quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Um rio sem voz

Olhou para dentro do cesto e viu as pedras. Eram pedrinhas, dessas da beira mar, as mesmas que ela tanto gostava de apanhar, em criança; as mesmas com que o seu filho a prendava, de vez em quando, e que ela guardava na mala, até achar que o peso era demasiado. Nessa altura tirava-as da mala e guardava-as num frasco de vidro, grande, bojudo, que descansava em cima da cómoda.
Um dia vamos envernizá-las, prometia ao miúdo. E vão ficar brilhantes como se estivessem dentro de água.
Olhava para as pedras enquanto um sorriso lhe subia pela garganta. Era uma sensação quente. O sorriso, porém, ficava entalado, não se alargava à boca. Não sorria. Ou sorria apenas por dentro. Por fora estava à beira das lágrimas.
Era como estar à beira de um precipício, e sentir o formigueiro das vertigens.
Se cedermos ao medo do abismo, então engolimos as lágrimas. Ficamos ali, cai não cai, à procura da linha invisível do equilíbrio. Se esquecermos o medo, deixamos de sentir vertigens. Deixamos de lutar. Entregamo-nos às lágrimas. Elas descem, indiferentes, incontidas. Deixamos que elas ocupem a voz; quase que a perdemos, a voz.
Olhava as pedras e pensava que aquilo parecia uma brincadeira. Escolher as que mais gosta. Não saber quais escolher. Acabar por escolher, sem saber porquê. E depois de um segundo olhar, mais atento, saber. Assim, sem saber porquê. Saber, apenas.
E deixar a voz misturar-se nas lágrimas; e ter cuidado para que as lágrimas não arrastem ainda os soluços, porque quer falar, quer usar palavras; sente-as amontoarem-se na garganta; sente a garganta inflamada.
Esta é pequenina, brilhante. Uma coisa pequenina a brilhar; uma luzinha lá no fundo, lá muito ao fundo... Esta coisa pequenina que sinto, que está aqui, a brilhar; uma coisa pequenina e delicada, frágil, bonita...
Talvez as últimas palavras tenham sido imaginação. E a pedra na sua mão, e o toque, a carícia; como se acariciasse o rosto a um filho.
Esta não sei porque a escolhi, mas agora que olho melhor para ela percebo. É uma pedra baça, gasta, quase rude, uma rudeza que foi amaciada pelo tempo, arredondada; é uma dessas pedras expostas à erosão do mar, da força e da persistência da água. É uma pedra forte e ao mesmo tempo maleável, sofrida, talhada pela erosão do tempo...
O búzio... Sempre gostei de búzios, gosto de colocá-los junto ao ouvido para escutar aquele som mágico, cavo, profundo... Faz-me pensar em segredos escondidos.
Tinha escolhido enfim as suas três pedras, e agora precisava de outra, uma espécie de protector. Quem? As lágrimas, novamente, a comerem as palavras. E a certeza de que não havia ninguém. Ninguém que a pudesse proteger. Era essa a verdade. Ninguém a tinha protegido. E, no meio das lágrimas, viu. Agarrou na pedra, parecia um bocado de quartzo, ou outro cristal qualquer, uma pedra cheia de irregularidades, arestas, vértices demasiado agudos, e aquele brilho feroz, que poderia cegar, de tão branco.
E as palavras outra vez, e as lágrimas.
Esta ainda sou eu. Porque afinal fui eu, fui eu que estive sempre lá. Uma força assim bruta, muito dura, cristalizada, crispada, tensa. Sou eu, ainda. Porque, se de alguma forma sobrevivi, se estou aqui agora, é porque a tenho dentro de mim.
E pusera a quarta pedra em cima da mesa, ao lado das outras duas e do búzio. As quatro sentinelas. As quatro estações. Os quatro elementos. E mais uma vez a água das lágrimas; como se um rio que finalmente corresse; um rio que encontrasse chão, e margens, e fundo.
Um rio que devorasse o mundo.

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