sexta-feira, fevereiro 09, 2007

PARAMANADOULA COURSE; by Michel Odent and Liliana Lammers


"Durante o trabalho de parto, a melhor maneira de tornar a sua progressão mais rápida, fácil e segura é deixar a mulher sozinha e ir para o quarto ao lado. Não ir embora, claro; permanecer no quarto ao lado faz com que fiquemos atentos e prontos para intervir, caso seja necessário."

"O que uma mulher em trabalho de parto precisa é, acima de tudo, de privacidade e de se sentir segura. Uma figura maternal, silenciosa, que permaneça num dos cantos do quarto; uma figura, acima de tudo, securizante, que lhe diga com a atitude, mas sem palavras, que está tudo a correr bem."

"O pior que pode acontecer a uma mulher em trabalho de parto é ter alguém assustado ou intimidado ao seu lado. O medo contagia-se, e provoca a libertação de adrenalina."

"A occitocina é a hormona maioritariamente responsável pela progressão do trabalho de parto. Mas esta hormona é tímida. Imagine que está prestes a beijar o grande amor da sua vida, num ambiente privado, calmo e acolhedor, e de repente abre-se uma porta e aparece alguém desconhecido. A magia quebra-se completamente. E mesmo que a pessoa saia e vos deixe de novo em intimidade, alguma coisa já não volta a ser igual ao que estava antes."

"Em todo o trabalho de parto existe uma oposição occitocina-adrenalina. Para que a occitocina seja libertada, é essencial baixar drasticamente os níveis de adrenalina. Altos níveis de adrenalina não permitem a libertação de occitocina."

"O neo-cortex, a parte racional do cérebro, precisa de ficar como que adormecido durante o trabalho de parto, para que aquela parte do cérebro mais primitiva, aquela que temos em comum com os outros mamíferos, tome o comando e faça o que tem a fazer."

"A melhor maneira de estimular o neo-cortex de alguém é falar para essa pessoa. A palavra é o estímulo racional mais poderoso. A presença de luz faz o mesmo. Sentir-se observada, julgada, aumenta a produção de adrenalina, e dificulta o trabalho de parto."

"Uma das formas de qualquer mulher se sentir observada, quando em trabalho de parto, é através do registo do ritmo cardíaco do bebé, e da intensidade das contracções (através do conhecido CTG). Há estudos que demonstram que o único efeito significativo que a monitorização do feto durante o trabalho de parto produz é o aumento do número de cesarianas. Curiosamente, a maioria das pessoas não entende isto. Mas se fizermos um pararelismo em relação ao que se passa durante o acto sexual, imaginando que enquanto faziam amor as pessoas estivessem ligadas a uma máquina que lhes medisse o batimento cardíaco, aí já toda a gente entende que tal situação inibiria sem dúvida o comportamento sexual."

Foram três dias intensos de troca, de partilha, de aprendizagem, de oportunidade para conhecer outras verdades que já há um tempo faziam sentido. Para entendermos estas verdades precisamos de entrar em trabalho de parto mental: precisamos de ler, de ouvir, de entender com o cérebro primitivo, não com a racionalidade. Michel Odent é uma pessoa simples que lança questões fundamentais acerca do futuro da humanidade e que nos chama a atenção para factos que sempre estiveram presentes mas que nunca foram encarados com a devida seriedade. Como é que a forma de nascer influencia o nosso futuro? Qual será o futuro de uma humanidade nascida através de cesarianas? E outras tantas questões que podem ser encontradas nos seus livros.

Liliana Lammers é igualmente uma pessoa simples que nos ensina com a sua postura serena e o seu sorriso envolvente que o silêncio é de ouro, principalmente quando se dá à luz. Nas histórias que nos conta ela mostra-nos o que é isso de ajudar a parir: mais não é do que não fazer nada, estar ali, estar atenta, dar segurança, dar a mão se for preciso, e deixar que seja a mulher a conduzir o parto, pois é ela quem sabe o que é melhor para si; deve dar-se sempre ouvidos a uma mulher em trabalho de parto, ela sabe o que diz.

5 comentários:

Alex disse...

É tão verdade tudo o que acabei de ler ... excelente partilha. E nós sempre a aprender.
Passa um bom fim de semana, de preferência, com muitaaaaaa neve.

Kate disse...

Este senhor deve saber o que diz. Faz tudo tanto sentido...

Muita gente devia ouvir isto, especialmente na classe dedicada à saúde materna. Com o passar do tempo, com mais vozes como a de Michel Odent, a forma de encarar o parto deve começar a mudar. Assim espero!

Para partilhares coisas destas connosco vale a pena estares ausente por uns dias :P

Aproveita bem a neve que vá aparecendo por aí. Bom fim-de-semana!

Rita disse...

Devia escrever um comentário grande o suficiente para ouvir esta maravilhosa música do Chico, mas ficava chato...

Digamos que este é um tema sobre o qual eu já tive uma opinião radicalmente diferente. Se calhar há vantagens num meio termo qualquer entre o hospital e o quarto cá de casa, mas que nunca mais me apanham num parto provocado (que por sorte não deu em cesariana) isso nunca mais o farão.

CLS disse...

Tiveste mesmo a oportunidade de ouvir estes senhores? Q sorte a tua. Pena é q os médicos e enfermeiras dos nossos hospitais não absorvam um bocadinho só destas ideias...
Beijos

Rita disse...

Eu mudei muito a minha perspectiva à medida que fui conhecendo estas "teorias". Gostava de as conhecer melhor, claro.