quinta-feira, outubro 17, 2013

Coisas de família



Preguiça? Talvez não seja preguiça. Talvez seja pudor. Tenho pudor de entrar para dentro da cabeça deste homem. E quem diz cabeça, diz qualquer outra parte do corpo. E porquê? Ora porquê, porque é ele o personagem principal da história (da estória e da história, até se devia inventar uma palavra para englobar as duas - hestória?), afinal é em torno dele que a terra gira, ou melhor, que a história gira, e sim, apesar de também ser uma invenção, na hora de inventar é à realidade que vamos colher, ou beber, ou o raio que o parta; a verdade é que estou mesmo à rasca, caramba, cresci a ouvir histórias sobre ele à minha avó e outras pessoas, com o retrato dele ao lado do telefone preto e pesadíssimo, na estante, quando ainda nem sabia quem era aquele rosto e que um dia iria escrever sobre ele, e depois há aquela espécie de aura à sua volta (será que isto já sou eu?), assim quase como se se tratasse de um santo, solteiro e sem filhos, ainda por cima. Um patriarca da família e da terra que o viu nascer, um benfeitor, uma espécie de mecenas; um empreendedor, republicano; um grande homem, em suma; e como é que se escreve sobre um grande homem? Não, esperem lá, não é esta a pergunta, porque escrever até se escreve; não há nada mais fácil do que escrever apenas - mas como é que se salta para dentro da cabeça de um homem assim? E quem diz cabeça diz qualquer parte do corpo.
Ora eu, que de santa não tenho nada, e muito menos de benfeitora, ou coisa que o valha, está-me cá a parecer que, se era mesmo da família, havia de ser uma criatura simples, como toda a gente que nos conhece sabe que somos. Uma criatura simplesmente humana. E que o melhor é deixar-me de merdas.

(repost)

2 comentários:

Sonia Queimado disse...

E o que dizer mais, afinal conseguiste contar a "hestória" muito bem :)

Luísa C. disse...

Bolas! Desde o verão que ando para te ligar! Eu sabia que um dia isto ia contecer! Sou e sempre fui fã da tua escrita!Tu sabes :0) Não consigo descrever a felicidade que sinto por, finalmente, o teu trabalho estar cá fora com todo o mérito e reconhecimento que merece(s)! Um abraço do tamanho da distância que nos separa!