quarta-feira, agosto 18, 2010

O cheiro da minha casa

Chego e estranho o cheiro. Eu só consigo perceber o cheiro da casa quando me ausento e regresso. É um cheiro branco, a caliça e a humidade, que parece escorrer das paredes. Com o tempo vai-se apagando. Amanhã já não o sentirei. Quando chego aí, não estranho o cheiro, ainda que não cheire à minha casa. É como se os cheiros daí fossem sempre familiares, mesmo daqueles lugares que só visito uma vez por ano. Aqui, é a minha casa, mas cheira a um lugar que (ainda) não é meu.

Não sei o sítio das coisas. Demoro a focalizar-me, a centrar-me, a reconhecer os cantos à casa. Quero lavar a fruta e não sei onde está o passador. Nem sei se existe algum na gaveta. Em que gaveta? De que cor? Parece que estive fora três meses. Três semanas...

Os girassóis cresceram. Só um ainda não deu flor. Outros já murcharam. Há mais flores. Os tomateiros tombam porque têm de ser mudados de vaso. Estão grandes de mais. Há amoras a pender do muro. Muito escuras. Umas doces, outras nem por isso. Há nuvens no céu e caem pingos de chuva, com indiferença. Está tudo na mesma. E nada está na mesma.

A noite arrefece o corpo da casa, e o meu.

(O cheiro da minha casa é como o ladrar dos cães. Só o sinto depois de uma ausência prolongada. Um cheiro estranho. Preciso de abrir as janelas, acender velas, queimar incenso.)

1 comentário:

Pirussas disse...

Boa noite. Foi um prazer visitar o seu blog. A ver se passo mais vezes, o tempo é escasso... Mas ainda assim, gostaria muito de lhe apresentar o meu novo blog. As aventuras de um Empregado Gourmet! Se possivel divulgue. Obrigado!

http://ohpirussas.blogspot.com/