quarta-feira, junho 21, 2006

QUE GERAÇÃO ESTAMOS A CRIAR?

Também me pergunto isso muitas vezes. Com a pressa que temos, com a corrida desenfreada que são hoje as nossas vidas, onde iremos parar? E como vão ser as nossas crianças afectadas por isso?

Por outro lado, nunca a infância foi tão reconhecida como na actualidade. Como é evidente, isto é apenas verdade para o conceito social (que a sociedade veicula) de infãncia. Porque, na prática, no dia a dia, na realidade individual de muitas famílias, a infância continua a não caber nos corpos de quem devia ser a segunda pele.

O hábito de tratar as crianças como adultos em miniatura, que era prática corrente num passado longínquo, ainda continua actual em muitas famílias. Adultos que, também eles, não tiveram infância, sofrem de uma incompatibilidade crónica com os sentimentos próprios do universo infantil. Não são capazes de se pôr no lugar da criança (de calçar os seus sapatos) porque o seu pé (o seu coração, o seu sexto sentido, aquele que permite a empatia) cresceu demasiado e divorciou-se definitivamente das memórias afectivas do seu passado.

Isto é uma faceta da questão. Por outro lado, hoje em dia temos muitas pessoas obcecadas com a produtividade, com o fazer coisas. Detestam o silêncio, a calma, a passividade. Precisam de se sentir activas para sobreviver. É como se o facto de existirem não chegasse. Como se a vida em si não fosse satisfatória. Como se não conseguissem encontrar prazer nas coisas mais simples. São aquelas pessoas que, depois de terem filhos, querem continuar a trabalhar como se nada fosse. Querem manter o ritmo anterior. Não podem parar. Se páram, sentem-se mortas.

E são capazes de se envolver em projectos profissionais ambiciosos com um bebé que acabou de nascer. Se for preciso, montam uma empresa em casa, e tratam de tudo o que for possível pelo telefone, enquanto com o outro braço seguram o bebé enquanto este mama. Embalam-no com o som dos dedos a baterem no teclado do computador, e as histórias que ele ouve são as conversas telefónicas que mantêm com os clientes e fornecedores. Ou então, acham que aqueles meses de licença de parto são a altura ideal para iniciar um mestrado ou um doutoramento... Qualquer coisa que as envolva e que lhe traga benefícios profissionais, e que as faça de novo sentirem-se vivas e a progredir na vida... Ou é o trabalho que agora não pode ser deixado a meio, e que falta que fazem, acham que são insubsituíveis, e prescindem da licença de parto ou de parte dela para não perderem a oportunidade de verem o seu valor reconhecido...

Oiço histórias como esta e fico pasma. E, claro, a minha cabeça fica a magicar. Acho que está qualquer coisa mal no meio disto tudo... O que é que faz uma mulher que acabou de ter um bebé envolver-se até aos cabelos num projecto deste tipo? O que é que faz com que não sinta como imprescindível, essencial, vital, a criação de um espaço de intimidade com o seu bebé, um espaço fora do tempo, um espaço só dela e dele, um espaço onde o silêncio, o olhar, o tempo, o deslumbramento, são pedras basilares?

O tempo dos bebés não é igual ao nosso. Uma mãe que não se apercebe disto está a pôr o seu recém nascido em risco. Está a colocar a relação de ambos em perigo. E a relação entre eles é o embrião da futura relação do bebé com o mundo e com os outros. Uma mãe que não sente esta necessidade de parar o tempo para poder usufruir do prazer de descobrir o seu bebé, está desligada daquilo que é o mais importante da vida.

É claro que a mãe não sente apenas esta necessidade. Uma mãe é uma mulher, uma pessoa completa, e a sua vida não se resume ao bebé. Há um conflito entre as diferentes necessidades. Por um lado queremos ter tempo para o bebé, mas por outro queremos também ter tempo para nós, e depois há outras pessoas, outros mundos, outros universos... Às vezes sentimo-nos inúteis porque passamos o dia entre choros, fraldas, mamas e biberões e não fazemos nada, não lemos, já nem digo um livro, sei lá, uma revista, não conversamos com ninguém, tem dias em que nem o pijama conseguimos despir... para já não falar de fazer a comida, limpar a casa, passar a ferro, lavar a roupa...

Todas as pessoas que já passaram por isto sabem a cantilena de cor. E sabem que também , melhor ou pior, ao fim de algum tempo a gente vai conseguindo organizar-se. Custa um bocado, mas a adaptação surge. Conseguimos montar o nosso esquema caseiro, programar horários, estabelecer rotinas. Quer dizer, até onde o bebé deixa. Porque é ele que tem o poder de mudar completamente este quadro. Se, em lugar de dormir à hora que esperávamos, faz uma birra tremenda, lá fica a trouxa de roupa por passar. Se, de noite, se lembra de acordar e não dormir nas próximas quatro ou cinco horas, lá ficamos nós de rastos no dia seguinte e lá vai a rotina para o galheiro.

Mas onde eu queria chegar era àquelas pessoas que não aceitam isto. Que, depois do seu bebé nascer, têm de continuar a fazer o que faziam antes, ao ponto de não conseguirem aceitar as mudanças necessárias que a maternidade acarreta. Como se, no fundo, não houvesse espaço nem tempo para aquele bebé.

Neste mundo apressado e sem tempo para nada, um bebé acabado de nascer é uma porta aberta para um tempo diferente, um mundo fora deste tempo, e todos os pais têm forçosamente de atravessar essa porta se querem encontrar-se com o seu filho. Entrar no mundo de um bebé é deixar este mundo onde o tempo é contada aos minutos lá fora. Dentro desta redoma o tempo conta-se em pequenos gestos, em sorrisos, em ternura, em calor e em prazer. E quem não aprender a ler o tempo nos olhos do seu filho, em lugar de o procurar nos relógios, nunca saberá o que é ser pai e mãe.

8 comentários:

Maracujá disse...

Ainda não sou mãe, mas estou a viver de perto a maternidade de uma grande amiga.
Reconheço o problema da completa descoordenação com o mundo que a cerca, dos tempos forçosamente diferentes.
E concordo em absoluto com o que escreves. E aproveito para elogiar a maneira como o fazes, que transmite muito sentimento e sabedoria.

Beijinhos lusos

Maracujá disse...

A propósito, recomendo um livro que ando a ler: "Pais Brilhantes, Professores Fascinantes", do brasileiro Augusto Cury.

Vou postar algumas partes no meu blog.

Beijinhos nublados

papu disse...

ó maracujá, qual é o teu blog? é o noites de cinema? é que é o único a que consigo aceder. Fui lá espreitar e como não vi lá nenhum livro...

Maracujá disse...

www.eu-reflicto.blogspot.com

Desculpa a demora, não tenho tido tempo de vir cá.

Beijinhos.

Também adorei a ideia de atirar esponjas à cabeça dos profs, especialmente por apenas 20 p.

:D

Maracujá disse...

enganei-me:
http://eu-reflicto.blogspot.com


:)

Sara

papu disse...

Já lá fui, estava correcto, www ou http:// é a mesma coisa, acho. Digo eu, que não percebo nada destas coisas.

Gostei de ler esse senhor, Augusto Cury, não conhecia

:)

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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