quarta-feira, agosto 31, 2005

ARCA VELHA

É verdade, trouxe na mala a minha arca velha, ou seja, palavras vindas directamente do passado, textos do século passado, portanto, já com cem anos(!), alguns já com teias de aranha ou comidos pelos ácaros...
Bem, não sabem o gozo que é reler coisas que se escreveram mais ou menos há uma década! Mas algumas ainda tão actuais...
E porque este blogue é essencialmente para os meus amigos, aqui ficam, desses textos, três, para três mulheres, três amigas, com um grande protagonismo na minha vida. Um para cada uma. Elas sabem quem são. Um beijo, minhas queridas.

Foi quando se distribuíam os quartos e eu não sabia com quem havia de ficar, de repente ela olhou para mim e piscou-me o olho, assim discretamente para mais ninguém ver, e eu fiquei parva, não acreditava que ela quisesse ficar comigo, ela era daquelas pessoas que estava sempre na brincadeira e isso deixava-me sempre um pouco desconfortável. E no meio daquela gente toda sorri, triunfante, então vamos lá! O pessoal lá se distribui pelos quartos, e depois fomos jantar, que estava tudo cheio de fome e a viagem fora longa, e eu aproveitei logo o facto de já conhecer aquelas paragens e disse, há aqui um sítio onde se comem umas sopas óptimas, e lá fomos, mas afinal àquela hora da noite já não havia sopa e tivemos de nos contentar com umas sandes de queijo, que a fartura não era muita. Que horror, sandes de queijo, para quem almoçou um prego no pão em Coimbra, lá para as 2 da tarde, e eram para aí umas 9 e tal, quase 10, que fominha que vamos passar. Com uns copos pelo meio o pessoal até se esqueceu dos roncos estomacais. E algumas cantorias. Depois fomos para a "Disco", ou seja, a discoteca da Pousada de Juventude, mas aquilo decididamente não prometia. Seguiu-se a Tequilla Party na camarata das raparigas, e lá veio o elemento masculino todo para a clandestinidade, com esmeros esforços para iludir os sentidos do senhor vigilante, que de vez em quando por ali passava para ver se estava tudo nos conformes, como mandam os bons costumes e como é hábito nas casas de banho, meninas para um lado e meninos para o outro, que as misturas são perigosas, principalmente com álcool, olá se são. Ainda por cima não se podia fumar nem beber nos quartos, e é claro que respeitámos as regras, o que é que pensam, uns sacos de plástico à volta dos detectores de fumo, e pronto!, está o problema resolvido. Está claro que ficou tudo bem bebido, menos eu, que só bebo água ou sumo natural, e foi um fartote. E quando a noite já não era nenhuma menina, antes de dormir, ainda ficámos as duas a falar imenso sobre a faculdade e as pessoas que não dão valor nenhum às coisas, uns vêm para aqui só para engatar, outros só para apanhar bebedeiras, enfim, não é que estivéssemos em condições de pregar moralismos a ninguém, mas descobrimos subitamente que pensávamos e sentíamos da mesma maneira em relação a milhares de coisas, e era uma sensação óptima. E às tantas acabámos a falar das raparigas e do seu mundo, e ela confessou que tem imensos problemas por ser loira e ter olhos azuis, devido a esse estereótipo estúpido e idiota que associa a falta de inteligência às mulheres bonitas... e loiras, ainda por cima! Estás a ver, é como se tivesses de estar sempre a provar que não és estúpida, só por seres loira. E eu, que nunca tinha sonhado que ela pudesse ter problemas desse género, achava-a tão bonita que nunca me passara pela cabeça que isso pudesse provocar constrangimentos. Falámos, falámos, falámos pela noite fora, e já nem me lembro a que horas nos deitámos, mas deve ter sido bem tarde, porque no outro dia não nos conseguimos levantar da cama antes das 11 e tal, e tivémos de sair do quarto pela janela, porque as portas das camaratas fechavam às 10 e só abriam às 18, por razões obscuras que não cheguei a entender lá muito bem. Enfim. Foi o começo de uma grande amizade. Por falar em almas gémeas.

Recebi carta da Suiça. A minha amiga casou-se. Que estranho, sentir de repente o tempo em cima de nós. E a fofografia. Tão bonitos, os dois. Detesto o casamento. Mas adorei a fotografia. Acho que os momentos são importantes e únicos para quem os vive. E depois é a minha comadre que se casou, ora bolas! Oh, comadre, espero que sejas muito feliz. Acabámos por nos unir à custa de uma dor que guardamos bem fundo nos nossos corações... que digo eu? Dor? E as festas, e as reuniões, e o pessoal sempre a falar e a ter ideias, a pintar murais, a ir para a rua gritar para quem quisesse ouvir quem somos e o que pensamos... E aquela força? Oh, sim, já me esquecia, no fundo acho que acabou e já não acredito. E a vigília em Alcochete, naquele dia em que eu estava constipadíssima e chamámos os espíritos, e afinal acabou tudo numa grande chuvada, na estação dos barcos para o Montijo. E ela entrou, sentou-se e olhou para nós os três assim como que a medir-nos, a adivinhar já pela cumplicidade que devíamos pertencer ao grupo para onde ela fora convidada às três pancadas por um amigo comum. As coisas que nos vêm à cabeça quando nos começamos a recordar de tudo...
E afinal acabámos por dormir juntas na mesma cama, unidas já por uma irmandade secreta que ainda não podíamos adivinhar... Éramos três e só havia duas camas, uma já ocupada pela filha do casal amabilíssimo que nos albergara em casa, e quem é que dormia com a miúda, eu não me importo, eu também não, ah, eu também não me importo nada, mas nenhuma se decidia. Vai, ficou a outra, e enquanto me deitava debaixo dos mesmos lençóis que aquela que viria a ser a minha comadre, ainda pensei, espero que ela não dê pontapés a dormir, sempre tive este trauma porque em criança quando calhava partilhar a cama com o meu irmão ele só me deixava ocupar um milímetro da cama, eu encolhia-me toda com medo dos seus pés e pernas que ganhavam vida durante o sono. Pela noite dentro ainda acordei com as gargalhadas dela a atravessarem a escuridão do quarto, que filme cómico estarás tu a ver em sonhos, ainda não me permitia grandes intimidades, nem em pensamento, e nem me lembro de voltar a adormecer. E pronto. Foi assim que ela entrou na minha vida.


Tenho uma amiga muito parecida comigo, é incrível, quando ela começa a falar dela eu penso, é isto que eu sinto, e eu falo de mim e ela sente o mesmo, é como se falasse dela, que engraçado, ela deve compreender-me tão bem, como eu a ela. É o sol, é a cor, é o suor. Uma dose mais forte, lenta. É assim a vida. Uma dose lenta, mas forte. E nós temos de aguentar. Sem ir ao fundo. Abandonaste tudo, o teu país do outro lado do oceano, os amigos da infância e da juventude, a vida, a alegria, tudo, e agora estás aqui neste país irmão sem saber onde está o teu coração, de que lado do oceano, em que mar. Como eu te compreendo e adivinho o que sentes, é como lançar o passado ao mar e ficar a olhar para ele de tão longe, tudo passou e não tem volta, e de repente o pensamento dispara para lá e é como se tudo voltasse, mas não, tudo está enterrado, nada é já o que era, tudo está diferente e já nada nos pode sorrir.
Ainda me lembro da primeira conversa a sério que tivémos. Foi na Gulbenkian, sentadas na relva, com o sol a encandear os olhos. Falámos, falámos a tarde toda, trocámos confidências, ainda com a timidez e o desviar de olhos das primeiras vezes. E quando nos levantámos algo tinha mudado, não sabia bem o que era, mas as cores da tarde estavam mais vivas e o ar mais leve. E ainda por cima somos iguais, como se os sentimentos se emparelhassem uns nos outros de forma harmoniosa.
Agora ela deve estar a curtir um sol em Copacabana, espero que seja um sol radioso e que ela regresse com aquela cor do verão que tanta inveja causa nas meninas aqui. Coitadas, tão branquinhas. É outra das coisas que me irrita nas raparigas, o olharem sempre para a galinha da vizinha.

1 comentário:

Alex disse...

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