domingo, abril 02, 2006

AO MEU IRMÃO

Tinhamos brincadeiras que só nós entendíamos. Inventávamos linguagens e palavras complicadas com que gostávamos de baralhar os outros. Ainda hoje é assim. Da nossa infância longa recordo as brincadeiras malucas sobre a Heidi e o Wikie (respectivamente Beca e Wika) e todas as personagens que inventámos ao longo desses anos mágicos e que juntas formam uma multidão. E lembras-te, era em Londres que elas viviam, e chegámos a fazer uma planta da cidade com o nome das ruas e os trajectos dos autocarros. Essa Londres da nossa imaginação era uma aldeia ao pé desta onde vivo. Mas, de resto, tudo ainda está vivo, aqui, dentro de mim, e sei que contigo também.

Ainda me lembro de ser minúscula e de te imaginar a vir da escola pela rua, sentado na aranha. Era isso que imaginava quando a mãe me dizia que vinhas de carrinha para casa. Depois lembro-me de ter-me juntado a ti no banco de trás da carrinha a acenar pelo vidro enorme para as duas caras conhecidas paradas no passeio. Lembro-me desse outro reino assustador onde me sentia perdida e de te seguir os passos constantemente. Lembro-me de fugirmos dos maus da Tété e de darmos um pão com uma pedra da calçada lá enfiado a um miúdo para comer. E ele comeu! (O pão, não a pedra).

Lembro-me de tanta coisa que agora as palavras são poucas para sorrirem inteiras. Ao contrário, as memórias atropelam-se e fragmentam-se e enchem o espaço vazio da saudade. Hoje fazes anos e recordo este dia sempre com a casa cheia de amigos teus e meus. Mas há muito tempo já que a distância se interpôs nas nossas vidas, e, mal ou bem, já me habituei a ela. Porque no fundo sei que estamos sempre juntos, e que o nosso mundo de crianças continua vivo e alimenta ainda a nossa imaginação e os nossos dias. E, daqui de longe, desejo-te um óptimo dia de festa, e sei que ainda que não cheguem aí estas palavras, vai chegar o que elas dizem.

5 comentários:

Alex disse...

Lembras-te dos laços de sangue?
Esses não se perdem, nem no tempo nem na distÂncia.
Beijo Papu.

Alex disse...

Já dançaste hoje?
:)

Pedro Ruivo disse...

Parabéns ao Yuon mais velho :-))))

AS disse...

Papu, a peimeira palavra que este teu lindo texto me sugere é TERNURA!...
Depois as recordações de infância que nos acompanham pela vida fora e que muitas vezes estimulam as nossas emoções.
Por fim deixo ao teu irmão um abraço e os votos de um dia feliz!...

Para ti, um beijo de amizade

nascitura disse...

papu,
tudo bem?