segunda-feira, agosto 29, 2005

O DAVID LÊ

pequenas estórias, para o Diogo, que o escuta atento, e às vezes se distrai, o que acaba por irritá-lo e levá-lo a dizer, chateado: "O Vidi não lê mais estórias ao bebé", e depois o Diogo chora: "O Vidi lê!", e ele lá volta a abrir o livro, fixar o olhar na página com atenção e ir juntando as letras, pouco a pouco, e com elas formar palavras. Às vezes fico a ouvi-lo, a sorrir, espantada com a desenvoltura da leitura, outras vezes já nem o oiço, ocupada com outra actividade, a sua vozinha qual música de fundo, e as suas palavras no ar, a construirem imagens que pairam no espaço e deixam cores vivas em redor.

E o que mais me surpreende é que aprendeu sozinho.
Eu conto como foi:
Desde muito pequenino que ele gosta de letras. Começou por conhecer o "O", ainda mal falava, e devia ter 1 ano e tal. Sempre que via o "O", quer fosse desenhado bem redondo e grande, quer perdido numa página de letras miudinhas, ele reconhecia-o. A avó achou isto fantástico e tratou de lhe ensinar o "A", e teria continuado a sua tarefa de professora se eu não a tivesse travado. Aquilo não me parecia muito correcto, ele ainda era um bebé e tinha tempo para aprender as letras. Mas ele de facto aprendia de forma surpreendente. Quando íamos no autocarro para a creche, sentados nos lugares reservados às grávidas e acompanhantes de crianças de colo, ele apontava para as letras do vidro e lá dizia "ió, ió" e "iá, iá", que era a sua forma de dizer "O" e "A". O que vale é que ninguém percebe o que ele está a dizer, pensava eu, olhando a cara das pessoas em redor, tentando adivinhar qual seria a sua reacção se se apercebessem de que ele estava a dizer o nome das letras. O tempo foi passando, e o interesse pelas letras cresceu. Eu tentei de alguma forma não estimular, apesar de lhe responder às perguntas sobre as letras que constantemente me fazia. Mas sempre tive algum cuidado com esta questão, porque considero que a aprendizagem da leitura e da escrita tem um tempo próprio, e que antes desse tempo as crianças devem fazer outro tipo de aprendizagens, muito mais importantes para a vida do que o mundo das letras.

É claro que chegou a altura, mais ou menos por volta dos 5 anos, em que ele se tornou autónomo para aprender o que bem entendesse. Aprendeu a dizer o abecedário completo, a contar os números correctamente, a fazer contas simples, e daí a começar a ler foi um passo. E eu, cá do meu cantinho, não escondo o orgulho que tenho, evidentemente! Mas ainda tenho algum cuidado com esta questão: por um lado elogio-o (é claro), mas não quero que estas competências se tornem num dos pilares fundamentais da sua auto-estima. Esforço-me por lhe transmitir que é natural cometer erros, que é a errar que se aprende, e faço questão de o fazer sentir-se amado por aquilo que é, independentemente do que faça, bem ou mal.

2 comentários:

Francisca disse...

O meu filho mais velho também está mais ou menos na mesma situação, mas já a caminho da primária no próximo mês.
Gostei muito do último parágrafo! :)

papu disse...

O David já fez a primária, aqui em Inglaterra eles fazem a primária com 5 anos, portanto adiantou-se um ano em relação a Portugal.

Mas correu tudo lindamente, ele também já consegue ler inglês mais ou menos.

Espero que corra tudo bem também!