terça-feira, maio 24, 2011

Eles deixam-nos

Às vezes lembro-me. De quando tinha de lhe contar uma estória todas as noites, para o adormecer, ao mais velho. Era sempre a mesma, o capuchinho vermelho. Já tinha até uma versão reduzida, que era para despachar aquilo, e tantas vezes a repeti que já a sabia de cor. Está claro que entretando esqueci. Lembro-me de que, a certa altura, desatávamos a rir, e era sempre igual, todas as noites. Era naquela altura em que a capuchinho encontra o lobo deitado na cama, vestido com as roupas da avó. Nessa altura eu fazia voz de falsete e dizia, ó vó, mas tu hoje estás muito esquisita... E ele ria-se, ria-se, ria-se. Ríamos os dois. E também as risadas eram iguais todas as noites, mas por isso não nos roubavam a vontade de rir.

Ao mais novo também contei muitas estórias, mas não me lembro de nenhuma assim, que tivesse de repetir à exaustão todas as noites. Lembro-me também de ter de andar sempre atrás deles a acender as luzes porque ainda não chegavam aos interruptores. E de ter de lhes limpar o rabo. Escada acima, escada abaixo, isto já foi cá, portanto era com o mais novo. Com o mais velho foi a mesma coisa, mas não tinha de subir escadas.

Dormir com eles na mesma cama, sentir-lhes os pés ou os joelhos cravados nas costas, ui, tantas vezes. Ouvir-lhes o choro e invejar-lhes o modo como gritam o seu desgosto sem pudor. Calçar-lhes os sapatos, tantas vezes, os mesmos gestos, e agora calçar-lhe (eu) as sandálias, do mais velho. O pé dele maior que o meu. As sandálias do ano passado servem-me na perfeição.

É daquelas poucas ocasiões em que digo, se voltasse atrás, faria tudo igual. Ou ainda assim, não. Se pudesse voltar atrás voltaria a viver tudo com muito mais paciência, com muito menos pressa, sabendo de antemão que tudo passa a correr. O que é que são seis meses, um, dois, três anos? Os primeiros anos dos nossos filhos são tempos de ouro que nunca mais se voltarão a repetir. O segredo está em gozá-los no momento, para que a recordação seja doce e a nostalgia qb. Tenho pena quando vejo aquelas mães cheias de pressa, pressa de que eles cresçam, que lhes larguem a mama e as saias, que deixem as fraldas, que as deixem respirar, que as deixem. Eles deixam-nos, e muito mais depressa do que gostaríamos.

3 comentários:

joão quitério disse...

Eles deixam-nos e isso provoca-nos dor e saudade...
Mas frequentemente voltam e com eles trazem novas alegrias através dos seus filhos, e assim o ciclo da vida segue o seu rumo.
O importante é termo-lhes ensinado a ser ainda melhor do que nós.
Eu vou mas também volto. Parabéns pelo artigo e pela sensibilidade.
cumprimentos do joão quitério

Anónimo disse...

Obrigada :)

é mesmo assim

papu

Alex disse...

És linda.
Crescem mesmo, num ápice, rapidamente, e olha, os sapatos dela também já me servem na perfeição, os do ano passado ...


Um beijo grande