segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Ferida

Como é que se arranca a raiva do peito? Como é que se cospe uma dor de séculos, uma dor que nos apodreceu por dentro, que fermentou, que cheira mal? Como é que se deixa sair essa torrente de lava sem destruir tudo à nossa volta? Sem despencar os céus, sem arder as matas, sem erguer tornados e tsunamis? Como é que se destila o ódio, como é que se mutila, com que pinça se pega e se separa o que resta, o que não se consumiu, o que não morreu? Como é que se derruba esse muro, com que braços, com que pernas, com que grito, com que voz? Como é que se dilui esse veneno, como é que se larga esse veneno das veias, como é que se estanca o sangue, como é que se incendeia o mar, o mar de lágrimas por chorar? Como é que se chora esse mar sem inundar a terra inteira? Como é que se sobrevive a um naufrágio, sem um porto, sem um cais? Como é que se deixa a vida assim parada gelada cristalizada amarrotada machucada aleijada mutilada acabada e nem se olha para trás? Como é que de deixa assim alguém um gesto uma miragem uma cadeira sozinha uma sala fechada de onde não se pode sair? Como é que se vai ao fundo desse poço? Como é que se sobe por essa garganta funda garganta seca garganta aberta garganta ferida garganta viva? Como é que se esquece esse corpo sem pernas nem braços como é que não se vê esse crânio esmigalhado no alcatrão com os miolos a lamber a estrada e a roda do autocarro e as pessoas a passar a olhar a desviar a vomitar pelos olhos e o sol a brilhar lá em cima sem dor nem calor como é que se passa assim indiferente como é que se mente tanto como é que enganos e desencontros nos levam para lugar nenhum nos deixam caídos na estrada nos estupram o ventre nos comem a memória de um trago e depois se peidam e arrotam e vomitam as tripas? Como?

4 comentários:

Lelena Lucas disse...

É, cada um tem um tempo pra conseguir se desgarrar desses tormentos. Mas nesse tempo é preciso estar atenta aos atalhos - e eles estão por toda parte.
Beijos, amiga.

Helena disse...

Tenho minhas dúvidas se todas as feridas saram mesmo.
Existem aquelas que ficam para sempre, algumas que nem o tempo consegue apagar.

papu disse...

se por cada dor plantarmos uma flor, teremos um jardim colorido :)

beijos

Ana ® disse...

Quando souber, me conta?
Por favor...!!