sábado, junho 03, 2006

BRINCAR NA RUA

Se me contassem, também não acreditava, mas é verdade. Aqui os miúdos brincam na rua. Jogam à bola nos passeios, entre os muros baixos das casas e os carros estacionados, andam de skate, de bicicleta, brincam às escondidas e à apanhada. Não raro, quando subo a rua de carro, encontro grupos de miúdos a andarem de skate na estrada, ou de patins. Quando os carros passam, desviam-se, e ficam a olhar para nós, às vezes grupos de crianças onde os mais velhos devem rondar os 6, 7 anos, e os mais novinhos os 3, 4. Eu fico parva. Está bem que a rua não é muito movimentada. Mas a quantidade de curvas que tem esconde muitas vezes a aproximação de um veículo. Está bem que os carros ouvem-se à distância, e normalmente a rua está silenciosa. Mas crianças a brincar é equivalente a barulheira e gritaria, que encobrem os ruídos do motor que se aproxima. E às vezes - é raro - passa aí cada maluco a abrir que até me dá uma coisa. É raro - e quando acontece a gente ouve o barulho bem antes de o carro passar - mas com crianças, todo o cuidado é pouco. Acho eu.

Houve um dia em que vieram umas meninas bater à porta, para convidarem o David a juntar-se à brincadeira. São da escola dele. Ele não quis, estava entretido a brincar com o Diogo, e eu fiquei a pensar que ainda bem que assim foi, porque de outra maneira teria de lhe dizer que não. Eu não acho seguro as crianças brincarem na rua sem a vigilância de um adulto. Pelo menos crianças desta idade. Mesmo que a rua seja calma e quase sem trânsito, não acho seguro.

Mas sinto-me um bicho raro, aqui. Ainda há pouco quando vinha para casa, estava uma mãe a zangar-se com o filho - bem mais velho que o David - porque ele estava a brincar na rua, e entretanto foi para casa de um vizinho, e não lhe disse nada. Ela estava já desesperada à procura dele. Imagino o susto.

Mas estas coisas fazem-me pensar. Brincar na rua era coisa que aqui há uns anos todas as crianças faziam. Eu nunca brinquei propriamente na rua, porque a casa da minha avó tinha um quintal enorme, e a gente não precisava de ir para a rua. Mas andava nas ruas de Estremoz em completa liberdade, com os meus primos e irmão, como já falei. As pessoas conheciam-se todas - ainda hoje se conhecem - e o trânsito quase inexistente permitia esta liberdade de movimentos. Hoje penso que já não. Estremoz está atolada de carros, aliás, como todas as zonas do país.

Mas será que os perigos - com excepção dos carros - não eram os mesmos? Porque afinal o que é que nos angustia, depois da hipótese de eles poderem ficar debaixo de um carro? São os raptos, certo? E será que naquela altura, há quase três décadas, esse perigo não existia também? Apenas as pessoas não estavam alertadas para ele?

Brincar na rua, ou andar à vontade na rua, é uma sensação única para uma criança. Essa liberdade de movimentos que eu tive, que a minha geração teve, está vedada à geração dos nossos filhos. Às vezes penso nisto e acho que eles ficam a perder imenso. Ficamos todos a perder. A paranóia da segurança está a corroer essa liberdade que existia, a liberdade de os deixarmos correr riscos, de nós próprios corrermos esses riscos. Hoje em dia ninguém arrisca, numa questão como esta.

Eu não arrisco. Mas fico a pensar. Olho pela janela os miúdos a jogar à bola. Oiço as gargalhadas, a excitação, a alegria. E fico a pensar. Caramba, estou em Londres! London City! E às vezes tenho a sensação que estou numa aldeia. Numa aldeia na província. Como Estremoz, aqui há uns anos atrás.

Se calhar todas as grandes cidades não são mais que aldeias de província gigantes. Aglomerados de bairros onde se vive ainda essa liberdade de movimentos e de acção. Será que são os pais de todas estas crianças que vejo brincar nas ruas inconscientes? Ou sou eu e outras tantas pessoas como eu completamente paranóicas? Será que no passado os nossos pais e avós também eram inconscientes em nos deixarem andar à vontade na rua? Será que a realidade mudou assim tanto, ou foi a nossa cabeça que mudou? Faço estas perguntas a mim mesma e não encontro resposta. Conheço pessoas aqui que também acham uma loucura deixar os miúdos a brincar na rua. Mas todos os dias me cruzo com esses miúdos. Eu não sou capaz de permitir que o meu filho o faça (com o Diogo nem sequer penso nisso ainda!) e não estou certa se alguma vez o serei. Tenho sérias dúvidas. Mas não consigo deixar de sentir, ao mesmo tempo, que lhe estou a tirar uma parte muito importante de uma liberdade que, de certa forma, é imprescindível para o crescimento. E tenho pena. Mas não consigo agir de outra forma, dadas as circunstâncias.

3 comentários:

Alex disse...

é a desvantagem de viver na cidade. Eu tive uma liberdade que infelizmente a minha filha já não vai ter. Tem outras "liberdades" que eu não tive.

Não me preocupo muito com a questao do brincar na rua (por enquanto), o que importa é que ela faça muita coisa ao livre e isso ela faz.

Quando chegar o tempo de brincadeiras de rua ... logo se vê.

Alex disse...

ao ar livre!

hoje deixo as palavras todas penduradas :-)

soniaq disse...

Gostei mto do que escreveste, eu fui da geração "brinca na rua", fazia-me de surda quando me chamavam para ir jantar, fiz grandes amigos assim e lembro-me dessa lberdade, às x's perigosa que experimentei. No entanto havia sempre alguém adulto por perto, ainda bem. (numa brincadeira estúpida que fiz, caí de costas no chão e fiquei sem respirar, se não fosse um adulto estar por perto, hoje não estaria aqui, desconfio.)

Acho muito sensata a tua preocupação e não julgues que estás a minar a liberdade dos teus filhos, tudo a seu tempo.
Hoje em dia há mesmo mais perigos do que havia na nossa altura de criança, desde que não os enclausures, tudo bem.

beijinho grande.