sábado, novembro 14, 2009

O mistério da lente desaparecida

Esfregar os olhos com zelo e preguiça, demoradamente, até começar a ver pontinhos luminosos e coloridos é das melhores coisas que há. É claro que todas as pessoas que usam lentes de contacto sabem, ou melhor, aprendem, que não podem entregar-se a esse prazer assim com tanto deleite como gostariam. Aprendem, por isso, a moderar a pressão nos olhos, a emprestar delicadeza ao gesto. O que para mim é um martírio. Isto porque esfregar os olhos tornou-se quase um reflexo automático. Tipo coçar o nariz, passar a mão no cabelo. Se fosse homem, cofiar a barba (se tivesse barba). Bom. Às vezes esqueço-me e quando dou por mim já é tarde. Como ontem. Abri o olho a medo e já não estava lá. A lente. Já não estava no lugar, porque geralmente não cai, fica grudada na parte interior da pálpebra, e com jeito acaba por sair. Pois eu perdi o jeito. Bem que massagei o olho a ver se ela dava as caras. Nada. Por fim, já em pânico, a imaginá-la no meio dos meus neurónios, interferindo com o caminho das sinapses, a embrulhar-se nas dendrites e nos axónios (a desavergonhada), tanto esfreguei o olho e tanto mexi (já a via em todo o lado) que acabei com uma inflamação daquelas. Fui ao hospital, mandaram-me para o centro óptico (não há especialistas de oftalmologia nas urgências. Também não há psiquiatras. Bem, isto dava outro post, por isso, adiante). Lá chegada, atenderam-me logo. Bem que me repuxaram as pálpebras: da lente, nem sinal. Em vez disso, uma pequena lesão que pode infectar e por isso umas gotas com antibiótico. A irritação já passou. Mas onde terá ido parar o raio da lente?

3 comentários:

Sofia disse...

Já me aconteceu. Acabei por concluir que no meio de toda esfregadela, a lente saiu e eu nem dei conta. Deve ter sido o que te aconteceu.

papu disse...

espero q sim :)

Lelena Lucas disse...

Me aconteceu uma vez, fui dormir após algumas taças de vinho. Pela manhã abri o estojo e ela não estava lá! Pensei que poderia ter tido uma amnésia e não ter tirado ela do olho, mas no olho também não estava (uso só uma). Depois de muito procurar, achei o que poderia ser um retalho dela, rasgado, na beira do armário. Deduzi que ao fechar o estojo, ela se deslocou para a borda dele e foi destruída.
Acontece. Após uns vinhos então...