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quinta-feira, setembro 11, 2014

Livros escolares? O que é isso?




Em Inglaterra, nas escolas primárias, não há livros escolares. As salas de aula estão cheias de livros: contos e rimas infantis, estórias com e sem ilustrações. Há-os em toda a parte, desde a creche ao sexto ano, devidamente adaptados à idade das crianças. Depois cada escola tem a sua biblioteca. Só encontramos livros escolares na escola secundária. Estes, no entanto, são propriedade da escola, e transitam de ano para ano, passando de mão em mão, entre os alunos.

Deste modo, é possível um percurso escolar sem gastos em livros. Com o material passa-se a mesma coisa: as salas estão repletas de gavetas cheias de tudo o que é necessário. Tesoura, cola, tintas, pincéis, papel, canetas, lápis, borrachas, afias, réguas, esquadros, compassos, transferidores, sólidos geométricos, papéis de fantasia para corte e colagem, jogos variados destinados a auxiliar a aprendizagem, tudo o que possam imaginar, está na escola. Os livros auxiliares são disponibilizados em fotocópias, e cada criança tem um caderninho de merceeiro, chamado «homework book», onde o trabalho de casa é anotado e feito.


Também não se fazem ditados para contar os erros. Fazem-se livros: primeiro escreve-se a estória, depois monta-se a estrutura: páginas, desenhos, lombada, capa, tudo cuidadosamente colado e cosido. Os mais novos controem livros em 3d, cujas páginas se transformam nas paredes de uma casa ou de um castelo; paredes cheias de desenhos de todas as cores e palavras ainda incertas, letras em espelho e muitos erros. Mas esses não se assinalam a vermelho, porque fazem parte do caminho da aprendizagem, e o mais importante é que a casa tenha bons alicerces. As crianças aprendem quando a sua capacidade de criar é valorizada. Quando vêem os seus trabalhos expostos e apreciados, ao lado do orgulho que a escola lhes alimenta nesse gesto. Quando os agentes educativos não têm medo de elogiar, não vão os miúdos ficar convencidos de que a vida é um mar de rosas. A vida é um mar que se conquista navegando.

quinta-feira, junho 03, 2010

Os 101 dálmatas e o silêncio dos inocentes

Lembram-se dos 101 dálmatas? Lembram-se dos cães de todos os jardins a ganir à lua, passando a mensagem do paradeiro dos cachorrinhos? Pois bem, essa estória não se pode ter passado em Londres. Pelo menos, esta onde vivo.
Ora, estava eu ontem à noite na cozinha, quando sou surpreendida por um ladrar canino a rasgar o silêncio da noite. Parei imediatamente o que estava a fazer, e pus-me à escuta. Teria ouvido bem?
Da sala chegava-me o som da televisão, e de repente novo latido, mais forte que o anterior. Desta vez não tive dúvidas. Era mesmo um cão a ladrar!
E então?, estão vocês a pensar. O que é que um cão a ladrar tem assim de tão especial? Eu explico: sabem aqueles sons de fundo que não nos deixam usufruir do silêncio, que a gente às tantas confunde com o silêncio, e que só damos por eles quando de repente cessam, sem motivo? E os nossos ouvidos, já habituados àquele ruído branco e monótono, de súbito estranham, e ouvem... o silêncio?
Pois bem, o ladrar do cão teve mais ou menos o mesmo efeito nos meus ouvidos e no meu cérebro. É que, quando o ouvi, estranhei... um som tão familiar, era, súbita e inexplicavelmente, completamente estranho... e porquê? Porque, simplesmente, deixara de os ouvir. E ainda não me apercebera. Como o ouvido acostumado ao ruído, que confunde com o silêncio. Eu, foi mais ao contrário: confundi o silêncio com o ruído. O silêncio dos cães... ainda não tinha dado por ele, até àquele ladrar forte e inesperado.
É isso mesmo: os cães de Londres são inocentes silenciosos. Pura e simplesmente, não ladram. Mas como?, estão vocês agora a perguntarem-se. Good question. A mesma que fiz, incrédula, ao meu marido, quando vim até à sala confirmar que aquele ladrar só podia vir de um sítio... da televisão, e não da rua, como a princípio pensara! E fiz-lhe a mesma pergunta: já reparaste que os cães aqui não ladram? Mas como é que isso é possível? É proibido? E como é que se poíbe um cão de ladrar?
Ainda por cima, cães é o que não faltam: nunca vi tanto animal de estimação junto, nunca vi tanta gente a passear os seus amiguinhos pela trela. Há-os de todos os tamanhos e feitios, de todas as raças e marcas que possam imaginar. Só que não ladram. É verdade. Como é que isso é possível, não me perguntem.
Claro que um especialista em treino de animais com certeza que não achará espanto nenhum nesta minha questão. Para mim, contudo, permanece um mistério. Um cão a ladrar parece-me a mesma coisa que um coração a bater. E se há quem diga que "cão que ladra não morde", eu diria que cão que não ladra... não é cão não é nada.
Talvez não seja de todo agradável sermos acordados pelo ladrar destes amigos altas horas da noite, mas faz-me confusão aos nervos, o que é que querem? Desde ontem que não paro de pensar nisso. Nos cães sem voz. No silêncio destes inocentes.
Por isso é que vos digo que aquela cena dos 101 dálmatas não se pode ter passado aqui, nesta Londres, onde os canídeos são mudos. Ou foi pura imaginação, ou foi antes dos latidos serem proibidos nas ruas.


Ainda o silêncio dos inocentes
  
É raro, raríssimo, mas de vez em quando lá se fazem ouvir.
Deve ser do calor, não sei.
As criaturas também têm direito a passar-se com o calor, ou não?
E, de quando em quando, um ladrar súbito atordoa os ares.
E sempre que tal acontece, volta a dar-se o mesmo milagre nos meus ouvidos. Ou na minha cabeça, não sei bem. Talvez numa imprecisa região do cérebro, onde confluem afectos, sons e memórias.
Sempre que os oiço, volto a ouvir mais nitidamente o seu silêncio.
Ou melhor, só sinto verdadeiramente o seu silêncio quando os oiço.
Quando não os oiço, já sei que não ladram, mas saber que não ladram é completamente diferente de sentir falta do seu ladrar.
Essa só a sinto mesmo quando os oiço.
E é incrível o que o ladrar de um cão traz consigo.
O ladrar dos cães é tão antigo como a própria humanidade.
O ladrar dos cães faz parar o tempo. Transporta-nos para outras dimensões.
Tem o poder de nos levar para outros sítios, de nos restituir memórias intactas, que julgávamos perdidas.
O ladrar de um cão no silêncio da noite, por exemplo, é uma companhia. E quando a esse ladrar respondem outros ladrares, diferentes de intensidade e timbre, mais e menos distantes, então o nosso coração também ladra no peito.
Ladra de vontade de se reunir à matilha.
O ladrar dos cães anuncia proximidade de casas, pessoas, abrigos. Para um viajante solitário é como chegar a casa, para um marinheiro distante é como atracar no porto.
O ladrar de um cão transporta-me para a infância, para aquele pontinho minúsculo onde estou deitada na cama, sem conseguir adormecer devido ao bafo de fantasmas ancestrais, e de repente aquele som familiar corta a escuridão e entra na minha solidão. Devolve-me a realidade, a claridade da luz do dia, o sol a pino lá do alto a afagar as colinas da serra com o seu calor ancestral. E a minha alma pequenina aquece com ele. Fecho os olhos e quando os reabro a escuridão tem novas cores, já não me ameaça, e os velhos fantasmas sorriem para mim.
Juro-vos que é verdade.
O ladrar de um cão tem o poder de nos tirar de dentro do poço da angústia.
O ladrar de um cão é uma linguagem mágica. E essa linguagem é comum aos seres humanos.
O ladrar de um cão é um aviso, um chão, um tecto, um alerta, um sinal, um postigo, um abrigo.
O silêncio dos cães não tem cor nem coerência.
O silêncio dos cães é uma aberração da natureza.
O silêncio dos cães faz-nos sentir estrangeiros no mundo. Mais ainda do que já somos.
O silêncio dos cães encerra-nos as portas para a clarividência de outras almas.
O silêncio dos cães é pesado, é estranho, é complexado.
O silêncio dos cães instala-se nos ouvidos como um parasita, e afasta-nos de nós mesmos, da nossa natureza, da nossa certeza de segurança, da nossa primeira linguagem.
Não percebo, nunca vou perceber isto.
Nem quero.
Lembro-me do Rumble Fish, que vi há séculos, daquela cena em que os animais da loja são libertos, e correm em debandada para a rua.
Eu apetecia-me volatilizar-me em sopro de vento, e ir por aí, por esses quintais fora, a sussurrar aos ouvidos dos cachorros: "Ladrem! Ladrem! Ladrem!"


(republish)

sexta-feira, maio 07, 2010

Polling day 2

Para além de não refletir, o pessoal também não se apressa. Como pode votar até às 10 da noite, vai-se arrastando na espera, mais um copito, ver o East Enders e tal, e depois olha, filas e filas de gente à última da hora nas poll stations, que durante todo o dia estiveram às moscas. Resultado: uma boa quantidade de gente que saiu de casa e não pôde meter a cruzinha lá no quadradinho. Azar. E ainda falam na pontualidade dos ingleses...
A cruzinha, aqui, não se mete num quadradinho, mas num espaço em branco que há em frente do nome do partido e respetivo candidato. E também não se faz a caneta... mas a lápis! Assim um daqueles lápis de bico grosso, que não deixa vinco no papel. Estão a ver bem? Nas autárquicas podemos pôr três cruzinhas, ou seja, votar em três candidatos diferentes (três é o máximo). Coisa esquisita, não? E depois dobramos o papel ao meio (tem o tamanho A4) e enfiamo-lo na urna, que já deve estar a abarrotar e o papelote não entra completamente, e vem de lá a senhora de régua em punho para ajudar aquilo a ir para baixo.
Quando chegou a minha vez e ouvi a senhora dizer "yellow only" franzi o nariz, porque é que só posso votar no amarelo? Os boletins amarelos eram para eleger os candidatos ao Council (autarquias) e os brancos eram para o parlamento. Nem precisei de perguntar, o que se passa é que os residentes estrangeiros têm direito de voto limitado, apesar de sermos cidadãos da Comunidade Europeia. Para se poder votar para o parlamento tem de se ser British Citizen, uma coisa que ainda não nos deu para aí. Talvez um dia, quem sabe, nos dê para aí. Não deve doer, acho; a pior parte é o juramento à rainha, mas devem deixar-nos levar cábulas.
Foi a primeira vez que votei desde que cá estou. Nas outras vezes pura e simplesmente ignorei o assunto. É que uma gaja acabada de imigrar, com duas crianças, uma delas bebé, não sei se estão a ver. Há coisas que pura e simplesmente ficam de lado.
Ora bem, então temos o Green Party a eleger o primeiro MP. Muito bem. Podia ter sido com o meu voto, pois podia, mas não foi que não me deixaram. Os labours levaram a sova que merecem, digo eu. Mas é uma tristeza, pois é. Os conservatives não devem estar lá muito contentes com a maioria relativa, terão de contar com o apoio dos lib dem, o que não lhes deve cair muito em gosto a eles, mas a nós sim. O BNP consegue cerca de meio milhão de votos nacionais. Uma tristeza. Se o sistema eleitoral não fosse esta coisa esquisita que é já estavam lá. Pois é.
E não me ocorre dizer mais nada.

quinta-feira, maio 06, 2010

Polling day

Não há cá dia de reflexão para ninguém. Ainda agora passou um carro a apelar ao voto. O pessoal aqui não reflete; quem reflete são os espelhos.

terça-feira, abril 06, 2010

How clean is your diet?

Quem gosta de comer Special K deve lembrar-se da campanha promocional que sugeria que, para diminuir uns quantos centímetros na cintura, se substituísse uma das refeições principais por uma tigela dos ditos flocos com leite magro, isto durante 14 dias. O que não devem saber é que a receita varia conforme o país onde se está, ou conforme os hábitos alimentares locais, isto já na minha perspectiva. Ora pois aqui nas terras de Sua Majestade, onde a maioria das pessoas come fish and chips ao almoço e ao jantar uma chávena de chá e com sorte umas bolachitas (daquelas cheias de creme ou coisa que o valha) a mesmíssima campanha aconselha a que se substituam as duas refeições principais pela tigela de flocos com leite magro, durante os tais 14 dias. De onde se conclui que a dita campanha quer mesmo é atirar-nos areia para os olhos, e aproveitar-se da compulsão para emagrecer que hoje em dia grassa na cabeça de muito boa gente. É que se aí substituir duas refeições por uma tigela de flocos com leite pode parecer (e bem) um erro em termos de alimentação equilibrada, aqui, pelo contrário, é considerado normalíssimo, até porque o que se come é, as mais das vezes, muito menos equilibrado do que uma tigela de flocos.
E sabem aqueles anúncios a produtos de limpeza em que se vê um fogão ou uma parede completamente cagados e depois passa-se o pano e tcharãn... Até parece um passe de mágica? Aqueles em que a gente fica sempre a pensar, mas caramba, será que alguém suja assim os pratos, ou será possível que alguém, depois de cozinhar, deixe o fogão naquele estado? Claro que não, aquilo é exagero da publicidade. Olhem que não. Ou melhor, para os nossos padrões de limpeza talvez, mas para outros... Pois é. É que quando ligamos a televisão e nos deparamos com um programa tipo how clean is your house?, Jesus Maria, os tais anúncios ao pé daquilo, com os fogões e os azulejos da cozinha completamente besuntados de gordura, até brilham (e não da gordura, atenção). E então convencemo-nos que afinal há quem suje a casa assim, sim senhor, e até muito pior. E que sim, são precisos milagres para remover aquela porcaria entranhada, milagres que duvido que algum produto de limpeza consiga concretizar, by the way.
Hoje deu-me para aqui.

domingo, dezembro 06, 2009

Come a sopa joana come a sopa

In school, when I'm eating the soup, my friends say I'm eating sick!
...
É triste ver como estes miúdos aqui nunca viram um prato de sopa na vida, quanto mais comê-lo.

sábado, abril 11, 2009

Coisas esquisitas

Já descobri o que é que me desconcerta às vezes nesta gente. Nós quando estamos em conversa animada assim com um ou dois amigos e se chega mais alguém, o que é que fazemos? Cumprimentamos o recém-chegado e continuamos a conversa sem um segundo olhar até acabar o que tínhamos para dizer? Claro que não, que disparate! Paramos imediatamente o que estávamos a dizer e toda a gente se vira para a pessoa que acabou de chegar, não é? E às vezes até a bombardeamos de todos os lados: «Então, pá, como é que vai isso? O que é que tens feito? Há que tempos que não te vejo! Está tudo bem? E a mulher, e o marido, e os miúdos, ou os pais, ou o cão ou o gato? Etc, etc, etc» É ou não é? Tanto que às vezes depois a conversa, a tal que estávamos a ter antes de a dita pessoa chegar, perde-se e nunca mais nos lembramos de reatá-la.
Pois é, pá, mas os gajos aqui fazem precisamente o oposto. Tu chegas, toda a gente te cumprimenta mas apenas com um gesto ou um olhar rápido, que tu até ficas a achar que interrompeste o presidente da república no seu discuro, para logo desviarem o olhar, focando-o de novo em quem estava a falar. E quem estava a falar termina o que tem a dizer, ainda que demore três ou treze minutos. E só depois é que de novo se viram para ti e te perguntam como estás, se está tudo bem, etc, etc.
Enfim, coisas. Esquisitas.

sábado, março 21, 2009

Eu não gosto de segregações

mas parece que aterrei no país da segregação.
Os miúdos deixam a escola primária quando passam para o sétimo ano, e as preocupações (pré-ocupações) começam mais ou menos um ano e meio antes. Que é onde nos encontramos agora, pois.
Palavra que não entendo. Num país onde a diversidade e a integração cultural é uma preocupação constante, isto não devia acontecer, acho. É que se já é uma dor de cabeça encontrar uma escola secundária, assim torna-se uma epopeia.
A saber: temos escolas católicas e não católicas (não faço a mínima ideia se existem escolas de outros credos religiosos); escolas para rapazes e para raparigas, além das mistas (felizmente) e depois temos as grammar schools e as normais escolas secundárias. Grammar schools são escolas secundárias para alunos de um nível mais elevado. Para se ser admitido tem de se fazer uns testes especiais (denominados de 11+), e como cada escola só admite cerca de 180 novos alunos cada ano, o resultado tem de ficar entre os 180 melhores. (Também há grammar schools para rapazes, para raparigas e mistas). 
No borough onde moro não existem grammar schools (não me perguntem porquê), de maneira que a mais próxima fica aí a um quilómetro de distância (talvez menos). 
O David quer ir para uma grammar school. Isto porque o irmão de um amigo anda lá e o amigo também vai. Eu não me importo que ele vá. Depois começo a ouvir as mais diversas opiniões e ainda fico mais baralhada. Uns dizem que as grammar schools são melhores que as outras. Outros dizem que lá a única preocupação são as notas e o sucesso escolar e que a pressão é imensa. Faz sentido, e não me apetece muito enfiar o meu filho numa escola que tenha como principal objectivo manter o nível elevado a qualquer custo. Faz-me pensar no capitalismo extremo: a lógica do lucro levada às últimas consequências.
Já fui ao site de várias grammar schools e não me parecem de todo escolas apenas interessadas nos resultados dos alunos. Têm diversas actividades, como música e drama, e estão principalmente empenhadas em promover o desenvolvimento individual dos seus alunos. Incluem no currículo o ensino de pelo menos duas línguas estrangeiras (o que neste país de gente que só fala inglês é algo notável). 
Eu não gosto de segregações, nunca gostei. Acho que a escola devia ser a mesma para todos. Mas acho também que anda muito preconceito por aqui. A maioria dos pais com que falo não frequentou nenhuma dessas escolas. Portanto, não conhece a realidade. O que dizem é consequentemente produto de um preconceito (pré-conceito). Esses pais que se indignam com o facto de a escola dividir os miúdos mais inteligentes ou com melhores notas (com um mais alto nível económico, na opinião de alguns, porque podem pagar a quem lhes prepare os filhos para o 11+), são os mesmos que têm as meninas nas escolas para raparigas ou os meninos nas escolas para rapazes. A segregação de género já não os incomoda tanto. Eu nunca gostei de segregações; aliás, abomino-as; mas já que estou no país da segregação, prefiro que o meu filho vá para a grammar school (se ele quiser) do que para uma escola só para rapazes. Ou para uma escola católica. Se não passar o 11+, vai para uma secundária normal. Mista.
E depois de escrever tudo isto, ainda mais me convenço que tudo isto é uma anormalidade.

quarta-feira, outubro 08, 2008

The ministry of food

Depois de ter renovado o panorama alimentar escolar, Jamie Oliver continua a sua saga. Uma verdadeira saga, neste país de hábitos alimentares tão retrógrados e atrasados que até dói. Mas ele está decidido a mudar a vida alimentar das pessoas. Ensinar as pessoas a cozinhar pratos simples, e, mais importante, a retirarem prazer de o fazer. Depois essas pessoas comprometem-se a passar os conhecimentos adquiridos a outras duas - e assim sucessivamente, numa continuidade exponencial.

E, realmente, só mesmo ele para conseguir pôr aqueles homens a cozinhar - não por serem homens, porque o que para aí mais há é homens que cozinham e muito bem, mas por serem daqueles matarruanos que nunca puseram os pés numa cozinha (a não ser para desentupir canos ou passar as mãos por água) e nem sabem distinguir um tacho de uma frigideira. Sim, ele pôs homens desses a cozinhar, num estádio de futebol, umas quantas mesas alinhadas na grama, com todos os utensílios indispensáveis ao acto. E, o que é mais incrível, aqueles gajos, matarruanos, broncos, que nunca tinham sequer pelado batatas ou estrelado um ovo (nem sequer partir um ovo deviam saber, a não ser mandando-o à cabeça de alguém) curtiram que nem uns doidos enquanto temperavam os bifes e fritavam os espargos. Um deles, mineiro de profissão, passou a cozinhar todos os dias para a família - vimo-lo debaixo do chão, com a cara preta de carvão, e depois, já com a cara lavada, de avental e tacho numa mão, colher-de-pau na outra, a preparar uma refeição para a mulher, o filho, e o convidado especial desse dia - como não podia deixar de ser, ele mesmo, Jamie Oliver.

Uma das alunas dele, que já lhe segue os passos - já o substituiu nas aulas - é uma mãe solteira, que, antes de frequentar as aulas dele, dava aos filhos apenas quebabs e pizzas para comer - estamos a falar de crianças entre um e dois anos. Hoje, tem uma horta no jardim, onde planta legumes, e aprendeu a cozinhar. Pratos simples, sempre rápidos, mas sempre igualmente saudáveis.

Jamie congratula-se com os resultados da sua obstinada missão, e tem razão para isso. São aprendizagens com um valor incomparável, aquelas que ele proporciona. Habilitações tão simples como fazer uma salada ou grelhar um bife em cinco minutos, podem mudar uma vida. Podem mudar muitas vidas. E mudam, já estão a mudar. Este tipo, descontraído e bem-humorado, com os cabelos espetados, e que tempera com fuckin' cada três palavras que diz, está a fazer pela alimentação deste país muito mais do que a Casa dos Comuns inteira alguma vez fez ou fará.

terça-feira, setembro 02, 2008

Segregação

Eu, antes de chegar a este país, pensava que as escolas só para rapazes ou só para raparigas eram coisa de velhos, tempos antigos, mentes com teias de aranha, ou então manias parvas, modernas, de gente que tem de pôr os meninos (ou as meninas) nos colégios mais caros, adeptos dessas teorias pasmadas de que os cérebros dos rapazes e das raparigas são tão diferentes (qualquer dia até descobrem que, afinal, pertencemos a espécies distintas) que justificam, aliás, mais do que isso, exigem, que as técnicas de aprendizagem sejam substancialmente diferenciadas e de todo incompatíveis.
Mas o que eu não sabia é que estas teorias proliferam mais que os cogumelos... Principalmente aqui, em Inglaterra. O número de escolas secundárias (públicas e privadas) só para um dos sexos é abissal, comparado com Portugal, por exemplo. Para cada escola unisexo, deve haver para aí duas onde não se toleram as misturas.
Eu nem me dou ao trabalho de pôr em causa as tais diferenças entre os sexos, que estão na base dessas teorias (embora tenha uma opinião diferente, mas não vou por aí). Se calhar até é verdade que, sem os rapazes ao lado, as raparigas aprendem e concentram-se mais facilmente, e o mesmo para os rapazes, que perdem tanto tempo com garçolas parvas só para impressionar as meninas... Ou talvez sim, as meninas talvez tenham uma maior capacidade de atenção e concentração, e os rapazes, mais activos e ligados ao saber-fazer, exijam métodos mais virados para a prática, para a demonstração. Hoje em dia muito se fala e se estuda sobre os diferentes estilos de aprendizagem; há pessoas que aprendem melhor vendo, outras ouvindo, outras fazendo e experimentando. O que eu acho é que é uma aberração, a escola só se preocupar com a optimização do potencial funcional (ligado ao conhecimento) dos alunos. Como se estes fossem máquinas. Olha, se isolarmos esta peça aqui, se fizermos uma ligação ali, a coisa funciona melhor. Produz mais. Mais e melhor.
Mas o que é que é mais e melhor, nestas idades?
Imaginem uma coisa completamente desligada da realidade, mas que serve perfeitamente para ilustrar onde pretendo chegar. Imaginem que o último estudo da berra sobre as potencialidades do cérebro humano revelava que, para optimizar o seu funcionamento, para que o homem (e a mulher) começassem a usar aquelas capacidades da massa cinzenta ainda inacessíveis ao nosso conhecimento e alcance, era necessário cortar uma perna. Provava-se que, cortando uma perna, a capacidade cerebral aumentava, sei lá, 15%. Sem as duas pernas, tínhamos um incremento de 30%. Um braço representava 10%. Não se esqueçam que isto é um absurdo. Mas é um absurdo que tem a inteligência de demonstrar uma coisa muito simples: é claro que a ninguém passaria pela cabeça desfazer-se de um braço ou de uma perna para benefício da sua capacidade intelectual. (Acho eu, sei lá. Afinal, há malucos para tudo).
E o que é que isto tem a ver com as escolas separadas? É muito simples, meus caros: a escola é um dos motores principais da socialização das crianças e dos jovens. Na adolescência, o papel que a escola tem na socialização e na consrução da personalidade é até muito mais importante que os conhecimentos e as matérias que por lá se aprendem. Nesta fase da socialização, o contacto com o sexo oposto é fundamental. O contacto com o sexo oposto, na formação da personalidade, é uma perna, ou um braço, ou até as duas pernas, e os dois braços, da futura estrutura psicológica, do edifício psíquico, do corpo animado, da pessoa. A verdade é que, aquilo que não se vê (o tal corpo, neste caso invisível, da estrutura de cada personalidade) ainda não existe e é completamente ignorado. Neste ponto, ainda estamos na idade média.

quarta-feira, junho 11, 2008

Outra coisa

interessante é a quantidade de pessoas de idade madura ostentando piercings e tatuagens.
Idade madura, ou seja, a altura em que se começa a mudar de cor (nos cabelos, por exemplo) e na textura (algumas rugas, pele mais flácida, essas coisas).
E não, não foram arroubos adolescentes. Muitas das mulheres têm tatuados no braço o nome dos filhos (para além de flores coloridas e outras coisas mais), portanto, quando o fizeram, já tinham idade para ter juízo.
Não é, definitivamente, um fenómeno adolescente.

segunda-feira, junho 09, 2008

Estranhíssima

Hoje, com a temperatura a chegar aos 27 ºC, o pessoal bafejava e suspirava.
Os ingleses fervem em pouca água. Também em pouco ar. E, à falta de janelas para abrir (nas casas), ou melhor, à falta de janelas que se abram como deve ser (aqui as janelas não abrem como as portas, aliás, devia-se inventar outro verbo para usar com janelas, outro que não o abrir), acabam por resolver abrir as janelas do corpo (metáfora braba!), ou deveria antes dizer as cortinas? Pronto, passe a expressão - tiram a roupa. Não toda, como é evidente. A que é possível, aliás, aceitável. Depois, põem-se a tostar ao sol nos relvados, como se estivessem na praia.

Os ingleses, ao contrário de nós, são calorosos com as palavras. Não se beijam nem tocam como nós (nas ocasiões sociais, entenda-se), mas em contrapartida lambem-se com palavras (se não gostarem do verbo lamber aqui empregue, pensem noutra coisa qualquer, assim melada, com muito mel, sei lá, melam-se, por exemplo - nem sei se existe - mas vá). Querida, amor, doçura, fofura, queridinha, e por aí fora. Nós, ao contrário, reservamos estes exclusivos para a intimidade, e decerto coraríamos até às orelhas se o farmacêutico nos tratasse por amor à frente de toda a gente.

À hora da saída da escola o recreio enche-se de pais, mães e alguns avós que esperam pelos miúdos. Se, por um lado, há cada vez mais caras que me sorriem e cumprimentam, por outro continua sempre, perplexa e intacta, a mesma estranheza. Há pessoas que parece que alugaram um metro quadrado do recreio, pois é sempre para o mesmo sítio que se dirigem, todos os dias. E não arredam pé. Há, por exemplo, pequenos grupos que se encontram sempre nos mesmos sítios - ao lado do canteiro, debaixo do alpendre, encostados à cerca. Às vezes, quando chego e vejo algumas pessoas que conheço nos seus postos habituais, vou ter com elas para dois dedos de conversa. Mas o contrário, nunca acontece. Quando chego primeiro e me sento num dos bancos, já sei que ninguém vem ter comigo. Cada um tem o seu território, e é para lá que vai. Quando muito, acena de longe, com a mão.

(Como se estivéssemos em margens diferentes do mesmo rio).

Eu, tenham lá paciência, nunca me sento no mesmo sítio. E sim, já aprendi a ignorar quem não se pranta mesmo à minha frente. Ou a acenar com a mão indiferente.

Mas a estranheza, essa, fica cá.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Ar de parva

Digam-me lá, mamãs: quando alguém mete conversa com os vossos rebentos, assim as simpatias-em-pessoa que por aí andam, e ele, ou eles, os vossos rebentos, fazem cara emburrada e respondem torto (ou não respondem de todo), o que é que vocês fazem? Qual é a primeira coisa que vos sai da boca, disparada, que o vosso cérebro nem tem tempo de processar? Pensem lá...

Imaginem a cena:

«Olá! Estás bom?» pergunta a simpatia-em-pessoa.

E o/a piqueno/a, nada... nada...

E vocês, sem se conseguirem conter:

«Olá! Estou bem, obrigada!»

É ou não é? Não ficamos com aquele hábito de responder por eles, vindo de lá do passado, de quando ele ou ela eram um bebé de colo e, como não podiam responder aos cumprimentos das pessoas, a gente lhes emprestava a voz? Serei eu a única?

Bom, não sei. Talvez seja. Ultimamente, tenho sentido que sou mesmo um bicho raro. Porque aqui se chego com o Diogo, ou com o David, e alguém diz, dirigindo-se a eles, Hello, how are you?, ou, Did you have a nice week-end?, não é mesmo suposto eu responder. Mesmo que ele persista num silêncio teimoso, de cara fechada, e a simpatia-em-pessoa se esteja a desfazer em sorrisos.

É claro que eu tenho a compulsão de responder. E então lá levo assim com um olhar meio de esguelha, de onde espeita um ponto de interrogação. Às vezes dizem mesmo, Not you!, em situações deste tipo. Quendo perguntam, por exemplo, Do you like this?, ou Do you like that?

Um dos meninos que não veio aos anos do Diogo escreveu-lhe uma carta, e eu no outro dia encontrei a mãe e agradeci-lhe o gesto, e depois, obviamente, fiz o mesmo com o miúdo. Mas ela disse logo: "Oh, I didn't write anything!". E eu lá fiquei com aquele ar de parva.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Flores mortas

Às vezes, vamos na rua e deparamos com uma árvore, no meio de um passeio público, cujo tronco está coberto até meio com arranjos de flores. De outras vezes não é uma árvore, pode ser um banco perdido num relvado, ou uma esquina, ou a porta de uma caixa de alta tensão. As flores, de pétalas mudas, e nós ficamos a olhar e a imaginar o que será aquilo. Será que morreu alguém? Parece óbvio. E então olhamos em volta e reparamos que há tantas mortes ao nosso redor e isso é profundamente estranho. Quer dizer, não é o facto de morrerem pessoas que é estranho, é antes a marca que fica, que nos dá a conhecer, que nos espeta na cara com a realidade violenta. Morre gente todos os dias, nós sabemos, mas são mortes anónimas, confortavelmente anónimas. Ficamos com curiosidade de nos aproximar e espreitar os cartões que pendem de algumas das flores, para ler o que lá está escrito. Mas é uma curiosidade mórbida. Ao mesmo tempo não queremos aproximar-nos. Eu, geralmente, rapidamente desvio o olhar, e nem quero saber. Tenho medo de me aproximar, como se o facto de saber o que se passou possa atrair alguma desgraça.

Sim, tenho muito medo de atrair desgraças. É assim uma coisa incoerente e irracional, mas muito forte. Às vezes vivo mergulhada num pensamento primitivo e animista.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

E lá vai mais uma colherada...

Eu, por acaso, até me esforço (sério!!!) por dar sopa aos miúdos todos os dias. E olhem que é mesmo um esforço esforçado (!). Mas a razão é simples: é que vocês não imaginam o que eles comem por aqui. É que não há palavras. É que mesmo só visto (ou não visto. Eu não vejo, mas imagino, e isso basta-me. Ou antes: eu sei, já vi, e basta isso, não preciso de ver todos os dias. Bolas. Que baralhada). Sim, mas onde é que eu ia? Pois, é que é mesmo uma coisa de bradar aos céus. E então esforço-me, é verdade, que eles comam um prato de sopa todos os dias, já que os almoços são mais ou menos para esquecer...

É claro que depois há aqueles dias em que me esqueço, como disse lá mais abaixo. Ou em que estou muito cansada. Ou é a hora que passa, olha, não fiz sopa, que merda, deixa lá. Hoje vamos nas sanduíches. É verdade, estou bem mais descontraída, e até me posso queixar e dizer mal disto a torto e a direito, mas é também graças a esta rebaldaria que para aqui se vive nas horas das refeições que estou mais descontraída. Aqui come-se mesmo o que calha. Viram o Harry Potter? Aquelas travessas cheias de boa comida a aparecerem, por magia, em cima da mesa? Não, meus filhos, aquilo é filme. Aqui, duas daquelas travessas chegam para alimentar uma escola inteira.

sábado, janeiro 12, 2008

Diferenças de género?

Neste século e no que passou, muitos têm sido os estudos levados a cabo para mostrar por a+b que as mulheres e os homens são diferentes (como se isso não fosse evidente). Mas esperem, que não é minha intenção entrar por aí. Bom. O senso comum (das mulheres, como é evidente) há muito que já se apercebeu destas diferenças básicas, e uma das que gosta de apregoar aos quatro ventos é a nossa capacidade de nos ocuparmos, simultaneamente, de várias tarefas ao mesmo tempo, ao passo que os homens, mais centrados (concentrados, dirão eles), dificilmente se desdobram em actividades.

É certo e sabido: se estamos na cozinha a preparar o jantar, não fazemos uma coisa de cada vez, vamos fazendo várias ao mesmo tempo. Se estamos ao telefone com alguém, podemos perfeitamente manter dois diálogos distintos: um com o nosso interlocutor, e outro com o chato ou a chata que insiste em perguntar-nos onde raio está guardado o papel higiénico ou onde pusemos as cuecas dos putos (a localização dos objectos numa casa é sempre um mistério para todos além de nós). E se estamos na rua, em conversa animada com alguém, pelo canto do olho continuamos a ver o mundo à nossa volta, e se passa alguém conhecido por nós atiramos com um sorriso e com um sonoro "Olá", gritado bem alto para que não haja dúvidas de chegar aos ouvidos distantes da tal pessoa.

Mas esperem lá. Pensando melhor, algumas coisas destas alguns homens também conseguem fazer. Ou não? E será que todas as mulheres se comportam mesmo assim?

Pois olhem, eu, desde que vivo neste país, tenho vindo a desconfiar que isto não tem nada a ver com o sexo das pessoas. Se assim for, estamos perante um fenómeno da natureza, em que membros do sexo feminino apresentam compulsivamente comportamentos do outro género. É que os ingleses em geral (e, o que é interessante, também alguns estrangeiros aculturados, digamos assim) não conseguem fazer este exercício tão simples de prestar atenção a duas coisas, em simultâneo (simples no entender das mulheres, obviamente). Se estão na rua a falar com alguém, nós até podemos passar a cinco centímetros deles, que, pura e simplesmente, não nos vêem. Quando chegamos à secretaria da escola, se a simpática senhora está ocupada a falar com alguém, nós até podemos ter apenas um simples envelope na mão para deixar, mas não se iludam: não podemos deixá-lo ali, com um discreto olhar de cumplicidade, e escapulirmo-nos para os nossos afazeres, a não ser que outra alminha do lado de lá no balcão repare, por acaso, na nossa pressa (e é preciso que não esteja a fazer rigorosamente nada) e nos estenda a mão para que lhe dêmos o envelope. Sabem aquele malabarismo que toda a gente faz nos cafés, de manhã, depois de beber a bica apressadamente, que é deixar as moedas em cima do balcão, depois de confirmar, com um olhar na direcção dos olhos do empregado (que ele corresponde, mesmo que esteja a perguntar para o fulano ao vosso lado: "É café?") que ele captou o nosso gesto, e que as moedas não ficarão para ali esquecidas, ou, pior ainda, vão parar ao bolso de algum espertalhão? Pois é, minha gente, esqueçam. Essa cena trivial nunca se poderia passar na Inglaterra. Primeiro, porque aqui não há cafés (mas isto já é outra conversa, já me estou a desviar do assunto, como é habitual).

Voltando ao que interessa, isto é uma coisa que me deixa deveras intrigada e desconfortável. Será que, nos padrões deles, é falta de educação interromper seja o que for com um caloroso "bom dia"? Mas não é preciso estarem ocupados para manifestarem este tipo de cegueira social. Há situações em que, ou a gente lhes passa mesmo debaixo do nariz (dito de outra forma, a não ser que a gente quase esbarre com eles), ou então pura e simplesmente nem nos olham. E, o que é mais estranho, acho que nem nos vêem. É como se tivessem umas palas, sabem? Como os burros.

Eu cá, refazia os estudos. E introduzia este novo factor, que me parece interessantíssismo, que são as diferenças culturais (ou serão de latitude? Ou de clima? Ou de alimentação? Bem, pensando melhor, o caso não é assim tão simples. Mas pronto, é só uma ideia).