sábado, outubro 08, 2005

ZANGAS E PERPLEXIDADES

Neste país dos contrários, onde dar uma palmada a uma criança pode levar um pai ou uma mãe para trás das grades, é incrível a quantidade de crianças que vemos nas ruas a passear com os pais como se fossem cãezinhos. Sim, com uma trela!

Aí em Portugal também se vê este triste espectáculo, mas aqui é uma constante que incomoda. E não entendo, mais uma vez não entendo este país de contrastes tão gritantes. Então dar uma palmada no rabo é mais violento do que isto?!

Todos nós, pais e mães, e mesmo aqueles que ainda não o são mas que contactam com crianças, sabem que há uma idade em que andar com eles na rua é sinónimo de risco permanente, pois, inconscientes do perigo, e ávidos de explorarem o mundo, eles pura e simplesmente correm para todo o o lado e claro que há o perigo da estrada e dos carros. Nesta situação é preciso de facto muito cuidado, muita atenção, muita firmeza e todos os sentidos alerta. E claro que há sempre a hipótese de eles se escapulirem, fugirem, desobedecerem (porque também estão na idade), mas para isso é que serve a firmeza, e também as palmadas no rabo. Sim, as palmadas no rabo são necessárias! E são muito menos violentas do que prendê-los com uma trela! Ou não?

Lembro-me de uma história que ouvi há uns tempos, de uma mãe que nunca batia no filho, na altura com uns 18 meses a caminho dos 2 anos. Quando ele fazia alguma asneira (tipo partir aquela jarra de cristal que fora tão cara e que ela adorava) ela explicava-lhe calmamente que o que ele tinha feito era muito feio e que o ia pôr de castigo. E o castigo era ficar uma hora sentado no mesmo sítio, sem se poder levantar! E agora pergunto eu: não era melhor dar-lhe uma palmada no rabo? Então não é muito mais violento para uma criança desta idade, no auge do seu instinto de exploração e de experimentação do mundo, que inclui andar pela casa e mexer em tudo e partir também, claro, se as coisas que apanha são quebráveis, não é muito mais violento, dizia, obrigá-la a estar sentada durante uma hora?

É a mesma coisa que as trelas. As crianças precisam de sentir liberdade de movimentos, liberdade de acção, liberdade de expansão no espaço. Prendê-las com uma trela é privá-las de um dos seus direitos fundamentais: o de serem tratadas como pessoas, com dignidade, com respeito pela sua individualidade. As crianças não são macacos amestrados nem cãezinhos. E claro que é preciso mantê-las em segurança, mas elas precisam de aprender por si, e aprender por si implica tomarem consciência do seu corpo, do espaço à sua volta, dos limites do seu corpo nesse espaço, dos perigos existentes, enfim, de uma data de coisas que uma trela não permite desenvolver. Uma trela prende, impõe limites desadequados, porque em vez de a criança construir a noção de limites baseada na experiência, ela constói essa noção baseada na limitação da liberdade de movimentos e de expressão corporal, ou seja, é uma aquisição imposta, martelada e atrofiada. Nem se pode chamar de aquisição.

Isto sempre me chocou e continua a chocar. Andamos para aí a bradar aos céus contra a violência sobre as crianças, pelos direitos das crianças, e tão facilmente nos esquecemos do que é o mundo das crianças! Tantos adultos que há completamente divorciados desta realidade, que ainda por cima amam os seus filhos, e em nome desse amor fazem-lhes tanto mal! Cada vez que vejo um desses meninos presos a uma trela dá-me ganas de transformar-me em super-heoína destemida, chegar ali e com um murro e um pontapé na cara do mau devolver a alegria e a liberdade à criancinha, mandando a trela para o raio que a parta! Mas é claro que isto é só um devaneio.

E isto faz-me pensar noutra coisa, que é a nossa dificuldade em zangarmo-nos. Parece que as pessoas têm medo de se zangarem com os filhos. Passámos em poucos anos de um extremo a outro, em que na geração dos meus pais e avós os miúdos eram educados no medo e no terror (e não no respeito, como muitos que defendem esse tipo de educação pensam) para uma situação em que a zanga foi transformada num bode expiatório, no mauzão da estória que é preciso abater. Vejo tantos pais a zangarem-se com os filhos com frases doces e sorrisos na cara! Mas o que é que se passa? Estão assim tão traumatizados com a zanga ou acham realmente que nunca se devem zangar?

Eu acho que zangarmo-nos faz parte da nossa natureza. Desculpem lá, mas quem nunca se zanga só pode ter sangue de barata! Então não há aquelas situações que nos fazem deitar fumo pelas narinas? E depois há outra coisa: acho que só nos zangamos com aqueles que amamos. Se alguém nos mexe tanto com os fígados ou com os intestinos é com certeza porque está entranhada no nosso coração e no nosso corpo! Dito de outra forma: se nos zangamos com alguém é porque esse alguém não nos é indiferente. A indiferença por alguém não nos desperta emoções suficientes para nos zangarmos!

E quem tem filhos sabe muito bem que eles são peritos em despertarem-nos a adrenalina! Sim, às vezes dão-nos cabo da cabeça e da paciência! E ficamos com a cara a arder de raiva e damos dois berros e a voz sai-nos demasiado alta para o nosso gosto, mas é assim, é algo que não controlamos. Não estamos a fingir, estamos mesmo zangados. Não nos zangamos porque achamos que nos devemos zangar, zangamo-nos e pronto. Explodimos, atiramo-nos ao ar, gritamos e exigimos e reivindicamos, e depois pronto, passa, fazemos as pazes, damos tréguas, pedimos desculpa, pensamos, é pá, se calhar também exagerei, mas o que é que querem, passo-me dos carretos. É humano, ou não? Não acredito em relações sem zangas, sem gritos, sem excessos. E lembro as palavras de alguém, que acho muito certas: "Não há problema nenhum em zangar-se, desde que a zanga aconteça numa certeza de uma relação afectiva". Acho que sim, e mais: só assim podemos zangar-nos verdadeiramente. Aliás, acho que isto toca no ponto: as pessoas que nunca se zangam fazem-no porque não conseguem zangar-se, porque têm medo que esse comportamento as faça perder aqueles que amam. Em suma, não estão certas do amor dos outros por si.

4 comentários:

Mi disse...

Estou tão de acordo contigo que nem imaginas :-)

Beijos (e já te respondi ao mail)

mtc disse...

Daqui de Portugal...vim visitar o seu blog que é um encanto e uma ternura. Parabéns!
Sei como é viver longe da nossa terra...também passei por essa experiência já lá vão muitos anos...
Ah...e fui ver "What does your birth day mean...e também achei piada (9 Setembro). Já o guardei nos meus favoritos.
Beijinho e tudo de bom :)

papu disse...

Mi, que saudades! :)
Vou responder ao email assim que puder!

Dreamer: bem vinda e obrigada pelas palavras. Volta sempre!

um estranho disse...

Subscrevo-te inteiramente.
Sem correr riscos, sem cair e sem magoar, sem liberdade onde fica a auto estima de uma criança?
Um beijo papu!

Já lá tens o candeeiro de conchas ;) e outras surpresas ...