quarta-feira, dezembro 23, 2009

O país dos contrários

Também ainda não vos falei do país dos contrários, pois não?
É que a Inglaterra é por excelência o país dos contrários. E não é só por se conduzir do lado esquerdo da via. Há uma série de coisas que aqui se fazem ao contrário e que nunca me tinham passado pela cabeça.
Para começar pelo exemplo dado, o conduzir do lado esquerdo da via, à primeira vista parece que é só isso mesmo: os carros andam no lado oposto ao que estamos habituados. Mas desenganem-se! É que é muito mais do que isso! Senão vejamos:
a) Se os carros andam do lado esquerdo, o volante está à direita. Que conclusão brilhante... mas não, esperem lá, isto tem sentido: já imaginaram um carro com o volante à direita, ou melhor, já conduziram um carro com o volante à direita? Não? O que é que tem? É simples: lembram-se daquela sensação, pós tirar a carta, dos primeiros dias no trânsito? O nervosismo, a atrapalhação, o fazer tudo ao contrário e lentamente, e estar constantemente a ouvir buzinas atrás de nós e nomes menos próprios? Porquê? Ainda não perceberam? Então vá lá que eu dou mais uma pista: se o volante está à direita, isso significa que a mão que se ocupa da caixa de velocidades é... isso mesmo, acertaram: a esquerda! O que quer dizer que... ainda não perceberam? Sim, é isso, é com a outra mão que metemos as mudanças, pois, mas as coisas não ficam por aqui, e o melhor é resumir, assim: é tudo ao contrário (menos os pés, felizmente que não se lembraram de pôr os pedais ao contrário, que aí é que a gente dava em doida!), o que aí fazemos com uma mão, aqui fazemos com a outra, a saber: piscas, luzes, limpa pára-brisas, tudo, tudo, meus filhos, até aquele sinal que fazemos às pessoas paradas no passeio para lhes indicar que podem atravessar temos de nos habituar a fazer com a outra mão, é que não sei se estão a ver mas as pessoas estão do outro lado da estrada também... pois é, uma confusão. E há mais! É que é mesmo tudo ao contrário! Já pensaram nas mudanças de direcção? Mas pior: e as rotundas? Sim, também é tudo para o outro lado... Enfim, não sei como não há mais taxas de acidentes neste país dos contrários, sinceramente!
b) Mas como estava a referir, não são só os carros que andam ao contrário (às vezes parece que as pessoas também!) Não, estava a brincar! A sério: há muito mais coisas que os ingleses fazem ao contrário (!). Por exemplo: abrir o fogão. Não, o botão não roda para o outro lado. É mais subtil do que isso. Estamos habituados a, quando acendemos a chama do fogão, primeiro obtermos o máximo, e depois se rodarmos é que temos o mínimo, não é? Pois aqui é ao contrário. Rodamos, o fogão acende, mas no mínimo, e se continuarmos a rodar obtemos o máximo. Não parece trazer grandes consequências, mas a primeira vez que liguei o fogão pensei que não havia gás ou que o fogão estava avariado. É que por mais que me esforçasse não conseguia obter senão uma chama minúscula. Nunca me passou pela cabeça rodar o botão até ao fundo (ou seja, pô-lo no mínimo, no máximo para aqui).
Outra coisa: algumas portas abrem para o outro lado, por exemplo, as portas dos frigoríficos, dos micro-ondas... (esta não percebi muito bem ainda, não tinha percebido que havia um lado para onde todas as portas abrem).
As torneiras são outras que às vezes abrem para o outro lado. Também ainda não percebi bem, só dou por isso quando acho que vou fechá-la e de repente sai um jacto de água tão forte que fico toda molhada.
Os autoclismos estão constantemente a trocar-nos as voltas. Nunca tinha pensado que o funcionamento de um desses simples engenhos sanitários pudesse levantar tanta questão. É que cada um tem o seu truque, e o que resulta com um já não resulta com outro, a saber: baixar a alavanca com força e largá-la, baixar a alavanca e esperar que a água comece a sair e só depois largá-la, baixar a alavanca, esperar uns segundos, e finalmente largá-la num gesto delicado, a mesma coisa, mas com um gesto brusco... enfim, quase que é preciso tirar uma especialidade. Às vezes, quando vamos a casa de alguém e precisamos de ir à casa de banho, chegamos a desesperar até finalmente encontrar o truque adequado àquele exemplar. Outras, pura e simplesmente, desistimos (o que pode ser um pouco embaraçoso, se não tivermos grande à vontade com o dono da casa).
E depois há aquela coisa das polegadas, e das libras, e das onças, e das milhas! Meu Deus, quando cheguei e vi uns círculos redondos marcados na estrada com um 20 e um 30 lá dentro, pensei com os meus botões, isto deve ser a velocidade mínima, não pode ser a máxima! Vinte à hora? Depois é que percebi, claro: não são quilómetros, são milhas! Sim, porque apesar de eles já terem aderido ao sistema métrico e a todos os sistemas universais, continuam a usar as milhas e as onças e os pés... Meu Deus, quem é que se lembra de medir alguma coisa em pés?