são umas crianças quaisquer. Órfãos, algumas abandonadas pelos pais, ou retitadas aos pais, a maior parte vítimas de maus tratos, abusos de toda a ordem, que acabam em instituições ou casas de correção, e são depois recrutadas em segredo para engrossar as fileiras deste exército de jovens espiões. Condenadas a uma vida de violência e crime, detenções sucessivas, marginalidade, enfim, o pior dos cenários. Uma vida de miséria em troca de outra, de reconhecimento, em que as mesmas crianças que de outra forma talvez acabassem com uma facada ou um tiro na cabeça numa esquina qualquer são usadas como agentes infiltrados na perseguição a criminosos de alta envergadura. A palavra é essa, usadas, e a infância fica-lhes no fundo de um poço, para onde é despejada sem remorso. O treino é uma sucessão de humilhações e maus tratos, tudo em nome da dureza de espírito que o seu novo papel requer. É melhor do que apodrecer numa prisão ou acabar com uma bala na cabeça ou uma overdose num beco escuro. Isto deveria, então, bastar para nos acalmar a consciência. A mim, porém, não basta.

(Na capa, há uma frase do Sunday Express que diz que oxalá tudo aquilo fosse realidade. Eu penso com os meus botões, ainda bem que é ficção. Pensar que poderia ser verdade faz-me arrepios e traz-me à cabeça imagens de crianças soldados em guerras reais, crianças talibãs empunhando metralhadoras em treinos marciais. A diferença não seria nenhuma.)

segunda-feira, abril 26, 2010

terça-feira, março 30, 2010

Bullying passa a ser considerado crime

É mesmo típico de bom português: em vez de preocupar em arranjar estratégias para lidar com a coisa, preocupa-se com a coisa em si, sobrecarregando-a e fazendo com que adquira ainda mais volume, na minha opinião. Conheço muitos conterrâneos que, quando os filhos pequenos se portam mal, ameaçam chamar a polícia. Resulta sempre, porque as criancinhas, coitadas, têm um medo que se pelam. Quem não consegue assumir a autoridade em casa tem de se socorrer destes malabarismos, pois está claro. Sim, então é crime, e depois? O que é que vai acontecer? Vão a tribunal? Serão condenados? E qual será a pena? Será que não vêem que isto é um gasto de energia? Que deviam era estar preocupados em lidar com o problema? Desenvolver estratégias de protecção? São as vítimas do bullying, mais do que os bullies, que devem merecer a nossa atenção. O bullying existe em todo o lado, há que denunciá-lo e dar força e apoio às vítimas para o fazer. O bullying, além disso, engloba comportamentos muito diversos, desde o simples chamar nomes ao soco na cara. Vai-se criminalizar o quê? É preciso é que seja denunciado e que se encontre depois uma forma de lidar com a situação. Que forma? Ora é mesmo isso que devia ocupar neste momento a cabeça e a energia das pessoas: arranjar respostas adequadas a este problema. Se é crime ou não, depende da gravidade dos comportamentos em causa. Aliás, ser considerado crime não ajuda muito à denuncia. De queixinhas as vítimas vão passar a bufos ou coisa pior. O medo das represálias será ainda maior. Não se esqueçam que a escola é um dos sítios onde, supostamente, se modelam muitos comportamentos futuros.

(Os bullies são pessoas com desarranjos emocionais, muitas vezes eles próprios antigas vítimas de bullying. Precisam de ser ajudados e responsabilizados e não criminalizados.)

sábado, março 06, 2010

Podemos chamar-lhe outro nome

O bullying agora anda na moda, sim, e eu às vezes acho que ainda bem. Só temos de nos deixar desta mania de o procurar (apenas) nas escolas. Aliás, os piores bullies andam por aí entre nós, alguns muito bem vestidos e ocupando postos muito bem cotados dentro da sociedade. Os bullies são uma espécie em crescimento esponencial porque o esquema complexo das relações entre seres humanos acaba por lhes oferecer o fertilizante para o pasto, digamos assim.
O bullying praticava-se e pratica-se em muitas casas, de pais para filhos. Aliás, os bullies são as vítimas de bullying que, não tendo conseguido ajuda, acabaram por agir no exterior as incongruências afectivas que foram incapazes de gerir. Na geração dos meus pais e nas anteriores o bullying era praticado nas escolas, pelos professores e agentes educativos. Não digo que as crianças fossem uns anjinhos, não eram. O que digo é que o fenómeno não é novo e é universal. A diferença é que se fala dele, e isso é bom.
Digam-me o que disserem, os bullies criam-se em casa. Não, não tem nada a ver com a televisão nem com os jogos no computador nem com as DS nem com as wii. Os bullies criam-se em casa e na relação que criamos com os nossos filhos. Quando não lhes sabemos por limites, quando não nos zangamos ou o fazemos de forma inconsistente. Quando somos nós os bullies e os maltratamos. Quando fechamos os olhos ao comportamento agressivo dos miúdos, porque assim é que se faz um homem, na porrada. Acham que exagero? Há uma coisa cultural muito portuguesa, muito latina, de que, para se crescer, é preciso levar porrada da vida. E há muitas mães e muitos pais que mal conseguem disfarçar o orgulho porque o seu Zezinho dá conta da miudagem toda lá da escola. Mais vale que bata do que estar sempre a levar, é outra coisa que muita gente pensa. Ainda que não o diga em voz alta. Porque um homem não se acovarda. Pior do que ter um filho que bate é ter um que apanha. É ou não é?
E depois há aquela coisa dos queixinhas. Os queixinhas são os bufos. Os que andam sempre a correr atrás dos pais e dos professores, o não sei quantos bateu-me, a chorar como uma menina... Que vergonha! Os miúdos têm de aprender a defender-se sem estar sempre à espera de que vamos em seu socorro! Nós, que crescemos no meio da selva, a receber pontapés e arranhões, e que apesar de tudo sobrevivemos, achamos que assim é que é, assim é que se faz um homem! (ou uma mulher). Acabamos a dar aos nossos filhos o mesmo inferno de que fomos vítimas.
O bullying está entranhado em cada um de nós. Com outro nome, talvez. Ainda bem que se fala tanto disso hoje. O que falta é começarmos a olhar para dentro. Sem medo. Porque o bullying alimenta-se do medo.

sábado, outubro 10, 2009

Escolas e outras coisas

Continuamos a ver escolas, e, apesar de já estar um bocado farta de tantas andanças (percorremos a escola de uma ponta à outra) continuo pasmada com o que vejo. E digo outra vez, agora é que eu queria andar na escola. As pessoas hoje andam muito preocupadas com a violência nas escolas, mas está-me cá a parecer que acontece com este problema o mesmo que acontece com muitos outros: sempre houve, mas só agora é que se fala disso. E fala-se tanto que realmente dá a impressão que a coisa assume proporções gigantes. Ora eu, que nesta altura já visitei (quantas? Deixa-me cá pensar...) aí umas cinco ou seis escolas, ainda não vi uma única cena de violência. Podem-me dizer que o comportamento dos miúdos não será o mesmo com visitas na escola, pois a mim o que me espanta é precisamente que, durante estas visitas, em que bandos de pais e filhos e até bebés passeiam pelos corredores, à mistura com os estudantes enquanto estes mudam de sala, não aconteçam acidentes do tipo, miúdos a correr desvairados e a levarem tudo à frente. É que é mais ou menos esta a imagem que guardo da minha escola preparatória e depois secundária, do pessoal em correria desenfreada pelos corredores, empurrões, encontrões e coisas piores. Pois o que tenho visto são corredores cheios onde é difícil deslocarmo-nos, mas nada de encontrões nem de atropelos, tudo muito ordeiro, pedidos de desculpa e com licença, uma maravilha. E não pensem que tudo ordeiro quer dizer tudo em sentido como se estivessem na tropa; não senhor, há risos, conversas, barulho, movimento, enfim, vida.
Geralmente o que se ouve por aí é que no meu tempo é que era bom. Pois eu digo o contrário: no meu tempo era uma porcaria. Comigo, por exemplo, a escola falhou redondamente. No quê? Não, não foi a nível académico. Mas a escola é muito mais do que isso, do que transmissão de conhecimentos. A escola tem de preparar para a vida. No que é que falhou? Eu digo: não me ensinou a acreditar em mim nem nas minhas capacidades. Não me incutiu auto-estima nem confiança em mim mesma. Não me valorizou como pessoa nem como sujeito activo na minha própria aprendizagem. Desenvolveu muito pouco o espírito crítico e a auto-reflexão. Não me encorajou nem me apoiou nas minhas fraquezas. Não fomentou o espírito competitivo positivo. Não fomentou o sentimento de segurança nem de pertença. Em suma, e em termos pessoais e sociais, um verdadeiro falhanço.
Muita gente continua a achar que o que as crianças encontram em casa é muito mais importante do que o que encontram na escola. Só que as crianças crescem e deixam de ser crianças. É claro que a família é o alicerce mais importante de uma pessoa, mas a escola é talvez o segundo. Na adolescência é preciso sair de casa e ir ao encontro do mundo.
Não, o mundo não está cada vez pior. O mundo é um lugar cada vez melhor. As coisas mudam para melhor, sim.

sexta-feira, junho 05, 2009

Que raiva

Às vezes apetecia-me poder falar e ouvir português. Ir às lojas e dizer bom dia, cumprimentar os amigos e dizer bem, obrigada. Não desatar a gaguejar cada vez que falo ao telefone e conseguir responder à altura quando me tratam com aquela superioridade boçal que muitas criaturas mal formadas reservam para todos os estrangeiros de pele e cabelos escuros. Normalmente são nativas de cabelo oxigenado que julgam que têm o mundo aos seus pés só porque estão atrás de um balcão. Que raiva.

(Tenho inveja daquelas pessoas que conseguem canalizar a raiva para um comportamento exemplar: mantendo a calma e a tranquilidade, conseguir que as palavras sejam certeiras como setas. Não para magoar ou ferir, mas para acertar na mouche).

quarta-feira, novembro 05, 2008

The first black USA president?




Não sei se ele é o primeiro presidente negro na história americana. Isso levanta a questão de "o que é um negro?" para a qual não tenho resposta. Em algumas partes do mundo ele será encarado, talvez, como mestiço, ou mesmo branco. De qualquer forma, hoje, grande parte do mundo elegeu-o como tal - e isto sim é um fenómeno. Não interessa se ele é ou não negro - aos olhos de grande parte do mundo é-o, sem dúvida. E é-o não apenas no pormenor da cor da pele - pormenor para o qual Obama não é, em definitivo, negro - mas antes como um símbolo do que pode advir de se ser negro - uma identificação imediata a um vasto grupo populacional que tem sido, ao longo de séculos, continuamente discriminado. Que Obama seja encarado, nesta medida, como o primeiro presidente negro norte-americano, e que, ainda por cima, isso seja motivo de orgulho, isto sim, é novo, e um sinal inequívoco, mesmo para o pior dos pessimistas, de que o mundo, ou algo no mundo, está a mudar (para melhor). Mas não tenhamos ilusões. Aquilo que Obama realmente é, o homem que é e o presidente que será - seja branco, negro ou mulato - não tem nada a ver com esta construção, chamemos-lhe assim. Aquilo que ele é e será como presidente vamos começar a ver a partir de agora, e desenvolver-se-à nos próximos meses e anos. E é preciso que este homem, qualquer que seja a sua cor, tenha a coragem política necessária para mexer em determinadas áreas da política mundial (e não só claro); áreas que exigem uma atenção imediata por parte dos principais líderes mundiais e que têm constantemente sido negligenciadas. Haja coragem política, então. De todas as cores, de preferência.




sexta-feira, outubro 24, 2008

Ris de quê, ó infame?

Isto já não é novo e é completamente ridículo.
A capacidade de nos rirmos de nós mesmos é directamente proporcional à nossa saúde mental.
A censura ao riso é um sintoma inequívoco de sistemas totalitários, absolutos, fechados e caducos.
Só teme o riso quem, lá bem no fundo, se acha ridículo, e motivo de chacota.

domingo, setembro 07, 2008

Eleições em Angola

"O governo português saúda forma cívica e tranquila em que decorreram eleições angolanas?"
"Observadores da CPLP afirmam que anomalias nas eleições angolanas não influenciaram votação?"

Mas está tudo maluco ou estão a gozar com as pessoas?

Então e a falta de cadernos eleitorais, a escassez de boletins de votos, que obrigou algumas pessoas a adiarem por horas o seu direito cívico (muitas nem chegaram a votar, principalmente nos bairros pobres em Luanda, segundo li hoje numa notícia no Público), a inexistência de urnas e de secções de voto em algumas áreas, e outras coisas mais que se calhar os media não noticiam mas que se terão passado?

E depois, se não há registos eleitorais, como é que se controla a situação? Como é que se sabe quanta abstenção houve? Como é que se garante que a mesma pessoa não vote mais que uma vez?

quarta-feira, maio 21, 2008

A paixão são os livros

Li, num blogue qualquer que já não sei precisar (andei à procura do link, mas não encontro), qualquer coisa como isto: que ir à Feira do Livro (de Lisboa) é uma espécie de paixão: as pessoas sobem e descem, e sobem, e voltam a descer, no meio da multidão, e é difícil ir à casa de banho, (eu diria que é difícil andar, mover-se, mexer um pé), e enumeravam-se mais algumas dificuldades, ou coisas menos boas, enfim, mas as pessoas gostam. Quem corre por gosto não se cansa, não é assim?

Pois eu diria antes: a paixão são os livros. O que se passa é que os portugueses gostam tanto de ler, amam de tal forma os livros, que em nome desse amor não se importam de andar a subir e a descer, e a tentar andar, mexer um pé, ou os dois, e a ver (e a comprar, proeza ainda melhor!) alguns livros, no meio daquela multidão de gente que vai subindo, e descendo, e subindo, e descendo. E indo à casa de banho, pois. (Ou tentando ir).

É verdade: o povo português, que adora dizer mal de si mesmo, é um amante fiel e persistente, em termos de leitura. E vai ao ponto de chegar a afirmar que gosta de ir à Feira, e a gostar mesmo de ir, o que é ainda mais incrível. E tudo isto por amor aos livros! Pasme-se!

E digo mais: no dia em que tivermos eventos literários à escala do nosso país irmão (só para dar um exemplo), Portugal será um país de literatos. E as estatísticas mostrarão que seremos o número um da Europa em hábitos de leitura e em desenvolvimento da literatura. Nem mais.

quinta-feira, maio 15, 2008

Coisas anedóticas

Em vez de andarem todos à guerra, deviam era gastar as energias a organizar uma coisa de jeito.

A feira do livro, quero dizer.

segunda-feira, março 24, 2008

Olhem, gostei desta

Rui Tavares, Newsletter Opinião, 24 de Março de 2008 do Público:

"Tenho uma ideia. Pegamos naquela aluna indisciplinada da escola do Porto que brigou com a professora por causa de um telemóvel, fazemos um círculo em torno dela com todos os comentadores, políticos, espectadores e treinadores de bancada, e apedrejamo-la. Assim uma coisa de Antigo Testamento, mas com um toque moderno: em vez de pedras, usamos os nossos telemóveis. Depois, filmamos tudo e pomos no Youtube. Que tal vos parece? Um pouco exagerado, talvez?

Se não resultar, fazemos o mesmo à professora, depois aos pais e finalmente à ministra. Estou apenas a tentar acompanhar a tendência do debate. Como sabemos, este caso de indisciplina é um sinal do fim dos tempos. Mas se arranjarmos uns bodes expiatórios, talvez a coisa se arranje.

Antigamente, claro que não era assim. Pelo menos antes do século IV d.C., quando São Cassiano de Ímola, mártir dos professores, foi apunhalado pelos seus próprios alunos com os estiletes de metal que eram usados para tirar notas (em tabuletas de madeira cobertas com uma película de cera, porque o pergaminho era caro e o papiro raro).

Dos estiletes de metal aos telemóveis, os novos media têm sido inimigos dos professores, pelo menos até estes aprenderem a usá-los a seu favor. E porquê? Porque o professor precisa da atenção dos alunos, una e indivisa, na sala de aula. Essa é a melhor maneira de dar aulas e mesmo a única: ainda não inventaram outra. O pesadelo de um professor é "perder" uma turma, aluno a aluno, fila a fila, quando todos se distraem e não há maneira de estancar aquela vaga. Hoje há mais motivos de distracção, e amanhã haverá mais ainda, valha-nos São Cassiano.

A mente autoritária, essa, só precisa de uma coisa e sempre a mesma: gritar por mais autoridade, mesmo que isto não lhe garanta mais autoridade. Gritar por mais autoridade apaga todas as contradições, sossega todas as inseguranças.

O problema é o seguinte: a autoridade é, em si, uma coisa contraditória. Há duas autoridades: a do medo (medo da violência, nomeadamente) e a do reconhecimento. Ambas estão mais difíceis, por boas razões. A autoridade pelo medo, "responder bofetada a bofetada", como sugere Vasco Pulido Valente, é precisamente o que falhou no episódio do Porto: a professora tentou puxar mais do que a aluna, que tinha o dobro do seu tamanho. O programa pulido-valentiano não aguenta hoje dois minutos numa sala de aula, e no passado só funcionava integrado numa cadeia com vários elos: tinha-se medo do professor, do pai, do marido, da tropa e da PIDE.

A autoridade pelo reconhecimento está também em maus lençóis. O mundo exige-nos atenção de demasiados lados e o professor está no lado mais fraco. Mas isto não é o fim dos tempos. É apenas o princípio de tempos novos.

Esses tempos novos exigem turmas menores, não ultrapassando 20 alunos. Cacifos para deixar os telemóveis à entrada. Mais professores e funcionários. Intercomunicadores nas salas. E para os alunos indisciplinados? Puni-los com a única coisa que hoje em dia mete medo: o aborrecimento. Proponho aborrecê-los em turmas ainda menores, orientadas por dois professores, até que prestar atenção seja a única coisa interessante a fazer naquela sala.

Voltar à escola de elite não é opção, quando precisamos de toda a gente qualificada que pudermos formar. A opção que resta é dar às massas uma escola de elite. Custa mais dinheiro. Sim, ainda mais dinheiro, e dos seus impostos. Não foi você que pediu medidas impopulares? Historiador"

quinta-feira, março 13, 2008

Indignações

Tenho seguido, no sapo e em alguns blogues, a polémica no sector da educação. A marcha da indignação. Também eu me indigno, e, não me interpretem mal, mas acho que tanto o ministério como os professores andam à guerra por questões que, não deixando de ser importantes, não são as mais importantes, aquelas com que tanto um como outros deveriam eleger como principais, fundamentais, centrais, para o sucesso da educação.

E que questões são essas, quanto a mim?

Faço outra pergunta: como é que é o ensino da matemática aí em Portugal? Ainda é como no meu tempo? É que se for, está completamente desactualizado. O ensino da matemática sofreu uma reviravolta, e hoje há métodos diferentes, mais simples e mais eficazes, que fazem da parte lúdica a sua metodologia central. É um método muito mais virado para a visualização espacial, o que ajuda muito na compreensão da representação numérica. Aqui todas as escolas o usam. E de vez em quando têem acções de formação para introdução de novas e mais adequadas técnicas, pois estas estão sempre a surgir.

Outra questão essencial quanto a mim é a aprendizagem da leitura e da escrita.
Ora, já não me lembra o dia, estava eu a falar ao telefone com a minha mãe, e estava ela a transmitir-me alguma preocupação em relação à escola e à professora da minha sobrinha, que tem seis anos e está no primeiro ano. Contava-me ela que, certo dia, estando a ajudá-la nos trabalhos de casa, tinha deparado com uma folha inteira cheia de pernas de "m" que ela tinha escrito, muito bem feitas, na sua opinião, e na qual a professora teria deixado uma mensagem, a vermelho, que rezava mais ou menos assim: não conseguiste fazer melhor.

Não conseguiste fazer melhor? Mas que raio de incentivo é este? Eu só queria que viessem aqui espreitar os cadernos dos miúdos do 2º ano, em alguns não se percebe uma única letra! E no entanto já lêem, e são estimulados, encorajados, incentivados, elogiados nas coisas que fazem bem e nos pequenos progressos que vão fazendo nas áreas em que têm mais dificuldade!

Bom. Depois seguiu-se a lição de leitura. E a minha mãe até tivera dificuldade em perceber aquele pequeno texto, sobre a letra "m", que leram juntas, e que era mais ou menos assim:

"O Manel ama o Mimo
O Manel mima o Mimo
O Mimo ama o Manel"

O Mimo, percebeu ela depois, era assim uma espécie de urso de peluche.

Mas, desculpem lá, o que é isto? São estes os textos com que é suposto as crianças aprenderem a ler? Meia dúzia de palavras, que em comum só têm o facto de todas terem a letra "m", e que juntas não fazem sentido nenhum? Ou fazem? Será que se vocês tivessem de ler uma porcaria destas, digamos assim, um livro de duzentas páginas cheio de pérolas deste género, chegariam à segunda?

Para se aprender a ler é preciso estar motivado. Ora esta motivação só acontece se as histórias, mesmo as mais simples, forem divertidas e interessantes. Mas isto não é básico? O inglês é uma língua muito menos rica que o português, e eu só queria que vissem as histórias com que os miúdos aprendem a ler, aqui. Com palavras e frases simples, mas com um conteúdo riquíssimo. Para a iniciação da leitura, às vezes basta ter um livro cheio de imagens, uma bola, um barco, etc, apenas com os nomes de cada uma. Não existe coisa mais simples. Mas até isso tem um sentido.

Os miúdos aqui aprendem a ler rapidamente, mesmo aqueles que são imigrantes e cujos pais não dominam a língua, mesmo aqueles cujos pais não têm um elevado grau de escolaridade. Miúdos que vêm de famílias onde se lê pouco ou nada, cujos pais têm o rendimento mínimo e vivem da ajuda de subsídios. Realidades que, noutro país, noutro contexto, quase de certeza gerariam dificuldades na aprendizagem.

Não estou a dizer que aqui não há dificuldades na aprendizagem. Há, e muitos casos. Mas o tratamento que é dado a esses casos é tão diferente de tudo a que estamos habituados! Acompanhamento individualizado nas áreas mais problemáticas, estímulo, apoio, incentivo, elogios nos bons comportamentos e nos progressos, atribuição de tarefas importantes à criança para aumentar o seu sentido de responsabilidade e o sentimento de ser valorizada, enfim, a lista é interminável.

Não são estas as questões centrais? Talvez não. Para mim, são. É aqui que tudo começa. São elas que deveriam preocupar e ocupar a agenda, tanto dos ministros e secretários, como dos professores e de todos os agentes ligados à escola.

terça-feira, março 04, 2008

O "ph"

Ultimamente, muito se tem falado sobre o acordo ortográfico.
Eu tenho ouvido, lido, às vezes nem uma coisa nem outra.
E não me tem apetecido falar do assunto.

Hoje apetece-me.

Eu, por acaso, até me faz confusão passar a escrever "ação" em vez de "acção", ou "receção" em vez de "recepção" (é que até faz doer a vista, não faz?)

Faz-me confusão, sei lá! Tenho assim uma espécie de relação afectiva com as palavras. Vi-as crescer, coitadinhas, ou melhor, elas é que me viram crescer a mim. E os meus dedos já se habituaram àquelas teclas. O que é que hei-de fazer?

(A propósito de relação afectiva, eu quando era pequena escrevia sempre "rir a bandeiradas despregadas". Achava que "bandeiradas" era muito mais apropriado ao barulho que alguém faz a rir às gargalhadas. Não sei se estão a ver, bandeiradas, gargalhadas... pois. Às tantas alguém me emendou, e eu não queria acreditar. Não era possível! "Rir a bandeiras despregadas?" Bandeiras? Mas isso tinha algum jeito? Tive de me certificar, e mesmo assim achava aquilo um erro imperdoável. Passei a escrever a "bandeiras despregadas", isto é, conformei-me ao erro, mas desconfio que, cá no fundo, não abdiquei das "bandeiradas". Mas adiante).

Bem, imagino que as pessoas, quando tiveram de começar a escrever "farinha" em vez de "pharinha" e "farmácia", em vez de "pharmácia", também tenham protestado com veemência. Acredito até que se tenham juntado, organizado, e tenham criado uma espécie de associação dos amigos do "ph". Devolvam-nos o "ph" - era o seu lema - o "ph" resume a nossa identidade ortográfica. Sem o "ph" não passamos de um bando de órfãos da língua materna.

(Uma vez, em criança, vi uma pharmácia. Palavra! Estávamos de férias no Algarve, já não me lembro aonde exactamente, mas era assim uma terra pequena. Estava no carro com a minha mãe e o meu irmão, e o meu pai, ou tinha ido pôr gasolina, ou tinha ido comprar umas águas à mercearia em frente. Estava muito calor dentro do carro, as janelas estavam abertas - ainda não havia ares condicionados - e então eu olhei para o outro lado da rua, e lá estava ela. A pharmácia. Era o que estava escrito no letreiro de néon, apenas umas letras brancas e volumosas, àquela hora do dia. E eu perguntei, muito espantada: "ó mãe, o que é uma parmácia?", ao que ela me terá esclarecido. Desconheço se a pharmácia ainda existe, ou se já foi subsituída por uma farmácia. Suponho que sim. Ou talvez não. Porque, das duas uma, ou o dono da farmácia - perdão, da pharmácia - era um dos descendentes ideológicos desses adeptos ferrenhos do "ph" - que ainda hoje os há, num artigo comentado do Sol havia um leitor a defender que ainda deveríamos escrever com "ph", juro! - ou então, era um português comum, daqueles que pensam, com um encolher de ombros: "mudar, para quê? Então estamos assim tão bem... e depois, já viram o trabalhão que isto agora me dava, mandar fazer outro letreiro? Sem falar no dinheiro! Não, deixa lá, fica assim, afinal, não faz mossa a ninguém...")

Pois é, já pensaram na carga de trabalhos que isto vai dar? Já pensaram nos desgraçados dos editores (a pena que eu tenho deles!), a terem de republicar milhares de livros, o prejuízo que isto vai ser, meu Deus! Mas isso é o menos, porque o mais importante, é a nossa raiz, a história da nossa língua, a nossa identidade linguística e cultural. Essa é um património de todos, que todos têm o dever de preservar.

Acho que sim, pá. Vamos continuar todos como aquela velhinha, tão velhinha, que a última vez que phodeu... sim, já sabem como foi.

domingo, dezembro 16, 2007

Analfabrutismo

Mais grave do que não saber ler, acho eu, é levar à letra tudo o que se lê, ou seja, não saber ler nas entrelinhas, ou ser completamente cego para as metáforas. Mais do que o outro, preocupa-me este tipo de analfabetismo. É que os outros podem sempre aprender a ler. Agora, estes, não raro, estão absolutamente convencidos dos seus perfeitos raciocínios e do seu ainda mais claro entendimento. O que faz com que a coisa tome proporções bíblicas.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Laços e nós

Tenho pena daquelas pessoas que nos abrem os braços e o sorriso, e nos brindam com o melhor olhar de cumplicidade, quando, por um acaso, daqueles acasos que estão sempre a acontecer, lhes cai em cima a descoberta de que temos o mesmo sangue. Os alentejanos, como os pretos, são todos primos uns dos outros, e eu sempre vivi no meio de uma grande família alargada, tão alargada que até chamo de primos e primas muitas pessoas que não pertencem realmente à família. Sempre convivi bem com esta multifamiliaridade e continuo a conviver, acho, e claro que é com um sorriso que estendo a mão a todas as pessoas que, por um acaso feliz, me vêm parar dentro dessa família alargada que parece não ter fim.

Mas de quem eu tenho pena é dessas pessoas, que agora nos afagam com um calor novo no olhar, serem as mesmas que antes olhavam para nós de esguelha se fazíamos um sorriso mais rasgado, ou que respondiam hesitantes ao nosso bom dia. As mesmas que, quando o sorriso mora numa cara estranha, ou a voz fala outra língua e o olhar tem outra cor, se apressam a sorrir sem voz, a olhar para o lado, a encolher a mão rapida e discretamente, depois de a estender, a medo.

É dessas que tenho pena. Porque, coitadas, ainda não perceberam que afinal, todos somos a mesma humanidade, todos temos o mesmo sangue nas veias - no fundo, somos todos irmãos uns dos outros. Ou primos, como preferirem. Em qualquer lugar do mundo.