quinta-feira, março 08, 2012

Excerto de um conto, apropriado para o dia de hoje

«A tua luta é com a natureza. A tua natureza de mulher. É isso que está aí encravado no teu peito e não deixa o teu sangue descer nem o teu corpo florescer. Minha filha, uma alma é como uma flor. Primeiro é um botão, depois as pétalas abrem-se e surge o mistério e o perfume da sua essência. A tua, é ser mulher.»
Fez uma pausa. E continuou, como se contasse uma estória a um filho.
«As mulheres são as guerreiras da vida. Sim, já sei que me vais dizer que são os homens que fazem as guerras. Não. Eles fazem as guerras, mas essas guerras não são mais do que brincadeiras de meninos. De meninos que nunca foram. Os homens matam porque não suportam o ódio dentro deles, têm de o cuspir na cara de alguém. Têm que matá-lo fora de si. Nós, as mulheres, transportamos o ódio connosco, no coração. E por isso somos capazes de matar, sim. Sabes qual é o animal mais perigoso da criação? Não adivinhas? Sim, é uma fêmea. Uma fêmea com crias. Todos os animais o sabem, e evitam confrontar-se com elas. Os homens fazem as guerras, mas quem trava as verdadeiras batalhas da vida e da morte são as mulheres. As mulheres têm o poder de dar a vida, e por isso também têm o poder de dar a morte. Tu, minha filha, tens o coração cheio de ódio e não sabes o que fazer com ele. Queres fugir dele, queres matá-lo, queres expulsá-lo de ti. Não percebes que isso é impossível. O ódio mora connosco, tal como o amor. O ódio é a outra face do amor. Tal como a lua tem duas faces. Em vez de expulsá-lo, procura alimentá-lo. Não deixes que ele te consuma. Dá-lhe vida. Deixa-o crescer. Como se fosse teu filho. E usa-o, para matar. Apenas aquilo que merece morrer.»
A voz dela adquiria tonalidades novas, diferentes. Pela sua boca falavam outras gentes, distantes, de outros tempos, fantasmas perdidos no tempo, desgarrados na memória das duas mulheres.
«Os homens matam para conquistar poder. Conquistar terras. Conquistar. Conquistar. Conquistar. Os homens matam para se tornarem melhores que os seus adversários. Para os possuírem. Para os liquidarem. Para se tornarem nos únicos, nos bons, nos vencedores. Os homens matam na sede da ganância, de ter mais, conseguir mais, ser mais. As mulheres não. As mulheres só matam para dar à luz. As mulheres não matam para liquidar o outro, mas para se fundirem nele. As mulheres matam para renascer. Para guardar, para conhecer, para acolher dentro de si os restos daquilo que destroem. E assim reconstroem. Os homens só matam na guerra, ou em situações extremas de violência. As mulheres matam todos os dias. Os homens quando matam não querem deixar rasto. As mulheres guardam tudo, até as coisas mais impossíveis, apanham os restos, enterram-nos, constroem uma campa, cuidam dela, alimentam-na, enfeitam-na de flores. Lembram, guardam na memória os seus mortos. Os homens esquecem. Ignoram. Não os choram. Nem procuram.
«As mulheres quando matam fazem-no com dor. Com temor. Como na hora de parir. Os homens passam por cima da dor, pisam-na, e matam cegos de raiva. Os homens procuram esquecer a dor. Ignorá-la. Têm vergonha dela, porque os torna fracos. Mas às mulheres, a dor torna-as fortalezas.»

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