sexta-feira, maio 11, 2007

Roda de oleiro

Nunca me sentei em nenhuma. Nunca pus a roda a girar com os pés e nunca segurei nas mãos aquele bocado de barro molhado que se vai moldando como que por magia entre as palmas e os dedos, num diálogo subtil de gestos e carícias que emprestam o segredo da pele ao barro, e assim o animam de vida e do calor das veias. Mas já fiquei horas (sim, acho que todo o tempo junto chega a formar algumas horas) a ver, incansável, o trabalho de outras mãos. E, sempre que o fiz, na hora de ir embora, fiquei ainda a olhar para trás, como se o ardor laborioso daquelas mãos me tivesse para sempre enfeitiçado o olhar. Enfeitiçou. Nunca me sentei em nenhuma, mas um dia, juro-vos, hei-de fazê-lo. Não sei de onde me vem esta vontade nem este fascínio - existe, apenas, desde que me lembro de mim. É um sonho - sem raízes fundas, mas um sonho, de alma leve. E não me perguntem porquê, porque não sei responder.



Adorava ter uma oficina de olaria e ir vender à feira, todos os dias.

10 comentários:

Alex disse...

Este era um dos sonhos incluídos naquele grande espaço que nós vamos comprar no Alentejo (eu, tu e a Paula) onde convidariamos várias escolas para as crianças participarem, aprenderem.

Nós divertiamo-nos, aprendiamos, pintávamos ...


já pensaste? na quantidade de livros que tu ias escrever num espaço assim? Sentada no feno, ao fim da tarde com o sol lá ao fundo ...

Alex disse...

Bom fim de semanaaaaaaaaaaaa

José Antunes Ribeiro disse...

Olá, Papu:)

É um grande fascínio sim, eu acho que já estive a besuntar-me numa daquelas rodas...é o cheiro da terra, antes de mais, creio!
A ideia da Alex é fantástica. Eu juntar-lhe-ia uma aldeia do livro e locais para o pessoal abancar.Que tal?!

buzá disse...

O espaço tenho eu, é só vontade de arrancar para um projecto desses; é enorme e lindo de morrer...

buzá disse...

E eu dou uma mãozinha nas açordas, nas sopas de tomate, nas migas, na sopa de beldroegas e, então, os locais para abancar, como diz o J.A.Ribeiro, ficariam repletos de "comeres alentejanos". Bom fim de semana para todos.
Papu, uma sopinha de cação, mesmo com o adiantado da hora, ou talvez por isso, sabia mesmo bem, não sabia? Para a próxima não vai o galito, vai o cação...Beijinhos

Alex disse...

:))

com ternura e talento, tanto se havia de fazer ...

Mila disse...

ora , desculpem vir-me meter nesta conversa , mas se precisarem de uma trabalhadora ai para esse espaço...sei trabalhar o barro, ensino e motivar a criatividade também se dá um empurrão.Já com a roda de oleiro , ai a experiencia que tive,não ficou uma coisa muito funcional, foi mais uma arte abstracta...e ...continuem a lutar-"o sonho comanda a vida".

papu disse...

Eu acho todas essas ideias mais que óptimas! Estou a ver que ainda nos temos de sentar todos à mesma mesa... ;)

Anónimo disse...

Também eu ficava hipnotizada , horas a olhar esse trabalho e com um enorme desejo de "meter as mãos na massa".
Assim foi que, quando fui dar educação visual na Escola Secundária ao descobrir na sala uma roda de oleiro logo ali resolvi dar uma aula em que todos a experimentássemos.
Pois se era tão simples! Era só pôr o barro e depois de bem sentados pôr a roda em movimento com o pé.
Santa ingenuidade... Sem qualquer preparação, sem pedir conselho, comprei o barro e pu-los à vez a fazer a experiência guardando-me para último.
A roda estava arrumada a um canto ao pé do quadro e, de cada vez que um tentava, a grande bola de barro ia parar à parede! O que eles se divertiram!
Quando finalmente chegou a minha vez tomei o meu lugar plenamente convencida de que agora é que a lição começaria a sério. Puz o material na roda, calquei-o um pouco como tinha visto fazer vezes sem conta e, com uma autoridade saloia, fiz girar a roda.
Foi uma briga e tanto com o barro que escorregava por entre os dedos que nem enguias. Como algumas vezes acontece com motoristas inexperientes que ao primeiro sinal de perigo carregam no acelerador em vez do travão, assim fiz eu. Quanto mais atrapalhada me via mais dava ao pedal. E assim acabei a obra de arte que eles tinham iniciado e toda a parede à volta recebeu o nosso contributo.
Não me lembro da desculpa que dei para toda aquela sujidade. Mas uma coisa aprendi que me serviu de lema para todo o meu percurso como professora. Ir para a aula muito bem preparada, com sólidos conhecimentos do assunto fosse qual fosse a matéria a transmitir .
Muitos anos mais tarde inscrevi-me num workshop de olaria. Aí, com muito treino, barro estragado((sempre recuperado depois), e uma roda elétrica bem mais difícil de controlar, fiz algumas "obras de arte" de que ainda guardo um exemplar.

Anónimo disse...

Beijinhos Marilena