terça-feira, setembro 20, 2005

UMA AVÓ ETERNA


Todos os dias em que vou buscar o David a pé, e depois de subir uma escadaria interminável que me deixa a deitar bofes pela boca, chego ao cimo e a vista abre-se em relvados extensos e verdes. Lá em cima, mesmo junto à escada, há um banco onde sempre, a esta hora, está sentada uma mulher. Pela fisionomia deve ser indiana. A pele é cor de café com leite, os cabelos são brancos e apanhados num troço, veste panos de cores claras que esvoaçam à volta dela e lhe cobrem a figura frágil, da cabeça aos pés. O rosto tem rugas fundas de velhice e sabedoria. As mãos mal se vêem, ocultas pelas mangas que se multiplicam ao longo dos braços. Tem os pés descalços, pequeninos e enrugados, e os sapatos descansam no chão, debaixo do banco. Às vezes está deitada, outras sentada, com os olhos perdidos no espaço à sua frente. Hoje estava sentada, de pernas cruzadas, os braços pousados nos joelhos, a expressão calma e tranquila, como se meditasse. O ar à volta dela parece mais leve, e o tempo pára nos relógios e detém-se, contemplativo, ao longo do relvado. Provavelmente é mesmo à meditação que ela se dedica, todas as tardes. É uma figura curiosa, parece uma velhinha saída de um livro de contos, uma avó eterna, com uma aura de mistério a pairar acima dos seus cabelos brancos. E todos os dias, à mesma hora, lá está ela, envolta em silêncio, enquanto à sua volta os corvos pintam o verde da relva de pequenas manchas negras e assustadas.

2 comentários:

Pedro Ruivo disse...

E pq não metes conversa com ela um dia destes?

papu disse...

É que ela é uma figura tão silenciosa... e rodeada de mistério... parece que se meter conversa com ela quebra o encanto, não sei...
Ou então isto é a minha timidez a falar... who knows...
:)