sábado, fevereiro 25, 2006

ESTA QUESTÃO DA RAÇA

é uma coisa que me incomoda. Sempre incomodou.

Desde os tempos em que estudava Biologia na escola secundária, e me apercebi da inconsistência do conceito de "raça".

Desde as leituras de "O Macaco Nu" e "O Zoo Humano", de Desmond Morris, que trouxeram novas luzes, cores e perspectivas aos meus olhos.

Mas desde que sou mãe de dois cabritos, esta questão passou a fazer parte da minha vivência.

Para quem não sabe, cabrito é o nome que se dá ao ser humano resultante do cruzamento entre um branco (indivíduo de raça branca) e um mulato (indivíduo de raça mista, resultante por sua vez do cruzamento entre um indivíduo de raça branca e outro de raça negra).

Ora, o que me tenho apercebido, é que para além do racismo e da xenofobia existentes (quadros compulsivos mais graves), existem uma série de preconceitos raciais inerentes a esta questão, que estão tão enraizados na cabeça das pessoas como as ervas daninhas nos canteiros, e que, se não matam, moem, incomodam, provocam constrangimento.

Quando o David nasceu, ouvi coisas tão díspares como: "ele é mesmo preto!", "mas ele é muito branquinho!" (o espanto a crescer na voz. E a dúvida traiçoeira: "acho que ele é branquinho demais...", num tom irónico, de evidente brincadeira, mas não menos despropósito).

Depois veio o Diogo, que é, incontestavelmente mais branco que o David, e que tem os cabelos muito mais claros que qualquer um de nós (eu incluída). E os comentários não se fizeram esperar:

- Ah, este é mais branquinho que o outro... sai mais a si! - um olhar de tentadora cumplicidade, e de um sorriso inequívoco a acompanhar.
- Mas ele é loiro... (espanto)
- Ele é muito clarinho, há aqui qualquer coisa de estranho... (risos)

A maior parte destes comentários foram feitos num tom amigável. Mas isso não lhes tira o carácter preconceituoso, ainda que não discriminatório. Aliás, o significado de preconceito vem de pré-conceito (ideia pré-formada, anterior à observação dos factos).

Porque é que ter a cor da pele diferente não é uma coisa tão natural como ter a cor dos olhos diferente ou o cabelo liso ou encaracolado? Ou ter sardas, ou ter nariz comprido ou achatado? Ou ter olhos pequenos ou grandes? Ou ser loiro ou moreno? Ou ter sangue do tipo O ou do tipo A?

E no entanto, a nível biológico, as diferenças genéticas são mais ou menos as mesmas, para um caso e para outro.

Estas perguntas podem parecer inocentes e ingénuas, mas não são. É, aliás, nelas que reside a complexidade da questão. Porque de facto ter a pele de cor diferente (ou ser de outra "raça") é a mesmíssima coisa que ter olhos azuis ou pretos. Que ter o cabelo liso ou encaracolado. Que ser Rh+ ou Rh- O resto, os preconceitos, nascem na cabeça das pessoas.

E para que conste:

Nem o Diogo sai à mãe por ser "branquinho"", nem o David sai ao pai por ser "escurinho". Os meus filhos saíram de mim, foram criados nas minhas estranhas, o seu sangue nasceu do meu sangue, são da minha raça. E eu da raça deles. Ainda que a pele deles fosse negra como o carvão e a minha branca como a neve, eles continuariam a ser da mesma raça que eu.

Porque a única "raça" a que pertencemos é a Raça Humana.

Porque, de "branco", só tenho mesmo a cor da pele.

15 comentários:

sem cantigas disse...

devagar para não ser bruta:
esses comentários são pra te rires e não pra levares a mal, rires de quem diz porque n sabe que mais dizer... mas isso acontece independentemente do facto dos filhos serem de pais coloridos, há pessoas mesmo assim, que dizem esses comentários inconsequentes!
as diferenças genéticas existem, há doutoramento de um médico moçambicano sobre o efeito de um medicamento em pessoas com tensão alta de raça branca e de raça negra e concluíu: espantoso! que as pessoas de raça negra suportam menos o sal porque o continente africano é tão grande que há pessoas que nunca viram em milhões de anos o mar, por isso o sal! essa informação genética condiciona a tolerância ao sal!
olha não sei nada de biologia nem sei se expliquei bem, podia contar mais cenas, geneticamnet somos diferentes!
vou fazer um post sobre isso e uma cena passada comigo!
Dabritinhos!
tens a certeza que és branca????
lol
eu não!
:-)
e depois? what's the problem?

papu disse...

Eu não levo a mal!
:)
Mas oiço.
E não, tb não tenho a certeza de ser branca, se formos a ver...

Claro que há diferenças genéticas, assim como as há entre quem é do tipo O e do tipo A ou quem tem olhos azuis ou castanhos... o q eu quis dizer é que as diferenças genéticas não são maiores do que nestes casos!

Bjs

sm disse...

Concordo inteiramente contigo!!! Já tinha saudades de te ler! Em questões genéticas não somos muio diferentes de coisa nenhuma (brancos e negros = homens), muito menos que da mosca-da-fruta, os genomas são praticamente iguais... dá que pensar!

;)
Sandra

sem cantigas disse...

já está
http://semcantigas2.blogspot.com/2006/02/tabu.html
dá-me a tua opinião sobre a forma de abordagem, escrevi agora em cima da emoção de ler o teu post!
ainda te contava mais histórias sobre cenas de racismo mas elas são giras quando não são más!
beijos!

sm: não me digas agora que sou uma mosca-da-fruta??? por acaso não me importava, adoro fruta, africana de preferência!

sem cantigas disse...

claro que estamos de acordo, só queria desvalorizar este assunto eterno e inútil.
e que os portugueses não tivessem a mania que não são racistas!
mas pronto não adianta falar falar falar cada um no seu meio é que tem que "avisar a malta"
bjs
papu!

papu disse...

Claro que adianta falar falar falar! E avisar a malta também! :))
bjs

O meu Blog! disse...

Desculpa mas eu sou muito diferente do povo com quem tu vives. Os bifes. Como é que uma gente tão branquinha tão branquinha suporta tão bem o frio? Tal como a gente escurinha suporta bem o calor...
E nós durante toda a nossa vida passamos por várias cores...todos os dias temos uma cor diferente. Olha, eu qdo acordo parece q tou amarela (do sono), bebo café e passo a um rosa pálido. Saio à rua, um frio de rachar, até fico roxa! Meto-me no carro para ir levar o Diogo à escola e fico vermelha de raiva com a condução destes tugas. Se joga o Sporting fico verdinha por dentro e por fora. Tipo camaleão...

Beijos amiga!

Ana

um estranho disse...

Lindo !
Nem sei bem definir a cor da minha pele, acho que tenho pele de tom de cigana, tenho dias em que fico verde como diz a tua amiga Ana, outros fico vermelha de calor, sei lá eu que cor tem a minha pele

branca não é.

ÉS linda Papu.

papu disse...

:)))
Acho q vou ter de alterar o fim do post para:

Porque, de "branco", nem mesmo tenho a cor da pele! ;)

Spitfire disse...

É "engraçado" que se comente a pele, e não os olhos, ou o nariz, ou o sangue, ou o cabelo...
Nenhuma outra característica física condiciona tanto o comportamente de alguns como a "cor" da pele, levando aos "disparates" que tantas vezes se ouve falar.
Raça? É ser humano... não ser um "bicho".

sem cantigas disse...

sim! ter olhos verdes por exemplo é relevante!
:-)

Spitfire disse...

A mim não me faz diferença... praticamente não os vejo!

sem cantigas disse...

que desperdicio... :-))

Spitfire disse...

Ainda bem que assim é! Senão não prestava atenção a nada... lol

soniaq disse...

Bom dia Papu

Adorei este post.

Sabes que a maioria das pessoas não sabe que todos os humanos pertencem a uma única raça, a humana, a cor da pele não é raça, assim como a cor dos olhos ou de outra coisa qualquer, enfim.

Tenho uma amiga que tem gémeas, heterozigóticas, ou seja, diferentes e apesar de lindíssimas, uma é mais morena e com olhos castanhos enormes lindos e a outra tem olhos azuis e o cabelo castanho claro, olha, estão sempre a dizer-lhe que uma é mais bonita (a que tem olhos azuis) que a outra e ela fica furiosa, é de uma parvoíce enorme, mas as pessoas têm entranhado muitos conceitos errados e ainda vai levar um tempo para tudo mudar.

Outra história, quando era pequenina, eu que sou muito morena, uma mãe de uma amiguinha, perguntou-me se a minha mãe era cabrita? Fiquei siderada, perguntarem-me se a minha mãe era um animal??? Não me lembro do que respondi, só sei que chorei e corri a perguntar à minha irmã isso de a Mãe ser cabrita, lá ela me explicou como pode, a partir daí comecei a perceber que havia muita gente estúpida por aí.

Adoro ser morena e levar muita gente a perguntar de onde é que eu sou, digo, sou do mundo inteiro, nas minhas veias corre sangue de todos os continentes, por isso sou interessante.

Muitos beijinhos, querida