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quinta-feira, agosto 28, 2014

História sem memória

Não sei como me chamo, nem onde nasci, nem quantos anos passaram desde esse dia. Do tempo anterior a ter chegado vislumbro apenas uma névoa cinzenta, através da qual tento espreitar sem êxito. Perdi o rasto aos dias: num minuto cabem tardes inteiras. Como eu, há muita gente estendida nas inúmeras macas espalhadas em redor.

Tenho a cabeça apoiada numa almofada de palha húmida que cheira mal. A cabeça é a única parte do corpo que me sustenta. O resto – o tronco inchado, a bacia, as pernas cortadas acima do joelho e o braço direito – mal os sinto, estão sempre dormentes e não me obedecem.

As minhas duas pernas e o braço esquerdo de vez em quando vêm visitar-me de noite; o braço, coitado, atrás daquelas duas apressadas. Era assim que eu andava, sempre a correr de um lado para o outro. Adorava dançar, disso lembro-me bem, e até diziam que eu seria uma grande bailarina. Pouca sorte. Ouvi as mulheres que vêm dar-nos de comer dizer que pisei uma mina. Não sei o que é; só me lembro da avó Mina que contava estórias de bruxas e duendes aos meninos lá da rua.

Mas estava a contar-vos das visitas do meu braço e das minhas pernas, é através deles que tenho notícias da minha família e de outras coisas que entretanto esqueci. Vêm todas as noites, entram pela porta e começam logo a falar como se eu já estivesse acordadíssima à sua espera. E estou mesmo, não sei se é uma espécie de pressentimento. Na primeira visita assustei-me, acordei com uma mão a abanar-me e, quando abri os olhos, vi que o braço que a segurava não era de ninguém, pensei que fosse um fantasma e dei um grito.

«Acalma-te, ninguém te vai fazer mal. Então, já não nos conheces?»

Olhei a medo e reparei num par de pernas que saltitava em ritmos ondulantes de serpente, numa dança que logo reconheci como minha. Não conseguia dizer nada, o susto e o espanto petrificavam-me as palavras no peito.

«Somos nós, já não nos conheces? Não dizes nada? Viemos de tão longe só para te ver, e nem nos cumprimentas?»

Lá estendi como pude o braço que me sobrava, ao que a minha outra mão respondeu prontamente, sacudindo-me os ossos com uma energia incrível. Como é que consegue?, pensei, se para mim – com cabeça, tronco e membro – qualquer gesto é um martírio e pesa toneladas. Engraçado foi cumprimentar as pernas, que me estenderam os pés e logo fugiram, dando risadas de súbitas cócegas.

Explicaram-me que quando alguém morre vai para o céu, ou, melhor, a alma vai para o céu, e o corpo vai para o sítio dos mortos-vivos. O que é isso?, perguntei. É um sítio onde estão todos os corpos daqueles que já morreram. Corpos ou partes do corpo, como no meu caso; e, quando acontece reunirem-se várias que cheguem para formar um novo corpo, lá se dá esse milagre da natureza. Só que ainda não encontrámos par, desculparam-se, e vimos-te aqui tão perdida da cabeça que resolvemos vir ajudar-te.

Foi então que me falaram dos meus pais e irmãos, que tinham sido mortos no último ataque à aldeia. Já nem me lembrava de que havia uma guerra; mas que desmemoriada estás, filha, disse então o braço, não pode ser, temos de te pôr a par de tudo. Com a conversa, lá me fui lembrando de algumas imagens ténues e de palavras soltas no vento, avisos para termos cuidado e não irmos brincar na rua porque era muito perigoso, havia os tiros e as bombas. Nós não sabíamos o que isso era, mas de vez em quando ouviam-se estrondos que metiam tanto medo, que nem era preciso a mãe zangar-se para lhe obedecermos prontamente.

Depois desse ataque em que morreu a minha família, aliás como quase todos os vizinhos daquela e de outras ruas, contou o meu braço, enquanto as pernas iam acrescentando detalhes aqui e ali, os homens armados tinham entrado pelas casas matando tudo o que vissem mexer, e só escapei porque me escondi dentro do cesto da roupa suja, na casa de banho. Fiquei completamente só. Fui para a rua quando o silêncio tomou conta da noite, pisando os meus pais e irmãos mortos e deixando atrás de mim o maior rio de lágrimas da minha vida. Não chorava alto, como é próprio das crianças, apenas derramava lágrimas mudas, que a dor geralmente não mata mas mói, dizia a avó Mina, porém, quando mata é uma enxurrada sufocante que nos engole a alma e a vontade de gritar. Andei durante muito tempo, sem saber para onde ir…

«Quer dizer que o pai, a mãe e os manos também lá estão nesse sítio dos mortos-vivos? E posso ir vê-los?»

Era a primeira vez que dizia mais do que três palavras de seguida e eles ficaram animados; desde que tinham chegado que as suas caras, ou melhor, os seus pés e as suas mãos denotavam certa preocupação, quem sabe se por verem o meu estado de mais perto, que lá de cima deve ser um pouco difícil apreciar o espectáculo.

«Não, só os corpos deles, então na escola não te ensinaram isso do corpo e da alma? No sítio dos mortos-vivos há apenas corpos, que é como se fosse o invólucro da alma, percebes?»

Não me lembrava sequer de ter andado na escola; todavia, se as minhas pernas o afiançavam, só podia ser verdade, os meus pés conheciam os caminhos que eu trilhara melhor do que ninguém. Ainda insisti, não faz mal, quero ir vê-los, nem que seja só aos corpos, em questão de matar saudades o olhar é fundamental e a imaginação faz o resto; só de pensar em ver a minha família o meu peito já se desassossegava, ainda fraco de mais para aguentar o cavalgar de tantas emoções. Por isso, quando o coração disparou caí para o lado, o tronco tombou e a cabeça bateu na parede, o braço ausente impossibilitado de amparar a queda. Aquilo nem doeu, comecei a rir e o braço e as pernas também, enquanto a mão me levantava a cabeça e a encostava de novo à almofada.

Verdade se diga, não me lembro da cara dos meus familiares, talvez por isso deseje tanto vê-los. Às vezes até parece que também fiquei sem cabeça, tal é o manto branco que se avoluma para lá dos olhos. O meu braço e as minhas pernas, empenhados em prosseguir com o relato, nem ligaram ao meu saudosismo. Talvez por serem uns desalmados, como me explicaram, porque estas coisas das saudades são mais da alma do que do corpo… Dizem eles.

Pelo que pude apurar logo nessa primeira visita do meu braço e das minhas pernas, na noite da tragédia vagueei pelos campos até pisar a tal mina, e mais tarde encontraram-me com o corpo reduzido a metade. Trouxeram-me para aqui, exactamente há dez meses. Estive inconsciente muitos dias, entre a vida e a morte. Quando acordei não me lembrava de nada. Só distinguia mulheres que se abeiravam de mim, cuidando-me das chagas abertas do que restava do meu corpo. Não compreendia o que diziam, como se a minha cabeça tivesse perdido o significado das palavras, juntamente com a memória. Durante dias seguidos não fiz outra coisa senão chorar. À noite não deixava ninguém descansar. Contudo, era rara a noite em que se dormia, pois todos gritavam e choravam; alguns porque, tal como eu, lhes doía algum membro inexistente. As mulheres atarefavam-se para nos acudir – eram poucas e nós mais do que muitos. A comida também escasseava, e no meio de tanta dor e desgraça acho que nos esquecíamos de ter fome e ignorávamos os roncos dos nossos estômagos, com o tempo íamos ficando fracos mas a fome desaparecia. Todos os dias morria alguém e chegava mais gente. Era um espectáculo horrível, pessoas a esvaírem-se em sangue e aos berros, outras meio anestesiadas, as feridas abertas deixando ver o interior do corpo.

Aos poucos fui ficando mais calma. Este lugar e estas pessoas já não me assustam, embora não fale, pois não me sobram forças. Nunca mais abri a boca, só quando recebo a visita do meu braço e das minhas pernas digo alguma coisa, até me chamam a mudinha por causa disso e dizem, ao princípio gritavas tanto, agora parece que te comeram a língua. Sorrio, assim um sorriso muito triste numa cara que nunca mais voltará a rir como dantes, e os meus olhos enchem-se de lágrimas sem eu querer. Então as mulheres abraçam o que resta do meu corpo e murmuram, pobrezinha, pronto, não chores. Às vezes, nos dias mais calmos, quando não chega mais ninguém e de repente se faz silêncio no meio de lamúrias e gemidos, uma delas canta para mim. Deixo-me embalar pela música e adormeço, enquanto lá longe, no sítio dos mortos-vivos, as minhas pernas e os meus pés começam a dançar ao ritmo da voz doce daquela mulher…

sexta-feira, abril 25, 2014

25 de Abril

No largo a confusão era indescritível. Havia pessoas penduradas nas árvores, nos candeeiros, na fonte no meio da praça, nos parapeitos das janelas, em todo o lado. Os gritos e as palavras de ordem martelavam-me o cérebro. A multidão parecia unida numa descarga eléctrica permanente. Vozes. Movimento. Gritos. Cravos vermelhos nas mãos. Cravos vermelhos nas lapelas dos militares. Um burburinho constante, e a cortar à faca esse ruído de fundo permanente, uma voz que desafiava a lei da gravidade, uma voz firme e pausada que pedia calma e anunciava aos quatro ventos que o movimento das forças armadas estava empenhado em que não se fizesse uso da violência. “É imperativo evitar o derramamento de sangue!”, gritava a voz profusamente amplificada pela potência de um megafone. A minha cabeça girava. A voz continuava a soar, altiva, uma voz de comando pausada e determinada. “Atenção quartel do Carmo! O mensageiro deve sair imediatamente, ou então o quartel será destruído!” As vozes da multidão abafavam tudo e por momentos não se ouve mais nada. De onde estou não consigo ver quase nada do que se passa lá à frente, junto à portaria do quartel. Vejo as pessoas empoleiradas nas árvores, debruçadas das janelas, penduradas nos candeeiros e nos postes da electricidade. Tudo grita. Fico momentaneamente surdo. Daí a pouco ouve-se de novo a voz ordenando uma rajada para a varanda no topo do edifício. Os gritos aumentam e cessam subitamente. Ouvem-se os tiros. Os pombos pousados no alto dos edifícios e das arcadas levantam voo, o ruído das asas assustadas abafado pela barulheira infernal. Com os tiros voltam os gritos. Algumas pessoas correm. Generaliza-se uma onda de pânico e de movimento descontrolado. Sou empurrado por vários corpos que comigo chocam, por sua vez empurrados por outros. Procuro equilibrar-me. As pessoas esbarram umas nas outras mas não param de sorrir. “Desculpe, amigo. Ai, desculpe, camarada.” Os encontrões acabam em abraços. Uma mulher cai ao chão, outra abeira-se dela. “Agarre-se aqui ao meu braço, comadre, levante-se!” Outras pessoas ajudam-na a levantar-se. A mulher tem as faces coradas. “Já estou em pé! Isto agora não há quem me derrube!” Risos. Rio-me também. Estou ali e faço parte daquela gente; porém, ao mesmo tempo, é como se ali não estivesse e assistisse a tudo com a distância da lente de uma máquina fotográfica. “Solicita-se rendição imediata!” A voz não perde sonoridade nem determinação. Nem calma. Não há ponta de nervosismo naquela voz. Fico a pensar nisto durante um bocado. Mas não tenho muito espaço para pensar no que quer que seja. Ouvem-se mais tiros. De súbito o som dos tiros é algo familiar que se espera com a ansiedade a borbulhar no peito. Os tiros, os gritos, as vozes. A voz, impassível, autoritária: “Atenção, devem sair com a bandeira branca e as mãos no ar, sem armas!” Mais gritos. Mais braços no ar. O ar está carregado da fúria das palavras arremessadas das bocas abertas. Sinto no pescoço o hálito morno de muitas bocas. Um arrepio percorre-me as costas. “Não queremos sangue! Vamos fazer fogo de carro de combate que vai destruir o edifício!” Ainda mais gritos. Asas assustadas no ar. Sinto-me tonto. “Atenção quartel do Carmo, vão entrar dois delegados!” Tenho dificuldade em entender e seguir o que se passa. Oiço as pessoas à minha volta a falarem todas ao mesmo tempo. “Parece que chegou alguém!” Não consigo mexer-me. As pessoas continuam a gritar palavras de ordem. Perco o fio ao tempo. Não sei se estou ali há minutos ou horas. As pernas doem-me. Procuro sentar-me nos degraus de uma porta atrás de mim. Fico de súbito rodeado de pernas. É como se voltasse a ser criança e olhasse o mundo de baixo. Diferença de perspectiva. Fecho os olhos. Apenas oiço o som das vozes à minha volta. As gargalhadas.
Lembro-me de tudo como se estivesse a acontecer neste momento.
Fiquei ali horas e pareceram-me minutos. Às tantas uma mulher ofereceu-me uma caneca de vinho tinto e uma fatia de broa e outra de queijo de cabra. Aceitei, com um sorriso. Ela distribuía bocados de broa e queijo pelas pessoas, e estendia a mesma caneca de vinho a toda a gente.
A certa altura a multidão aglomerou-se frente à entrada do quartel. Havia pessoas penduradas nas colunas dos arcos, nas guaritas das sentinelas, nos candeeiros da rua, em todo o lado. Gritava-se vitória. Liberdade. Os braços agitavam-se no ar. O Capitão apareceu à janela e pediu às pessoas para se afastarem, a fim de deixarem passar o carro que iria sair levando o presidente do concelho. As vozes à minha volta chamavam-lhe cagarolas. “Borrou-se de medo, foi o que foi!” Outras exigiam-lhe a morte. “Deviam era enfiar-lhe um tiro nos cornos!” A multidão agitou-se. Uma surrada de assobios encheu o ar. Pus-me em bicos de pés. Não via nada, apenas a movimentação das pessoas e o uivo dos assobios. Mais tarde soube que naquele momento passava o carro onde seguiam os membros do governo que se haviam refugiado durante toda a tarde dentro das paredes maciças do quartel do Carmo.

(excerto de Uma Outra Voz - versão original)

quarta-feira, julho 04, 2012

A vaca leitora

(Isto foi hoje):
- Leitor? Leitor parece alguém milking a cow!

(Isto foi há quatro anos):
Eu nunca tinha pensado que livros e leite pudessem ter algo em comum.
Até ao dia em que o Diogo perguntou, muito espantado, depois de ouvir a palavra "leitura":
- Leitura, mamã? O que é leitura?
Depois de esclarecido, ainda não estava convencido:
- É que leitura parece que vem de leite!
Tive de concordar com ele. De facto, o raciocínio até que revela perspicácia.
E hoje, quando líamos um livro, e nos deparámos com uma vaca leiteira nas ilustrações, ele suspirou,com ar sonhador e um pouco desapontado:
- Eu nunca vi uma vaca leitora... Eu queria ver uma vaca leitora, mamã!
Eu cá, também nunca vi nenhuma.
Mas gostava. Palavra.


E depois lembrei-me da Vaca Leitora que escrevi para ele.

quarta-feira, março 21, 2012

Eu, e ele

Preciso de me misturar com este homem. Entrar-lhe para dentro do corpo, para dentro da pele; ser o ar que respira, inspira, expira; correr-lhe nas veias, encher-lhe as aurículas e os ventrículos, os pulmões até sufocar, o ar, o ar. Preciso de me perder nos seus devaneios, na sua dor, preciso de auscultar-lhe os sonhos, as gargalhadas, risadas, palavras, morar-lhe na boca, sofrer-lhe a dor nas pernas e nos joanetes, ser-lhe a sombra do que não ousa. Preciso de me confundir com ele ao ponto de não saber se é de mim que falo, se é dele. Se sou eu ou ele. Quem sou eu, sou ele.

Medo de escrever

Escreve-se com medo do escuro, do passado, de fantasmas mais ou menos imaginários, do falhanço, do ridículo, de tudo e de mais alguma coisa; porém, com medo de escrever não se escreve. É evidente que o medo nunca é do que se vai escrever, mas sim do que isso vai suscitar, do que vai acordar em nós. Todos temos os nossos quartos escuros que preferimos manter na penumbra. Escrever é iluminá-los. A gente pode arranjar personagens e enredos, mas cá no fundo sabemos que é de nós mesmos que saem as palavras, mascaradas de outras realidades, para que a exposição não seja demasiada. A exposição é sempre demasiada. Por isso assusta. Não se trata apenas de saltar para dentro da cabeça deste homem, este homem que é quase uma lenda na minha família. As lendas têm este poder mágico de nos transportar para épocas inenarráveis; nada melhor para quem se tenta esconder atrás de um personagem. Não, no fundo é outra coisa. No fundo esta viagem é um luto, e os lutos são sempre penosos. Os lutos abrem-nos portas que preferíamos manter cerradas para sempre. Acordam fantasmas que nem nos piores pesadelos ousam visitar-nos. O medo que nos assombra os pesadelos é, apesar de tudo, suportável. Pior do que o mais atroz dos pesadelos é não conseguir sonhar.

O retrato na estante

Talvez tenha pudor. Pudor de entrar para dentro da cabeça deste homem. E quem diz cabeça, diz qualquer parte do corpo. E porquê? Ora porquê, porque é ele o personagem principal da história, afinal é em seu torno que a terra gira, ou melhor, que a história gira. Cresci ouvindo a minha avó contar histórias sobre ele, o seu nome vindo à baila nas conversas de família. Cresci com o seu retrato ao lado do telefone preto, pesadíssimo, daqueles do século passado. Olhava o rosto imóvel, os olhos profundos por detrás dos óculos, a barba branca, e não sabia quem era, muito menos que um dia ainda iria escrever sobre ele. E depois há aquela espécie de aura à sua volta, assim quase como se se tratasse de um santo, solteiro e sem filhos, ainda por cima. Um patriarca da família e da terra que o viu nascer, um benfeitor, uma espécie de mecenas; um empreendedor, republicano; um grande homem, em suma; e como é que se escreve sobre um grande homem? Não, não é esta a pergunta, porque escrever até se escreve; não há nada mais fácil do que escrever apenas; mas como é que se salta para dentro da cabeça de um homem assim? E quem diz cabeça diz qualquer parte do corpo.

sexta-feira, março 16, 2012

Rio de sangue

Quando via a senhora Maria matar as galinhas apoderava-se de mim uma curiosidade mórbida, que por instantes afugentava o medo. As galinhas entregam-se à morte com uma rendição exausta de penas e um estrebuchar que começa por ser demente mas rapidamente se torna patético. A senhora Maria agarrava-as firmemente pelo pescoço, ocultando-lhes as cabeças pequeninas, enquanto punha um pé em cima de uma asa e, sem delongas, cortava-lhes o pescoço esguio com a faca afiada. Não era um golpe único e preciso como o que se dá aos porcos, mas vários, que abriam um caudal de sangue fresco naquela zona do pescoço onde a penugem parece mais fofa e leve. Era nessa altura que a galinha começava a estrebuchar, ao mesmo tempo que emitia um som rouco de agonia por aquilo que ainda lhe restava da garganta. A mão da senhora Maria aguentava firme todo aquele espalhafato de asas e penas enquanto o sangue ia tecendo o seu percurso irremediável até se misturar com as folhas, as ervas e a terra do chão. Por fim a única coisa que mexia era ele, o rio de sangue escuro.

Senhor Fortio

Quando estava doente, vinha o senhor Farinha dar-me uma pica, como dizia a mamã. Entrava no quarto, gordo, sempre vestido de preto e azul escuro, e eu escondia-me debaixo dos cobertores. Ficava muito quietinha, porque estava convencida de que, dessa maneira, ninguém me podia ver. Arranjava um buraquinho no meio dos cobertores para espreitar-lhe os movimentos. Fazia sempre os mesmos gestos. Começava por tirar o que parecia uma velha lata de sardinhas, enegrecida e ferrugenta, de uma malinha preta. Sussurrava então qualquer coisa para a senhora Maria, ao que ela acudia prontamente, aparecendo com um frasco cheio de um líquido incolor, que ele segurava nos dedos gordos enquanto despejava um pouco para dentro da lata. Nessa altura um cheiro forte, agudo, espetava-me alfinetes dentro das narinas. A seguir tirava uma caixinha de fósforos da maleta, daquelas pequeninas, abria-a com gestos vagarosos e acendia um, pondo a mão em concha à volta da chama, como se protegesse uma preciosidade. Aproximava o fósforo da lata e aparecia uma chama azul. Retirava então a seringa da maleta, e passava a agulha pela chama com vagar. A agulha era enorme e, uma vez que a via, já não conseguia desgrudar os olhos dela. Ele ainda fazia mais meia dúzia de gestos, mas eu já não era capaz de prestar a devida atenção. E nesse momento vinha de lá com a seringa em punho e eu começava a gritar porque já tinha percebido que aquele truque nunca resultava – até àquele segundo restava-me sempre uma pontinha de esperança de que parasse, aturdido, e perguntasse, com uma voz que nunca lhe ouvi porque entrava mudo e saía calado:
Onde está a menina Lídia?
Gritava, os músculos contraídos, enquanto o fogo me entrava no corpo. Continuava num pranto até muito depois de ele ter arrumado aquela tralha toda para dentro da malinha preta, sempre em silêncio, como se os meus gritos não o incomodassem. Sentia-me a pessoa mais miserável à face da terra.

quinta-feira, julho 28, 2011

Pequeno conto sobre a velha angústia

Os ataques de pânico têm voltado com frequência.
Já os conhece. Até os pode chamar pelo nome, como se fossem velhos amigos. Ou conhecidos. Uns mais íntimos, outros menos.
Às vezes é apenas um pensamento sinistro. Um pressentimento, melhor dizendo. Os pensamentos não trazem atrelados a certeza da sua veracidade absoluta. Ora então, um pressentimento. Uma certeza. A morte a aproximar-se. Cada segundo um passo na sua direcção. Sente-a chegar depois, pelo corpo. Primeiro é o coração que dispara, depois o peito que se encolhe, depois a garganta que seca, incapaz de incorporar o ar, depois a cabeça que parte, veloz, em direcção às nuvens. As tonturas. Os vómitos.
De outras vezes é ao contrário. O corpo em primeiro lugar. E só depois a certeza aterradora. A morte atravessada na garganta. Engasgada. Nem sai, nem vai para baixo.
Ela já sabia lidar com eles. Com os ataques. Tantos anos a aprender, a estabelecer uma relação, a conhecê-los. Sabia como evitá-los, como desviar-se, como fazer marcha atrás, inverter a direcção. Manter-se a salvo.
E agora? Parece que não sabe nada.
Recorda-se de conversas. Amigos e amigos de amigos todos reunidos, sentados no chão, pernas cruzadas. Por vezes eram só trocas de anedotas, de outras discutiam a profundidade e os mistérios do universo com humildade e veemência. Fumavam charros e riam por tudo e por nada. O mundo perdia os contornos e o mais ínfimo detalhe era motivo de gargalhadas convictas. Há que rir com convicção, pensava. Ou não. Porque às vezes o haxe, em vez de lhe mostrar o lado cómico da existência, entretinha-se a avolumar aquela angústia que nunca a largava, mesmo quando escondida no canto mais remoto da consciência.
Deixou de fumar. A angústia, essa, conteve-se. Ficou lá, qual animal selvagem domesticado.
Ela sabia lidar com o medo. E isso tranquilizava-a.
Ora numa dessas conversas, uma vez, um dos amigos de outros amigos falara daquilo. Assim, naturalmente. Estavam naquela idade em que partilhar intimidades insondáveis era a mesma coisa que partilhar mantas no inverno. Ou cigarros. Ou um lugar à volta da mesa. E ela ouviu, estarrecida, que esse amigo de outro amigo sofria do mesmo mal. E ela, que nunca falava disso - era um assunto só seu - também falou, dessa vez. Deixou-se levar. Abriu aquela porta, sem pensar.
E outro amigo, talvez perturbado com a conversa, dissera qualquer coisa como, mas vocês só pensam na morte? Vocês não gostam da vida? Não gostam de estar vivos?
E ela, sorrira para dentro, porque sabia, sentia a resposta pronta na ponta da língua. Nem precisava de pensar nisso. Sequer de ensaiar pensamentos, ou lógicas, ou palavras. Era tão óbvio. Era tão real.
É precisamente por gostarmos de estar vivos, que não queremos morrer. E que a ideia nos apavora. Só tem medo da morte quem ama a vida acima de tudo.
E esse sentimento, essas palavras, esse pensamento, chamem-lhe o que quiserem, é o mesmo que agora lhe afaga as entranhas, depois do medo corrosivo espalhar o seu veneno, incansável. Uma espécie de mantra. Só tem medo da morte quem ama a vida acima de tudo.
Talvez a vida não se possa amar. Talvez a vida só se possa viver, sem pensar muito nisso. Talvez o amor que alguns dedicam à vida esteja mal canalizado. Talvez devessem amar acima de tudo as pessoas, os lugares, os corpos, os pássaros, a luz da manhã, os caracóis lentos, as aranhas pacientes, as ervas, as flores, as árvores, o mar, os peixes, as algas, os céus, as nuvens, o ar que lhes entra nos pulmões.
Ou talvez não devesse amar nada disso, apenas a si mesma. Não dizem os entendidos que para amar o mundo e os outros temos primeiro que nos amar a nós próprios?
Ela sabe lá. Ela só sabe que tem medo. Às vezes nem sabe de quê, ao certo. E não, não é masoquismo, nem estupidez. É amor à vida.
A mesma vida que insiste em escapar-lhe dos dedos.
Isto, sim, talvez já seja uma ilusão.

domingo, abril 10, 2011

Crónicas de uma violência doméstica (2)

Engrenagem

Não que a sua vida fosse parada, bem pelo contrário.
O tédio era outro.
Uma máquina a trabalhar há décadas, que subitamente adormece pelo constante ruído e trepidação das engrenagens.
Era assim a sua vida.
Uma máquina em funcionamento.
E, o que era pior, não uma máquina autónoma, onde às vezes, com muito esforço, ainda podemos vislumbrar algum traço identitário, algo semelhante, talvez, a uma vontade, ou a um princípio de vontade.
Não, não era nada disso. Era, tão só, uma peça da monstruosa maquinaria envolvente.
Quem a pusera a trabalhar, quando e para quê, já não se lembrava.
Apenas se lembrava de existir, assim.

Crónicas de uma violência doméstica (1)

Escapar ao tédio


Eram assim os dias. Imensos, largos, vazios. Às vezes, mergulhava de cabeça naquela água lodosa, a cheirar a esgoto, só para escapar ao tédio.

domingo, março 27, 2011

Ataque de pânico

Sempre que sente a crise chegar, fecha os olhos e tenta não pensar em nada. Já sabe que é um esforço em vão: dentro da sua cabeça, começará o desfile de pensamentos macabros e sinistros. No entanto, rende-se, como um espetador que fosse parar a um desfile de moda por engano. Não que a comparação seja justa; uma pessoa nessas condições nunca sofreria os horrores da angústia que a assaltam nestes momentos. Começa no bater descompassado do coração, que parece querer saltar-lhe do peito para a boca; na sensação de irrealidade que a faz acreditar estar a viver dentro de um sonho; um pesadelo, será mais adequado dizer. E depois vem aquele aperto no peito, aquele pensamento sinistro, e o bafo da morte no pescoço, e aquela certeza aterradora de estar a viver os últimos minutos da sua vida. A primeira vez que lhe aconteceu era muito nova. Já não se recorda, devia ter entre dezoito e vinte anos. Não conseguiu dormir quase nada; cada batida do coração que ouvia, ampliada, dentro da cabeça, era um passo na direção da morte. Apetecia-lhe gritar e correr a enfiar-se na cama dos pais; porém, como é que alguém da sua idade, quase uma mulher (uma mulher, praticamente) poderia fazer isso? Talvez até o tivesse feito, se tivesse conseguido mexer um músculo. Mas não. O corpo não lhe obedecia. Nem a voz lhe saía da garganta. Talvez já estivesse morta, no fim de contas. Acabou por adormecer de exaustão, e no outro dia despertou com a luz do dia a entrar pelas frinchas do estore, surpreendida por se encontrar viva. Que disparate. A luz afugenta os fantasmas. Foi o que aconteceu. À noite, porém, tudo voltou. O mesmo filme de terror, noite após noite, até andar tão derreada que por fim já adormecia mal deitava a cabeça na almofada; ao menos assim nem dava por aquele monstro que lhe sondava os pés da cama.
Entretanto, habituou-se. Leu também muito sobre o assunto, mas já sabe que todo aquele manancial de técnicas que os livros de auto-ajuda aconselham não serve para nada. Não há racionalidade que suplante a angústia de morte. É, aliás, contraproducente: quanto mais tentamos afastar os pensamentos sinistros e substituí-los por outros, mais os primeiros se assanham e se arremessam contra nós. É como tentar conter uma erupção vulcânica ou um terramoto: nada a fazer. O melhor é cobrir a cabeça, encolher-se a um canto e esperar que passe.
Esperar que passe. É essa a sua técnica. Não pensar em nada, ou antes, entregar-se aos pensamentos sem lhes opôr resistência. Ninguém suporta o medo mais de cerca de trinta minutos. Passado o pico da ansiedade, esta tende a baixar. É nesta altura que volta a si, passa as mãos na cara, com os mesmos gestos com que a lava de manhã, abraça os ombros e esfrega as mãos nas pernas, por esta ordem, enquanto repete, como se rezasse: está tudo bem. Tem calma. Não vais morrer nada, que disparate. Vês, até já consegues rir da cena. Vá lá. Tem calma.
Nunca contou a ninguém, nem aos colegas, nem à médica de clínica geral, que foi sua colega na faculdade. Como é que ela, uma mulher da ciência, uma mulher que lida com a morte todos os dias, em horário de expediente, pode ter crises de angústia? Ela, que todos os dias salva vidas, vidas estendidas na mesa de operações, ao seu dispôr, à mercê das suas mãos; ela, que tantas vezes vê morrer essas mesmas vidas, vidas iguais à dela, que temem a morte como ela, provavelmente não tanto, ou talvez até mais, quem sabe, tudo é possível. Como é que ela, que tantas vezes dá o veredicto final, quando as tentativas desesperadas de reanimação não resultam; como é que ela, que decreta a hora da morte, se pode dar a esse luxo? Medo? Ela, que sem pestanejar, é capaz de abrir um crânio com um bisturi; ela, que escava a vida e a morte dos orgãos abertos dos seus pacientes, com uma meticulosidade fria, distante, calculada e controlada; como é que ela se pode descontrolar a esse ponto? Não, nunca o admitiria. Sabe que tem de lidar com o problema sozinha. É sozinha que o tem encarado, e aprendido a reagir. É o seu ponto fraco. Só não fica no calcanhar.
Não consegue ter relações estáveis. Aceita convites para festas, jantares, escapadelas para um quarto de hotel a meio da tarde, ou ao fim da noite, depois do jantar, num fim de semana; mas nunca, nunca, para dormir. Passar a noite com um homem, partilhar o sono com ele, é, afinal, mais importante do que fazer amor. É talvez o passo que distingue uma relação eventual de uma relação estável. Essa estabilidade, porém, não é para ela. Sabe que não pode dormir acompanhada. A hora do sono é a hora dos fantasmas acordarem. Ninguém a pode ver nesse estado, em que se encolhe como uma criança assustada debaixo dos cobertores até a tempestade passar. Porque passa, sempre, ela sabe. Não, isso é impossível. Isso seria desnudar-se completamente perante um homem; muito mais do que quando tira a roupa. Dessa nudez ninguém pode ser testemunha. Nem das suas lágrimas, nem do balançar ritmado com que tenta acalmar-se, como se sofresse de autismo. Fecha os olhos, e começa a contar baixinho, para dentro. O coração a galope, e os números a correrem, velozes, na sua cabeça. O peito a rebentar, o medo a subir-lhe pelas pernas e a saltar-lhe das órbitas juntamente com os olhos, e depois é o sangue que jorra, e vê os seus orgãos espalhados no chão, boiando na poça de sangue, e cerra os olhos com mais força para não ver mas a imagem persiste, teimosa. Já sabe que não vale a pena lutar contra ela, e então imagina que se levanta, muito calmamente, vai à cozinha buscar o balde e a esfregona, enche-o com água e deita-lhe uma tampa de cif, volta ao quarto e começa por recolher as tripas, o fígado, o coração, o pâncreas, a bexiga, o cérebro. Põe tudo dentro de um daqueles sacos do lixo, herméticos, como os de resíduos orgânicos, do hospital, e depois começa muito lentamente a passar a esfregona no chão. Vai demorar, a operação; precisará de despejar o balde com a água vermelha umas tantas vezes, e voltar a enchê-lo. Sabe, porém, que ao fim do, digamos, décimo balde, a angústia ter-se-à transformado numa água morna a bailar-lhe na boca.

domingo, março 13, 2011

Ensiná-lo a voar

Não, ainda era cedo. Falar do medo é uma coisa, aflorá-lo com dedos delicados; outra, muito diferente, era representá-lo numa imagem, dar-lhe corpo, dar-lhe vida. Resolveu por isso desenhar o rosto. O seu rosto. Primeiro a metade ilesa, a metade visível do exterior; a metade de si que toda a gente conhece. Uns traços leves, delicados, quase bonitos. É também a metade que tenta preservar; a metade boa, por assim dizer. A metade perfeita, intacta.
Depois desenhou a outra. A outra metade do rosto. A face transfigurada, aquela que esconde do mundo, por vergonha; mas que vê sempre que se mira ao espelho. Umas vezes mais, outras menos. Mas está sempre lá, ainda que mais ou menos sumida. A metade que lhe devolve o medo, e a dor, e a vergonha, e a raiva; assim, tudo por inteiro. A metade que é feita de chagas, a metade que é disforme, feia, mutilada. Olhar essa metade, saída assim das suas mãos, foi demais para ela. E então vieram as lágrimas. Um rio que lhe brotou dos olhos e da garganta, e que parecia impossível de acalmar.
As tempestades passam, porém, ainda que não acreditemos nisso quando estamos no meio de uma. Quando as águas amainaram, deteve-se na boca. A metade transfigurada da boca. Havia ali qualquer coisa que queria expressar e não conseguia. Era uma chaga, uma ferida; mas os traços não se definiam. Riscou o papel com fúria, e novamente aqueles traços, de arestas certeiras, lhe lembraram garras afiadas. O lápis ganhou vida própria; parecia voar-lhe das mãos, e ao mesmo tempo cravá-las na terra, enxadas furiosas. A ferida gritava ali, pela boca. Mas a boca estava muda. No fim, depois de muito riscar, olhou, e viu-o. O monstro. Uma ave de rapina que lhe engolia a boca, no seu bico cortante. E o olhar gelado, de abutre; o arrepio do medo. Retocou os traços, prolongou o pescoço e as asas, que cresceram em garras, em volta dos cabelos, em volta do pescoço, cravadas na garganta. Quando terminou, percebeu que o monstro, apesar de tudo, tinha melhorado. Era uma ave, agora. Ela nunca se lembraria de associar uma ave a à figura dos seus fantasmas. As aves, para ela, simbolizavam libertação. Esta ave, apesar de monstruosa, era uma ave. E tinha surgido assim, do nada. Não fora intencional. Roubara-lhe a boca, é certo, e deixara-lhe as garras cravadas na garganta. Ainda as sentia. Talvez não soubesse voar, aquele pássaro. Talvez fosse essa a sua missão. Ensiná-lo a voar.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Nada

Não sabia. Estava confusa. Com vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Com vontade de pôr tudo para fora. Talvez se pudesse dar-lhe um murro, pensava; um murro bem dado, daqueles que fazem bem à alma. Dar, claro, não levar. Acham que dar um murro não pode fazer bem à alma? Que ignorância a vossa. Era mesmo isso que eu precisava, dar-te um murro, dizia a si mesma, cada vez mais convencida de que depois, tudo seria mais fácil. Sentir-se-ia muito melhor. E talvez ele também se sentisse melhor. Há alturas em que é preciso que as coisas nos batam na cara. Será que pensava isto para se desculpar, uma forma manhosa de aliviar a consciência? Também não sabia. O que sabia é que depois, quem sabe; depois do murro, talvez fosse possível abraçá-lo. Ou não. Talvez o medo ainda não o permitisse; não sabia. Estava na mesma, afinal; não sabia nada.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Ainda não perceberam?

Preciso de me misturar com este homem. Entrar-lhe para dentro do corpo, para dentro da pele; ser o ar que respira, inspira, expira; correr-lhe nas veias, encher-lhe as aurículas e os ventrículos, os pulmões até sufocar, o ar, o ar. Preciso de me perder nos seus medos, na sua dor, preciso de ser as suas gargalhadas, risadas, palavras, preciso de lhe morar na boca, sofrer-lhe a dor nas pernas e nos joanetes, ser-lhe a sombra do que não ousa. Preciso de me confundir com ele ao ponto de não saber se é de mim que falo, se é dele. Se sou eu ou ele. Quem sou eu, sou ele.

Olhar para trás 2

O que é facto é que estar longe permite-me olhar para quem eu era e sou de outra maneira. Olhar para a minha família e para a minha relação com os meus a uma luz diferente. Permite-me olhá-los e vê-los de outros prismas.  A mim também. Aliás, a toda a minha vida. O que fiz, o que não fiz, o que não fui capaz de fazer, aquilo de que abri mão, de que arrependo, de que me orgulho. Na distância ganha-se esta clarividência. Foca-se a realidade. Entendemos melhor, escutamos com mais atenção, reparamos naquilo em que nunca reparámos antes, vemos o que estava mesmo à frente do nariz. O mais óbvio é, as mais das vezes, o menos visível. Apenas porque estamos demasiado perto.

A distância permite-nos situar no mundo.

Olhar para trás

Afinal, o que é a distância? O que é estar longe, o que é estar perto? A distância mede-se em quilómetros, ou em silêncios? A distância afasta-nos, ou aproxima-nos? Eu diria que para ser precisamos de nos distanciar. A proximidade excessiva não nos permite diferenciar. Acabamos por ser uma amálgama. Definição exige limites,  e limites pressupõem espaços diferentes. Espaço para respirar.
Porque vim para tão longe dos meus? De que fujo? Se é que fujo de alguma coisa. Talvez tenha precisado desta distância para poder olhar melhor à minha volta. Encarar-me e encarar o mundo de outra perspectiva. A distância pode tornar as coisas mais claras. Revela-nos outros ângulos, dimensões que desconhecíamos até então. Introduz discernimento. Enriquece a percepção. No entanto, não procuro iludir-me. Não foi por nenhuma destas razões, todas muito sensatas e inteligentes, que me afastei. Na verdade, limitei-me a seguir um impulso que não sei bem de onde nasceu. Já não sei se foi apenas a mágoa, a dor, a vontade de morrer. Como disse, a distância traz discernimento (traz uma outra luz), e, vistos daqui, os motivos desta decisão tornam-se outros, mais nítidos e mais verdadeiros. O desejo de morrer tem muito em comum com o desejo de renascer. Acaba-se algo para começar outra coisa. Aliás, sem acabar uma não se começa outra. Morremos todos os dias, e partes de nós ficam para sempre enterradas pelo caminho. A dor é necessária a este processo, pois ninguém se despede de uma parte de si impunemente. Foi para nascer, então, que decidi partir, embora na altura me quisesse convencer de que só me restava morrer. Percebo, finalmente, que não fugi de mais ninguém para além de mim. Não se pode fugir eternamente. Chega a hora de, finalmente, olhar para trás.

sexta-feira, julho 02, 2010

Vida normal

Havia dias em que quase, quase se sentia uma pessoa normal. Normal, essa palavra que sempre detestara, e que, no entanto, era o que mais desejava ser, agora. Havia outros dias em que o peso que a esmagava a derrotava completamente, e não conseguia levantar-se. Simplesmente, não conseguia. Era nessas alturas que sabia, sentia, que nunca, nunca teria, nem nunca tinha tido, uma vida normal. E era nessas alturas também que a palavra deixava de ser detestável.

segunda-feira, junho 28, 2010

A minha angústia

Límpidas, as nuvens vêm do lado do mar e passam por cima de nós em ventos de algodão. Eu fico aqui, ainda aqui estou, e o sol já se pôs no mar, e o sol era um balão incandescente, e o mar era ouro e prata. Com o crepúsculo vem um silêncio de chumbo, um silêncio de séculos marcado de súbitas asas nocturnas e do cântico dos grilos, do coaxar das rãs nos charcos das matas e da dança das folhas em ventanias geladas. É nessa hora que chega a minha angústia. Lenta e sonâmbula, entra pela porta de braços estendidos, como se se tratasse da saudade de um velho amigo. Conheço–lhe os passos, o modo cambaleante de andar e tropeçar nos próprios pés, o contacto dos dedos gelados, sem sangue nas veias que lhe dê vida e calor. Conheço–lhe o rosto, o mesmo que em criança se me atravessava no caminho e me enchia o corpo de arrepios de medo. Conheço–lhe as mãos, as mesmas que nunca largam o que apertam e nos afagam o corpo em carícias moribundas. Conheço–lhe o olhar que me persegue no escuro e nas noites de insónia. Desde criança. Desde criança que a sinto dentro de mim. Agora saiu para fora, inundou o espaço à minha volta e não há crepúsculo em que não me apareça à porta. Cercou a minha casa num abraço de morte, espalhando em redor o perfume das coisas velhas e sem nome. As suas mãos tomaram conta do meu corpo, esse espaço íntimo onde tento preservar a todo o custo o que me resta de lucidez. Porém, já não luto com ela. Rendi–me à sua presença, à sua magia, à sua graça feiticeira. Já não fico acordada, de olhos em transe, numa tentativa desesperada de a expurgar do corpo. Em vez disso, convido–a a entrar, estendo-lhe a mão, sirvo–lhe um copo de whisky. Ela sorri e já não me assusta. Consigo vê-la nitidamente, vislumbro-lhe o rosto e oiço–a falar, tanto que ela me fala, ficamos sentadas noites a fio entre copos e sorrisos cúmplices, enquanto ela me fala da criança que eu perdi. Fala e leva–me até aos dias mais sombrios, às horas mortas, e eu vou, dou–lhe a mão e vou com ela, vou e ela mostra–me aquele rosto de criança, os dias e as noites de pesadelo, o medo entalado na garganta, o susto que me inunda o quarto, vou e agarro-lhe a mão, a mesma que nunca me largou e sempre esteve a meu lado, sólida, firme, uma presença constante, uma parede branca, todos esses anos, ela, a minha angústia.

segunda-feira, março 29, 2010

Do silêncio e das lágrimas e de coisas que nos vêm à cabeça

Entretanto, também, continuo a deitar-me no divã. Três vezes por semana. Não sei porque o faço, nem para quê. Uma espécie de dependência? Nós, as mulheres, temos este hábito de desenvolver dependências relacionais com quem nos escuta. Ou finge escutar, o que vai dar ao mesmo. O acto de escutar tem tanto de pretensioso como de passivo. Passivo, porque não se faz absolutamente nada; pretensioso, porque nunca ninguém conseguirá essa proeza de realmente escutar o outro. Nós ouvimo-nos a nós mesmos, nas histórias que nos contam. Ouvimo-nos e vemo-nos em tudo o que olhamos e ouvimos do mundo. No fundo, não passamos de um bando de egocêntricos. Outro dia deu-me para chorar. Quebrei o silêncio em que mergulhava há tanto, vim à tona e disparei aquilo. Aquelas palavras. Ouvirmo-nos dizer o que vimos dizendo há anos, sempre para dentro - sempre sem voz - é um choque brutal. Reconhecer as dores que já sabemos de cor - e que nos trazem o coração espremido no peito - mas que nunca nos ouvimos dizer pode deixar-nos à beira do desespero. Ou das lágrimas. Chorei, e o silêncio embalou-me as mágoas. Foi bom aliviar o peito. Porém, quando me levantei para te apertar a mão, senti-a suada, e detestei-te, no mais fundo de mim. Imaginei o teu olhar a comer-me as pernas enquanto me esvaziava, líquida, à tua frente. Jurei não voltar. Mas voltei. Volto sempre. Pior que uma droga, ter alguém que nos oiça. Pior ainda, alguém que nos ouve o silêncio, sem ceder à urgência de o encher com um significado qualquer que nunca é o nosso.

Precisava de chorar. Chorar, só; deixar as lágrimas arrastarem a mágoa e quedar-me na quietude da maré. Poucas pessoas sabem deixar-nos chorar. A maioria apressa-se a tentar reconfortar-nos com palavras de compaixão, tentando a todo o custo, ainda que disso não se apercebam, que as suas parcas tentativas de compreensão estanquem a torrente das lágrimas. Muito pouca gente aguenta. E muito menos ainda sabe a raridade que é a dádiva do choro - alguém que oferece o choro a quem chora - toma, é teu, chora-o - e ao mesmo tempo o recebe - dá-mo, dá-me as tuas lágrimas - sem agradecer. Apenas recolhendo as mãos e deixando o rio estancar por si. Sem pressa nem urgência. Sem projectar a culpa - que fácil que é projectar a culpa nesta situação! Quase sempre quem chora se sente culpado - porque chorar é dar parte de fraco, é assumir a impotência, é uma vergonha, é infantil, é patético, é irritante, é, enfim, uma série de coisas desagradáveis e, em última análise, contém em si uma acusação muda - se choramos é porque alguém nos magoou e se choramos para alguém estamos implicitamente a imbuir esse alguém da responsabilidade do nosso choro. Enfim, uma teia tão intrincada que não admira porque é que a maior parte das pessoas prefere entregar-se às lágrimas sem testemunhas.
Porém, a dádiva do choro é talvez mais importante que a do riso. Poder chorar com alguém - saber que há quem recebe as nossas lágrimas sem nos acusar, sem se sentir culpado, sem nos achar fracos - sem achar nada, apenas estar ali, a escutar-nos os soluços - é talvez a maior prova de humanidade e comunhão possível de sentir. Foi o que fizeste. Também não admira, foste bem treinado para isso. Aposto que quando a tua mulher chora não te comportas assim. Fiquei ali deitada no divã, alagada no meu próprio ranho - no meu próprio espanto - e tu não fizeste um gesto. Não disseste uma palavra. Deixaste-me ir ao fundo das lágrimas. E que bem que me souberam as minhas lágrimas. Que bem que me fez chorar. E como te agradeci o silêncio.
Como te odiei por me teres dado exactamente aquilo que precisava.
Como te odiei por seres o oposto do que esperava.