quarta-feira, abril 01, 2009

Afinal, já é abril

No largo a confusão era indescritível. Havia pessoas penduradas nas árvores, nos candeeiros, na fonte no meio da praça, nos parapeitos das janelas, em todo o lado. Os gritos e as palavras de ordem martelavam-me o cérebro. A multidão parecia unida numa descarga eléctrica permanente. Vozes. Movimento. Gritos. Cravos vermelhos nas mãos. Cravos vermelhos nas lapelas dos militares. Um burburinho constante, e a cortar à faca esse ruído de fundo permanente, uma voz que desafiava a lei da gravidade, uma voz firme e pausada que pedia calma e anunciava aos quatro ventos que o movimento das forças armadas estava empenhado em que não se fizesse uso da violência. “É imperativo evitar o derramamento de sangue!”, gritava a voz profusamente amplificada pela potência de um megafone. A minha cabeça girava. A voz continuava a soar, altiva, uma voz de comando pausada e determinada. “Atenção quartel do Carmo! O mensageiro deve sair imediatamente, ou então o quartel será destruído!” As vozes da multidão abafavam tudo e por momentos não se ouve mais nada. De onde estou não consigo ver quase nada do que se passa lá à frente, junto à portaria do quartel. Vejo as pessoas empoleiradas nas árvores, debruçadas das janelas, penduradas nos candeeiros e nos postes da electricidade. Tudo grita. Fico momentaneamente surdo. Daí a pouco ouve-se de novo a voz ordenando uma rajada para a varanda no topo do edifício. Os gritos aumentam e cessam subitamente. Ouvem-se os tiros. Os pombos pousados no alto dos edifícios e das arcadas levantam voo, o ruído das asas assustadas abafado pela barulheira infernal. Com os tiros voltam os gritos. Algumas pessoas correm. Generaliza-se uma onda de pânico e de movimento descontrolado. Sou empurrado por vários corpos que comigo chocam, por sua vez empurrados por outros. Procuro equilibrar-me. As pessoas esbarram umas nas outras mas não param de sorrir. “Desculpe, amigo. Ai, desculpe, camarada.” Os encontrões acabam em abraços. Uma mulher cai ao chão, outra abeira-se dela. “Agarre-se aqui ao meu braço, comadre, levante-se!” Outras pessoas ajudam-na a levantar-se. A mulher tem as faces coradas. “Já estou em pé! Isto agora não há quem me derrube!” Risos. Rio-me também. Estou ali e faço parte daquela gente; porém, ao mesmo tempo, é como se ali não estivesse e assistisse a tudo com a distância da lente de uma máquina fotográfica. “Solicita-se rendição imediata!” A voz não perde sonoridade nem determinação. Nem calma. Não há ponta de nervosismo naquela voz. Fico a pensar nisto durante um bocado. Mas não tenho muito espaço para pensar no que quer que seja. Ouvem-se mais tiros. De súbito o som dos tiros é algo familiar que se espera com a ansiedade a borbulhar no peito. Os tiros, os gritos, as vozes. A voz, impassível, autoritária: “Atenção, devem sair com a bandeira branca e as mãos no ar, sem armas!” Mais gritos. Mais braços no ar. O ar está carregado da fúria das palavras arremessadas das bocas abertas. Sinto no pescoço o hálito morno de muitas bocas. Um arrepio percorre-me as costas. “Não queremos sangue! Vamos fazer fogo de carro de combate que vai destruir o edifício!” Ainda mais gritos. Asas assustadas no ar. Sinto-me tonto. “Atenção quartel do Carmo, vão entrar dois delegados!” Tenho dificuldade em entender e seguir o que se passa. Oiço as pessoas à minha volta a falarem todas ao mesmo tempo. “Parece que chegou alguém!” Não consigo mexer-me. As pessoas continuam a gritar palavras de ordem. Perco o fio ao tempo. Não sei se estou ali há minutos ou horas. As pernas doem-me. Procuro sentar-me nos degraus de uma porta atrás de mim. Fico de súbito rodeado de pernas. É como se voltasse a ser criança e a olhar o mundo de baixo. Diferença de perspectiva. Fecho os olhos. Apenas oiço o som das vozes à minha volta. As gargalhadas.
Lembro-me de tudo como se estivesse a acontecer neste momento.
Fiquei ali horas e pareceram-me minutos. Às tantas uma mulher ofereceu-me uma caneca de vinho tinto e uma fatia de broa e outra de queijo de cabra. Aceitei, com um sorriso. Ela distribuía bocados de broa e queijo pelas pessoas, e estendia a mesma caneca de vinho a toda a gente, que voltava a encher depois de alguém beber, sem ninguém se importar por estarmos todos a beber da mesma caneca.
A certa altura a multidão aglomerou-se frente à entrada do quartel. Havia pessoas penduradas nas colunas dos arcos, nas guaritas das sentinelas, nos candeeiros da rua, em todo o lado. Gritava-se vitória. Liberdade. Os braços agitavam-se no ar. O Capitão apareceu à janela e pediu às pessoas para se afastarem, a fim de deixarem passar o carro que iria sair levando o presidente do concelho. As vozes à minha volta chamavam-lhe cagarolas. “Borrou-se de medo, foi o que foi!” Outras exigiam-lhe a morte. “Deviam era enfiar-lhe um tiro nos cornos!” A multidão agitou-se. Uma surrada de assobios encheu o ar. Pus-me em bicos de pés. Não via nada, apenas a movimentação das pessoas e o uivo dos assobios. Mais tarde soube que naquele momento passava o carro onde seguiam os membros do governo que se haviam refugiado durante toda a tarde dentro das paredes maciças do quartel do Carmo.

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