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sábado, outubro 22, 2016

Poucas palavras

Acabou-se-me o sal. Gastei o resto no arroz de pato que fiz para o jantar. Cozinhei também o coração do animal. É essa a minha função diária: alimentar. Estômagos, corações, uma família, várias vidas, uma cidade, divindades. Talvez um dia descubra que também alimento estrelas noutras galáxias. No peito ficam as palavras que não ousam esse brilho. Encontram uma forma de liberdade na inexistência. Uma certa beleza revestida de silêncio. Belo é o gesto que enfeita a palavra: a enxada que fecunda a terra. A espera no arredondar do ventre. O primeiro vagido, linguagem primordial. Beleza, traz o vento, em sinais distantes do outro lado do mundo, vozes que nos pertencem porque já nos habitam o coração. As palavras podem ir no vento, a beleza fica no olhar de reconhecimento. No espanto. No sorriso. Até no desapontamento, porque diz da paixão, da urgência. O coração, porém, desconhece a urgência, o tempo, as palavras. O coração sabe do medo, da fragilidade, da ternura, da vergonha, da dor e do amor, do riso e das lágrimas, do ritmo, do compasso da espera, da febre, da saudade, dos sonhos, dos rios e dos mares e dos lugares onde poderemos ser felizes. O coração pulsa debaixo da terra e encerra a beleza que o desapontamento não encontra. Não sei o caminho, ando às escuras e não me pertencem os teus passos. Deixo uma flor em cada encruzilhada.
(Eu sou de muitas e poucas palavras. Para além das que guardo debaixo da terra.)

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Verdade mentira verdade ou mentira?

Mentir compulsivamente pode ser o resultado de uma imaginação avassaladora. E, tantas vezes, o produto da imaginação é tão mais agradável, bonito e apetecível que a realidade... O mundo fantasiado acaba por ser o mundo real, aquele com poder de nos tocar e nos fazer vibrar emocionalmente. Com poder de nos fazer ser. E não há nada mais verdadeiro do que isso, ser simplesmente. O mundo real passa então a ser mentira, ou seja, negação da verdade.

(talvez a mentira não seja o contrário da verdade. talvez as diferentes verdades sejam únicas e irreconciliáveis. Afinal, são as verdades que se opõem umas às outras. A mentira mais não é, então, que a ocultação de uma verdade. Quando se desconhece a verdade, não há outro remédio senão mentir-se.)

quarta-feira, janeiro 20, 2010

it's complicated

Os dias têm andado cinzentos. As pessoas, nem tanto. As pessoas adquirem cores inesperadas quando nos falam ao coração. Ou não. Às vezes chegam-nos apenas ao estômago, ao pâncreas, outras descem aos intestinos, outras ainda sobem-nos à cabeça, como o álcool.
Eu não gosto de álcool. Sou daqueles bichos raros que só bebem água e sumos, naturais de preferência. Bebidas com gás, então, nem vê-las. Mas esperem lá, a anormalidade não chega a tanto (digo eu), gosto de uns licorzitos, isso gosto. Acho que a única bebedeira que apanhei na vida foi com uma garrafa de Baileys. E nem foi uma bebedeira de jeito, foi apenas uma histeria gargalhal. O que é isso? Boa pergunta.
Vi o filme it's complicated e, além de me ter fartado de rir, acho que a Meryl Streep está cada vez melhor. Como o vinho, pois. Aliás, a maioria das coisas, aquelas que nos tocam o coração, são assim: melhoram com a idade.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Chuva, vento, partidas e chegadas

Os meses, os dias, os anos, tudo se vai repetindo indefinidamente. A casa é muito mais silenciosa só com um filho. Acho que já escrevi isto antes. Também já senti esta mistura de ansiedade e espanto pela constatação da passagem do tempo. Aquele limiar onde os filhos deixam de ser nossos, ou apenas nossos. De manhã a chuva não ajudou à despedida, mas o meu sorriso era sincero. Ao meu lado estava o mais novo, de olhos franzidos e cara de sono, que se levantou heroicamente uma hora mais cedo porque fez questão de levar o irmão à escola. Ficámos ali a acenar à chuva, nós e mais umas quantas almas, outros pais e mães e irmãos, enquanto o autocarro punha o motor a trabalhar e se afastava até à curva. A chuva não abrandou mas o meu coração serenou.

Já me esquecia, esta semana mudamos. Finalmente.

domingo, fevereiro 03, 2008


Fazer a mala.

Dúvidas de última hora. Afinal é preciso edredão ou não é preciso edredão?

Tirar a capa da mala, por o edredão lá dentro, enfiá-lo a custo noutro saco.

Dois sacos, meu Deus, tanto peso!

...

Será que o meu coração aguenta?

Aguenta, pois :-)

sábado, junho 09, 2007

Não é espantoso?

"Hoje, não exito em afirmar que a 'a Hormona do Amor induz a libertação da Hormona do Coração'. Se o tivesse feito nos anos 80 - a idade média para a Scientification of Love - ninguém hesitaria em chamar-me doido. Hoje, apelidar a occitocina de Hormona do Amor é algo baseado em evidências científicas: foi demonstrado que esta hormona estimula a libertação de uma substância química designada por 'atrial natriuretic peptide', por algumas células do coração.

(Gutkowska, J., Antunes-Rodrigues, J. and McCann, S. M. 'Atrial natriuretic peptide in brain and pituitary gland.' Physiological Review 1997; 77; 2: 465 - 515)"

Michel Odent, The Scientification of Love, 1999

terça-feira, abril 10, 2007

Coração de mar


Quantas vezes murcha, o coração.
Não te esqueças de regá-lo todos os dias.
Sim, todos os dias.
E não tenhas dúvidas: é da tua água que ele precisa.
Só da tua água.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

THE TRUE LOVE

Conheceram-se ainda adolescentes, na China, país de origem de ambos. Namoraram durante largos anos. Imagino um desses amores que nascem no despontar da puberdade, e que crescem connosco, acompanhando-nos no vestir vagaroso de uma nova pele, nas mudanças do corpo e da alma, no engrossar da voz e no estreitamento das ancas, no aumento do busto e dos ombros, nos primeiros pelos da barba, no primeiro beijo tímido e nos sorrisos trocados, no caminho comum para a escola e no roçar de joelhos escondidos por debaixo das mesas, para mais ninguém ver. Imagino um amor feito de cumplicidades partilhadas, de piscares de olhos tímidos, de olhares incendiados de ternura e de beijos trocados no patamar da paixão. Imagino as mãos púdicas dela a afastarem as primeiras carícias mais ousadas dele, com o coração a palpitar de excitação e desejo contidos, atrás da árvore junto à porta de casa dela, com os olhos e os sentidos despertos e vigilantes, atentos à silhueta escura do pai dela atrás do vidro fosco da janela. E, se fechar os olhos e me deixar levar na corrente prodigiosa da fantasia, consigo imaginar uma tarde clandestina, uma cama de lençóis desalinhados, a nudez de dois corpos na descoberta fascinante um do outro, desta vez sem pudor nas mãos, apenas a ternura e o desejo do prazer partilhado. Como num quadro, vejo-os, olhos nos olhos, a malícia a espreitar das pestanas, ainda com a timidez a adorná-las e a emprestar-lhes o espanto e o encanto da primeira vez.

Depois, anos passados, o namoro acabou. Imagino uma briga, uma cena de ciúmes, um mal entendido, desses que enchem os bolsos do passado dos namorados, e ficam para a posteridade a encher-lhes os cantos da casa de teias de aranha e a espalhar bocados de cotão debaixo dos móveis. O namoro acabou, mas não o amor. Nem a paixão. Ela continuava a pensar nele. E ele nela. Mas a briga - definitiva, como o são todas as brigas de fim de namoro nestas idades - permaneceu mais forte e ganhou raízes nos dois corações.

Entretanto, ela conheceu outro rapaz. Divertido, com sentido de humor. Sentia-se bem ao seu lado. Talvez a fizesse esquecer a chama da paixão que a devorava por dentro. Começaram a sair, um dia ele pediu-lhe namoro. E ela aceitou. Sem o coração aos saltos, mas com o pensamento a disparar fantasias.

Acabou por se casar com ele. Entretanto, ele - o outro, o seu amor - também casara com outra mulher. O despeito que sentiu foi abafado pela alegria de uma promessa de um futuro feliz ao lado do seu homem, o que escolhera para seu marido. E alegrou-se por pensar que também ele refazia a sua vida - e seria feliz.

Passaram-se anos. Muitos. Quase metade dos que já vivera. O seu casamento era insonso - o humor do marido rapidamente foi substituído por uma atitude distante, indiferente, contida. Não sentia a paixão que esperara sentir. E não parava de pensar que provavelmente cometera um erro. O outro, o seu amor, não lhe saía do pensamento. Nunca o esqueceu.

Passaram-se 10 anos. Ela entretanto divorciara-se ao fim dos primeiros cinco. A relação tornara-se insuportável para ambos. Do seu amor, nunca mais tivera notícias. Apenas sabia estava no Reino Unido, onde vivia com a família.

Um dia, ao chegar a casa, a mãe perguntou-lhe: "Adivinha quem te ligou". Ela não precisou de adivinhar; já sabia, pressentira-o. Fora ele. O seu amor. Ela já soubera que também ele se divorciara entretanto, e que do casamento havia um filho. Mas nunca mais se tinham visto, nunca mais se tinham procurado. Ele ligou novamente. Tinha regressado à China em trabalho, e disse que gostaria de a ver. Combinaram encontrar-se no dia seguinte.

Tinham passados 10 anos. Sem nenhum contacto. Mas ela sentia-se como se o tivesse visto ontem. O seu coração tremia e as lágrimas escorriam-lhe pelas faces enquanto esperava por ele, numa mesa de um café. Ao mesmo tempo, estava apertado de angústia: não o via há 10 anos! Como é que ele estaria? Teria mudado?

Quando, finalmente, ele apareceu, as lágrimas não pararam de jorrar dos seus belos olhos escuros. Ele, afinal, não mudara. Estava o mesmo. Assim como o que ela sentia por ele. Ao fim de tanto tempo, ainda o amava como no primeiro dia.

Conversaram durante um bom tempo. Contaram as histórias dos seus casamentos um ao outro. Riram como velhos amigos. No fim da noite, quando se sepraram, estavam ambos de coração apertado, e alma leve.

Ele regressou para a Inglaterra. E, ao fim de três meses, pelo aniversário dela, mandou-lhe um presente acompanhado de uma longa carta, onde dizia que ainda a amava, que durante todos aqueles anos nunca deixara de a amar.

Casaram então, apesar dos protestos dos pais, que achavam que era uma decisão errada, pois em dez anos as pessoas mudam muito, entre outros argumentos, cada um mais persuasivo que o outro. Mas eles não deram ouvidos a ninguém. O filho dele, então já com 18 anos, aceitou a situação. Hoje são muito felizes, e têm dois filhos.

Pronto, estão vocês a pensar. Deu-lhe para a veia romântica, e resolver inventar uma estória de amor completamente inverosímil. Enganam-se, meus amigos. Esta é uma história real: foi-me contada hoje, na primeira pessoa, à mesa do almoço, pela protagonista. E a adivinhar pelo brilho dos seus olhos, este amor, que sobreviveu a 10 anos de ausência e distância, ainda está vivo - e bem vivo. É evidente que floreei alguns pormenores (como compete aos contadores de histórias), mas o essencial está fiel. E olhem que, no fim, até eu tinha os olhos brilhantes - de lágrimas.

sábado, fevereiro 04, 2006

O AMOR (À FLOR DA PELE)

Só quem nunca se apaixonou por alguém duvida da existência do amor.
Sim, é possível acontecer.
Quem nunca recebeu amor não pode dar amor. Não sabe o que é o amor.
Quem dele só recebeu migalhas e restos, duvida da sua existência, desconfia da sua música, não crê nas suas palavras.
Quem o teve e o perdeu, vive na eterna nostalgia, na procura do afecto perdido. Mas essa busca é feita num registo infantil: não se cresce, não se desenvolve, não floresce em amor maduro. É um amor possessivo, egoísta, aglutinador.

As pessoas receiam queimar-se nas chamas do amor. A paixão assusta pelo que tem de impulso, de desejo de se fundir no outro. Mas se a estrutura da casa é sólida, não se afundará. Antes sairá fortalecida desse encontro: com uma nova energia e vitalidade.

Porque sem amor a vida não faz sentido.

Porque a paixão é o verdadeiro motor da nossa vontade, da nossa corporalidade, da nossa sensibilidade.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

ILUSÃO

Acho que a paixão é uma ilusão, no sentido de que raramente é pela pessoa real que está ali que nos apaixonamos - e sim por uma construção nossa, idealização, fantasia. (Utopia?)

Aliás, nós não nos apaixonamos só por pessoas - apaixonamo-nos por coisas, por ideais, por causas, por grupos, por ideias, por projectos, por lugares, por imagens, enfim, por uma infinidade de situações que nos despertem uma emoção fortíssima. E, aqui também, raramente é pela coisa em si que nos apaixonamos - e sim por toda a elaboração que fazemos dela, a construção de que falava há pouco - aquilo que o nosso olhar empresta às coisas, aquilo que é nosso e que assim ilumina e transforma a realidade.

É claro que depois do impacto da paixão vem a estalada da realidade. Estalada porque pode ser de uma forma brusca que nos apercebemos de repente da outra face daquilo (ou daquele) por que nos apaixonámos. Mas também pode ser um processo gradual (e demorado). Mas raramente é um processo pacífico. E raramente chega ao fim. (Ou melhor, quando chega ao fim acho que a paixão acaba).

Porque se nos pudéssemos despir (e despir o outro) de toda esta imagem fantasiosa, se pudéssemos dissecar com o olhar, como um cirurgião, o corpo da nossa paixão, tirar-lhe o invólucro da ilusão, como quem desembrulha ansiosamente e com rasgões definitivos um embrulho de Natal - se pudéssemos assim despojar-nos de toda a idealização, que graça teria o mundo?

Será que nos apaixonaríamos por alguma coisa (ou por alguém) se realmente fossemos capazes de ver o outro (e o mundo) tal qual ele é, na realidade crua, objectiva, concreta?

E que olho humano conseguiria tal proeza?

É que esta capacidade de ilusão (fantasia, idealização, transcendência) é aquilo que nos torna humanos e únicos uns para os outros - que nos emociona, nos engrandece e nos elege.

segunda-feira, setembro 19, 2005

O AMOR E O CIÚME

E isto leva-nos ao ciúme, um dos sentimentos mais fora de moda do nosso século. Hoje em dia é antiquado ter ciúmes, as pessoas negam-no e escondem-no, têm vergonha de demonstrá-lo. Como se toda a gente não os sentisse.

Aqui tenho de abrir um parêntesis. Porque se calhar há mesmo quem não os sinta ou se convença disso. Mas olhem, para mim não sentir ciúmes é a mesma coisa que não sentir frio, ou fome, ou sede. E mais. O ciúme é um sentimento normalíssimo, humano, e até indispensável e fundamental no nosso crescimento e desenvolvimento enquanto pessoas.

O ciúme é secundário ao amor, sentimos ciúme em relação a alguém que amamos. Mas o ciúme é mais do que o medo de ser abandonado ou a antecipação da dor da perda: surge quando vemos a pessoa que amamos dar o amor que achamos que deveria ser nosso a outra pessoa. Ficamos com ciúmes do outro porque queríamos ser nós a receber o amor daquela pessoa, queríamos estar no seu lugar. O ciúme pressupõe sempre a existência de um terceiro. Um triângulo, portanto.

Quando nascemos ainda não sentimos ciúmes porque ainda não distinguimos as outras pessoas de nós. O bebé recém-nascido vive na ilusão de que a mãe ou a pessoa que cuida dele faz parte de si mesmo. A mãe existe só para ele, é só dele, e dá-lhe todo o seu amor e o seu alimento. A mãe é um prolongamento de si mesmo e funciona como um continente onde ele pode habitar, sonhar, sentir-se seguro e protegido, crescer. Esta ilusão é fundamental, pois é ela que nos permite sentir-nos especiais, únicos, amados incondicionalmente, apreciados e eleitos. E é uma ilusão, mas não é uma mentira, pois é uma ilusão partilhada e sentida pela mãe e pelo bebé. Também a mãe participa e habita nesta ilusão: ela sente um amor incondicional pelo seu bebé, sente que ele é o centro da sua vida, que seria capaz de morrer por ele, e que ele é o mais lindo e o mais querido do mundo. E essa é a verdade para cada mãe.

É claro que certas circunstâncias da vida da mãe, como por exemplo uma depressão pós-parto, podem interferir seriamente neste espaço de ilusão e troca de emoções. Por isso se diz, em Saúde Mental, que a patologia materna pode afectar o desenvolvimento do bebé, porque pode privá-lo de viver experiências fundamentais à formação da sua personalidade.

É no contexto desta ilusão que surgem os primórdios do ciúme. Porque de facto a mãe não vive só para o bebé, esta é a realidade. E esta realidade vai-se imiscuindo naquela relação a dois. O que o bebé sente é que há alguma coisa ou alguém que o impede de desfrutar da presença constante da mãe. Há alguma coisa que lhe rouba a mãe. E protesta.

Depois, mais tarde, ele vai perceber que não é o único receptor do amor da mãe e do pai. Aqui ele já se relaciona com as pessoas separadamente, mas sempre num registo a dois. O ciúme irrompe em força quando ele percebe que os pais também têm uma relação entre si, da qual ele está excluído. Ele percebe então que a mãe, além de o amar a ele, também ama o pai, e que com o pai acontece a mesma coisa. Ou seja, ele não é o centro do afecto das pessoas que ama. É esta vivência dolorosa de desilusão (porque de facto ele vivia na ilusão) que gera o ciúme.

Vivência dolorosa mas fundamental e imprescindível para o crescimento. Se ficássemos eternamente no registo da ilusão nunca daríamos o salto para a vivênciade um amor adolescente e mais tarde adulto. Aprender a viver a três, ou seja, a gerir e diferenciar os afectos, e a vivê-los na sua plenitude, é indispensável ao nosso amadurecimento como pessoas.

E as situações de ciúme multiplicam-se pela vida fora, se olharmos à nossa volta: a relação entre os pais, a vinda de um irmão, a preferência do nosso irmão por um primo ou uma prima, enfim, todas as situações em que nos sentimos preteridos em favor de outro. E quem disse que entre amigos não há ciúmes? Se há! Não se lembram daquela sensação de tristeza quando o nosso melhor amigo elegia outro melhor amigo e nós éramos passados à categoria de amigo comum? Vá lá, olhem para a vossa infância. Com olhos de ver.

Até os animais sentem ciúmes! Já experimentaram fazer uma surpresa ao vosso gato de estimação, e aparecer lá em casa com um gatinho bebé ao colo? Tadinho do bichinho... Pois é, até eles sentem. Como queremos nós não sentir?

É a vivência do ciúme que nos permite sentir, de novo, únicos e especiais, mas desta vez já sem ilusão. Porque o que nos faz sentir-nos amados, agora que já não somos bebés, é a consciência de que a pessoa amada também ama outros, muitos outros, mas escolheu-nos a nós. Nós somos especiais e fomos eleitos. E o facto de amar outros não significa que diminua o amor que tem por nós. É isso que a criança precisa de sentir em relação aos pais. Que, apesar do amor entre eles, e do amor que cada pai dedica a outros irmãos, ela é amada com a mesma intensidade, por aquilo que é. No fundo, que o amor dos pais por ela não perdeu qualidade. E que ela continua a ser especial e única para cada um.

É claro que há ciúmes exagerados, até patológicos. Que em vez de estimularem uma relação e de lhe dar um abanãozinho de vez em quando, antes a ensombram com uma espécie de mania da perseguição. O nosso amado ou amada não pode olhar para outra pessoa na rua, ou na televisão, não pode falar nem relacionar-se com alguém do sexo oposto, que nós sentimos logo a facada da traição na garganta. E não é um medo, é quase uma certeza macabra. Pois é. Acho que neste caso o melhor é procurar ajuda. E esta pode ser a herança legada por uma ilusão mal vivida, lá atrás. É verdade. Porque quem nunca se sentiu de facto único, especial, quem nunca sentiu que a pessoa amada é só nossa e de mais ninguém, quem nunca se sentiu o centro do afecto e do amor da mãe enquanto bebé, dificilmente se sentirá especial e eleito mais tarde. Porque a necessidade de nos sentirmos amados incondicionalmente e que o nosso amado só tenha olhos para nós é uma necessidade infantil, que tem de ser vivida na altura certa. Como adultos não precisamos que o nosso amor só tenha olhos para nós, não senhor. Aliás, se só tivesse olhos para nós, não nos poderia ter escolhido de entre todos os outros.

Como adultos, o que nos une é o amor, mas o amor não é uma coisa que se possua. Há muita gente que sente assim, e mal para eles. Têm um carro, e uma casa, e muitas coisas mais, e têm também uma mulher ou um marido. Mas as relações não se podem ter e arrumar na prateleira ou pôr a enfeitar a casa como um bibelôt ou uma jarra de flores. O amor é um ser vivo que precisa de ser alimentado, mimado e cuidado, senão morre, como qualquer ser vivo. O amor não se compra nem se possui, sente-se, e partilha-se, e cresce, e floresce, e aquece-nos e dá-nos a magia e o sentido da vida. E é eterno, sim, enquanto dura. Não há segredos para durar menos ou mais, ou melhor, o segredo está em não nos esquecermos de alimentá-lo, de regá-lo todos os dias, de o deixar ao sol e à chuva como as plantas, e protegê-lo de ventos fortes e tempestades e bátegas. E, quem sabe, um dia ele cresce e cria raízes, e ergue-se em tronco e ramos e folhas largas que dão sombra e flores de perfumes súbitos. E pode viver centenas de anos, sim, como algumas árvores.

domingo, setembro 18, 2005

A PROPÓSITO DA TRAIÇÃO

Aqui há uns tempos largos vi um programa de televisão aí em Portugal, do qual não me recordo o nome, em que umas quatro ou cinco mulheres jovens, bonitas e famosas eram entrevistadas, e a dada altura a conversa ia parar ao tema controverso da traição e fidelidade. Uma delas dizia, e as outras aprovavam, que não se importava que o companheiro lhe fosse infiel, desde este não tivesse o despudor de lho confessar. Achava ela que, caso ele não resistisse a uma violenta atracção física ou a uma súbita e incontrolável descarga de hormonas, era preferível que sucumbisse ao desejo avassalador e passageiro, e arrumar o assunto, do que resistir ao impulso e ficar a pensar na outra pessoa quando estivesse com ela (namorada). Mas, claro, que ele fosse sábio o suficiente para não lhe contar nada, porque caso tomasse conhecimento do caso, achava que não reagiria muito bem. Pode dizer-se que aqui o provérbio ganha força, longe da vista, longe do coração.

Eu acho que estas coisas das traições e das fidelidades são assuntos muito privados e cada um deve ser fiel àquilo que sente. Por isso vou apenas restringir-me à minha opinião pessoal acerca do caso. Eu acho que atracções físicas e descargas hormonais acontecem a toda a gente, a toda a hora, basta irmos na rua e termos os olhos abertos e os sentidos despertos. Quando vamos na rua passam por nós uma infinidade de gajos bons e gajas boas, que nos fazem saltar mais ou menos as hormonas. Mas não vamos a correr enfiar-nos com ele ou ela na cama. Nos nossos relacionamentos pessoais e profissionais também pode acontecer que contactemos com alguém que nos toca nalgum nervo sensível, ou que achamos particularmente atraente, e que mais uma vez nos põe as hormonas em mais ou menos alvoroço. Mas, se temos uma relação com alguém importante para nós, conseguimos controlar perfeitamente a situação, principalmente se não passar disso mesmo, uma simples atracção física ou um pico de hormonas. Aliás, deixar que as hormonas estraguem uma relação duradoura e importante é um sinal redondo de estupidez. Não, decididamente não serão só as hormonas nem as atracções físicas que fazem com que uma pessoa parta para a infidelidade.

A mim o que me parece é que as pessoas não dão largas à fantasia, e por isso precisam de passar ao acto, ou seja, ser infiel. Pois não dizia a moça que preferia que o namorado fosse para a cama com a outra e não pensasse mais no assunto do que vir para o pé dela, a namorada, com a cabeça na outra? Pois olhem, eu cá digo o contrário: eu prefiro que o meu marido esteja comigo a pensar no par de mamas com quem se cruzou ontem na rua em vez de ir para a cama com o par de mamas! Qual é o problema de ficar a pensar num par de mamas, ou numa cara, ou nuns olhos, ou nuns braços, ou num tronco, ou nuns músculos, ou numas pernas que nos dispararam a fantasia? Isso não acontece com toda a gente? No post aterior escrevi que a fantasia é o reino onde se pode fazer tudo e ser tudo aquilo que não nos atrevemos na realidade, e isto vinha a propósito das brincadeiras das crianças, mas para aqui também serve. Na fantasia podemos ser tudo o que ousamos e fazer tudo o que não ousamos. Como dizem os brasileiros, podemos trepar com homem, mulher, criança, cachorro, gato, garrafa, avião, pico do Everest... (:D) Na fantasia não há perversão, aliás, a perversão resulta precisamente da impossibilidade de experimentar o prazer pela fantasia, restringindo-o ao acto em si. O perverso só consegue vir-se através da concretização da fantasia, e por isso ele é prisioneiro da funcionalidade do acto. Isto não é nenhum juízo de valor, tenho o maior respeito pelas perversões de cada um, desde que não interfiram com a dignidade e a liberdade de terceiros!

Todos nós temos total liberdade de imaginar e fantasiar. Todos nós temos fantasias e desejos secretos que não partilhamos com ninguém. Todos nós tecemos fantasias que sabemos que nunca se irão concretizar. A nossa fantasia é a nossa intimidade, o nosso mundo privado, o nosso quarto secreto, o nosso tapete voador que nos pode levar para mundos mágicos e distantes, o nosso poço de desejos inconfessados. No nosso imaginário sensual cabem também todas as sensações que o rabo do vizinho ou as coxas da empregada ou os olhos da secretária ou a boca do homem do talho nos despertam, e isso não abafa as sensações que o corpo real do nosso amado ou da nossa amada nos provocam, porque sabemos muito bem e sentimo-lo na pele que é aquele corpo e aquela pessoa que elegemos entre todas, porque é aquele ou aquela que amamos, uma pessoa completa, e não as suas mamas ou o seu rabo ou as suas pernas. Partes do corpo só despertam fantasias, nunca paixões.