sexta-feira, novembro 29, 2013

O meu avô



Se fosse vivo, fazia hoje 105 anos . Em Estremoz toda a gente o conhecia, e muitos ainda se lembram do sr. Prudêncio. A loja de pronto-a-vestir onde trabalhava e da qual era dono de um terço tinha (e tem) o seu nome.Ele trabalhava ao balcão, gostava de atender as pessoas, de falar com elas, e estou certa de que toda a gente preferia ser atendida por ele. Trabalhava tanto ou mais do que qualquer empregado, sábados incluídos, e também não tinha mais tempo de férias do que o estipulado. Não me lembro de o ver faltar ao trabalho, assim como não me lembro de o ver doente. E trabalhava por gosto, para ele era um prazer estar atrás do balcão.

Em pequenina, adorava ir à loja do meu avô. Entrar por ali adentro e meter o nariz em todos os cantos (aquela casa era cheia de recantos misteriosos). Gostava de me esconder atrás das roupas penduradas nos varões, ao longo de um corredor interminável. Mas o que me fascinava era o cubículo das provas. Havia dois espelhos altos, colocados em paredes opostas, de modo que a nossa imagem se multiplicava numa sucessão interminável, até ao infinito. Eu ficava assombrada com aquela multidão de mim mesma que me espreitava do outro lado do espelho.

O meu avô tinha um espírito muito jovem. Era muito bem disposto e estava sempre na brincadeira. Fazia-nos rir muitas vezes. Em pequena simulava muitas vezes arrancar-me o nariz: e depois mostrava-mo, escondido entre os dedos das suas mãos. Eu gritava sempre, porque não gostava nada daquela brincadeira!

O meu avô cantava no Orfeão de Estremoz. Tinha uma voz bonita, suave. Lembro-me de o ver cantar numa Igreja, em Estremoz, na única actuação do Orfeão a que assisti, já ele estava doente mas ainda bem. A igreja estava cheia, havia flores a enfeitar as paredes, e as vozes ecoavam, solenes.

As falhas de memória frequentes e alguns comportamentos suspeitos conduziram a um diagnóstico pouco conhecido na altura: Alzheimer. Sabíamos que era irreversível e incurável. Não sabíamos quanto tempo tinhamos. Mas sabíamos que ia ser longo. E doloroso.

Mesmo assim, trabalhou até à última, com uma obstinação forçada, já não conseguia fazer as contas e por último eram as pessoas, com pena dele, que o ajudavam. Ficava confuso, envergonhado, frustrado, mas nunca desistiu. Lutou com todas as forças da parte sã do seu cérebro contra aquele monstro invisível.

Dos seus últimos anos recordo uma infinidade de cuidados médicos a um corpo cada vez mais velho, cansado, irreconhecível de dia para dia. Por último apenas deitado na cama, o rosto inexpressivo. Só o olhar ainda mexia e perscutava o espaço à sua volta com uma intensidade e uma curiosidade quase infantis. E aquele dia em que o visitei, depois de algum tempo sem o ver, em que já não me reconheceu, os seus olhos ausentes, perdidos algures entre este mundo e o outro.

Há muitos anos atrás, ainda era criança, fiz um cachecol com lã castanha para lhe oferecer neste dia. Escrevi uma carta com a ajuda da minha mãe, em que dizia qualquer coisa como: "este cachecol é a tua prenda, quando me perguntavas o que eu estava a fazer, eu dizia que era um cachecol para o gato, afinal era para ti!" E acrescentava: "avô, eu quero que vivas até aos 100 anos, até aos 200, até aos 1000 anos!"


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2 comentários:

Jao disse...

Querida Papu,

Mantens vivo na tua memória o Avô.
Eu também recordo o bom Pai que tive, homem bom, integro, com uma honestidade sem o mínimo desvio.
Trabalhador incansável. Férias ? As primeiras foram já contigo nascida. Começou a trabalhar com 12 anos no comércio, depois de ter feito a quinta classe (reforma do ensino da República).
O pronto a vestir apareceu no fim da década de 60. Até aí o comércio de modas era na base da fazenda a metro. Era um desenrolar fazenda para as clientes escolher, que motivava montes enormes em cima do balcão. Depois eram os botões e as linhas, e com a loja fechada mais 30/45 minuto a fazer arrumações.
Nos sábados, dia de mercado em Estremoz, encerravam no Verão às 22H00 e no Inverno às 21H00, não fechando para almoço. Eu leva-lhe um lanche alargado, que a Avó lhe fazia. À noite chegava a casa estafado mas com a sua ironia e disposição intocada, e patente nas respostas às lamentações da Avó, por ele só ter comido menos de metade do lanche.

Papu que satisfação tu mantê-lo vivo nos seus 105 anos.
Um grande beijinho,
tio João

Zuzu Baleiro disse...

Querida Papu
Nunca é de mais lembrarmos os homens bons deste país. O teu avô foi um deles. Homem recto, integro, inteiro na sua profissão, disponível e educado para todos os clientes. Lembro-me de ver os balcões cheios e por vezes com pilhas de peças de tecido, que as clientes pediam, e que ele com a sua atitude sorridente e prestável ia buscar às estantes, nunca mostrando o menor gesto ou expressão de enfado. Ir às compras ao primo Prudêncio era um enorme prazer e uma enorme alegria. Os tecidos lindíssimos e modernos eram muito bons, duravam anos e anos, e por vezes, já não tinha vontade de vestir o vestido ou a blusa, mas como estava em tão bom estado, a minha mãe obrigava-me a vesti-lo. Ainda tenho um tecido maravilhoso que comprei na loja, e que eu fiz uma blusa que eu vesti anos e anos seguidos.Um dia destes vou digitalizá-lo. Tem as cores da moda, apesar de ter mais de 50 anos!!!