quarta-feira, junho 07, 2006

LIBERDADE SEM MEDO

A. S. Neil, Liberdade Sem Medo

Este livro foi muito importante para mim, a uma dada altura. Pode dizer-se que era a minha Bíblia. Desde o primeiro momento que as ideias de A. S. Neil me cativaram, por aquilo que tinham de inovador, mas também de irreverente, e de verdadeiro. Por verdadeiro não pretendo ilustrar nenhuma verdade absoluta: verdadeiro no sentido de humanamente verdadeiro, subjectivamente, ligado aos sentimentos e às emoções.

Para entendermos de uma forma mais profunda os livros e a experiência deste autor, temos de nos reportar à época em que ele viveu, em que surgiram as suas ideias inovadoras de educação. Elas foram de facto revolucionárias, se atendermos ao facto de que as práticas educativas correntes da altura incluiam o uso da palmatória e os castigos corporais. O próprio Neil era um simples professor integrado no sistema, que, tal como todos, dava continuidade a essas práticas. Simplesmente, ele não se sentia satisfeito com isso. Começou a questionar-se. E decidiu quebrar a regra. O que, para a época, era completamente utópico.

Mas ele foi em frente e fundou a sua escola. Uma escola onde as crianças tinham total liberdade de fazerem o que quisessem. Para além disso, participavam e colaboravam activamente em todas as Assembleias Escolares, onde eram definidas as regras básicas da escola. Todos, desde os mais novos aos mais velhos, tinham uma palavra a dizer, que pesava tanto como a de qualquer adulto.

Era portanto uma inovação total, tanto de princípios educativos como democráticos. E o mais extraordinário, é que teve resultados muito positivos a médio, longo prazo. A maioria das pessoas talvez torça o nariz e pense que, com toda esta liberdade, a escola dificilmente cumprirá o principal objectivo a que se propõe, que é dar uma educação de qualidade aos alunos. Mas a experiência veio provar o contrário. Se nos primeiros anos as crianças pouco estudavam, e ocupavam a maior parte do tempo com brincadeiras e outras actividades menos próprias (Neil conta que nestes primeiros anos perdeu a conta aos vidros partidos), a pouco e pouco elas começavam a interessar-se pelo estudo e pelas aulas. Mais: faziam progressos extraordinários. Conseguiam progredir em muito menos tempo do que as crianças das escolas normais. Neil interpretava isto como o resultado do facto de as crianças estarem genuinamente motivadas para aprender. Quando existe motivação, a apredizagem processa-se muito mais depressa. Mas não foi só no sucesso escolar que a experiência de Neil vingou. Ela provou que as crianças possuem espírito crítico e valores fundamentais como a partilha, a entre-ajuda, a cooperação, o respeito pelo próximo e pela autoridade, e que tudo isso não precisa de lhes ser metido na cabeça pelos adultos. Se nos primeiros anos as regras da escola, definidas por todos, eram bastante permissivas, revelando a imaturidade inerente ao estádio de desenvolvimento da maiorias das crianças, nos anos subsequentes essas regras foram mudando no sentido de uma maior responsabilização, maturidade e autonomia. E as crianças eram as mesmas.

Como é óbvio, este livro deixou há muito de ser a minha bíblia, aliás, acho que já não tenho nenhuma há muito tempo. Hoje contesto muitas das ideias que ele expressa nos seus livros. Mas com a sua essência continuo a concordar. Muito se aprenderia se quem está à frente das escolas e do ensino lesse estes livros com olhos de ler. Porque está lá tudo. O sucesso da aprendizagem não se mede por resultados escolares. O sucesso da aprendizagem mede-se pela auto-estima dos alunos, pela sua capacidade em optimizar o seu potencial, pelo gosto e pelo prazer de aprender. A escola da actualidade precisa de uma mudança radical. E essa mudança passa obrigatoriamente pela inclusão da voz dos alunos nas tomadas de decisão. Os alunos têm de ser responsabilizados e envolvidos no próprio processo de aprendizagem, sob pena de este se tornar completamente alheio e divorciado dos seus interesses, como acontece na realidade escolar actualmente.

Há muitas escolas, espalhadas por todo o mundo, e em Portugal também, que se pautam pela generalidade destes princípios, onde os alunos têm voz e participação activa no seu processo de aprendizagem, e todas essas escolas são exemplos do verdadeiro sucesso escolar. O que é que será preciso acontecer para que a maioria dos professores e das pessoas que estão à frente do Ministério da Educação se apercebam disto?

6 comentários:

LP disse...

Nem imaginas o quão oportuno foi para mim este post...

Fee disse...

Já ouvi falar do autor e de algumas das mudanças que fez em relação a uma educação rígida e focada no professor, e concordo em muita coisa. Mas como está a educação actualmente, acho que deveria haver uma lavagem cerebral colectiva, para que os professores (não todos, diga-se, porque ainda há BONS professores) e a ministra tivessem uma maior consciência do papel essencial do aluno na relação pedagógica.
Como futura professora (oxalá!) é preocupante perceber os desajustamentos que grassam no meio!
obrigada pelo post, muito interessante:)
beijinho

Pedro Ruivo disse...

São engraçadas estas coisas...
Já há bastante tempo que não vinha visitar o teu blog.
Quando apareço, falas desta experiência (radical?) de Summerhill pela qual tb me encantei e deste livro que tb li.

Beijinhos
Pedro

nana disse...

um excelente pedagogo!Que também estudei na Faculdade!Mas o real parece não estar preparado ainda para tal modelo!!
;)
quem sabe um dia...
;)

Johnny disse...

Em três anos de Universidade, só agora pude ter contato com esse livro. Magnifico, ele é para quem não gosta de viver nos padrões estabelecidos pela sociedade vigente.

Isabella disse...

Interessante o post. Me ajudou muito em um trabalho que estou fazendo.

Sobre a educação, penso que todo processo de mudança radical é lento (isto podemos observar na História) e para começarmos a enxergar essa mudança temos que praticá-la. Neil foi um grande exemplo de pedagogo que ajudou a trincar ainda mais o modelo tradicional de educar.

Prezo pela paciência e a prática daquilo que acreditamos ser bom.


Isabella Andrade de Castro