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segunda-feira, janeiro 25, 2016

Estou grávida de um livro

Vai fazer dezassete anos em Julho, encontrava-me eu no final da gravidez do meu primeiro filho. Os dias eram longos e quentes. Todas as manhãs, depois do banho, ficava largos minutos sentada na beira da cama, nua, já seca, passando creme na pele. Aproveitava para massajar a barriga e quedar-me num silêncio onde tentava vislumbrar o momento em que finalmente seguraria o meu bebé nos braços. Hoje sei que esse silêncio era preenchido pelas palavras que dizia ao meu filho. Há muitas ideias feitas sobre a gravidez e uma delas é a de que as grávidas falam constantemente com os seus bebés. Nessa altura achava que eu devia ser a excepção, mas agora compreendo que não, que para se escutar um filho no ventre é exigido silêncio absoluto. E sem escuta não há verdadeira conversa.
Nesse silêncio eu dialogava com o futuro. Eu via. Imaginava. E, naquele segundo, ansiava por ficar dentro daquela espera, que era uma espécie de redoma, de gravidez do avesso (estava grávida de mim, em simultâneo; grávida da minha maternidade); desejava ficar dentro desse útero para sempre. Uma languidez, uma preguiça apoderava-se da minha consciência; eu queria sonhar, fechar os olhos e não mais pensar; queria deter-me a um passo de acordar, mergulhada no lago morno da minha imaginação; sentir o meu filho nadando dentro do meu ventre e saber que ali, no âmago de mim, estavam todas as possibilidades por nascer. Todos os dias, tardes, manhãs por estrear. A vida em rebento. Um mundo por descobrir. Desbravar. E saber de antemão que desbravá-lo, tocá-lo, cheirá-lo, conhecê-lo de facto, ainda que acima de tudo o mais desejado e antecipado, representa um prenúncio de desilusão. Porque na imaginação cabe tudo o que sobra na realidade. Aquilo que ainda não é contém a promessa do que nunca será. Porque a vida, a terra, o mar, o vento, as tempestades, desgastam. Deixam marca. Erosão. A liberdade que mora na inexistência é, porventura, a única e verdadeira: porque só aí nos reinventamos, recriamos, transcendemos.

Os filhos, no entanto, acabam por nascer. Os livros também. Não aqueles com que sonhámos; nunca esses. Perdemos essa liberdade, sem dúvida: a de imaginar um futuro. A de criar uma vida. Não somos nós, porém, que criamos a vida, é a vida que nos cria. Quando trazemos a criança à luz estamos a entregá-la à vida. Dentro da nossa barriga ela pertence à vida que lhe damos com o nosso sangue: o amor. Fora de nós, pertence à mesma vida que nos fez, que nos trouxe até aqui. E, por conseguinte, o destino dessa viagem deixa de nos pertencer. Serão eles a encontrar o caminho. Quanto aos livros, o caminho é já o fim de uma viagem. As dores de parto começam assim que escrevemos a primeira palavra.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Livros escolares? O que é isso?




Em Inglaterra, nas escolas primárias, não há livros escolares. As salas de aula estão cheias de livros: contos e rimas infantis, estórias com e sem ilustrações. Há-os em toda a parte, desde a creche ao sexto ano, devidamente adaptados à idade das crianças. Depois cada escola tem a sua biblioteca. Só encontramos livros escolares na escola secundária. Estes, no entanto, são propriedade da escola, e transitam de ano para ano, passando de mão em mão, entre os alunos.

Deste modo, é possível um percurso escolar sem gastos em livros. Com o material passa-se a mesma coisa: as salas estão repletas de gavetas cheias de tudo o que é necessário. Tesoura, cola, tintas, pincéis, papel, canetas, lápis, borrachas, afias, réguas, esquadros, compassos, transferidores, sólidos geométricos, papéis de fantasia para corte e colagem, jogos variados destinados a auxiliar a aprendizagem, tudo o que possam imaginar, está na escola. Os livros auxiliares são disponibilizados em fotocópias, e cada criança tem um caderninho de merceeiro, chamado «homework book», onde o trabalho de casa é anotado e feito.


Também não se fazem ditados para contar os erros. Fazem-se livros: primeiro escreve-se a estória, depois monta-se a estrutura: páginas, desenhos, lombada, capa, tudo cuidadosamente colado e cosido. Os mais novos controem livros em 3d, cujas páginas se transformam nas paredes de uma casa ou de um castelo; paredes cheias de desenhos de todas as cores e palavras ainda incertas, letras em espelho e muitos erros. Mas esses não se assinalam a vermelho, porque fazem parte do caminho da aprendizagem, e o mais importante é que a casa tenha bons alicerces. As crianças aprendem quando a sua capacidade de criar é valorizada. Quando vêem os seus trabalhos expostos e apreciados, ao lado do orgulho que a escola lhes alimenta nesse gesto. Quando os agentes educativos não têm medo de elogiar, não vão os miúdos ficar convencidos de que a vida é um mar de rosas. A vida é um mar que se conquista navegando.

domingo, novembro 03, 2013

Leituras





Que Importa a Fúria do Mar

Ana Margarida de Carvalho








Este livro não se devora; e não se devora porque precisa de ser digerido com vagar, com tempo para saborear e ruminar; com tempo para parar e voltar atrás e ler de novo, seja porque a beleza da descrição nos faz querer beber lentamente e ao minuto cada palavra, ou porque a acidez de algumas passagens nos arde na boca do estômago, ou talvez ainda porque as lágrimas nos inundam os olhos de pura comoção e a vista se nos turva. É um livro que não se lê; sente-se. Ouve-se. Cheira-se. Entranha-se. E quando damos por nós estamos lá dentro. No meio do campo, a ouvir os sons da bicharada; aos solavancos no comboio, ao lado de Joaquim, naquela viagem infernal a caminho da incerteza; no olhar entediado de Eugénia, contando as moscas, procurando evadir-se, sem nunca repousar, sempre ausente e perdido entre os seus abismos e o mundo, o passado e as memórias; e depois, finalmente, apaixonado, deslumbrado, amedrontado, extasiado, tudo ao mesmo tempo, que quando dá por ela e já não consegue domar nem dominar os sentimentos que lhe brotam ao desbarato dos poros. Na frigideira no Tarrafal, em morte lenta, abafada, asfixiada; no mar lodoso de algas moribundas até à cintura, e no alívio das feridas ardendo na água salgada; na fúria do mar que amaldiçoa quem o ousa abandonar com o cheiro putrefacto das coisas mortas. Este livro tem vida e apodera-se de nós e quando damos por isso já não há nada a fazer, recusamos acordar do sonho e ficamos parados naquele segundo eterno em que os olhos se perdem no azul do mar, lá ao fundo, ao virar da última página; e é na nossa cara que o vento bate de chofre, no embalo da corrida até à última palavra, mar, numa promessa de eternidade.

quinta-feira, junho 09, 2011

A esperança






















Movemo-nos numa noite escura. Os passos frágeis, à flor da escuridão. O ar irrespirável. Sobrevivemos, e não queremos crer nessa possibilidade. À nossa volta, o cenário esmagador da realidade, da destruição extrema. Percebe-se que aconteceu uma catástrofe nuclear a nível global; porém, os pormenores, os detalhes de tal cenário escasseiam. Apenas a geografia familiar completamente esventrada, exposta na sua estranha crueldade, uma crueza esmagadora. A minha leitura é a de que este cenário é apenas isso: um cenário, um pano de fundo, porque esta viagem é essencialmente interna. Os recantos cheios de sombras, a derrocada, os cadáveres dos edifícios, as bocas de esgoto a deitar por fora, o lixo, o cheiros, o arrepio do medo, estão cá dentro, dentro de cada um de nós, dentro de quem sobrevive todos os dias, e nessa busca desesperada volta à dimensão física, animal, da existência. Porque é no corpo e nas suas necessidades que tudo começa e acaba. É o corpo que é real, e, paradoxalmente, só o compreendemos quando o perdemos ou quando ficamos reduzidos a ele.

A luta pela sobrevivência é assim, passo a passo, segundo a segundo, pulsação a pulsação. É um tempo onde nos movemos sem rumo, sem saber a direcção, sem saber nada. E não há ninguém para perguntar o caminho, ao contrário da parábola da existência da boca e da consequente chegada a roma. É um caminho interno e solitário. Uma luta renhida pela lucidez, que começa nos gestos mais banais. E, ao mesmo tempo, o desespero de preservar a memória. Sem ela morremos de facto. Para um sobrevivente, a morte pode ser um consolo, quase um alívio. Para um sobrevivente, cada movimento dói, uma chaga permanente chamada vida. Mas, em lugar de se render ao abraço da morte, da desistência, ele continua em frente, teimoso, raivoso, numa obstinação que tem tanto de desespero como de instintivo. O animal, a fera em acção. A vida, que afinal se conquista, a deitar as garras de fora.

Percebemos, assim, que o mundo está cheio deles. Sobreviventes. Antes ou depois do acidente, pouco importa. Afinal, o acidente apenas veio definir, exteriorizar, uma catástrofe que se desenhava há muito no horizonte, um cataclismo secular, um poço sem fundo, uma tragédia planetária, que sempre nos acompanhou na vida privada. Agora é posta cá fora, no rosto do mundo. Podemos então olhá-la de outros prismas, conhecê-la, interpretá-la. Não com raciocínios, mas com as emoções à flor da pele. Vemos a busca do sentido. Da memória. Dos livros. Os livros que contam estórias e fazem história. As pessoas de outrora, os amigos, pequenos deuses distantes no paraíso de outra vida, que antes de ser outra era o inferno de todos os dias. O preto transforma-se em branco e o branco em cinzento. Todavia, temos mãos, temos tintas e pincéis, que ficaram da outra vida. É só pegar neles e pintar. A criança que se encontra e nos devolve tudo, de uma assentada, tudo aquilo que julgáramos perdido, tudo o que já não acreditávamos ser possível. Com ela vemos o mundo como se fosse a primeira vez; a destruição passa a ser o cenário primeiro, o ponto de partida; e como mostrar o passado, o que foi destruído, como trazê-lo para o presente, como oferecê-lo às novas gerações? E de súbito, percebemos que o cenário mudou. Abriu-se uma porta, apareceu uma luz, não temos a certeza. O cenário ainda são as ruínas; porém, tudo está diferente. As pessoas falam (as mesmas que antes não falavam, e eram apenas sombras passando ao longe), trocam sorrisos e palavras, trocam coisas; coisas simples, pequenos objectos, e coisas maiores, alegrias, tristezas, estados de alma, e juntas descobrem o poder da partilha, de construir algo em comum. Como se fosse a primeira vez. Assistimos ao renascimento do mundo, da vida, como se a vida fosse uma coisa abstracta, exterior, uma língua estrangeira que precisamos de aprender a decifrar. Experimentamos os sentimentos básicos dessa vida, como quem prova colheres tímidas de sabores desconhecidos: o amor, a amizade, a mulher, o homem, uma criança, um filho, a morte, a raiva, a agressividade, a luta, a coragem, a partilha, o egoísmo, a solidão, a solidariedade, a cumplicidade. O medo, esse, é aquele que já conhecemos de cor, de tanto lhe calçar os sapatos e calcorrear os caminhos. O medo, esse animal que se esconde na toca, encolhido, assustado, e que, ao sentir-se encurralado, se pode tornar gregário, primeiro por desespero, por não ter para onde fugir; depois, e ao perceber, pela primeira vez, um medo igualzinho ao seu no rosto estranho que o olha. E assim nasce aquela flor frágil chamada esperança.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

And another bit




Alexander McCall Smith, Blue Shoes and Hapiness










"She closed her eyes. Is was easier to be strong, she thought, if one had one's eyes closed; although that would only work to a limited extent. One could not go around indefinitely with one's eyes closed, especially if one was a detective. Quite apart from anything else, that was in direct contradiction of the advice which Clovis Andersen gave in The Principles of Private Detection, one chapter of which was entitled: "The Importance of Keeping  Your Eyes Open." Had Clovis Andersen ever been on a diet?"

domingo, fevereiro 06, 2011

A bit of the taste




Alexander McCall Smith, In the Company of Cheerful Ladies









"(...) What attracted men? Good looks? Certainly if a girl was pretty then she tended to get the attention of men; that was beyond any doubt at all. But it was not just prettiness that mattered, because there were many girls who did not look anything special but who seemed to find no difficulty in making men notice them. These girls dressed in a very careful way; they knew which colours appealed to men (red, and other bright colours; men were like cattle in  that respect) and they knew how to walk and sit down in a way which would make men sit up and take notice. The walk was important: it should not be a simple walk, with one leg going forward, to be followed by the other; no, the legs had to bend and twist a bit, almost as if one was thinking of walking in a circle. And then there was the delicate issue of what to do with one's bottom while one was walking. Some people thought that one could just leave one's bottom to follow one when one was walking. Not so. A mere glance at any glamorous girl would show that the bottom had to be more involved."

terça-feira, janeiro 25, 2011

Ó editores, andam a dormir?








Alexander McCall Smith, The Nº 1 Ladies Detective Agency series

  

Esta coleção é divertidíssima e a sua leitura torna-se compulsiva, uma vez iniciada. Com uma escrita surpreendentemente simples e um ritmo muito próprio, quase que somos embalados pela música das palavras e dos cenários e enredos que se vão desenrolando, uns atrás dos outros, num encadeamento onde o mais refinado humor dá um ar da sua graça. Uma das características da escrita deste autor, que quanto a mim é um traço de génio, porque se não fosse bem conseguida tornar-se-ia uma maçada, é a repetição. A páginas tantas apercebemo-nos de que já lemos aquela ideia, naquelas mesmas palavras, ou aquela sequência, naquela mesma cadência. Estas repetições, porém, ao contrário do que se poderia esperar, não tornam a leitura repetitiva nem cansativa; fazem antes parte dela, conferindo-lhe um ritmo e uma musicalidade muito próprias, um ritmo que nos faz dançar, ou caminhar, às voltas, tornando aos mesmos lugares, às mesmas frases, aos mesmos vocábulos. O conteúdo das estórias é igualmente simples, descrito em pinceladas vulgares, onde podemos encontrar, justamente, aquela raridade e aquela complexidade que se esconde, quase sempre, por detrás das coisas mais banais da vida.

Não percebo porque é que este autor está tão pouco traduzido para português. Ainda menos que desta série só me tenham chegado os três primeiros títulos em português, na pesquisa que fiz no site da Fnac. É caso para dizer: senhores editores, estão todos a dormir?

domingo, outubro 03, 2010

Milagres



















As palavras, na verdade, não nos pertencem. Reproduzem-se e reinventam-se à nossa revelia, ainda que, teimosos, as desejemos eternas e imutáveis. Nós, contudo, podemos, em certas alturas, ascender à categoria de Deuses; inventá-las, recriá-las, e até oferecê-las, como quem oferece um presente. A mais bela dádiva de Amor. Amar é o Milagre que nos torna donos delas, das palavras, e do mundo à nossa volta. Muito bonito, este Milagrário.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Desabafo de uma leitora frustrada

É o Livro do Peixoto, é o Milagrário do Agualusa, é o Inverno do Tordo, é o Testamento do Sousa, e agora acabo de ver mais um, a Marina do Záfon. Caramba, tinham todos de sair assim de enfiada? E eu aqui, à espera, sem poder chegar-lhes...

sexta-feira, agosto 20, 2010

A escrita sem palavras













Li, quando estive aí, a entrevista que o Mia Couto deu à Ler já há alguns meses, e fiquei admirada com uma coisa que ele disse, porque nunca tal me tinha passado pela cabeça. A alturas tantas ele sugere que terá feito qualquer coisa como um esforço consciente para se livrar do estigma de ser apenas "aquele tipo que inventa umas palavras" (não terá sido assim que ele disse, mas a ideia era esta). Quis mostrar para si mesmo, mais do que para os outros, que a sua escrita era mais que isso, e que os neologismos que a caracterizam não a determinam nem sequer são a sua marca predominante. Isto vinha na sequência da ideia de que muita gente, de facto, o vê, e vê a sua escrita, dessa forma, isto é, ter-se-à formado, na cabeça de algumas pessoas, a imagem do Mia, como escritor, apenas como aquele tipo que escreve bem porque inventa umas palavras bonitas e tal. O inventar palavras seria assim encarado como um artifício, um malabarismo, um truque de magia que atravessa os seus livros e a arte da sua escrita, e sem o qual esta não seria a mesma.
O que me surpreendeu não foi tanto o facto de ele, como escritor, sentir necessidade de romper com esta imagem, de desafiá-la, de a pôr em causa; foi mais o facto de tal ideia jamais me ter passado pela cabeça. Desde que comecei a ler os seus livros, há umas boas duas décadas, que a sua escrita me encantou de tal maneira que arrisco a dizer que não há outro escritor como ele no mundo inteiro; apesar de todas as influências óbvias e menos óbvias, de Guimarães Rosa a Luandino Vieira, a escrita do Mia é inconfundível e tem uma identidade própria muito forte, que se desenha imeditamente na cabeça do leitor, logo às primeiras linhas. Nunca me passou pela cabeça que a qualidade e a magia dessa escrita se devesse às tais palavras inventadas. Não vou dizer que os neologismos não são uma marca importante dela; claro que são, e isso também fica logo claro às primeiras linhas que lemos. Mas os neologismos são parte dessa escrita que nos maravilha, como um braço faz parte de um corpo, como os peixes nadam na água, como as nuvens estão no céu. Para mim não existe a escrita ou o estilo do Mia, por um lado, e o facto de inventar palavras, por outro. São uma e a mesma coisa. Porque não é apenas palavras que ele inventa, na minha opinião. Ele inventa um outro modo de olhar o mundo, ele inventa toda uma geografia de sensações, de olhares, de texturas, de superfícies, de esquinas, de arestas e de sentires; em suma, ele inventa todo um universo, que afinal é apenas aquele modo de o olhar, aquele modo de o vestir, ou de o pintar, com palavras inventadas, sim; mas essas novas palavras estariam lá na mesma, ainda que ele não as escrevesse. Porque não são as palavras, por si só, que definem uma escrita, assim como um todo não se define apenas pela soma das suas partes. As palavras, mais do que meros tijolos ou ferramentas de escrita, são portas abertas para outros modos de olhar e ver, e nesse sentido, são sempre novas. O que Mia nos dá nos seus neologismos não é um artifício, ou um passe de mágica, ou um truque para nos iludir; o que ele nos dá é o mesmo que toda a sua escrita nos dá: a magia e a simplicidade de um olhar sobre as coisas mais simples e ao mesmo tempo mais complexas; a capacidade de descobrir a beleza, mesmo no horror; aquele modo com que os poetas teimam em não deixar de ver o lado belo de tudo à sua volta, e de partir em busca dele, ainda que para isso tenham de passar horas  apanhando pedrinhas do chão, tal e qual como o seu pai fazia, conta-nos ele, não nesta entrevista, mas numa conversa que vi algures num vídeo no youtube. Para muita gente os poetas são uma raça à parte, muito engravatados e muito cinzentos, muito sérios, a maioria deprimida ou à beira do suicídio, que escrevem sem cessar versos intermináveis cheios de palavras esdrúxulas, obtusas, disformes, ligeiramente opacas e com aquela luminosidade escura das criaturas marinhas que vivem escondidas nas profundezas dos oceanos; sempre com as rimas e as métricas certinhas, e as tónicas no lugar. Os poetas, no entanto, são apenas pessoas simples, que de fora do comum possuem tão só aquela forma peculiar de olhar o mundo e procurar as tais pedrinhas, que até podem ser uns calhaus baços e sem graça, mas que nas suas mãos, ou nos seus olhos (ou nas suas palavras) adquirem um brilho novo. A poesia talvez seja, assim, a característica mais distinta da escrita do Mia. Poesia onde habitam todas as palavras, as inventadas e as por inventar. Não são as palavras que fazem a escrita, é a escrita (que é muito mais que o acto de escrever) que cria as palavras, que as veste, que lhes dá significado e tudo aquilo que elas transportam. A palavra é o território da escrita, sim, mas não um território demarcado e absoluto; no fundo as palavras são sementes que o escritor lança à terra, para que germinem. Não são estanques nem definitivas; são antes mutantes, ágeis, esvoaçantes. Ainda que o Mia escreva um livro sem uma única palavra inventada, elas, as palavras inventadas, estarão lá, talvez invisíveis a olho nu, apenas miragens nas entrelinhas, naquele espaço sem palavras, na folha em branco onde todo o escritor finge que escreve, quando afinal apenas traça um esboço, ainda que tosco, daquilo que crê ver do mundo, de si e dos outros.

terça-feira, junho 08, 2010

CHERUB

O meu filho anda entusiasmadíssimo a ler os livros da CHERUB. Eu também, diga-se de passagem. Gosto de ler livros juvenis, e em inglês junto o útil ao agradável. Hoje ele comentava que "Mr. Large ir really mean..." Eu aproveitei para dizer-lhe que acho a forma como tratam os miúdos inaceitável. Ele, apesar do inaceitável aos meus olhos, gostaria de andar numa escola assim. Claro, penso com os meus botões, qual não é o miúdo da idade dele que não deseja ver-se envolvido numa excitante empreitada, ainda para mais espionagem, a brincadeira preferida de todos eles...
Falando a sério, e porque acho que os livros, apesar de ficção, têm também muito de realidade (a realidade da imaginação é talvez aquela que se aproxima mais da verdade, seja lá o que isso for), a ideia de crianças espiando criminosos é atraente e faz-me sorrir... Talvez aquela parte de mim ainda meio criança, meio adolescente, que deseja fazer justiça a todo o custo. Crianças espiando antigos oficiais e generais alemães, durante a segunda grande guerra, e ajudando a derrubar o nazismo, quase que me traz uma gargalhada à garganta... E novamente aquele sentimento juvenil e tão pueril da justiça. Bom. Apesar do sorriso (e talvez por causa dele), tudo isto, todos estes sentimentos ingénuos (chamemos-lhe assim) são para mim um sinal de alarme. Porque roubar a infância a uma criança é sempre um ato abjeto, seja lá com a desculpa que for. Seja para espiar nazis, traficantes de droga, terroristas, o diabo a quatro. As crianças têm direito a ser crianças ponto final. "But it's their choice, and they can quit when they want", dizia-me o meu filho. Sim, filho, é verdade, mas como posso explicar-te, a ti que tens 10 anos, que aos 10 anos nenhuma criança está apta a tomar uma decisão dessas, com consciência e em perfeito poder de uma vontade autónoma? Está claro que aquelas crianças não são umas crianças quaisquer. Órfãos, algumas abandonadas pelos pais, ou retitadas aos pais, a maior parte vítimas de maus tratos, abusos de toda a ordem, que acabam em instituições ou casas de correção, e são depois recrutadas em segredo para engrossar as fileiras deste exército de jovens espiões. Condenadas a uma vida de violência e crime, detenções sucessivas, marginalidade, enfim, o pior dos cenários. Uma vida de miséria em troca de outra, de reconhecimento, em que as mesmas crianças que de outra forma talvez acabassem com uma facada ou um tiro na cabeça numa esquina qualquer são usadas como agentes infiltrados na perseguição a criminosos de alta envergadura. A palavra é essa, usadas, e a infância fica-lhes no fundo de um poço, para onde é despejada sem remorso. O treino é uma sucessão de humilhações e maus tratos, tudo em nome da dureza de espírito que o seu novo papel requer. É melhor do que apodrecer numa prisão ou acabar com uma bala na cabeça ou uma overdose num beco escuro. Isto deveria, então, bastar para nos acalmar a consciência. A mim, porém, não basta.

(Na capa, há uma frase do Sunday Express que diz que oxalá tudo aquilo fosse realidade. Eu penso com os meus botões, ainda bem que é ficção. Pensar que poderia ser verdade faz-me arrepios e traz-me à cabeça imagens de crianças soldados em guerras reais, crianças talibãs empunhando metralhadoras em treinos marciais. A diferença não seria nenhuma.)

terça-feira, maio 18, 2010

Estou a gostar disto :-)

"Está a visualizar o WebJournal de blueeyedboy
Posted @ 17.39, segunda feira, 28 de Janeiro
Status: restrito
Mood: virtuoso
Listen to: Dire Staits: ‘Brothers In Arms’"

"O meu irmão morrera há menos de um minuto quando as notícias chegaram à minha página online. É mais ou menos o tempo que demora: seis ou sete segundos para filmar a cena com a câmara de um telemóvel, quarenta e cinco para fazer o upload para o YouTube, mais dez para enviar para todos os amigos via Twitter13:06 OMG! Acabei de testemunhar um terrível acidente de carro – e depois disso as resmas de mensagens a chegarem ao meu WebJournal; textos, e-mails, um não acabar de oh meu Deus.
Bem, podemos saltar a parte das condolências. O Nigel e eu odiámo-nos mutuamente desde o dia em que nascemos, e nada do que alguma vez fez, incluindo ir desta para melhor, poderá mudar o que sinto. No entanto, era o meu irmão, e não me custa nada usar de uma certa discrição, de modo a não ofender susceptibilidades. E a Ma deve estar muito perturbada, com toda a certeza, apesar de ele nunca ter sido o seu preferido. Mãe de três crianças, hoje apenas lhe resta um dos seus filhos. Sinceramente Teu, blueyedboy, agora a um passo da verdadeira solidão…
A polícia demorou o seu tempo, como é habitual. Quarenta minutos, de uma porta à outra. Ma estava lá em baixo, a fazer o almoço: costeletas de borrego com puré, e uma tarte para a sobremesa. Durante meses mal tinha comido, e de súbito poderia devorar pedras. Talvez precise da morte de um irmão para me abrir o apetite.
Segui a cena do interior do meu quarto: o carro da polícia lá fora; a campainha da porta; as vozes; o grito. O som de qualquer coisa, no vão do hall de entrada – a mesa do telefone, suponho  - empurrada com estrondo contra a parede, enquanto ela caía, amparada de cada lado pelos dois polícias, as mãos estendidas, na tentativa desesperada de agarrar qualquer coisa, e depois o cheiro a gordura queimada, provavelmente as costeletas de borrego esquecidas na grelha no momento em que abrira a porta.
Era a minha deixa. Desligar o computador, desligar-me da ficção e entrar na realidade. Arcar com as consequências. Por um momento considerei a hipótese de deixar um dos auriculares do ipod no ouvido. A Ma está tão acostumada a ver-me com eles que se calhar já nem nota; mas os dois polícias eram outra loiça, como é óbvio, e a última coisa que eu queria naquele momento era que alguém me achasse insensível…
- Oh, B. B., aconteceu uma coisa horrível…
A minha mãe tem queda para o melodrama. A face contorcida, os olhos arregalados, a boca escancarada, parecia a máscara de Medusa. Os braços estendidos, apontados na minha direcção, como uma catapulta pronta a deitar-me por terra, os dedos cravados nas minhas costas com a força de garras, a boca num uivo interminável junto ao meu ouvido direito – completamente à sua mercê sem a protecção do ipod – enquanto dos olhos corria um rio azul de lágrimas, por causa da maquilhagem, alagando-me a gola da camisa.
- Ma, por favor. – Detesto sujar-me.
A mulher polícia (há sempre uma) empenhou-se em confortá-la. O colega, um homem mais velho, deitou-me um olhar cansado, onde se lia uma infinita paciência, e disse:
- Sr. Winter, houve um acidente.
- Nigel? – perguntei.
- Receio que sim.
Contei mentalmente os segundos, ao mesmo tempo que reproduzia a introdução de “Brothers In Arms” na minha cabeça, Mark Knopfler na guitarra. Sabia que estava sob escrutínio, não podia dar-me ao luxo de um deslize que fosse. A música, porém, torna as coisas mais fáceis, reduzindo respostas emocionais inapropriadas e permitindo-me funcionar, se não de modo completamente normal, pelo menos sem defraudar expectativas.
- Eu sabia que alguma coisa tinha acontecido – acabei por dizer – tive um pressentimento muito estranho.
Ele acenou com a cabeça, como se entendesse o que eu queria dizer. Ma continuava aos gritos, onde a raiva se misturava com a dor. Já chega, Ma, pensei; afinal de contas nem se davam assim tão bem. Nigel era uma bomba relógio, mais tarde ou mais cedo aconteceria uma coisa destas. E acidentes de viação são tão comuns, hoje em dia. Tragicamente inevitáveis. Gelo na estrada, o trânsito infernal; quase se poderia dizer o crime perfeito, acima de todas as suspeitas. Pensei que talvez me caíssem bem algumas lágrimas, mas optei por alguma reserva. Sentei-me – tremendo visivelmente – e segurei a cabeça entre as mãos. É uma posição incómoda. Chega a doer. Sempre sofri de dores de cabeça, especialmente em momentos de stress. Imagina que é apenas ficção, blueyedboy. Uma das tuas histórias online.
Mais uma vez busquei conforto na minha playlist imaginária, onde os tambores tinham acabado de fazer a sua entrada, contrapondo a batida suave a um refrão de acordes de guitarra, as notas sucedendo-se umas às outras tão naturalmente que parecem provir de uma indolente ausência de esforço. Evidentemente, é apenas o que parece. Nada com uma precisão semelhante pode atingir-se gratuitamente. No entanto, Knopfler tem dedos longos, com uma curiosa forma de espátula. Nasceu sem dúvida para o instrumento, destinado desde o berço a manobrar as cordas ao longo do braço com uma excelência que se poderia dizer congénita. Se tivesse nascido com outras mãos, alguma vez teria pegado numa guitarra? Ou tentaria na mesma, sabendo de ante-mão que a sua performance seria sempre de segunda categoria?
- O meu filho estava sozinho no carro?
- Senhora? – o polícia parecia não ter ouvido bem.
- Não estava uma rapariga com ele? – a voz de Ma, com aquele tom de desagrado que sempre reserva para as conversas acerca da namorada de Nigel.
O polícia abanou a cabeça. Não, senhora.
Ma espetou os dedos no meu braço.
- Ele sempre foi tão cuidadoso – disse – o meu filho era um excelente condutor.
Bom, isto só mostra o quão pouco ela sabe. Nigel guiava com a mesma sobriedade, moderação e subtileza com que conduzia as suas relações afectivas. Sei do que falo; ainda tenho as marcas. Porém, agora que está morto, passou a ser um modelo de virtude. Não é justo, não acham, depois de tudo o que eu fiz por ela?
- Vou fazer-te um chá, Ma.
Qualquer desculpa para sair daqui. Fiz menção de me dirigir à cozinha, porém encontrei o polícia obstruindo-me a passagem.
- Queira desculpar, mas vai ter de nos acompanhar à esquadra.
A minha boca secou subitamente.
- À esquadra?
- Formalidades, senhor.
Por momentos vi-me saindo de casa algemado, levado para a prisão. Ma desfeita em lágrimas; a vizinhança em estado de choque; eu enfiado num uniforme cor de laranja (nada o meu estilo de cor), encerrado numa cela sem janelas. Na ficção fugiria: deixaria o polícia derrubado no chão, roubaria o carro e atravessaria a fronteira antes de conseguirem pôr a minha fotografia em circulação. Na vida real…
- Que tipo de formalidades?
- É preciso identificar o corpo, senhor.
- Ah, isso…
- Lamento muito, senhor.
A Ma exigiu que fosse eu, claro. Esperou cá fora enquanto eu dava nome ao que restava de Nigel. Tentei fazer daquilo uma ficção, imaginar-me num filme, mas mesmo assim acabei por desmaiar. Trouxeram-me para casa de ambulância. De qualquer forma, valeu a pena. Sabê-lo morto, livrar-me para sempre do filho da puta…
Isto não passa de ficção, estão a perceber? Nunca matei ninguém. Dizem-nos para escrevermos apenas o que sabemos, como se alguém pudesse realmente escrever sobre o que sabe ou julga conhecer, como se conhecer fosse o essencial, quando na verdade o essencial é o desejo. No entanto, desejar o meu irmão morto não é o mesmo que matá-lo. Não tenho culpa se o universo segue o meu WebJournal. E assim a vida continua – pelo menos para alguns de nós – a mesma de sempre, e blueeyedboy pode ao menos dormir o sono dos justos – ainda que não inteiramente o dos inocentes."

(Joanne Harris, Blueyedboy, Transworld Publishers, 2010. Esta tradução foi feita por mim e não corresponde à tradução oficial portuguesa)

sexta-feira, maio 14, 2010

Blueyedboy, um cheirinho, traduzido por mim

"Está a vizualizar a página de blueeyedboy em badguysrock@webjournal.com
Posted @ 02.56, segunda feira, 28 de Janeiro
Status: público
Mood: nostálgico
Listening to: Captain Beefheart: ‘Ice Cream For Crow’
Azul. A cor do homicídio, pensa. Um azul gelado, denso como uma cortina de fumo; azul gangrena, cadavérico, de um corpo autopsiado. É também a sua cor, em todos os sentidos, percorrendo o seu circuito interno como uma carga eléctrica, gritando sem cessar aquela palavra em tons azul, assassínio, à sua passagem.
O azul envolve tudo à sua volta. Vê-o, pressente-o em todo o lado, do azul do ecrã do computador ao azul das veias nas costas das mãos, agora elevadas, torcendo-se, fazendo lembrar o rasto das minhocas na areia, na praia de Blackpool, onde costumavam ir, os quatro, todos os anos, no dia do seu aniversário, para comer um gelado, chapinhar na água do mar, apanhar pequenos caranguejos movendo-se apressados no meio das algas e metê-los dentro de um balde para morrerem no calor do sol escaldante.
Com apenas quatro anos, há uma inocência peculiar no modo como leva a cabo estes pequenos assassínios isentos de culpa. Não há qualquer malícia no acto, apenas uma vívida curiosidade pela coisa deslizando sem cessar e em círculos no fundo do balde, tentando escapar, para, horas depois, desistir da luta, as pinças abertas, a parte de baixo do corpo exposta numa mímica de redenção, alturas tantas em que ele há muito perdeu o interesse e se delicia com um gelado de café (uma escolha bastante sofisticada para um garoto da sua idade, mas a verdade é que nunca apreciou o sabor deslavado da baunilha), e quando volta a descobri-la no fim do dia, chegado o momento de despejar o balde e voltar para casa, fica vagamente surpreendido por encontrar a criatura morta, e pergunta-se, com espanto, como é que aquilo pôde ter sido algum dia um ser vivo.
A mãe dá com ele de olhos arregalados, cutucando a coisa morta com a ponta do dedo. A sua maior preocupação não se prende com o facto de o filho ser um exterminador, em vez disso alarma-se por o ver tão facilmente influenciável e de tantas coisas o perturbarem de uma forma que não entende.
- Não brinques com isso – diz-lhe – é feio. Anda.
- Porquê?
Boa pergunta. Dentro do balde as criaturas não deram sinal de vida durante toda a tarde. Ele pensa no que poderá ter acontecido. Estão mortas, conclui. Apanhei-as e elas morreram.
A mãe abraça-o. É isto precisamente que ela teme. Qualquer tipo de explosão emocional: lágrimas, talvez; algo que faça as outras mães olharem-na do alto do seu desdém.
Conforta-o:
- A culpa não foi tua. Foi apenas uma fatalidade. Não foste tu…
Uma fatalidade, pensa ele. E, no entanto, sabe que é mentira. A culpa foi sua, e o facto de a mãe o negar confunde-o mais ainda que a voz estridente dela e o modo febril com que o aperta nos braços, manchando -lhe a camisola com óleo bronzeador. Afasta-se – detesta sujar-se – e ela olha-o, inquieta, tentando perceber se é desta que ele vai desatar a chorar.
Não sabe se deve chorar. Talvez a mãe espere as suas lágrimas. Consegue intuir-lhe a ansiedade, o modo desesperado com que tenta protegê-lo da dor. A aflição da sua ma cheira ao coco do óleo bronzeador, misturado com um travo a frutas tropicais, e subitamente aquilo – aquela coisa morta - atinge-o – morta! Morta! – fazendo-o realmente chorar.
Então ela faz um gesto com o pé na areia, cobrindo o resto da sua pescaria – um caracol, um camarão e um linguado bebé agonizante, a pequena boca com a forma trágica de um quarto decrescente – enquanto sorri e canta; Hoops! Todos para casa! – tentando brincar, ao mesmo tempo que o agarra com firmeza, de modo a que nenhum resquício de culpa possa ensombrar o azul do olhar do seu menino.
Ele é tão sensível, pensa. Com uma imaginação tão surpreendente. Os irmãos pertencem a outra raça, de joelhos esfolados, cabelo em desalinho e lutas em cima das camas. Não precisam da sua protecção, pois têm-se um ao outro. Têm os amigos. Gostam de gelado de baunilha, e quando brincam aos cowboys (dois dedos formando uma pistola) usam sempre os chapéus brancos e apanham os maus.
Ele, no entanto, sempre foi diferente. Curioso. Impressionável. Pensas de mais, diz-lhe às vezes, com o olhar de uma mulher demasiado apaixonada para admitir a existência de qualquer falha no objecto da sua devoção. Ele sente o quanto lhe é valioso, o quanto ela o quer proteger de tudo e de todos, da mais ínfima sombra que possa escurecer os céus azuis da sua existência, de toda e qualquer lesão, ainda que infligida por si mesmo.
Pois o amor de uma mãe é cego, altruísta, é sacrifício; o amor materno pode perdoar qualquer coisa: birras, lágrimas, indiferença, ingratidão, crueldade. O amor de mãe é um buraco negro que engole qualquer crítica, absolve toda a culpa, blasfémia, roubo, mentiras, transformando a acção mais vil em algo que não é culpa sua – Hoops! Todos para casa!
Até mesmo o acto de matar.

Comentários:
Captainbunnykiller: LOL meu, dás-lhe bem!
ClairDeLune: Isto é maravilhoso, blueeyedboy. Acho que devias escrever mais profundamente acerca da relação com a tua mãe e a forma como esta te afecta. Não acredito que alguém nasça mau. Simplesmente fazemos más escolhas, é tudo. Fico à espera do próximo capítulo!
JennyTricks: (comentário apagado)
JennyTricks: (comentário apagado)
JennyTricks: (comentário apagado)
Blueyedboy: Obrigado…"

(Joanne Harris, Blueyedboy, Transworld Publishers, 2010. Esta tradução foi feita por mim e não corresponde à tradução oficial portuguesa)