segunda-feira, julho 11, 2005

35 ANOS

Nasci há 35 anos atrás, em Lisboa, num dia de muito calor. Naquele tempo ainda não se faziam ecografias de maneira que o sexo dos bebés era uma incógnita até ao dia do nascimento. Mas a minha mãe, assaltada por uma daquelas intuições próprias das mães, desde o princípio que teimava que eu era uma menina. E baptizou-me muito antes de eu nascer, com o nome que passou a ser o meu. Curiosamente, quando comecei a falar e ela a tentar que eu repetisse o meu nome, sílaba a sílaba, eu retorquia sempre prontamente com "Papu!". E passei a ser a Papu. É verdade, Papu é mais que um pseudónimo usado para escrever aqui: é o meu verdadeiro nome, apesar de não ser o que aparece no Bilhete de Identidade.

Quando entrei para a escola primária o nome manteve-se, e eu assinava sempre por baixo de cada texto ou trabalho "Papu". Até que um dia a professora explicou-me que aquele não era o meu nome, e que eu teria de assinar com o meu nome verdadeiro. Fiquei contrariada, mas não disse nada e obedeci prontamente. Mas, no meu íntimo, aquele não era o meu nome, era outro. E sempre foi assim, pela vida fora.

Só deixei de ser Papu durante algum tempo, quando entrei na escola preparatória, até mais ou menos a meio da Faculdade, o que dá para aí quase uma década. Mas então o Papu voltou a ser o nome por que mais pessoas me conhecem. É claro que nas situações oficiais e mais formais é o outro nome que aparece, mas para mim esse nome representa sempre alguém que de facto não sou eu.

Da minha infância as recordações mais vivas são das férias intermináveis que passava em casa dos meus avós, em Estremoz. Nessa altura, essa cidade era um paraíso de calma e sossego, com pouquíssimos carros a andar nas estradas, de modo que as crianças tinham uma liberdade de andar pela rua sozinhas inimaginável nos dias de hoje. Lembro das vezes em que chegávamos, vindos de Lisboa, na camioneta da Rodoviária, e de fazermos à noite o percurso até casa dos meus avós, que ficava fora de muralhas. À luz dos candeeiros, o silêncio nas ruas era total, apenas cortado pelo eco dos nossos passos na estrada de alcatrão (nunca andávamos nos passeios) e pelo canto dos grilos.

Mas não era só à noite que o movimento de carros era mínimo, de dia era igualmente raro vermos um carro andar. Sempre andei sozinha com o meu irmão ou os meus primos pela cidade, e não éramos as únicas crianças a fazê-lo. Mais a mais, toda a gente se conhecia. Lembro que quando saíamos com o meu avô ou com a minha avó tinhamos de parar constantemente, porque eles sempre encontravam conhecidos na rua que era preciso cumprimentar e às vezes a conversa prolongava-se por alguns minutos, para grande desespero nosso, as crianças, que sempre tinhamos pressa de andar.

A casa dos meus avós tinha um quintal que era enorme aos nossos olhos (de facto era - e ainda é - grande, mas da perspectiva das crianças as coisas sempre ganham outra dimensão de imensidão). Nesse quintal nós passávamos a maior parte do dia a brincar, quando o tempo o permitia, e no calor tórrido do verão tomávamos banho num velho tanque da roupa, cuja água gelada sempre nos fazia tremer de frio, mesmo quando o calor apertava.

Ao lado dessa casa havia um outro tanque, este maior, quase do tamanho de um lago, onde as mulheres vinham todos os dias lavar a roupa. Eu adorava ficar a vê-las, cá de cima do quintal da casa. Houve até uma altura em que insisti que queria ir lavar roupa também, e acho que uma vez até fui, apesar dos protestos da minha mãe e da minha avó, devido ao facto de acharem aquilo muito pouco higiénico. As mulheres usavam uma placa de cortiça que punham em cima da pedra branca de mármore da borda do tanque, e era em cima dela que ensaboavam a roupa. Cheirava a sabão azul e branco e a sol, e eu cheguei a ter uma dessas placas de cortiça, de tamanho pequeno, que me ofereceu, acho, a senhora que trabalhava em casa da minha avó. Ela também lavava a roupa nesse tanque, e era na companhia dela e da filha, de quem eu gostava muito e com quem eu sempre brincava, que passei algumas tardes no tanque, vendo as mulheres lavar a roupa.

Eu sentia-me bem ali, gostava de estar ao pé daquelas mulheres e observar o ritual da lavagem da roupa. Grande parte delas eram ciganas, pois em Estremoz existe uma grande comunidade cigana perfeitamente integrada na vida social da cidade. Enquanto lavavam a roupa conversavam umas com as outras, não me lembro do quê, mas para mim não havia nada melhor do que passar ali a tarde ao som das suas vozes. Lembro-me de uma vez em que li, numa entrevista no jornal a já não sei quem, que essa pessoa nunca se tinha sentido bem no meio de doutores, que era no meio de pessoas simples que se sentia em casa. E lembrava da sua infância passada entre pescadores, no cais, e de ficar a vê-los enquanto os seus dedos pacientes teciam lentamente as redes de pesca. Lembro-me de ler isto e achar que podia ser eu a dizê-lo, apenas substituiria os pescadores pelas lavadeiras daquele tanque da minha infância. Também nunca me senti à vontade no meio de doutores (é claro que há excepções, também há pessoas simples entre eles), e muitas vezes já senti que às vezes a minha maneira simples de ser choca certos núcleos de pessoas considerados mais sofisticados.

Sou daquelas pessoas que quando chega num sítio novo cheio de gente desconhecida, só lhe apetece enfiar-se num buraco. Nunca gostei de estar no centro das atenções, e sempre fui portadora de uma timidez que às vezes pode ser confundida com indiferença. Mas as pessoas nunca me foram indiferentes, pelo contrário, sempre quis ir ao encontro delas. Só que a timidez sempre me impediu de dar os passos necessários. Se calhar por isso nunca fui uma pessoa popular. Nunca tive muitos amigos, mas também nunca o desejei. Sempre achei que, por vezes, e na amizade sem dúvida, quantidade é oposto de qualidade.

Isso não quer dizer que não sofresse com a minha maneira de ser. Sempre sofri com a minha dificuldade em dar-me aos outros, principalmente na presença daquelas pessoas extrovertidas e exuberantes, para quem isso é tão simples como respirar. E sempre me senti atraída por pessoas opostas a mim. Apaixonava-me sempre pelos rapazes mais extrovertidos e populares da turma...

Não se pode dizer que tenha mudado radicalmente, ainda sou uma pessoa tímida e insegura, simplesmente já não encaro isso como um defeito, faz parte de mim. Acho que o passar dos anos, se alguma coisa de novo trouxe, foi o compreender-me e aprender a aceitar-me tal como sou. É claro que há sempre coisas que a gente gostaria de mudar em nós, e algumas até lutamos para que isso aconteça, mas no essencial somos os mesmos, agora e antes.

Sou uma pessoa um pouco saudosista, mais por achar que poderia ter feito tudo diferente do que propriamente por saudades do passado. Conheço muita gente que acha que se pudesse voltar atrás não mudava uma vírgula da sua vida. Pois eu mudava quase tudo! É claro que para chegarmos onde chegámos é preciso termos passado pelas vivências do nosso passado, e essas vivências têm valor na medida em que foram elas que moldaram o que somos hoje, mas se essa possibilidade louca de voltar atrás se transformasse em realidade (o que sabemos ser de todo impossível) eu acho que só faria sentido não voltar a fazer o mesmo caminho, e viver tudo aquilo que hoje nos arrependemos de não ter vivido!

Pela primeira vez na vida, estou longe do meu país neste dia. Mas isso não me entristece. Não dou assim grande importância a este dia, comparado com a importância que tinha quando era criança. Mas gosto de fazer anos, não sou daquelas pessoas que se sentem velhas com a ideia do passar do tempo... Eu não me sinto velha, apesar de já ter um ou dois cabelos brancos. É uma sensação estranha, isto de o tempo ir passando e a partir de uma certa altura nós sentirmos que por dentro continuamos os mesmos, apesar da idade que temos... É claro que o corpo vai envelhecendo lentamente, e isso nós sentimos, mas por dentro continuamos os mesmos.

4 comentários:

Mi disse...

Parabéns, querida Papu :)

Anónimo disse...

here I am!
não estavas à espera hem!
Um beijão enorme de parabéns.

elf

Lua Venenosa disse...

ehhh... e era... grandes caminhadas que faziamos, pelas muralhas, a calcorrear a mata toda, a tomar banho no tanque e ir a correr para o mirante para secarmo-nos,de ir comer os figos quentes a seguir ao banho, dos rissois da mariana, era mariana n era?? de saltar de laranjeira em laranjeira, de trepar os muros, do kung fu, dos jovens herois de shaolin... ehhh.. não sei como cheguei sempre viva a casa, mas devia ser dificil de dar conta do recado... mas vocês lá conseguiam, e melhor do que ninguém...

MicasMariana disse...

Oi, a Tia Lena deu-me a morada do teu blog e tenho estado a "devorá-lo" ;)
Achei piada a este post porque esta tua descrição podia ter sido feita por mim :D, pelos vistos somos mesmo família ;)
Vêmo-nos pelos Falcatos, ok?
Beijos
Micas