quarta-feira, agosto 10, 2011

Uma palavra séria

Eu não consigo compreender a resistência de muitas pessoas a que se fale e procure compreender o que poderá estar na origem de comportamentos colectivos de violência, como os que assistimos durante os últimos dias em algumas cidades do Reino Unido. Para mim é muito claro que tentar entender e clarificar as origens de um problema não é o mesmo que justificá-lo ou torná-lo mais aceitável ou menos grave. Mas o que é certo é que algumas pessoas reagem como se lhes espetassem uma agulha quando se procura falar deste assunto. Elas pura e simplesmente não querem saber para nada das causas de tais comportamentos, querem apenas punir quem os comete e pará-los.
Punir é necessário e mais ou menos fácil. Evitar é que já é mais difícil, principalmente se teimarmos em ignorar as causas. É mais que redundante que conhecendo, ou procurando conhecer, as causas de um fenómeno, estamos mais perto do seu controlo, ainda que não absoluto, o que pode fazer com que a sua incidência diminua.
Às vezes as pessoas são um bocado tapadas nestas questões, e isso deve-se apenas ao facto de tais questões lhes provocarem respostas emocionais muito primitivas. Por isso vou usar um exemplo, que não deixando de provocar respostas emocionais, desta vez as direcciona para a via oposta. Imaginemos o tecido social como um corpo doente. Um corpo afectado pelo cancro. Ora o cancro, como sabemos, é uma doença que muitas das vezes tem consequências fatais. Quando já está num estado muito avançado, de nada serve procurar conhecer as suas causas, uma vez que a pessoa vai morrer de qualquer modo. Muitas das vezes, essas causas podem até causar sentimentos de culpa e de ressentimento na vítima, como acontece por exemplo com um fumador compulsivo com cancro do pulmão em estado terminal. Tal pessoa pode sentir-se bastante mal pelo facto de ter contribuído para o seu estado, e o facto de alguém lho lembrar é passível de aumentar esse mal-estar. Mas onde estaríamos nós se, enquanto sociedade (e estou a pensar também na comunidade médica e científica) nos tivéssemos ficado pelo respeito e tolerância a estes sentimentos perfeitamente aceitáveis de remorso das vítimas, e por pudor não nos tivéssemos lançados na investigação científica necessária para a compreensão das causas de tal doença? Os benefícios do conhecimento dessas causas são óbvios: a sua prevenção. Sem ela não teríamos avançado para um cada vez maior alerta social em relação à doença, e nem para a sua cura.
Conhecer o que pode estar na origem de um fenómeno social tem o mesmíssimo objectivo e não pretende de maneira nenhuma justificar ou tornar desculpáveis os actos em si. O que se pretende é apenas isso: evitá-los no futuro. Se nos lançarmos na investigação séria do que poderá ter motivado miúdos de idades compreendidas entre 10 e 20 anos a destruir a própria comunidade (a sua casa!) sem um pingo de remorso ou consciência, poderemos estar a abrir uma porta para o futuro. Pensemos na geração de crianças de 5 anos, que daqui a 10 anos terão 15. Pensemos nos recém nascidos de agora, que em 15 anos serão adolescentes. Quantos dramas destes poderemos começar a tentar evitar?
Além de que, ainda em relação a estes miúdos envolvidos nestes distúrbios, a verdade é que a maioria são crianças e estão ainda numa fase de desenvolvimento da sua personalidade, o que, qualquer técnico de saúde mental está careca de saber, implica que muitos deles podem ser recuperados. Não são de maneira nenhuma, ou poderiam não ser, casos perdidos. Têm de ser punidos e responsabilizados pelos seus actos, como é evidente, mas haveria muito trabalho a fazer, no sentido de mudança de comportamento, de acompanhamento, de reabilitação, tanto social como psicológica. E isto não pode ser ignorado.

1 comentário:

Alice Russo Alves disse...

Olha nem sei o que dizer, apenas que concordo com tudo o que disseste. Também há que referir que muitas dessas crianças que têm feito esse pandemónio todo terão uma familia. Que é feito dessa familia, não será organizada, terá certos problemas... Mas problemas todos nós temos e não andamos a matar pessoas e a incendiar carros e lojas. A educação de hoje em dia é que está errada, os principior de cada um estão distorcidos.


Pelo menos é a minha maneira de pensar.

Beijinhos grandes para todos