terça-feira, janeiro 30, 2007

VIAGENS


Lembro-me das viagens longas, intermináveis, de comboio. O meu avô nunca queria viajar de camioneta, achava que era muito caro e além disso, como ele próprio dizia, assim podia levantar-se quando estivesse farto de estar sentado, andar um bocado, urinar se tivesse vontade (naquela altura não haviam casas de banho nas camionetas como agora). O meu avô nunca estava parado muito tempo, e quando estava adormecia automaticamente. Era capaz de adormecer em pé. Acho que nenhum membro da família herdou esta sua capacidade (eu às vezes parece que ando a dormir, mas acho que deve ser só impressão).

A viagem começava em Estremoz, numa composição de duas carruagens. Os lugares de segunda eram de madeira rija (o que eu e o meu irmão suspirávamos pelos estofos da primeira! Quase sempre convencíamos os meus avós a sentarmo-nos naqueles bancos vazios, também duros, com a diferença de serem forrados a um tecido sintético qualquer, em vez da madeira nua. Geralmente ninguém se sentava lá, as pessoas amontoavam-se nos bancos de segunda, que nem chegavam para todos. E lá nos sentávamos e lá ficávamos com caras de parvos quando vinha o senhor dos bilhetes e nos dizia que estávamos sentados em bancos de primeira classe e tinhamos bilhetes de segunda. Ainda estou para saber quanto é que lhe pagavam para dizer aquilo).

Depois em Évora (acho que era em Évora) mudávamos para outro comboio, este com umas condições de assento um pouco melhores. Era então que a paisagem se desdobarava, interminável, pela janela, a uma velocidade lenta ao longe e estonteante ao perto, e nós quase que adormecíamos com o embalar do movimento e o barulho monótono e constante... tacatchan... tacatchan... tacatchan... (pouca-terra... pouca-terra... pouca-terra...)

Chegados ao Barreiro, ainda tinhamos de apanhar o barco, este quase sempre a abarrotar de gente pelas costuras. Lembro-me de segurar a mão da minha avó, de pé, no meio de mulheres rodeadas de cestos enormes cheios de hortaliça e cenouras ainda sujas de terra. Caras encharcadas de rugas e com lenços na cabeça. Homens com chapéus pensativos e cigarros adormecidos entre os dentes, que fitavam com um cansaço indolente a espuma branca do rio. Meia hora no meio de tal confusão era um pesadelo salpicado de cheiros para as pernas de uma criança. O cheiro das cordas grossas e húmidas que descansavam as mágoas aos nossos pés, os cheiros dos salpicos da água fria que nos entravam pelas narinas, o cheiro dos gritos das gaivotas ali ao lado e do som do casco do barco a açoitar a água com a paciência de um velho elefante.

Quando transitávamos para o carro do meu pai nem queríamos acreditar. Em casa tinhamos sempre à nossa espera a mesa posta com a comida a fumegar brandinho, e um abraço fresco de saudades da mãe. Voltar a casa sabia a lençóis acabados de lavar à nossa espera, na cama, e aquele cheiro inconfundível quando enterrávamos o nariz na fronha da almofada.

7 comentários:

Mila disse...

Fez-me lembrar os meus tempos de estudante, onde tinha de fazer o percurso inverso e terminava em Évora.Tempos de estudante......
Sei muito bem como eram dolorosos esses assentos,idênticos aos bancos de jardim,mas numa ruidosa e turbulenta "automotora".

edelweiss disse...

Como os comboios evoluiram em tão pouco tempo!

paula canhão disse...

:) eu sonhava com eles...os comboios. a primeira vez que andei já tinha uns vinte anitos e foi uma emoção!
"Voltar a casa sabia a lençóis acabados de lavar à nossa espera" - tão bonito, Papu!

Alex disse...

As memórias trazem os cheiros dos melhores momentos da nossa vida ...

consigo imaginar-te, estás com um sorriso de orelha a orelha, estás feliz por teres os papás contigo, a sopinha na panela ... que me deixou água na boca ... e eu fico feliz contigo.

Posso?

kate disse...

São uma delícia estas tuas idas ao passado :)))

Pim disse...

Já eu recordo as magníficas viagens (duas vezes por ano, pelo menos) na linha do Douro: uma hora nas verdejantes paisagens do Minho, três/quatro horas juntinho ao rio, com as encostas vinhateiras, primeiro de um lado, depois da Régua do outro. Ainda sou do tempo em que até as galinhas viajavam ao nosso lado... Outros tempos.
Inesquecíveis, imperdível.
P.S.: desde que tenho carro que ando a tentar repetir a experiência mas não tenho conseguido. Com enorme saudade!

Bjinhos para a family in London.

P.S. 2: caso não tenhas lido lá no cantinho, a neve limtou-se as uns floquitos que se desfaziam mal chegavam ao solo. Mas lá que nevou, nevou ;))

Pedro disse...

Olá Papu!

Pois sabes que eu só tenho memória de ir uma ou duas vezes de comboio com os avós?
Mas posso dizer onde se mudava de carruagens: na Casa Branca (entre Beja e Évora).

O que eu tenho andado de comboio desde que comecei a ganhar a vidinha... pfuuuuu!!!
Lisboa<->Covilhã
Lisboa<->Faro
e agora
Lisboa<->Beja
Pouca-terra, pouca-terra, MUITA-TERRA, MUITA-TERRA
E agora o comboio já passa na ponte e não é preciso apanhar os barcos do Barreiro.
Apesar de já haver Inter-Cidades, até há bem pouco tempo circularam essas pasteleiras que recordas.
Apanhei tanto frio nelas a caminho de Beja bem cedinho. Cheguei a ir para uma carruagem que estava vazia fazer ginástica para aquecer. O condutor andava embrulhado num cobertor bem grosso...
Sentia algo como os anos 50 transportados para pleno século XXI.

Beijinhos,
Pedro