domingo, setembro 19, 2010

Atlântida

Às vezes a paciência esgota-se. Tudo é um peso. As birras dos miúdos. A loiça por lavar. Qualquer ruído, qualquer música, qualquer som. Um eco monstruoso nos ouvidos. Às vezes não consegue ouvir nada. Fica surda. Parece que a cabeça lhe vai estourar. Não quer ver ninguém, ouvir ninguém, não quer dizer nada, apenas o silêncio, esse bálsamo para a alma. É no silêncio que se alivia esse fardo. O ar torna-se respirável. Os nós no peito desatam-se. Às vezes só lhe apetece fechar os olhos, ficar escondida na toca. Que ninguém chateie. Só ela e a dor que é como um lago imenso, nocturno, de águas profundas. Mergulha nessas águas sem fé nenhuma, e, para seu espanto, a dor acalma-se. Debaixo das águas desse lago gigante existe uma cidade escura, uma Atlântida melancólica, onde não vive ninguém, uma cidade como um velho barco naufragado no fundo do oceano, para sempre esquecido. É para lá que vai cada vez que fecha os olhos, feita medusa de pele translúcida, os cabelos algas castanhas que vão ficando pelo caminho, deixando atrás de si um rasto moribundo.

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