sexta-feira, julho 20, 2007

Farewell

Os miúdos aqui só deixam a escola primária na transição do 6º para o 7º ano. E, todos os anos, há uma festa de despedida dos meninos, que já não são propriamente meninos, e que vão passar para a escola secundária. Este ano tive o privilégio de assistir ao espectáculo. E digo privilégio porque é um espectáculo muito bonito. Eles cantaram, representaram alguns excertos da peça musical que apresentaram no Natal, disseram piadas, mostraram trabalhos. Todos com um brilho especial nos olhos. A sala abarrotava: todos os alunos, da pré-primária ao 5º ano, todos os professores e auxiliares, e ainda os pais e avós e irmãos dos finalistas. Muita música, muitas vozes, muitos olhos húmidos, algumas lágrimas. Um poema lido com os olhos no futuro. E uma canção dos Queen cantada por eles e pelos júniores sentados na assistência, os alunos do 3º ao 5º ano, que fizeram coro com eles, as vozes a fazerem tremer as paredes e os corações de quem ouvia. E palavras, tantas palavras, de encorajamento, de projecção no futuro, palavras que lhes iluminam os olhos e lhes pintam sorrisos de vitória nos rostos um pouco tímidos e envergonhados. Porque é que nós aí temos a mania que elogiar os miúdos os torna convencidos? Porque é que nas nossas escolas o reforço positivo é tão escasso? Porque é que, em vez de premiar, castigamos? Aqueles miúdos que eu vi naquela sala têm tudo para agrarrar o futuro com as mãos: professores que lhes dizem palavras quentes, directas ao coração. Chama-nos de pessoas maravilhosas, dizem-lhes que têm capacidades extraordinárias, que fizeram um progresso espectacular, que têm excelentes habilidades e competências, tanto pessoais quanto académicas. Dizem-lhes que todos eles, sem excepção, todos, têm capacidade e confiança para ir longe na vida, para crescerem e se tornarem em adultos responsáveis e amigáveis, para optimizarem o seu potencial. E dizem-no de olhos nos olhos, com o coração na voz, e a emoção a molhar os olhos. Estava calor, na sala, tanto calor! Acho que era mesmo o calor humano. Até os meus olhos se molharam um bocado, só de sentir aquela energia toda no ar. Eu, que no fundo ainda não pertenço aqui, fui contagiada com aquele sentimento quente de pertença, aquele sentimento tão valioso e tantas vezes escamoteado, e que no fundo todos precisamos para darmos o nosso melhor: sentirmo-nos em casa, amados e acarinhados.

2 comentários:

LP disse...

E que bem que descreveste essa emoção!

Kella disse...

Tens razão, cá em Portugal o reforço positivo só acontece nas escolas de elite, nos colégios particulares, onde se paga e paga bem! Porque será?