segunda-feira, maio 08, 2006

CHUVAS, CHUVADAS, GUARDA-CHUVAS E ESTADOS DE ESPÍRITO

Hoje está a chover a cântaros. Raining cats and dogs, como eles dizem aqui.

É em dias como este em que, através do vidro embaciado da janela, olho para o céu cinzento de nuvens que teima em fazer desabar inteiro o rio caudaloso de águas impossíveis sobre as nossas cabeças, que penso com os meus botões: mas porque diabo ainda não comprei eu um guarda-chuva?!

Como já escrevi uma vez, aqui os guarda-chuvas são uma espécie em vias de extinção. Mas isso não significa que as pessoas não os comprem. Desconfio, aliás, que quase todas as pessoas os têm, muito bem guardados, no fundo de algum armário onde arrumam coisas que raramente usam. E que, em dias como este, lá o vão buscar, sacodem indiferentemente o pó acumulado, que teima em sujar as cores, e dão-lhe finalmente o fim e a utilidade que tanto merecem.

Desconfio, até, que nesta cidade os guarda-chuvas sofrem de graves depressões e apatia, esquecidos no fundo das velhas arcas e dos armários, sem nunca verem a cor da chuva nem sentirem a frescura da humidade nas cores murchas dos tecidos. Se calhar até é por isso que aqueles que vemos passear nas ruas, cobrindo as cabeças dos seus donos, têm sempre um ar derrotado, triste, e as cores oscilam quase sempre entre o cinzento, o azul escuro e o preto. De vez em quando lá aparece um vermelho vivo a rasgar o cinzento da manhã, ou umas riscas alegres e quentes de vermelhos, amarelos, verdes e laranjas, mas é raro. E mesmo esses sucumbem à melancolia, meio caídos, com o pano comido pela traça nos cantos e alguma haste partida por intempéries passadas.

Bom, mas voltando ao assunto, dizia eu, que ainda não consegui perceber porque raio ainda não comprei um guarda-chuva. Vou confessar-vos uma coisa: eu nunca gostei de guarda-chuvas. Para ser franca, sempre os abominei, na minha adolescência já um pouco longínqua. Para além de achar ridículo o espectáculo de alguém a segurar uma bengala virada ao contrário na mão, encimada por uma abóbada plástica às florzinhas ou aos quadradinhos, achava aquilo pouco prático: só ficava com uma mão livre, o que queria dizer que depois não tinha mãos disponíveis, partindo do princípio que a outra já estava ocupada a segurar os livros e os cadernos da escola (sim, também sofria de alergia às mochilas e pastas para a escola). Mas mesmo pondo de lado este pormenor, o guarda-chuva sempre me pareceu um instrumento desnecessário e inútil no seu modesto propósito de nos proteger da água da chuva. Para já, porque a chuva nunca cai a direito (e levamos sempre com algumas gotas teimosas, isto para não falar em autênticos jactos de água, nas chuvadas mais agrestes), e depois porque, quando entramos no autocarro e temos de fechar aquela porcaria, é que nos apercebemos do ridículo da situação: para além de levamos toneladas de água para dentro do autocarro, e de molharmos toda a gente à nossa volta, inclusive o chão, com o rio que escorre da ponta metálica do infeliz, ainda acabamos de molhar o que em nós estava seco até há poucos minutos, principalmente quando o autocarro está cheio e temos de nos colar às outras pessoas e neste caso, claro, ao nosso guarda-chuva encharcado.

Bom. Por estas e por outras nunca fui grande adepta do seu uso, e andava à chuva. Aliás, gostava de andar à chuva. Gostava particularmente de sentir a chuva a ensopar-me os cabelos e a refrescar-me as bochechas. É claro que apanhei algumas constipações e resfriados, mas nada que me demovesse da minha opção.

Uns anos mais tarde, os ditames do que é socialmente aceitável falaram mais alto, e começou a ser impraticável chegar ao destino com o cabelo a pingar e a roupa empapada. Rendi-me então ao uso do guarda-chuva. Esqueci o prazer da chuva, subsituí-o pelo conforto conformado de pernas e cabelos secos (apesar dos pés nunca se poderem gabar do mesmo, com ou sem guarda-chuva).

Isto até ao dia em que cheguei a este país e deparei com o espectáculo que a mim tanto gozo me dava no passado. Com a diferença de que as pessoas que vemos aqui passear à chuva serem de todas as idades. Velhos, novos, mães, pais, filhos. Os impermeáveis a escorrer, os gorros e os capuchos ensopados, os casacos escuros da água da chuva, e eles nem por isso apressam o passo. Não sei se foi algum bichinho lá da minha memória, mas o que é facto é que me juntei a eles sem pensar. E até já quase me esquecera de que existem guarda-chuvas. Isto, claro, quando não os vejo passar, destronados, nas mãos de algum chuvo-fóbico (esta palavra inventei-a agora, porque aqui realmente quase ninguém usa guarda-chuva, e quando vemos alguém na rua a passear tão estranho instrumento, somos levados logo a imaginar que tal comportamento decerto terá origens obscuras no seu passado remoto, relacionadas com áreas hidro-afectivas - também inventei esta agora).

É claro que hoje, com esta bátega, havia imensos chuvo-fóbicos na rua, o que nos leva a crer que, em situações extremas, deixa de ser esta a motivação para o uso do guarda-chuva, para dar lugar ao bom-senso. É claro que bom-senso é coisa que nesta questão me falta de sobra, e lá fui eu para o meio das águas que teimavam em alagar a terra e transformar as beiras das estradas em rios. Mesmo assim, o tempo de exposição à tempestade foi mínimo: sair de casa e entrar no carro, parado mesmo à porta, e sair do carro e correr para a porta da escola, atrás do David que corria a bom correr (não mais do que 100 ou 200 metros) e fazer o percurso de volta. Resultado: umas calças molhadas na base e um casaco ensopado no carapuço, para além de umas quantas manchas nas costas. Mas no caminho encontrei muitos corajosos, a braços com a enxurrada, de casacos e cabelos a escorrer, em passo apressado, e que sorriam debaixo das pestanas cheias de gotas de água. E eu quase que me voltei a sentir ridícula, a tentar estacionar o carro o mais perto possível da escola, e a correr feita doida por entre a chuva. E digo-vos uma coisa: gosto mesmo destes gajos, quando os vejo andar assim debaixo de chuva, sem se importarem com os cabelos ensopados, e com as caras molhadas enrugadas pelo riso.

É verdade, voltei. Revigorada pela chuva.

3 comentários:

CLS disse...

E voltaste em grande, papu!

(eu também não gosto de guarda-chuvas, mas também não gosto de apanhar chuva no nariz:S)

Alex disse...

Bom dia :-)

Estás mais calma?
Tenho uma coisa que vais gostar, dá-me 2 minutos.

O meu Blog! disse...

É bom que voltes. Fazes-nos falta.

Bjs

Ana