quarta-feira, março 09, 2011

Por causa do acordo ortográfico, republiquei isto

Eu, por acaso, até me faz uma certa confusão escrever "ação" em vez de "acção", ou "receção" em vez de "recepção" (é que até faz doer a vista, não faz?)

Faz-me confusão, sei lá! Tenho assim uma espécie de relação afectiva com as palavras. Vi-as crescer, coitadinhas, ou melhor, elas é que me viram crescer a mim. E os meus dedos já se habituaram àquelas teclas. O que é que hei-de fazer?

(A propósito de relação afectiva, eu quando era pequena escrevia sempre "rir a bandeiradas despregadas". Achava que "bandeiradas" era muito mais apropriado ao barulho que alguém faz a rir às gargalhadas. Não sei se estão a ver, bandeiradas, gargalhadas... pois. Às tantas alguém me emendou, e eu não queria acreditar. Não era possível! "Rir a bandeiras despregadas?" Bandeiras? Mas isso tinha algum jeito? Tive de me certificar, e mesmo assim achava aquilo um erro imperdoável. Passei a escrever a "bandeiras despregadas", isto é, conformei-me ao erro, mas desconfio que, cá no fundo, não abdiquei das "bandeiradas". Mas adiante).

Bem, imagino que as pessoas, quando tiveram de começar a escrever "farinha" em vez de "pharinha" e "farmácia", em vez de "pharmácia", também tenham protestado com veemência. Acredito até que se tenham organizado e criado uma espécie de associação dos amigos do "ph". Devolvam-nos o "ph" - era o seu lema - o "ph" resume a nossa identidade ortográfica. Sem o "ph" não passamos de um bando de órfãos da língua materna.

(Uma vez, em criança, vi uma pharmácia. Palavra! Estávamos de férias no Algarve, já não me lembro aonde exactamente, mas era assim uma terra pequena. Estava no carro com a minha mãe e o meu irmão, e o meu pai, ou tinha ido pôr gasolina, ou comprar umas águas à mercearia em frente. Estava muito calor dentro do carro, as janelas estavam abertas - ainda não havia ares condicionados - e então eu olhei para o outro lado da rua, e lá estava ela. A pharmácia. Era o que estava escrito no letreiro de néon, apenas umas letras brancas e gordas, àquela hora do dia. E eu perguntei, muito espantada: ó mãe, o que é uma parmácia? Desconheço se a pharmácia ainda existe, ou se já foi subsituída por uma farmácia. Suponho que sim. Ou talvez não. Porque, das duas uma, ou o dono da farmácia - perdão, da pharmácia - era um dos descendentes ideológicos desses adeptos ferrenhos do "ph" - que ainda hoje os há, num artigo comentado do Sol havia um leitor a defender que ainda deveríamos escrever com "ph", juro! - ou então, era um português comum, desses que pensam, com um encolher de ombros: mudar, para quê? Então estamos tão bem assim... e depois, já viram o trabalhão que isto agora me dava, mandar fazer outro letreiro? Sem falar no dinheiro! Não, deixa lá, fica assim, que não faz mossa a ninguém...)

Pois é, pá, já pensaram na carga de trabalhos? Então e os desgraçados dos editores, coitados, (que pena que eu tenho deles!) obrigados a republicar milhares de livros, o prejuízo que vai ser, Santo Deus! Mas isso é o menos, porque o mais importante, é a nossa raiz, a história da nossa língua, a nossa identidade linguística e cultural, que não pode ser defraudada. A cultura. A família. A pátria. Ámen.

(Acho que sim, pá. Vamos continuar como aquela velhinha, tão velhinha, que a última vez que phodeu... pois, já sabem como foi.)

5 comentários:

José Palmeiro disse...

Não me recordo de o ter lido quando o publicaste, mas li-o agora que lhe acrescentaste o "re".
Cheio de humor este teu texto/reflexão, sobre a evolução/involução da nossa língua. Ora eu que já sou de outro tempo e me lembro de se grafar "milhor" ainda não sei o que é "melhor", mas dou a minha sentença:
- Não decretem nada!
Deixem a língua evoluir sem constrangimentos e no sentido de não ser ou constituir uma dificuldade e um embaraço, para quem a usa.
Estou como a tua "velhinha"!!!

Anónimo disse...

Mas é isso mesmo que se quer, que as coisas evoluam... para não ficarmos como a velhinha! ;)

mas isto é engraçado. Estou a dar umas aulas de portugues a um fulano daqui, e noutro dia tive de lhe explicar porque é que o E em ela é aberto (é) e em ele já não é (ê) e então, claro, lembrei-me, é que dantes escrevia-se êle... lá está. Hoje em dia já não lembra ao diabo (digo eu) achar-se que se devia escrever com ^, porque as pessoas já se acostumaram ao facto de ser sem ^. No fundo é tudo uma questão de hábito, e as mudanças que simplificam uma língua já de si complicada são muito bem vindas, quanto a mim, apesar de causarem confusão em quem apanha os periodos de transição... como nós, pois.

beijinhos

papu

José Palmeiro disse...

Boa, a tua lembrança!
Era exatamente assim, "êle". Hoje é, "exactamente" como dizes.
Que hei-de eu fazer, fugiu-me o dedo para o dedo para o "c"!!!!

Beijinhos

Maria Helena disse...

O teu livro já tem a nova ortografia, claro.
PÊLA, QUASI(falta o trema mas nâo sei como o pôr), MÃI, TÔDA, BAPTISMO, BAPTISTA, etc.,etc., etc..
São alguns, poucos, exemplos que eu tive de reaprender e de que não tenho saudades nenhumas.
Sabes do que tenho pena? É de já não estar no ativo e não ter de explicar a uma criança que "electricidade" para além de já ser um palavrão tramado, tem de levar um "c" antes do "t", porque sim...
BJS Marilena

papu disse...

por acaso nao tem eheh :) e' q eu nao gosto de dar erros, e por isso ainda vou escrevendo 'a moda antiga, que e' como me sinto mais 'a vontade. Aqui no blogue ja' tenho feito tentativas de escrever consoante o novo acordo, mas a verdade e' q acabo por voltar atras, 'as vezes mesmo sem dar por isso.