segunda-feira, junho 12, 2006

COMO FALAR DA COLONIZAÇÃO A UM MIÚDO DE 6 ANOS?

Isto a propósito do jogo Portugal - Angola de ontem, em que o pai, claro, estava a torcer por Angola.

- Sabes que o pai já viveu em três sítios? Ele viveu em Angola, Portugal e agora está em Inglaterra. Eu p'a cá só vivi em dois sítios, Portugal e Inglaterra.

E segue-se a inevitável pergunta:

- Mas porque é que o pai foi para Portugal?

Depois de algumas explicações relativas a como o avô foi para Angola, surge a palavra "guerra".

- Mas porque é que em Angola havia uma guerra?

Bom. Devo dizer que tenho um ponto de vista muito pessoal e enviesado nesta matéria, e portanto foi mais ou menos assim que contei a história:

- Sabes, há muitos anos os portugueses viajaram de barco para muito longe. Eles, e outros povos aqui da Europa, pensavam que só isto é que existia, não sabiam que havia muitos outros sítios no resto do mundo. Quando chegaram a esses países, acharam que eram os donos daquilo, quiseram mandar nas pessoas. E foi o que aconteceu.

Depois de algumas dúvidas que lhe foram surgindo com esta explicação, a que fui respondendo, seguiram-se os comentários:

- Mas já lá viviam outras pessoas, por isso eles não podiam fazer isso!

- Mas não há só um comandante no mundo, pois não? Todas as pessoas mandam, não pode ser só um ou dois, todos, até as que já morreram!

Ao que eu retorqui, dizendo que as que já morreram dificilmente mandam nalguma coisa. Mas a lógica dele era inequívoca:

- As que já morreram também mandam, são os Deuses que também comandam!

Bom. Não sei o que é que ele ficou a pensar de tudo isto. Mas acho que lhe tinha de dar a minha visão das coisas. Com o tempo ele encontrará outras, que enriquecerão o seu reportório, até chegar a uma visão pessoal de muitas questões como esta.

Verdade se diga, eu nunca simpatizei com o colonialismo, não tenho essa adoração patriótica pelos descobrimentos que a maioria das pessoas tem. Lembro-me de na escola, quando estudava o tema, me perguntar: mas descobrimento do quê? Se os "novos mundos" afinal eram "velhos mundos" onde já viviam outras pessoas há muito mais tempo que na Europa? (Afinal, onde é que surgiram os primeiros sinais de civilização?) Sempre me pareceu que os antigos navegantes e monarquias sofriam de vistas curtas, centrados no seu umbigo, com a ideia de que o seu pequeno universo conhecido só podia corresponder ao centro do mundo. Mas se calhar isto até é uma coisa normal. As crianças, antes dos 5, 6 anos, também são centradas em si próprias e não conseguem adoptar uma perspectiva diferente da sua, dito de outra forma, são emocionalmente egocêntricas. Talvez a Humanidade atravessasse uma fase de desenvolvimento semelhante, na época.

Eu acho que aquilo que a Colonização teve de positivo, que, quanto a mim, foi o contacto entre diferentes culturas, e o enriquecimento que daí resultou, com a consequente miscigenação da espécie humana, acabou por acontecer por acaso, de forma inerente à condição humana: mesmo nas condições mais adversas, as pessoas têm a capacidade de criar coisas novas, de se relacionarem, nascem afectos, criam-se laços. No fundo, e se pensarmos bem, é esse o verdadeiro motor da História, e não as armas nem as guerras. No resto, a Colonização foi um cancro, com subsequentes metástases, como a escravatura e outras atrocidades praticadas contra a Humanidade.

Mas, claro é a minha opinião. Se influenciei ou não o gaiato, só o futuro o dirá. De qualquer forma, acho que nestas questões temos mesmo de dar a nossa opinião apaixonada. Eles terão tempo de contestá-la e procurar outras fontes de informação. Afinal de contas, a História é isso mesmo: a versão dos factos contada pelas pessoas que a fizeram, mas geralmente não há só uma versão dos factos. A outra fica sempre na sombra. E é preciso trazê-la à luz para que nos aproximemos da verdade histórica, se é que é possível alcançar tal conceito.

7 comentários:

soniaq disse...

Bom dia Papu

Muito bem!
A história tem diversas leituras e acho que a tua é muito humana e verdadeira. O teu miúdo tem sorte em ter uma Mãe informada e esclarecida.

Eu tb sou uma luso-angolana e sei que a história recente se escreve e se lê de diversas maneiras, mas uma coisa é verdade, quando os portugueses chegaram a África já lá haviam pessoas e hierarquias e uma sociedade feita, isto dos achamentos e descobertas tem mais a haver com os caminhos encontrados (mar e terra)e não com a descoberta de terras.

grande beijo querida, vou-me ausentar por uns dias, muitos compromissos chatos vão-me afastar de vocês...:-(

chuac

Pim disse...

Ena, tá um gaijo uns tempos sem saltitar na net, mas, de facto, as coisas pouco mudam...

Chega-se aqui e eis que se encontra, como sempre, um grandioso e apaixonado texto da querida Papu! :))

Já tava com saudades de saltitar por aqui...

Siga!

Beijocaaaaaaaaas para a family in London :D

Anónimo disse...

ganda Papu...

Mónica disse...

bem não concordo com tudo, com a parte de miscigenação: soa a treta tás a ver a senhora branca a casar com o homem preto??? não! eu tb não! vejo sim mulheres negras a serem abusadas por homens brancos!
à parte isso, a colonização foi uma enorme mais valia para colonizadores a nivel cientifico, alimentar, higiene, planeamento urbanistico, houve espaço e tempo e muita mão de obra para se fazerem experiências, inovações, descobertas, etc etc

e os colonizados que ganharam eles?

lá tou eu a divagar... a história encarregar-se-á de nos mostrar as perdas e os ganhos! se é que isso importa!

Mónica disse...

o meu filho diz na escola que eu tenho duas nacionalidades, que sou moçambicana e portuguesa (mentira mas pronto...) cheio de orgulho e isso é quanto me basta! ele fica fascinado com o facto de eu ter vivido na parte do mundo que está virada para baixo, mas é tão racista que me apetece bater-lhe...

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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