quinta-feira, novembro 14, 2013

Baixas pressões

Por aqui, o cinzento desprende-se, vagaroso, das nuvens baixas, e cola-se-nos à alma. Andamos pardacentos, cabisbaixos. Deprimidos. Sabem o que é uma depressão? É um centro de baixas pressões, também conhecido por ciclone. A instabilidade do ar produz a sua elevação, dando origem a nuvens e precipitação. Os ventos ascendentes favorecem a formação de nuvens na vertical, que podem originar fortes chuvadas e aguaceiros. As baixas pressões produzem a instabilidade, a ascensão, a leveza do ar, ao passo que, nas altas pressões, o ar afunda-se, vindo de cima, aquecendo e ficando mais estável, formando uma espécie de tampão que tranquiliza a atmosfera envolvente, como um abraço quente e apertado.
A leveza e a ascensão produzem a instabilidade e o mau tempo. Talvez seja por isso que os sonhadores, aqueles que andam sempre nas nuvens, sejam mais vulneráveis às depressões, ao passo que quem tem os dois pés bem assentes na terra não sofra tanto com os desvarios da alma. Será que a nossa cabeça funciona como o ar que a envolve? Não sei, mas não deixa de ser curioso. A nós, quando a pressão é grande, salta-nos a tampa e gera-se a instabilidade, ao passo que, tantas vezes, ansiamos por soltar-nos,  aliviar a pressão e quiçá deixar-nos levitar, em movimento ascendente, para assim encontrar a idílica paz de espírito, ou seja, a estabilidade. Exactamente o oposto das condições atmosféricas, já repararam?
Por outro lado, se calhar até se podem encontrar paralelismos: na depressão (clínica) temos então uma espécie de ausência do espírito, em que os pensamentos se espalham no ar; se perdem, sem rumo; nos voam da cabeça como aves distraídas. Andar nas nuvens mais não é do que essa impossibilidade de contenção e consciencialização das ideias. Como se sofrêssemos de alguma incapacidade de nos centrar, de manter sólida a estrutura mental, afinal o alicerce principal da personalidade e estabilidade psíquicas; e que essa estrutura, em lugar de sólida, fosse líquida ou gasosa e se volatilizasse no ar, transformada em sonhos, devaneios, ilusões, nostalgias. A tristeza, sintoma central da depressão, talvez não seja mais do que a impossibilidade de nos sentirmos inteiros, de nos reunirmos num corpo coerente e lógico. Como se andássemos perdidos pelo cosmos, sem eira nem beira, varridos e espalhados pelo vento. A tristeza nasceria em cada partícula nossa, cada pequena partícula vagueando errante, sem saber quem é e a quem pertence; sem saber para onde vai nem com que objectivo .
E muitas vezes as pessoas deprimidas queixam-se disso mesmo: alheamento e despersonalização: não sabem quem são nem o que querem e sentem-se incapazes de conduzir a sua vida, como se não estivessem cá, e sim perdidos, algures, noutro mundo; um mundo etéreo onde a realidade perde os contornos e sobrevivem sentimentos de culpa, desvalorização e derrota.
Até pode ser. Mas, eu cá, não troco por nada, aquela sensação de andar nas nuvens.


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1 comentário:

Zuzu Baleiro disse...

Por aqui (Portugal) também nos sentimos um pouco assim... mas é por causa da gripe. A cabeça está pesada, o nariz entupido e só nos apetece ficar no quentinho da cama.
O sol brilha , os dias estão claros e apetecíveis para passeios. Lá fora as flores e o céu azul convidam a vê-los. ( estou sem imaginação nenhuma!!! que horror!! é da gripe!!!) pronto, vou acabar...