(Eu sou de muitas e poucas palavras. Para além das que guardo debaixo da terra.)
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sábado, outubro 22, 2016
Poucas palavras
Acabou-se-me o sal. Gastei o resto no arroz de pato que fiz para o jantar. Cozinhei também o coração do animal. É essa a minha função diária: alimentar. Estômagos, corações, uma família, várias vidas, uma cidade, divindades. Talvez um dia descubra que também alimento estrelas noutras galáxias. No peito ficam as palavras que não ousam esse brilho. Encontram uma forma de liberdade na inexistência. Uma certa beleza revestida de silêncio. Belo é o gesto que enfeita a palavra: a enxada que fecunda a terra. A espera no arredondar do ventre. O primeiro vagido, linguagem primordial. Beleza, traz o vento, em sinais distantes do outro lado do mundo, vozes que nos pertencem porque já nos habitam o coração. As palavras podem ir no vento, a beleza fica no olhar de reconhecimento. No espanto. No sorriso. Até no desapontamento, porque diz da paixão, da urgência. O coração, porém, desconhece a urgência, o tempo, as palavras. O coração sabe do medo, da fragilidade, da ternura, da vergonha, da dor e do amor, do riso e das lágrimas, do ritmo, do compasso da espera, da febre, da saudade, dos sonhos, dos rios e dos mares e dos lugares onde poderemos ser felizes. O coração pulsa debaixo da terra e encerra a beleza que o desapontamento não encontra. Não sei o caminho, ando às escuras e não me pertencem os teus passos. Deixo uma flor em cada encruzilhada.
quinta-feira, outubro 28, 2010
Perversão ao tempo
O ponteiro dos segundos, preguiçoso, começou a hesitar. Parecia atrapalhar-se com os próprios passos, perder o equilíbrio. Nos primeiros trinta segundos, a descer, ainda a coisa ia; depois é que eram elas. Ficava ali, teimoso, a querer avançar, mas alguma coisa, alguma irreverência, o puxava para trás. E recuava. Dois, três passos para trás, outros tantos para a frente; poucos, daí a nada estava outra vez naquele saltitar inconstante, sem saber se vai se fica. Resultado: as horas alargaram. Cabiam lá dentro mais minutos que o estipulado. O tempo parecia brincar com o tempo. Como se descobrisse, incrédulo, um novo propósito, que não o de passar, andar para a frente.
Uns dias depois o relógio, finalmente, parou. Tinha-se acabado o tempo das incertezas.
Este incidente fez-me lembrar do filme belíssimo intitulado "The curious case of Benjamim Button". Nele também há um relógio que perverte a lei do tempo. Com consequências tão imprevisíveis quanto fantásticas. E assistimos assim à viagem deste homem em sentido contrário, incrédulos e emicionados, ao revermo-nos em tantas verdades simples e dúvidas existenciais, no fundo iguaizinhas às dos comuns dos mortais. E mais nos convencemos de que ele, o tempo, é um mistério sem remédio.
sábado, julho 11, 2009
Falar do tempo
Muita gente (e eu também um pouco, pelo menos até há cinco anos atrás) associa o falar sobre o tempo à falta de assunto. Quando não sabemos o que dizer, comentamos a meteorologia. Quando nos faltam as palavras, olhamos para o céu, e, graças a ele (aos céus) há sempre muitas nuvens, ou um sol radioso, ou ventos e brisas para nos trazerem resmas de palavras e ideias prontinhas a usar numa conversa casual. Para outras pessoas, falar sobre o tempo pode ser até divertido e prazeroso, uma forma de passar o tempo e ir prolongando as boas vindas numa agradável cavaqueira.
Eu, confesso, até vir para aqui considerava o comentar a chuva ou o vento que fazia uma forma de preencher silêncios que, às vezes, me enfastiava. Se não têm assunto porque não ficam as pessoas caladas?, costumava perguntar aos meus botões. Mas eu sempre fui assim, considero o silêncio uma virtude e não um defeito. Enfim. Quando vim para aqui tudo mudou. É que num país como este em que o estado do tempo é completamente imprevisível, falar sobre ele não revela simplesmente falta de assunto, pelo contrário: ele é o assunto principal, a maior parte das vezes. E sim, passamos uma boa parte das conversas a dissertar sobre ele, porque realmente ele nos transtorna a vida. Um dia de sol deixa de ser uma coisa secundária para se tornar em algo por que se anseia, uma espécie de benção, de milagre.
Se calhar estou a exagerar. Mas ver o verão de súbito interrompido por um outono carrancudo é das piores coisas que há, asseguro-vos. Principalmente hoje, quando completo 39 verões, e tenho lá fora um céu de chumbo. Assim meio esbranquiçado, mas ainda assim, chumbo, nem que seja pelo peso que me deixa em cima dos ombros.
(Também não sei se é de estar mais velha, mas falar sobre o tempo já não me parece um aborrecimento e uma futilidade como nos verdes anos, mas antes um sinal de aprazível harmonia com o mundo e sua expressão - porque de facto o tempo é algo que nos afecta muito mais do que imaginamos, e às vezes só damos por isso quando nos deparamos com uma infinita sucessão de céus cinzentos. E assim, acabamos a falar do vento, das nuvens, das chuvas e do sol, das tempestades e das neves, das estrelas e das comoções celestes para falarmos de nós e dos nossos mundos mais íntimos. É tudo uma questão de perspectiva, afinal).
terça-feira, novembro 11, 2008
Quando batemos de frente
E das frentes, já ouviram falar?
Quando o ar frio e quente se encontram, não há cá misturas. Não, as massas de ar não são muito dadas a abraços e beijos e outras fusões do género. Portanto, em vez de se misturarem, passam uma pela outra, deslizando, empurrando, agitando, mandando para o alto.
São assim uma espécie de encontros tímidos, olhares de soslaio, toca e foge, ou não me toques que me desafinas, tira lá as mãozinhas e desparece.
Ora, é graças a esta incompatibilidade aérea que se geram as tais frentes, ou superfícies frontais. Imaginemos então os ventos gelados, vindos dos polos, quando se encontram com os ventos suados do equador. Estas massas de ar viajam milhares de quilómetros até se encontrarem, esbarrarem, baterem de frente. E não, nada de lamechices! É seguir em frente, que isto não há tempo a perder, nem para um simples aperto de mão. Quando é o ar quente que corre, veloz, subindo a massa de ar frio que, mais pesada, mais densa, rasteja ao nível do chão (ou do mar), este movimento ascendente do ar gera nuvens baixas, alguma humidade, e aquelas chuvinhas tipo molha parvos, aquelas que parece que não molham ninguém. De outras vezes, porém, é o ar frio, aquele que rasteja junto ao chão, que larga em corrida desenfreada, e que, ao colidir com o ar quente, o empurra para cima, exactamente como se chocássemos com toda a força com alguém que fosse mais leve (tipo um balão de ar) e por isso, em vez de o derrubarmos no chão, fizéssemos com que este voasse literalmente. O ar quente, assim empurrado de repente, mandado ao ar, atordoado, rapidamente se eleva, dando origem a nuvens pesadas, de desenvolvimento vertical. Resultado: chuvadas torrenciais, fortes bátegas, cães e gatos a caírem dos céus.
Pois é. E tudo isto por aqueles dois, o ar frio e o quente, não se gramarem nem à lei da bala.
(a minha professora de geografia tinha uma cara bicuda e uma voz igualmente bicuda. O cabelo também se lhe espetava para cima, e nós chamávamos-lhe a abelha maia. Obrigava-nos a escrever páginas e páginas por dia, ela a ditar, com aquela voz cheia de arestas, sobre as vicissitudes das condições atmosféricas. Não sei se foi por causa dessas horas todas a escrever que ainda me lembro destas coisas todas. Bom, na realidade, não foi bem assim que ela nos explicou a coisa. Eu depois acrescentei a minha versão da história.)
Quando o ar frio e quente se encontram, não há cá misturas. Não, as massas de ar não são muito dadas a abraços e beijos e outras fusões do género. Portanto, em vez de se misturarem, passam uma pela outra, deslizando, empurrando, agitando, mandando para o alto.
São assim uma espécie de encontros tímidos, olhares de soslaio, toca e foge, ou não me toques que me desafinas, tira lá as mãozinhas e desparece.
Ora, é graças a esta incompatibilidade aérea que se geram as tais frentes, ou superfícies frontais. Imaginemos então os ventos gelados, vindos dos polos, quando se encontram com os ventos suados do equador. Estas massas de ar viajam milhares de quilómetros até se encontrarem, esbarrarem, baterem de frente. E não, nada de lamechices! É seguir em frente, que isto não há tempo a perder, nem para um simples aperto de mão. Quando é o ar quente que corre, veloz, subindo a massa de ar frio que, mais pesada, mais densa, rasteja ao nível do chão (ou do mar), este movimento ascendente do ar gera nuvens baixas, alguma humidade, e aquelas chuvinhas tipo molha parvos, aquelas que parece que não molham ninguém. De outras vezes, porém, é o ar frio, aquele que rasteja junto ao chão, que larga em corrida desenfreada, e que, ao colidir com o ar quente, o empurra para cima, exactamente como se chocássemos com toda a força com alguém que fosse mais leve (tipo um balão de ar) e por isso, em vez de o derrubarmos no chão, fizéssemos com que este voasse literalmente. O ar quente, assim empurrado de repente, mandado ao ar, atordoado, rapidamente se eleva, dando origem a nuvens pesadas, de desenvolvimento vertical. Resultado: chuvadas torrenciais, fortes bátegas, cães e gatos a caírem dos céus.
Pois é. E tudo isto por aqueles dois, o ar frio e o quente, não se gramarem nem à lei da bala.
(a minha professora de geografia tinha uma cara bicuda e uma voz igualmente bicuda. O cabelo também se lhe espetava para cima, e nós chamávamos-lhe a abelha maia. Obrigava-nos a escrever páginas e páginas por dia, ela a ditar, com aquela voz cheia de arestas, sobre as vicissitudes das condições atmosféricas. Não sei se foi por causa dessas horas todas a escrever que ainda me lembro destas coisas todas. Bom, na realidade, não foi bem assim que ela nos explicou a coisa. Eu depois acrescentei a minha versão da história.)
sexta-feira, setembro 05, 2008
Nas nuvens
Isto é engraçado.
Esta coisa das depressões atmosféricas deixou-me a pensar.
Se calhar até acontece o mesmo connosco: na depressão (clínica) teríamos assim uma espécie de ausência do espírito, como se os pensamentos e os sentimentos se espalhassem no ar, se perdessem, sem rumo, nos voassem da cabeça como aves distraídas.
Aquilo que chamamos andar nas nuvens mais não seria do que essa impossibilidade de contenção e consciencialização das ideias, do pensamento. Como se sofrêssemos de alguma incapacidade de nos centrar, de manter sólida a estrutura mental, afinal o alicerce principal da nossa personalidade e estabilidade psíquicas. Como se essa dita estrutura, em lugar de sólida, fosse líquida ou gasosa; como se se volatilizasse no ar, transformada em sonhos, devaneios, ilusões, nostalgias, melancolias. A tristeza, sintoma central da depressão, talvez não seja mais do que a impossibilidade de nos sentirmos inteiros, de nos reunirmos (aos pensamentos) num corpo coerente e lógico, de nos sentirmos unos. Como se nós (os sentimentos, os pensamentos) andássemos perdidos pelo cosmos, sem eira nem beira, sem sentido, varridos e espalhados pelo vento pelos quatro cantos do mundo, perdidos nas nuvens, na lua. A tristeza nasceria assim em cada partícula nossa, cada pequena partícula vagueando errante, sem saber quem é e a que pertence; a tristeza seria secundária a esse alheamento de algo que não sabe para onde vai nem com que objectivo. Muitos bocados de nós, errantes, infinitos bocadinhos da nossa consciência, incapazes de se materializarem, de se reconhecerem, de adquirirem uma identidade.
E muitas vezes as pessoas deprimidas queixam-se disso mesmo: alheamento, despersonalização, como se não soubessem quem são nem o que querem, como se não fossem capazes de conduzir a sua vida, como se não estivessem cá, e sim perdidos, algures, nas nuvens, ou em sentimentos negativos, de fracasso constante.
Até pode ser. Mas, eu cá, não troco por nada, aquela sensação de andar nas nuvens.
Esta coisa das depressões atmosféricas deixou-me a pensar.
Se calhar até acontece o mesmo connosco: na depressão (clínica) teríamos assim uma espécie de ausência do espírito, como se os pensamentos e os sentimentos se espalhassem no ar, se perdessem, sem rumo, nos voassem da cabeça como aves distraídas.
Aquilo que chamamos andar nas nuvens mais não seria do que essa impossibilidade de contenção e consciencialização das ideias, do pensamento. Como se sofrêssemos de alguma incapacidade de nos centrar, de manter sólida a estrutura mental, afinal o alicerce principal da nossa personalidade e estabilidade psíquicas. Como se essa dita estrutura, em lugar de sólida, fosse líquida ou gasosa; como se se volatilizasse no ar, transformada em sonhos, devaneios, ilusões, nostalgias, melancolias. A tristeza, sintoma central da depressão, talvez não seja mais do que a impossibilidade de nos sentirmos inteiros, de nos reunirmos (aos pensamentos) num corpo coerente e lógico, de nos sentirmos unos. Como se nós (os sentimentos, os pensamentos) andássemos perdidos pelo cosmos, sem eira nem beira, sem sentido, varridos e espalhados pelo vento pelos quatro cantos do mundo, perdidos nas nuvens, na lua. A tristeza nasceria assim em cada partícula nossa, cada pequena partícula vagueando errante, sem saber quem é e a que pertence; a tristeza seria secundária a esse alheamento de algo que não sabe para onde vai nem com que objectivo. Muitos bocados de nós, errantes, infinitos bocadinhos da nossa consciência, incapazes de se materializarem, de se reconhecerem, de adquirirem uma identidade.
E muitas vezes as pessoas deprimidas queixam-se disso mesmo: alheamento, despersonalização, como se não soubessem quem são nem o que querem, como se não fossem capazes de conduzir a sua vida, como se não estivessem cá, e sim perdidos, algures, nas nuvens, ou em sentimentos negativos, de fracasso constante.
Até pode ser. Mas, eu cá, não troco por nada, aquela sensação de andar nas nuvens.
Altas e baixas pressões
Por aqui, o cinzento desprende-se, vagaroso, das nuvens baixas, e cola-se-nos à alma. Andamos pardacentos, cabisbaixos. Deprimidos. Sabem o que é uma depressão? É um centro de baixas pressões, também conhecido por ciclone. A instabilidade do ar produz a sua elevação, dando origem a nuvens e precipitação. Os ventos ascendentes favorecem a formação de nuvens na vertical, que podem originar fortes chuvadas e aguaceiros. As baixas pressões produzem a instabilidade, a ascenção, a leveza do ar, ao passo que, nas altas pressões, o ar afunda-se, vindo de cima, aquecendo e ficando mais estável, formando uma espécie de tampão que tranquiliza a atmosfera envolvente, como um abraço quente e apertado.
A leveza e a ascenção produzem a instabilidade e o mau tempo. Talvez seja por isso que os sonhadores, aqueles que andam sempre na lua, sejam mais vulneráveis às depressões, ao passo que quem tem os dois pés bem assentes na terra não sofra tanto com os desvarios da alma. Será? Será que a nossa cabeça funciona como o ar que a envolve? Não sei, mas não deixa de ser curioso. A nós, quando a pressão é grande, salta-nos a tampa e gera-se a instabilidade, ao passo que, tantas vezes, ansiamos soltar-nos, sentir-nos leves, podermos aliviar a pressão e quiçá deixar-nos levitar, em movimento ascendente, para assim encontrar a idílica paz de espírito, ou seja, a estabilidade. Exactamente o oposto das condições atmosféricas, já repararam?
Mas que este tempo deprime, isso deprime, posso garantir-vos pelo testemunho de quase toda a gente com quem tenho falado ultimamente, ingleses incluídos. A dúvida que se instala é, será realmente só o tempo? Ou mais qualquer coisa indizível que esta cidade tem, e que oprime, de alguma forma, a tão almejada leveza e paz de espírito?
A leveza e a ascenção produzem a instabilidade e o mau tempo. Talvez seja por isso que os sonhadores, aqueles que andam sempre na lua, sejam mais vulneráveis às depressões, ao passo que quem tem os dois pés bem assentes na terra não sofra tanto com os desvarios da alma. Será? Será que a nossa cabeça funciona como o ar que a envolve? Não sei, mas não deixa de ser curioso. A nós, quando a pressão é grande, salta-nos a tampa e gera-se a instabilidade, ao passo que, tantas vezes, ansiamos soltar-nos, sentir-nos leves, podermos aliviar a pressão e quiçá deixar-nos levitar, em movimento ascendente, para assim encontrar a idílica paz de espírito, ou seja, a estabilidade. Exactamente o oposto das condições atmosféricas, já repararam?
Mas que este tempo deprime, isso deprime, posso garantir-vos pelo testemunho de quase toda a gente com quem tenho falado ultimamente, ingleses incluídos. A dúvida que se instala é, será realmente só o tempo? Ou mais qualquer coisa indizível que esta cidade tem, e que oprime, de alguma forma, a tão almejada leveza e paz de espírito?
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