domingo, junho 26, 2005

ANGUSTIA DE MORTE E OUTROS MEDOS

O medo... gosto de lhe chamar o sentimento mais antigo da humanidade. Mais antigo e mais primitivo. O medo é intrínseco à natureza humana, assim como à natureza animal, é de resto um resquício dos nossos instintos mais básicos. Mas o medo também é aprendido, o medo nasce connosco em forma de embrião pouco diferenciado e vai ganhando peso, volume, corpo, à medida que nós próprios vamos crescendo e percorrendo os passos da nossa existência. E é nesse caminho percorrido, único para cada indivíduo, que o medo vai moldando a sua cara e adquirindo tonalidades mais específicas e redes de malhas complicadas.
As pessoas não gostam muito de falar sobre o medo... muitas até dizem, peremptórias: "medo, eu? Eu não tenho medo de nada!". Penso que estão enganadas, o medo é daqueles sentimentos próprios da natureza humana, não o sentir às vezes é não saber como lidar com ele, ou negá-lo, afastá-lo da vista e dos sentidos para não ser estrangulado por ele... Dizer que nunca se sentiu medo é a mesma coisa que dizer que nunca se teve frio ou calor, ou que nunca se sentiu raiva ou tristeza, ou dor...

Vem isto a propósito dos medos das crianças. O Diogo está, por assim dizer, na idade dos medos. Tem medo de tudo: das moscas, das abelhas, de qualquer insecto que esvoasse à sua volta, mesmo daqueles mosquitos minúsculos... Quando vê algum grita alto e foge: "O bebé tem medo!". Tem medo dos cães (se bem que já começa a ter alguma curiosidade e esta começa a revelar-se maior que o medo). Tem medo de alguns bonecos que aparecem na televisão. Tem medo de algumas pessoas que por qualquer razão o assustam. E às vezes lá dá o seu grito de alerta, o bebé tem medo!, mesmo sem a gente perceber bem do que se trata.

Quando os bebés começam a gatinhar ou a andar, e se aventuram pelas primeiras vezes na maravilhosa exploração do mundo que até aí só era acessível através do colo ou dos braços de alguém, o medo parece ainda não acompanhar esses primeiros passos de descoberta, mais guiada pela curiosidade e pelo impulso de exploração. Mas aos poucos, este sentimento forte e sinistro vai penetrando também neste universo. À medida que adquirem consciência do seu corpo e dos seus limites, o seu eu emerge e torna-se mais forte a cada dia que passa. Com esta emergente consciência de si, nasce também a consciência da fragilidade e da vulnerabilidade próprias: o bebé apercebe-se dos perigos que o espreitam e que o ameaçam, e fica especialmente vulnerável a isso.

Num outro momento, o medo e a curiosidade passam a andar mais ou menos a par. É interessante notarmos que as situações que despoletam medo são aquelas em que também sentimos uma grande curiosidade: as situações novas e imprevisíveis. Tudo o que é novo é desconhecido, e o desconhecido assusta (este medo do estranho surge na nossa vida num período em que começamos a distinguir o que é estranho do que é familiar) mas ao mesmo tempo atrai precisamente porque é novo, e desperta a nossa curiosidade: é diferente de tudo o que conhecemos, e a diferença traz sempre a possibilidade do crescimento, da mudança, condições essenciais à vida.

A angústia de morte é sentida muito antes de a criança ter noção do que é a morte, por exemplo, através do medo primitivo e arcaico de ser devorado, de cair no vazio, ou de ser abandonado. É talvez o medo com que temos mais dificuldade em lidar, porque também ele desperta a nossa própria angústia de morte, que nos acompanha a vida toda. Lembro-me de quando o meu filho mais velho começou a fazer perguntas sobre a morte, e finalmente do dia em que desatou num pranto enquanto me perguntava, aflito, por entre as lágrimas: "mas porque é que quando formos velhinhos vamos morrer?". Meu Deus, como tive vontade de o apertar nos braços e dar-lhe o conforto de uma mentira "não, querido, nós nunca vamos morrer, não chores, pronto, já passou" que poderia pôr imediatamente cobro a toda aquela angústia. Mas não o fiz, e ainda bem. A muito custo contive-me e abracei-o e deixei-o chorar porque simplesmente não sabia o que lhe responder. É muito angustiante porque as crianças ainda não têm noção do tempo e para elas quando formos velhinhos pode ser amanhã ou daqui a alguns minutos. Mas na verdade nós não sabemos quando vamos morrer, a verdade é que pode ser amanhã ou daqui a uns dias ou daqui a muitos anos. De qualquer forma achei melhor não lhe dizer mais nada (também não é preciso aumentar a ansiedade deles dessa forma, pois nesses momentos ela já é insuportavelmente alta). Por isso deixei-o chorar, com um nó na garganta, até ele se acalmar.

Depois dessa fase de angústia a morte passa a encaixar naturalmente na vida, como aliás acontece realmente, apesar da nossa dificuldade em lidar com isso. A não ser que a criança perca de súbito alguém querido por morte, esta passa a ser encarada como uma coisa perfeitamente natural (como na realidade é). E muitas vezes ouvimos frases como: "mãe, quando eu tiver 20 anos tu já morreste?" "mãe, quando tu morreres posso ficar com aquela coisa que tu não me deixas mexer? (geralmente algum objecto proibido pelo seu valor ou fragilidade)". E ao ouvir frases como esta não posso deixar de sorrir, porque realmente essa é a ordem natural das coisas, e quando eu morrer espero que todas as minhas coisas (materiais e não materiais) fiquem com os meus filhos.

Outra coisa curiosa acerca da morte que o meu filho diz, de vez em quando: "quando eu morrer e nascer outra vez... sim , quando morremos nascemos outra vez, não é?" (não sei, filho, há quem diga que sim mas há quem ache que não. A mãe não sabe). "Mas eu acho que sim. E quando eu morrer e nascer outra vez quero nascer outra vez de ti, está bem? E também quero que o pai seja o meu pai e o Diogo o Diogo".

2 comentários:

Mi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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